Dois artigos meus foram publicados recentemente e seus links ainda não haviam sido colocados aqui, então aqui estão:
Colocando os Direitos Sociais em Prática: O Tratamento dado às Reclamatórias Individuais de Trabalhadores Grevistas do Frigorífico Z. D. Costi (Passo Fundo/RS, 1988) - texto feito juntamente com o colega Felipe Abal e publicado na revista Passagens da UFF. Resumindo, é uma demonstração da teoria de E. P. Thompson acerca do direito: este não pode ser um simples instrumento de controle dos dominados pela classe dominante (como dizia a interpretação marxista tradicional), porque uma legislação escancaradamente opressora não vai cumprir seu papel de enganar e facilitar a dominação de ninguém. Ao invés disso, o mundo jurídico possui uma certa autonomia e nele podemos ver conflitos sociais, que ali seguem as regras propriamente jurídicas.
O que faz bastante sentido, mesmo para quem, como eu, está longe de aderir a todas as ideias do marxismo.
COMEÇANDO A HISTÓRIA PELO INÍCIO – POSSIBILIDADES E DESAFIOS DA GRANDE HISTÓRIA - publicado na Semina da UPF. Trata de uma corrente de historiadores dos países de língua inglesa, chamada Big History ou Grande História. Seu diferencial é propor o estudo de escalas de tempo muito mais amplas do que as que os historiadores costumam empregar, para inserir a história humana no mundo ao seu redor. É cedo para dizer se a moda pode pegar por aqui, mas pode ser uma possibilidade de ensino bastante interessante, um meio de utilizar a interdisciplinaridade para superar a fragmentação decorrente de pesquisas cada vez mais especializadas.
Onde o ontem vive no hoje. Notas sobre a história, a ciência histórica e a vida acadêmica para leitores curiosos.
Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens
junho 28, 2012
fevereiro 17, 2012
56. Pouca educação e muita saúva...
... os males do Brasil são?
Ao longo do tempo, surgiram muitas respostas à pergunta "por que o Brasil não dá certo?". Mesmo com eventuais avanços e surtos de crescimento econômico, continuamos convivendo com a pobreza, a desigualdade, a injustiça, a corrupção e todas essas maravilhas que vemos ao olhar para fora pela janela.
Então, por que não dá certo? A melhor resposta que encontrei até agora está no livro clássico de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. Sinceramente, se você ainda não conhece o livro, estaria fazendo um favor a si mesmo desligando o computador e saindo atrás de uma cópia.
Está aqui ainda? Então vamos tentar sintetizar. Em poucas palavras, a tese do livro é que, pelas características da colonização - regime patriarcal, colonial, escravista - os brasileiros acabaram com uma série de características que dificultam o surgimento de uma verdadeira democracia:
- ética do aventureiro: um traço de muitos dos colonos que vieram para cá voluntariamente. A busca pelo lucro fácil e rápido, e um consequente desprezo pelo trabalho árduo com ganhos a longo prazo;
- cordialidade: nossa mania de tratarmos com todos que encontramos como se fossem amigos. Dizendo de uma forma mais precisa, a cordialidade é nosso traço de sabermos manter apenas relações pessoais, emotivas, sejam elas boas ou más - a inimizade rancorosa também é cordial. Pode parecer algo positivo, esse "calor humano" do brasileiro, mas tem um lado negativo: temos dificuldade em manter relações impessoais, que são a base da democracia. Votamos no candidato, não no seu programa. Os funcionários públicos tratam melhor seus amigos do que os estranhos. Ainda hoje, persiste o velho "você sabe com quem está falando?" que tanto impede a igualdade. Não conseguimos manter debates de ideias sem que surjam ataques pessoais. E por aí vai;
- patrimonialismo: derivado da cordialidade, é a dificuldade em separar o público do privado. Para quem não concebe a ideia de relações impessoais, do tipo cidadão-cidadão ou cidadão-governo, nada mais natural do que tratar o patrimônio público como uma extensão do seu próprio, para ajudar os parentes, amigos e correligionários. Para estes, tudo. Aos demais, sim, a frieza da lei;
- desprezo pela educação: esse é um tema importante de Raízes, mas poucas vezes destacado. Segundo SBH, valorizamos a aparência de saber, aquele verniz de cultura bacharelesco das citações prontas e frases de efeito, mas não damos importância para o conhecimento propriamente dito, uma vez que este é adquirido à custa de muito tempo e esforço (ética do aventureiro...). Ter o diploma e aparentar saber alguma coisa já basta.
Esta, claro, é a versão para crianças. O livro trata mais detalhadamente cada um desses argumentos, e com um toque de otimismo talvez injustificado: afinal, SBH escreveu nos anos 30, e duvido que o leitor não tenha visto aí muito da realidade de 2012. Para ele, a modernização pela qual o Brasil passava desde o fim da escravidão traria consigo o fim desses traços antidemocráticos.
Enfim, tudo isso é apenas uma reflexão que surgiu ao ler esta triste notícia no Estadão. Desprezo pela educação, realmente:
---------------------------------------------------------------------------------------------
Ao longo do tempo, surgiram muitas respostas à pergunta "por que o Brasil não dá certo?". Mesmo com eventuais avanços e surtos de crescimento econômico, continuamos convivendo com a pobreza, a desigualdade, a injustiça, a corrupção e todas essas maravilhas que vemos ao olhar para fora pela janela.
Então, por que não dá certo? A melhor resposta que encontrei até agora está no livro clássico de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. Sinceramente, se você ainda não conhece o livro, estaria fazendo um favor a si mesmo desligando o computador e saindo atrás de uma cópia.
Está aqui ainda? Então vamos tentar sintetizar. Em poucas palavras, a tese do livro é que, pelas características da colonização - regime patriarcal, colonial, escravista - os brasileiros acabaram com uma série de características que dificultam o surgimento de uma verdadeira democracia:
- ética do aventureiro: um traço de muitos dos colonos que vieram para cá voluntariamente. A busca pelo lucro fácil e rápido, e um consequente desprezo pelo trabalho árduo com ganhos a longo prazo;
- cordialidade: nossa mania de tratarmos com todos que encontramos como se fossem amigos. Dizendo de uma forma mais precisa, a cordialidade é nosso traço de sabermos manter apenas relações pessoais, emotivas, sejam elas boas ou más - a inimizade rancorosa também é cordial. Pode parecer algo positivo, esse "calor humano" do brasileiro, mas tem um lado negativo: temos dificuldade em manter relações impessoais, que são a base da democracia. Votamos no candidato, não no seu programa. Os funcionários públicos tratam melhor seus amigos do que os estranhos. Ainda hoje, persiste o velho "você sabe com quem está falando?" que tanto impede a igualdade. Não conseguimos manter debates de ideias sem que surjam ataques pessoais. E por aí vai;
- patrimonialismo: derivado da cordialidade, é a dificuldade em separar o público do privado. Para quem não concebe a ideia de relações impessoais, do tipo cidadão-cidadão ou cidadão-governo, nada mais natural do que tratar o patrimônio público como uma extensão do seu próprio, para ajudar os parentes, amigos e correligionários. Para estes, tudo. Aos demais, sim, a frieza da lei;
- desprezo pela educação: esse é um tema importante de Raízes, mas poucas vezes destacado. Segundo SBH, valorizamos a aparência de saber, aquele verniz de cultura bacharelesco das citações prontas e frases de efeito, mas não damos importância para o conhecimento propriamente dito, uma vez que este é adquirido à custa de muito tempo e esforço (ética do aventureiro...). Ter o diploma e aparentar saber alguma coisa já basta.
Esta, claro, é a versão para crianças. O livro trata mais detalhadamente cada um desses argumentos, e com um toque de otimismo talvez injustificado: afinal, SBH escreveu nos anos 30, e duvido que o leitor não tenha visto aí muito da realidade de 2012. Para ele, a modernização pela qual o Brasil passava desde o fim da escravidão traria consigo o fim desses traços antidemocráticos.
Enfim, tudo isso é apenas uma reflexão que surgiu ao ler esta triste notícia no Estadão. Desprezo pela educação, realmente:
---------------------------------------------------------------------------------------------
Em Vila Rica (MT), professor ganha menos que operador de escavadeira
17 de fevereiro de 2012 | 12h51
Hugo Passarelli
Atualizado às 17h21
Um concurso público da Prefeitura de Vila Rica (MT) está gerando polêmica entre usuários do Facebook. No edital da seleção para 169 profissionais em diversas áreas, chama a atenção os salários de operadores de escavadeira hidráulica, máquina de esteiras e monotoniveladora e o de professor: enquanto os primeiros têm uma remuneração de R$ 1.291,98, o segundo tem salário de R$ 1.246,32.
A carga horária é a mesma (40 horas semanais), mas para operador é exigido apenas o Ensino Fundamental Incompleto, enquanto para professor, Ensino Superior. Torneiro mecânico também recebe a remuneração de R$ 1.291,98, mas a qualificação pedida é de Ensino Fundamental Completo. Procurado pelo Mural dos Concursos, o presidente da Comissão de Vila Rica, Hely Fernandes, se limitou a dizer que a definição dos salários respeita o piso nacional estipulado pelos sindicatos das categorias.
Uma reprodução do edital circula pela rede social, seguida da frase “O que dizer? É Brasil”. O post tinha 7 mil compartilhamentos no fim da tarde desta sexta, 17.
No Facebook, o usuário Murillo Guedes Manalischi disse: “Ultrajante, humilhante, ridículo para um profissional formado”. Já Jonas Carvalho protestou: “Essa é a valorização que dão ao professor que ficou 3 ou 4 anos na faculdade”.
No edital, contudo, os professores não são os únicos profissionais com diploma de Ensino Superior com salário abaixo de outros cargos com qualificação inferior. Esse também é o caso de Terapeuta Ocupacional (R$ 916,93 mensais).
O concurso público de Vila Rica tem 169 vagas para todos os níveis de escolaridade divididos entre as áreas de educação, saúde, manutenção e obras, entre outras. As inscrições podem ser feitas até 1º de março, pelo site da Consulplan, organizadora da prova, ou pessoalmente (Av. Perimetral Leste, s/nº, Bairro Bela Vista – Campus da UNEMAT).
Um concurso público da Prefeitura de Vila Rica (MT) está gerando polêmica entre usuários do Facebook. No edital da seleção para 169 profissionais em diversas áreas, chama a atenção os salários de operadores de escavadeira hidráulica, máquina de esteiras e monotoniveladora e o de professor: enquanto os primeiros têm uma remuneração de R$ 1.291,98, o segundo tem salário de R$ 1.246,32.
A carga horária é a mesma (40 horas semanais), mas para operador é exigido apenas o Ensino Fundamental Incompleto, enquanto para professor, Ensino Superior. Torneiro mecânico também recebe a remuneração de R$ 1.291,98, mas a qualificação pedida é de Ensino Fundamental Completo. Procurado pelo Mural dos Concursos, o presidente da Comissão de Vila Rica, Hely Fernandes, se limitou a dizer que a definição dos salários respeita o piso nacional estipulado pelos sindicatos das categorias.
Uma reprodução do edital circula pela rede social, seguida da frase “O que dizer? É Brasil”. O post tinha 7 mil compartilhamentos no fim da tarde desta sexta, 17.
No Facebook, o usuário Murillo Guedes Manalischi disse: “Ultrajante, humilhante, ridículo para um profissional formado”. Já Jonas Carvalho protestou: “Essa é a valorização que dão ao professor que ficou 3 ou 4 anos na faculdade”.
No edital, contudo, os professores não são os únicos profissionais com diploma de Ensino Superior com salário abaixo de outros cargos com qualificação inferior. Esse também é o caso de Terapeuta Ocupacional (R$ 916,93 mensais).
O concurso público de Vila Rica tem 169 vagas para todos os níveis de escolaridade divididos entre as áreas de educação, saúde, manutenção e obras, entre outras. As inscrições podem ser feitas até 1º de março, pelo site da Consulplan, organizadora da prova, ou pessoalmente (Av. Perimetral Leste, s/nº, Bairro Bela Vista – Campus da UNEMAT).
abril 24, 2011
23. História do Oriente Médio e improvisações
Reportagem do Estado de S. Paulo sobre as iniciativas na rede de ensino paulista para que os alunos entendam o que está acontecendo atualmente no Oriente Médio. A intenção é louvável, mas se a história da região fosse decentemente ensinada, para começo de conversa, não seria preciso fazer esse tipo de improvisação a cada vez que a área chama a atenção do mundo (leia-se: muito frequentemente). Nada dessa bobagem de "a região já não cabe apenas nas aulas de história", uma vez que nunca esteve ali. No máximo, algumas pinceladas sobre o surgimento do Islã e sobre as consequências do imperialismo europeu, como se nada interessante tivesse acontecido por ali entre os séculos 7 e 19.
Testemunhei uma versão anterior do mesmo fenômeno em 2001, quando estava terminando o ensino médio, e os professores se desdobravam para tentar explicar o terrorismo, o 11 de setembro, como o Afeganistão se encaixava aí, etc. Digo tentar simplesmente porque, em geral, eles também não tinham ideia - a tendência do nosso sistema educacional de ignorar o mundo a leste da Europa ocidental é sistemática, indo do ensino básico ao vestibular e à universidade, de onde saem os pesquisadores e professores da geração seguinte. Uma máquina de deformação da história em perpétuo movimento...
Por último, qual o motivo para a reportagem repetir o termo "oriente" quando quer claramente dizer "Oriente Médio"? Devo admitir que detesto esse uso indiscriminado da palavra para significar, de forma genérica, "qualquer civilização/cultura que não a nossa", como se chamar árabes, curdos, turcos, iranianos, indianos, chineses, coreanos, afegãos, tailandeses, vietnamitas, etc etc etc, de "orientais" indicasse alguma característica comum entre eles.
________________________________________________________________________
No início do mês, o Tucarena foi palco de um debate sobre revoluções, guerras, religiões, preconceito e democracia. A plateia lotada, que não hesitava em expressar a grande diversidade de opiniões, era formada por alunos do ensino médio. O evento foi idealizado pelos professores de História, Geografia e Filosofia do Colégio São Domingos, em Perdizes, a partir da demanda crescente dos alunos por discussões sobre os países do Oriente.
O professor Flávio Trovão, de História, explica que tudo foi feito para que os alunos compreendessem melhor o que está ocorrendo no mundo. “Além da questão do vestibular e do Enem - não tenho dúvidas de que é uma temática que vai ser abordada nos grandes exames desse ano - queremos que esses garotos vejam que somos um mundo em transformação constante”, afirma.
Também o ensino médio do Colégio Dante Alighieri, do Jardim Paulista, participou de um módulo de palestras especialmente desenvolvido para discutir as questões orientais. “Começamos a fazer isso antes da queda do Mubarack (ditador egípcio). Tivemos debates semanais para atualizar o rumo que as revoluções tinham tomado. O último já abarcava as questões da Líbia”, conta o professor Roberto Diago, coordenador do Departamento de História, Sociologia e Filosofia. “Recebi um e-mail de um pai de aluno nos agradecendo por ele finalmente ter entendido os conflitos. Foi porque seu filho tinha explicado tudo”, conta.
Redes sociais. Na opinião da professora Elisabeth Victoria Popp, das disciplinas de Geografia, Sociologia e Ética do Colégio Paulista (Copi), na Lapa, um dos fatores que mais despertou a atenção dos jovens para os movimentos populares orientais foi a ferramenta usada pelas nações daquela região para propagar a revolução: as redes sociais.
O colégio agendou até uma palestra especial sobre o assunto, em maio, com o jornalista Herbert Moraes, correspondente da Record no Oriente Médio, que acaba de voltar ao Brasil. O tema também entrou na disciplina de Geografia do 9º ano, na qual os alunos aprendem sobre globalização. Já no ensino médio, os conflitos foram estudados em Atualidades e em Ética. “Percebemos que na medida em que os jovens trazem para a escola informações sobre o que está acontecendo na sociedade, a escola consegue se abrir para isso e discutir essas questões com eles”, diz a professora.
Já no Colégio Santo Américo, localizado no Butantã, a revolução do Egito foi tema do primeiro simulado do ano para os alunos do ensino médio. “É uma nova ordem que está se estabelecendo no Oriente e o aluno tem de estar antenado. Provavelmente, o assunto será tema de vários vestibulares”, acredita o professor de Geografia Rui Calaresi.
De acordo com o educador, tem havido uma retomada por parte dos adolescentes no interesse a respeito das questões políticas e econômicas que se destacam na atualidade.
Evento multimídia torna a discussão mais atraente
Os alunos participaram de grande parte da organização do evento promovido pelo Colégio São Domingos no Tucarena: enquanto uma bancada coletava notícias dos jornais e da internet a respeito dos conflitos no Oriente, uma aluna postava no twitter atualizações sobre o evento. Outro estudante fazia desenhos ligados ao tema, que eram projetados no telão ao final de cada bloco de discussão e um colega grafitava em um painel o nome da atividade: ‘Oriente-se’.
Além de compreender melhor as revoluções populares dos países árabes, os estudantes receberam um aula de debate. Ao mesmo tempo em que eram estimulados a expressar suas opiniões, eram orientados a fundamentá-las com argumentos sólidos. "Estamos discutindo se a revolução no Egito e na Líbia vai resultar na formação de uma democracia. Mas no Brasil a gente também não vive em uma democracia", disse um dos alunos. "Mas o que é a democracia para você?", replicou um dos professores. Pouco a pouco, as ideias começaram a surgir mais fundamentadas, com direito a paralelos com outros eventos históricos, como a 2ª Guerra Mundial, citações de entrevistas lidas no jornal e de documentários da TV.
“Espero que eles olhem os conflitos e saibam que existe pessoas lutando e que eles fiquem mais conscientes de que a gente não pode ficar esperando as coisas acontecerem", diz o professor Flávio Trovão, de História.
Ele explica que o evento tem como mérito o grande empenho em pesquisa exigido dos estudantes. “Alguns entrevistaram por e-mail uma repórter da agência Reuters, no Egito”, conta.
De caráter multimídia, o evento contou ainda com a apresentação de vídeos editados pelos próprios estudantes com imagens de arquivo colhidas no Youtube. Houve também algumas apresentações musicais.
FRASES
"Recebi um e-mail de um pai de aluno nos agradecendo por ele finalmente ter entendido os conflitos no Oriente. Foi porque seu filho tinha explicado tudo"ROBERTO DIAGO
COORDENADOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA, SOCIOLOGIA E FILOSOFIA DO COLÉGIO DANTE ALIGHIERI
"É uma nova ordem que está se estabelecendo no Oriente e o aluno tem de estar antenado. Provavelmente, esse assunto será tema de vários vestibulares"
RUI CALARESI
PROFESSOR DE GEOGRAFIA DO COLÉGIO SANTO AMÉRICO
Testemunhei uma versão anterior do mesmo fenômeno em 2001, quando estava terminando o ensino médio, e os professores se desdobravam para tentar explicar o terrorismo, o 11 de setembro, como o Afeganistão se encaixava aí, etc. Digo tentar simplesmente porque, em geral, eles também não tinham ideia - a tendência do nosso sistema educacional de ignorar o mundo a leste da Europa ocidental é sistemática, indo do ensino básico ao vestibular e à universidade, de onde saem os pesquisadores e professores da geração seguinte. Uma máquina de deformação da história em perpétuo movimento...
Por último, qual o motivo para a reportagem repetir o termo "oriente" quando quer claramente dizer "Oriente Médio"? Devo admitir que detesto esse uso indiscriminado da palavra para significar, de forma genérica, "qualquer civilização/cultura que não a nossa", como se chamar árabes, curdos, turcos, iranianos, indianos, chineses, coreanos, afegãos, tailandeses, vietnamitas, etc etc etc, de "orientais" indicasse alguma característica comum entre eles.
________________________________________________________________________
Oriente vira a nova ‘disciplina’ escolar
Conflitos internacionais têm feito a região sair da aula de história e ganhar destaque na grade escolar
A região do Oriente já não cabe apenas nas aulas de história. Com as recentes revoluções populares no local, que começaram no Egito e provocaram uma reação em cadeia em várias nações árabes, ganhando a atenção do mundo todo, os colégios da capital passaram a investir em atividades focadas diretamente sobre esse tema para aproximá-lo dos alunos.
No São Domingos, alunos montaram uma grande gincana para discutir os conflitos no Oriente
O professor Flávio Trovão, de História, explica que tudo foi feito para que os alunos compreendessem melhor o que está ocorrendo no mundo. “Além da questão do vestibular e do Enem - não tenho dúvidas de que é uma temática que vai ser abordada nos grandes exames desse ano - queremos que esses garotos vejam que somos um mundo em transformação constante”, afirma.
Também o ensino médio do Colégio Dante Alighieri, do Jardim Paulista, participou de um módulo de palestras especialmente desenvolvido para discutir as questões orientais. “Começamos a fazer isso antes da queda do Mubarack (ditador egípcio). Tivemos debates semanais para atualizar o rumo que as revoluções tinham tomado. O último já abarcava as questões da Líbia”, conta o professor Roberto Diago, coordenador do Departamento de História, Sociologia e Filosofia. “Recebi um e-mail de um pai de aluno nos agradecendo por ele finalmente ter entendido os conflitos. Foi porque seu filho tinha explicado tudo”, conta.
Redes sociais. Na opinião da professora Elisabeth Victoria Popp, das disciplinas de Geografia, Sociologia e Ética do Colégio Paulista (Copi), na Lapa, um dos fatores que mais despertou a atenção dos jovens para os movimentos populares orientais foi a ferramenta usada pelas nações daquela região para propagar a revolução: as redes sociais.
O colégio agendou até uma palestra especial sobre o assunto, em maio, com o jornalista Herbert Moraes, correspondente da Record no Oriente Médio, que acaba de voltar ao Brasil. O tema também entrou na disciplina de Geografia do 9º ano, na qual os alunos aprendem sobre globalização. Já no ensino médio, os conflitos foram estudados em Atualidades e em Ética. “Percebemos que na medida em que os jovens trazem para a escola informações sobre o que está acontecendo na sociedade, a escola consegue se abrir para isso e discutir essas questões com eles”, diz a professora.
Já no Colégio Santo Américo, localizado no Butantã, a revolução do Egito foi tema do primeiro simulado do ano para os alunos do ensino médio. “É uma nova ordem que está se estabelecendo no Oriente e o aluno tem de estar antenado. Provavelmente, o assunto será tema de vários vestibulares”, acredita o professor de Geografia Rui Calaresi.
De acordo com o educador, tem havido uma retomada por parte dos adolescentes no interesse a respeito das questões políticas e econômicas que se destacam na atualidade.
Evento multimídia torna a discussão mais atraente
Os alunos participaram de grande parte da organização do evento promovido pelo Colégio São Domingos no Tucarena: enquanto uma bancada coletava notícias dos jornais e da internet a respeito dos conflitos no Oriente, uma aluna postava no twitter atualizações sobre o evento. Outro estudante fazia desenhos ligados ao tema, que eram projetados no telão ao final de cada bloco de discussão e um colega grafitava em um painel o nome da atividade: ‘Oriente-se’.
Além de compreender melhor as revoluções populares dos países árabes, os estudantes receberam um aula de debate. Ao mesmo tempo em que eram estimulados a expressar suas opiniões, eram orientados a fundamentá-las com argumentos sólidos. "Estamos discutindo se a revolução no Egito e na Líbia vai resultar na formação de uma democracia. Mas no Brasil a gente também não vive em uma democracia", disse um dos alunos. "Mas o que é a democracia para você?", replicou um dos professores. Pouco a pouco, as ideias começaram a surgir mais fundamentadas, com direito a paralelos com outros eventos históricos, como a 2ª Guerra Mundial, citações de entrevistas lidas no jornal e de documentários da TV.
“Espero que eles olhem os conflitos e saibam que existe pessoas lutando e que eles fiquem mais conscientes de que a gente não pode ficar esperando as coisas acontecerem", diz o professor Flávio Trovão, de História.
Ele explica que o evento tem como mérito o grande empenho em pesquisa exigido dos estudantes. “Alguns entrevistaram por e-mail uma repórter da agência Reuters, no Egito”, conta.
De caráter multimídia, o evento contou ainda com a apresentação de vídeos editados pelos próprios estudantes com imagens de arquivo colhidas no Youtube. Houve também algumas apresentações musicais.
FRASES
"Recebi um e-mail de um pai de aluno nos agradecendo por ele finalmente ter entendido os conflitos no Oriente. Foi porque seu filho tinha explicado tudo"ROBERTO DIAGO
COORDENADOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA, SOCIOLOGIA E FILOSOFIA DO COLÉGIO DANTE ALIGHIERI
"É uma nova ordem que está se estabelecendo no Oriente e o aluno tem de estar antenado. Provavelmente, esse assunto será tema de vários vestibulares"
RUI CALARESI
PROFESSOR DE GEOGRAFIA DO COLÉGIO SANTO AMÉRICO
janeiro 31, 2011
15. O eurocentrismo em nosso ensino - alguns dados
Os poucos - mas valorosos! - leitores habituais destas páginas já devem estar acostumados a encontrar aqui comentários pouco elogiosos sobre o ensino de história no Brasil, e talvez também tenham percebido que minha principal queixa é contra o eurocentrismo que predomina desde o ensino fundamental até a universidade, num ciclo autoperpetuador de ignorância em relação ao resto do mundo.
Hoje, enquanto procurava material sobre outros assuntos (chegou a hora de começar a escrever a dissertação de mestrado), encontrei algo que vem ao encontro do que estou dizendo: a dissertação de Isao Ishibashi, intitulada Um estudo comparativo do conteúdo didático da disciplina de História Geral do ensino médio brasileiro e japonês. O dado que quero mostrar está nas páginas 15 e 16, que mostram o resultado de uma pesquisa preliminar feita por Ishibayashi em 1994 sobre a distribuição dos conteúdos em livros didáticos brasileiros e japoneses:
Área em livros brasileiros em livros japoneses
Europa >90% c. 50%
Ásia c. 2% c. 40%
América Latina c. 1% c. 2%
América do Norte c. 3% c. 3%
África 0,3% c. 2%
Oceania e ilhas do Pacífico 0% c. 0,5%
Pré-história 3,7% c. 2,5%
Os livros japoneses podem não ser perfeitos, mas cabe alguma dúvida de que o conteúdo está melhor distribuído lá do que aqui? Os japoneses estudam até mesmo mais história da América latina do que nós!
O texto de Ishibashi contém outros dados interessantes, incluindo comparações mais recentes (a tese data de 2004), que não reproduzo aqui porque os dados são mais difíceis de comparar - os livros brasileiros analisados por ele são do tipo "integral", com história do Brasil e geral, aumentando muito a porcentagem de história americana. Mesmo com isso, a Europa levou dois terços das páginas, mostrando que pouco ou nada mudou. Para quem quiser, as tabelas estão nas páginas 41 e 89, e nesta última está a prova definitiva de que os deuses têm senso de humor e ironia: os livros japoneses não falam nada sobre o Brasil...
Não é nenhum crime gostar de história europeia, mas não faz o menor sentido manter um sistema de ensino que dá tão pouco espaço ao que aconteceu fora da França e Inglaterra. O ensino não é nem mesmo decentemente eurocêntrico, é oeste-eurocêntrico, já que os autores de nossos livros dificilmente mencionam que existe vida a leste do Reno. Rússia? Ela existia mesmo antes de 1917? Polônia? Hungria? Suécia? Onde fica isso?
Termino com uma passagem de Ishibashi que aponta porque o eurocentrismo é um problema e uma maneira possível de superá-lo em parte - adotando o método japonês de reunir equipes de autores, de diversas áreas, para escrever os livros didáticos:
Hoje, enquanto procurava material sobre outros assuntos (chegou a hora de começar a escrever a dissertação de mestrado), encontrei algo que vem ao encontro do que estou dizendo: a dissertação de Isao Ishibashi, intitulada Um estudo comparativo do conteúdo didático da disciplina de História Geral do ensino médio brasileiro e japonês. O dado que quero mostrar está nas páginas 15 e 16, que mostram o resultado de uma pesquisa preliminar feita por Ishibayashi em 1994 sobre a distribuição dos conteúdos em livros didáticos brasileiros e japoneses:
Área em livros brasileiros em livros japoneses
Europa >90% c. 50%
Ásia c. 2% c. 40%
América Latina c. 1% c. 2%
América do Norte c. 3% c. 3%
África 0,3% c. 2%
Oceania e ilhas do Pacífico 0% c. 0,5%
Pré-história 3,7% c. 2,5%
Os livros japoneses podem não ser perfeitos, mas cabe alguma dúvida de que o conteúdo está melhor distribuído lá do que aqui? Os japoneses estudam até mesmo mais história da América latina do que nós!
O texto de Ishibashi contém outros dados interessantes, incluindo comparações mais recentes (a tese data de 2004), que não reproduzo aqui porque os dados são mais difíceis de comparar - os livros brasileiros analisados por ele são do tipo "integral", com história do Brasil e geral, aumentando muito a porcentagem de história americana. Mesmo com isso, a Europa levou dois terços das páginas, mostrando que pouco ou nada mudou. Para quem quiser, as tabelas estão nas páginas 41 e 89, e nesta última está a prova definitiva de que os deuses têm senso de humor e ironia: os livros japoneses não falam nada sobre o Brasil...
Não é nenhum crime gostar de história europeia, mas não faz o menor sentido manter um sistema de ensino que dá tão pouco espaço ao que aconteceu fora da França e Inglaterra. O ensino não é nem mesmo decentemente eurocêntrico, é oeste-eurocêntrico, já que os autores de nossos livros dificilmente mencionam que existe vida a leste do Reno. Rússia? Ela existia mesmo antes de 1917? Polônia? Hungria? Suécia? Onde fica isso?
Termino com uma passagem de Ishibashi que aponta porque o eurocentrismo é um problema e uma maneira possível de superá-lo em parte - adotando o método japonês de reunir equipes de autores, de diversas áreas, para escrever os livros didáticos:
No Brasil, um ou dois historiadores escrevem os livros que são lançados ao mercado através de
grandes editoras, em geral, de porte e capacidade de distribuição pelo extenso território. No
Japão os livros são escritos por equipes grandes compostas por historiadores especializados
nas diferentes áreas da história, podendo ter cinco, seis, dez ou até cerca de 50 escritores.
Os conteúdos dos livros didáticos adotados no Japão são avaliados e controlados por um
órgão de ensino governamental, mais precisamente, o Ministério de Educação e Ciência,
que visa manter a qualidade, o equilíbrio e a padronização do ensino no país. Portanto não
se trata de crítica, mas de uma simples constatação, e acredito que essa constatação pode
mostrar uma formação básica de conhecimentos históricos no Brasil com abstenções
importantes que levam a uma tendência a ocidentalizar o ensino. Intencional ou não,
acredito que isso pode influenciar a curto e a longo prazo nas relações e negociações com
outros povos, seja no âmbito político, econômico ou social (p. 13).
Assinar:
Postagens (Atom)