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março 04, 2012

58. Israel e o governo americano

Vou tomar a liberdade de pressupor que todos estão mais ou menos informados sobre as atuais controvérsias relativas ao Irã - os controversos verdadeiros objetivos de sua pesquisa nuclear e a possibilidade de um ataque israelense -, e passar para um tema diferente, mas relacionado. A leitura de hoje é um texto proveitoso de Gustavo Chacra a respeito de uma outra complicação do Oriente Médio, que claramente acaba por influenciar a atual contenda iraniana: a tendência dos políticos americanos de tratar Israel de forma excepcional, sempre pisando em ovos, nunca criticando seriamente nenhuma atitude de seu governo. A explicação mais comum para esse tratamento - Israel é a única democracia na região, palestinos à parte - faria sentido se os americanos tratassem todos seus aliados democráticos assim, o que Chacra lembra que não é o caso.

O fato de um único governo numa região turbulenta ser tratado com todos os mimos e carta branca irrestrita pela maior potência mundial não tem sido necessariamente uma bênção para quem gostaria de ver a paz no Oriente Médio...

Apenas para que não se diga que não coloquei nada de valor agregado neste post, devo dizer que a solução de dois Estados - Israel e Palestina - não é tão óbvia quanto Chacra faz parecer. Manter a situação atual, de uma ocupação semicolonial israelense nos territórios palestinos, não é desejável, certo. Os israelenses dificilmente se interessarão hoje por uma solução de um Estado único em que os palestinos sejam a maioria, também é certo.
Por outro lado, alguém realmente acredita na viabilidade de um Estado palestino dividido territorialmente entre Gaza e a Cisjordânia? Mesmo se supormos que Israel não imporia condições (razoáveis, de certo ponto de vista) que limitariam a soberania palestina - restrições sobre suas forças armadas, por exemplo?
Talvez fosse o momento de considerar uma solução triestatal - Israel com os territórios pré-1967, a faixa de Gaza para o Egito e a Cisjordânia para a Jordânia. Ideal, não seria, mas dentro das alternativas que garantem paz para todos e alguma dignidade à população palestina, essa merece alguma consideração. Não que possa se concretizar em breve...

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Obama e a dificuldade dos políticos dos EUA em criticar o GOVERNO de Israel


no twitter @gugachacra
Barack Obama fez campanha eleitoral no início de seu discurso na AIPAC (organização pró-Israel) em Washington. Depois, deixou clara qual é a política americana para o Oriente Médio. Basicamente, “não retira nenhuma opção da mesa” para conter um Irã “nuclear”, incluindo “uma alternativa militar”, e defendeu a solução de dois Estados para israelenses e palestinos. Nenhuma novidade nisso. Mas nas entrelinhas vemos que o presidente discorda do governo de Israel.
No primeiro caso, Obama, mesmo sem descartar uma ação contra as instalações nucleares iranianas, não quer que Israel ataque neste momento. O presidente acredita que as inéditas sanções contra o Banco Central de Teerã aliada ao embargo ao petróleo terão o efeito desejado. Benjamin Netanyahu, com quem ele se reúne amanhã, discorda – eu tendo a concordar com o premeiro-ministro, mas creio que as armas atômicas iranianas podem ser contidas através da Teoria da Mutua Destruição Assegurada, e não de operações militares com elevado risco de fracasso.
Já na questão Israel-Palestina, Obama falou o óbvio. Defende dois Estados. Caso contrário, Israel deixará de ser judaico e democrático. Como todos estão cansados de saber, não dá para ter uma democracia, com maioria judaica e em todo o território, pois seria necessário conceder cidadania a milhões de palestinos ou instituir o Apartheid, onde milhões de pessoas teriam menos direitos do que os outros. Netanyahu até concorda com Obama, mas claramente quer o máximo possível de terras que a maior parte da comunidade internacional considera palestinas – para os israelenses, estão em disputa.
O que chamou a atenção, como todos os anos, é a necessidade de um presidente dos EUA precisar tratar Israel como algo diferente de seus outros grandes aliados, como a Inglaterra, o Canadá e o México. Eu assusto ao ver líderes políticos como o vice-presidente Joe Biden dizendo “amar Israel” e outros como Obama literalmente puxando o saco e dizendo de “supostas” ligações afetivas com o país. Isso não acontece quando eles falam dos ingleses, dos mexicanos e dos canadenses. Por que?
Quando era professor da Universidade de Chicago, Obama era próximo do meu professor em Columbia, Rashid Khalidi, um dos maiores críticos do governo – e note a palavra governo – na academia americana. O atual presidente também discordava e muito do governo de Israel. Virou político e mudou o discurso. Obviamente, se reeleito, Israel precisa se preparar. Depois, em outro post, me aprofundo de os palestinos estarem esperando para levar adiante a questão do reconhecimento do Estado na ONU.
E,  voltando para a AIPAC, acho importante eles defenderem Israel nos EUA. Lobby é uma atividade legal e a Arábia Saudita, um país árabe e muçulmano, domina melhor do que ninguém. Ao mesmo tempo, acho que eles confundem Israel com governo israelense. Outras organizações judaicas americanas, com predomínio mais jovem, sabem da diferença e têm contribuído muito para o debate. Pena que Obama tenha medo de discursar nestas entidades, como a J-Street.
No Brasil, vemos pessoas que amam o país criticando sem problemas ações da administrações de Lula e Dilma sem serem chamadas de “anti-Brasil”. O governo americano é ultra criticado por seus adversários. Mas não dá para chamar os republicanos de “anti-EUA”. Por que não poder criticar Netanyahu sem ser “anti-Israel”?
Obs. O pré-candidato republicano Ron Paul, com sua visão libertária, não vê problemas em discordar do governo israelense. Ao mesmo tempo, tampouco acho que os EUA devam se intrometer nas decisões de Netanyahu. Para ele, Israel é um país como qualquer outro.

maio 15, 2011

26. Israel, Israel...

Para que serve a história, afinal de contas? Este blog iniciou com uma tentativa de responder a essa pergunta. O que acontece hoje nas fronteiras israelenses é um triste exemplo de "pessoas legitimando seus comportamentos e suas identidades apelando ao passado", como tudo o mais que acontece por ali. As guerras desde 1948, os séculos de ocupação palestina da região, a ocupação judaica anterior aos palestinos, tudo são acontecimentos lembrados e mobilizados pelos dois lados para justificar posturas atuais. Reportagem do Globo:

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Violência em fronteiras de Israel deixa palestinos mortos


BEIRUTE - A violência irrompeu nas fronteiras de Israel com a Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia, deixando ao menos 13 pessoas mortas e dezenas feridos neste domingo, dia em que os palestinos relembram o que chamam de "Nakba" , ou "catástrofe" da fundação de Israel, em 1948. Tropas israelenses mataram manifestantes em três diferentes localidades para prevenir que atravessassem as fronteiras israelenses.
Ao menos dez palestinos foram mortos na fronteira libanesa depois que forças israelenses atiraram contra manifestantes que jogavam pedras neles. As fontes dizem que mais de 100 ficaram feridos na cidade de Maroun al-Ras, no Líbano.


A imprensa da Síria afirmou que duas pessoas foram mortas após dezenas de refugiados palestinos terem se infiltrado nas Colinas de Golan da Síria, sob o controle de Israel.
- O que estamos vendo aqui é uma provocação iraniana, nas fronteiras da Síria e do Líbano, para tentar explorar as comemorações do dia da Nakba - disse o porta-voz do Exército, Yoav Mordechai.
A Síria abriga cerca de 470 mil palestinos refugiados e seu governo, que enfrenta revoltas internas, impediu nos anos anteriores que os manifestantes chegassem perto da fronteira.
- Isso parece ser um ato cínico das lideranças sírias para criar deliberadamente uma crise na fronteira a fim de distrair a atenção dos problemas reais que o regime está enfrentando dentro de casa - disse uma autoridade israelense.

Na Faixa de Gaza, disparos das forças israelenses feriram mais de 82 palestinos quando manifestantes se aproximaram do muro que divide a região. Em um evento em separado, forças israelenses mataram um homem, que segundo relatos, estava tentando colocar uma bomba na região próxima à fronteira.
Em Tel Aviv, um caminhão dirigido por um árabe-israelense bateu em veículos e pedestres, matando um homem e ferindo 17 pessoas. A polícia ainda tenta determinar se foi um incidente ou um ataque.

ONU pede calma na fronteira entre Líbano e Israel
Forças de paz das Nações Unidas no sul do Líbano pediram que as partes envolvidas no confronto deste domingo na fronteira Líbano-Israel imponham restrição máxima para evitar novas mortes.
Uma porta-voz das forças de paz da ONU no local estava em contato com o exército do Líbano e com os militares de Israel.