O fato de um único governo numa região turbulenta ser tratado com todos os mimos e carta branca irrestrita pela maior potência mundial não tem sido necessariamente uma bênção para quem gostaria de ver a paz no Oriente Médio...
Apenas para que não se diga que não coloquei nada de valor agregado neste post, devo dizer que a solução de dois Estados - Israel e Palestina - não é tão óbvia quanto Chacra faz parecer. Manter a situação atual, de uma ocupação semicolonial israelense nos territórios palestinos, não é desejável, certo. Os israelenses dificilmente se interessarão hoje por uma solução de um Estado único em que os palestinos sejam a maioria, também é certo.
Por outro lado, alguém realmente acredita na viabilidade de um Estado palestino dividido territorialmente entre Gaza e a Cisjordânia? Mesmo se supormos que Israel não imporia condições (razoáveis, de certo ponto de vista) que limitariam a soberania palestina - restrições sobre suas forças armadas, por exemplo?
Talvez fosse o momento de considerar uma solução triestatal - Israel com os territórios pré-1967, a faixa de Gaza para o Egito e a Cisjordânia para a Jordânia. Ideal, não seria, mas dentro das alternativas que garantem paz para todos e alguma dignidade à população palestina, essa merece alguma consideração. Não que possa se concretizar em breve...
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Obama e a dificuldade dos políticos dos EUA em criticar o GOVERNO de Israel
no twitter @gugachacra
Barack Obama fez campanha eleitoral no início de seu discurso na AIPAC (organização pró-Israel) em Washington. Depois, deixou clara qual é a política americana para o Oriente Médio. Basicamente, “não retira nenhuma opção da mesa” para conter um Irã “nuclear”, incluindo “uma alternativa militar”, e defendeu a solução de dois Estados para israelenses e palestinos. Nenhuma novidade nisso. Mas nas entrelinhas vemos que o presidente discorda do governo de Israel.
No primeiro caso, Obama, mesmo sem descartar uma ação contra as instalações nucleares iranianas, não quer que Israel ataque neste momento. O presidente acredita que as inéditas sanções contra o Banco Central de Teerã aliada ao embargo ao petróleo terão o efeito desejado. Benjamin Netanyahu, com quem ele se reúne amanhã, discorda – eu tendo a concordar com o premeiro-ministro, mas creio que as armas atômicas iranianas podem ser contidas através da Teoria da Mutua Destruição Assegurada, e não de operações militares com elevado risco de fracasso.
Já na questão Israel-Palestina, Obama falou o óbvio. Defende dois Estados. Caso contrário, Israel deixará de ser judaico e democrático. Como todos estão cansados de saber, não dá para ter uma democracia, com maioria judaica e em todo o território, pois seria necessário conceder cidadania a milhões de palestinos ou instituir o Apartheid, onde milhões de pessoas teriam menos direitos do que os outros. Netanyahu até concorda com Obama, mas claramente quer o máximo possível de terras que a maior parte da comunidade internacional considera palestinas – para os israelenses, estão em disputa.
O que chamou a atenção, como todos os anos, é a necessidade de um presidente dos EUA precisar tratar Israel como algo diferente de seus outros grandes aliados, como a Inglaterra, o Canadá e o México. Eu assusto ao ver líderes políticos como o vice-presidente Joe Biden dizendo “amar Israel” e outros como Obama literalmente puxando o saco e dizendo de “supostas” ligações afetivas com o país. Isso não acontece quando eles falam dos ingleses, dos mexicanos e dos canadenses. Por que?
Quando era professor da Universidade de Chicago, Obama era próximo do meu professor em Columbia, Rashid Khalidi, um dos maiores críticos do governo – e note a palavra governo – na academia americana. O atual presidente também discordava e muito do governo de Israel. Virou político e mudou o discurso. Obviamente, se reeleito, Israel precisa se preparar. Depois, em outro post, me aprofundo de os palestinos estarem esperando para levar adiante a questão do reconhecimento do Estado na ONU.
E, voltando para a AIPAC, acho importante eles defenderem Israel nos EUA. Lobby é uma atividade legal e a Arábia Saudita, um país árabe e muçulmano, domina melhor do que ninguém. Ao mesmo tempo, acho que eles confundem Israel com governo israelense. Outras organizações judaicas americanas, com predomínio mais jovem, sabem da diferença e têm contribuído muito para o debate. Pena que Obama tenha medo de discursar nestas entidades, como a J-Street.
No Brasil, vemos pessoas que amam o país criticando sem problemas ações da administrações de Lula e Dilma sem serem chamadas de “anti-Brasil”. O governo americano é ultra criticado por seus adversários. Mas não dá para chamar os republicanos de “anti-EUA”. Por que não poder criticar Netanyahu sem ser “anti-Israel”?
Obs. O pré-candidato republicano Ron Paul, com sua visão libertária, não vê problemas em discordar do governo israelense. Ao mesmo tempo, tampouco acho que os EUA devam se intrometer nas decisões de Netanyahu. Para ele, Israel é um país como qualquer outro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário