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maio 17, 2011

27. Manuscritos perdidos, e porque eles importam

Especialistas em línguas clássicas descobriram dezenas de novos manuscritos de Ovídio, como diz a reportagem abaixo. Dois esclarecimentos prévios para entender melhor a notícia.

Primeiro, quem foi Ovídio: um poeta romano que estava ativo durante o reinado de Augusto, primeiro imperador romano (reinou de 27ac - 14 dc). Suas duas obras mais conhecidas são As metamorfoses, uma série de poemas que tratam de histórias mitológicas em que alguém passava por uma mudança de forma. Menos épico, mas talvez mais fácil de encontrar nas livrarias de hoje, é um pequeno tratado sobre A arte de amar. Pouca semelhança com um Kama Sutra, sendo em sua maior parte apenas um guia de como encontrar e conquistar mulheres na Roma antiga. Seus comentários, às vezes, soam bastante familiares, como ao dizer que os parques públicos estão cheios de mulheres que passeiam arrumadas mais para serem vistas do que para ver. Outras passagens fazem os antigos romanos parecerem quase alienígenas, como sua sugestão de escrever mensagens secretas nas costas de escravas, ou o conselho pitoresco de como esquecer uma mulher pela qual se apaixonou: o remédio é esconder-se para vê-la fazendo suas... necessidades fisiológicas. Talvez tenha funcionado para o próprio Ovídio...

Segundo, que diferença fazem os novos manuscritos: como praticamente para todos os textos escritos antes do surgimento da imprensa, não temos os originais de Ovídio. O que temos são cópias, cópias de cópias, cópias de cópias de cópias, nas quais os erros vão se acumulando. Ao copiar textos longos, nada menos surpreendente do que cometer falhas - talvez o copista não tenha entendido uma palavra aqui e colocado outra mais familiar, talvez seu antecessor tivesse uma letra difícil e ele entendeu mal alguma passagem, talvez ele estivesse cansado de forçar a visão à luz de velas e deixou de se concentrar. Ou talvez ele tenha acrescentado seus próprios comentários no corpo do texto, ou feito censuras ao que desaprovava. De uma forma ou de outra, praticamente todos os textos antigos que ainda temos estão cheios de pequenas e grandes variações. Para isso servem os manuscritos extras: com a comparação, pode ser possível chegar mais perto daquilo que o autor quis dizer originalmente.

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Localizan 71 nuevos manuscritos de Ovidio repartidos por el mundo

Varios expertos en lenguas clásicas han logrado recuperar casi todos los manuscritos y ediciones críticas que existen de Ovidio, especialmente de las Metamorfosis, y que se conservan en bibliotecas de todo el mundo. A los ya conocidos, se han podido añadir más de 71 nuevos códices o fragmentos "cuya existencia no se conocía”, entre los que se puede mencionar el Dertusensis 134, “el más antiguo manuscrito de los españoles que data de finales del siglo XII".

La recopilación de los textos de Ovidio (43 a. C. - 17 a. C.) ha sido el resultado de la investigación del grupo Nicolaus Heinsius de la Universidad de Huelva (UHU). Los miembros del equipo emprenden ahora el comentario crítico textual de Las Metamorfosis del escritor latino en el seno del proyecto de excelencia Edición crítica de las Metamorfosis y Opera minora de Ovidio, financiado por la Consejería de Economía, Innovación y Ciencia con casi 158.000 euros, cuyos trabajos estarán culminados para 2013.

"Se trata de un objetivo ambicioso por la pretensión de incluir en ella los comentarios, incidencias y variantes de Las Metamorfosis desde sus orígenes hasta la actualidad", argumenta Luis Rivero, investigador en la UHU. El objetivo último, por tanto, es dar a la luz la edición crítica de Las Metamorfosis más completa e informada de cuantas se han realizado hasta el momento.

El poema ovidiano, que reúne en 15 libros una colección de relatos sobre mitología clásica, se ha convertido en una de las creaciones más populares de la literatura romana. Muy conocida por los escritores medievales y humanistas, sigue teniendo influencia en la literatura contemporánea, según se desprende de los diferentes estudios sobre Publio Ovidio Nasón. Una de las ediciones más antiguas fue la realizada en 1471 en Roma por John Andreas.

Una herramienta on line para estudiosos del poeta
"Sin embargo, a día de hoy apenas se ha leído un centenar de manuscritos", indica el investigador. "En el reciente comentario de la profesora S. Myers, al libro XIV de Las Metamorfosis, en el año 2009, se domina a la perfección toda la bibliografía de los últimos 50 años pero no se ha leído ni un solo manuscrito y ni uno solo de los comentarios anteriores a 1950", indica Antonio Ramírez de Verger, otro de los investigadores del grupo Nicolaus Heinsius.

Para el estudio pormenorizado de los 15 libros que constituyen la obra Las Metamorfosis "se ha organizado el trabajo de manera que cada investigador se encargará de estudiar uno de ellos, con sus respectivas ediciones a lo largo de los siglos", explica el Ramírez de Verger. Es un examen riguroso de un total de 12.000 versos en más de 500 versiones que se corresponden con cada uno de los manuscritos y ediciones críticas confeccionados desde la Antigüedad hasta la edad contemporánea.

Asimismo, los investigadores Ramírez de Verger y Rivero prevén editar también los Opera minora de Ovidio, es decir, las obras menores del poeta latino o a él atribuidas: Ibis, Consolatio ad Liuiam, Nux, Halieutica; para lo cual ya han firmado un contrato con la editorial W. de Gruyter (Berlín-Nueva York), de forma que el libro se publicará en la Bibliotheca Teubneriana, colección de referencia mundial en textos clásicos. A este volumen se añadirá otro, a cargo del profesor Estévez Sola, con los Scholia in Ibim, también en la Bibliotheca Teubneriana.

Este equipo de investigadores de la Onubense comparte tarea con expertos de las Universidades Pablo de Olavide, Sevilla, Granada, Málaga, Extremadura y las Universidades Johns Hopkins (Baltimore, Estados Unidos) y Burdeos (Francia).

Las copias de los manuscritos se encuentran ya digitalizadas en CD,s y volcadas en memorias externas disponibles en cada uno de los centros de trabajo. Asimismo, cualquier investigador en el mundo puede acceder a muy valiosa información sobre la transmisión del texto de Ovidio a través de la página web del proyecto. Los científicos no solo pretenden divulgar sus trabajos a través de ella sino convertir la plataforma en una herramienta de trabajo para investigadores e interesados en la obra del poeta latino de todo el mundo.
Estos nuevos códices, junto con los 467 ya conocidos, amplían el catálogo hasta los 538. "Ahora somos una referencia para los investigadores de todo el mundo en el texto de Ovidio", asegura el Catedrático de Filología Latina de la UHU.

janeiro 03, 2011

10. Lovecraft e a crise do antropocentrismo

Falar de períodos de crise é fácil; definir o que exatamente conta como uma crise é mais difícil. Mesmo assim, não parece exagerado dizer que a primeira metade do século 20 foi uma fase de crise para a civilização ocidental. Se alguém duvida, que vá discutir com Eric Hobsbawm - foi ele que chamou o período de 1914 a 1945 de "Era da Catástrofe".

As duas guerras mundiais desempenharam sua parte nisso, com o ápice da ciência e tecnologia sendo empregado para facilitar a morte em grande escala. Material e moralmente, os países europeus foram abalados pelas guerras - não é por acaso que em 1918 o historiador Oswald Spengler publicou O declínio do Ocidente, livro que pretendia mostrar que as civilizações passavam por fases de ascensão e queda (o título do livro já conta o que ele pensava do estado da sua própria civilização). Com o final da I Guerra, um livro que antes pareceria absurdo tornou-se um grande sucesso. Mas o problema era anterior a 1914, e seus sintomas culturais podem ser percebidos retrospectivamente: o século 20 começou com transformações nas ciências (Einstein e sua teoria da relatividade especial, de 1905), na psicologia (A interpretação dos sonhos, primeiro grande trabalho de Freud, foi publicado em 1899) e na arte (Les demoiselles d'Avignon, de Picasso, de 1907).

As mudanças tinham um vínculo entre si: todas foram no sentido de tornar o mundo um lugar mais difícil de compreender. Einstein substituiu o mundo bem ordenado de Newton por um onde o tempo e o espaço eram relativos; concordemos ou não com a psicanálise, Freud mostrou que não éramoss os seres racionais que pensávamos ser, e nem ao menos os senhores de nossas próprias mentes, sujeitas a influências que nos passam despercebidas; as artes visuais, das quais Picasso é apenas um dos expoentes, afastavam-se cada vez mais do realismo em busca de novos mundos, interiores e imaginativos, a explorar. O ser humano racional, senhor de si e do mundo, estava em baixa.

Como seria de esperar, a crise teve consequências também na literatura - tomando o caso mais famoso, foi em 1922 que James Joyce publicou Ulysses com sua narrativa tortuosa e repleta de fluxos de consciência. Mas Joyce não era o único escritor importante na ativa; outro autor que transformou a literatura, e infelizmente um tanto menos conhecido no Brasil, foi o americano Howard Phillips Lovecraft (1890-1937).

Influenciado principalmente por Poe, Lovecraft foi um dos principais escritores de histórias de terror do século 20. Sua grande contribuição ao gênero, que reflete bem a época em que viveu, consistiu em tirar a importância dos seres humanos e descrever um universo que não foi feito para nós e que não fomos feitos para compreender.

Para a literatura de terror anterior, a humanidade estava, de alguma forma, no centro do palco. Nos contos de Poe, o terror estava na insanidade e naquilo que um louco é capaz de fazer (O gato preto, Coração delator, O barril de Amontillado - a lista dos loucos assassinos em Poe não é pequena). Frankenstein, de Mary Shelley, não é sobre um monstro ensandecido, mas sobre a responsabilidade de um criador negligente, o dr. Frankenstein, por sua criatura imperfeita, que ao ser abandonada por seu criador e rejeitada pelo mundo acaba trilhando o caminho do mal - a analogia com a relação entre o Deus cristão e a humanidade é evidente. Drácula, de Bram Stoker, é sobre a luta dos protagonistas armados com a ciência moderna para proteger a civilização inglesa - e as mulheres inglesas - de um monstro primitivo, perigoso mas infantil, saído do interior da Transilvânia, além dos limites da Europa civilizada. E, como os cineastas posteriores mostraram com clareza excessiva, é também sobre o fascínio e o medo da sedução: afinal, o vampiro sai à noite em busca de virgens inocentes, que depois de seu ataque são transformadas em mulheres agressivas e também sedutoras - de novo, a metáfora está aí para quem quiser ver. E a lista poderia seguir porque, de alguma forma, as pessoas ocupam lugar de destaque nas histórias de terror: contos de fantasmas com suas tragédias antigas, O médico e o monstro, em que o monstro é o lado negro do ser humano, e assim vai...

Até que Lovecraft tirou esse papel de destaque que ocupávamos até então. Suas histórias, como quaisquer outras de terror, são sobre medos humanos, mas o medo aqui é o de ser uma criatura insignificante vivendo em um universo estranho e hostil, que parece mais estranho e hostil quanto melhor o compreendemos. Na mitologia de Lovecraft, o mundo não é governado por deuses ou demônios, que ao menos são seres com motivações humanas e compreensíveis, e que se ocupam com a humanidade, seja para salvá-la ou corrompê-la. A perspectiva lovecraftiana é pós-religiosa: os "deuses" são seres alienígenas cujas motivações são incompreensíveis, cujas formas verdadeiras podem enlouquecer uma mente humana limitada, e que simplesmente não se importam com a humanidade, estando tão acima dela que nem percebem sua existência. A humanidade, longe de desempenhar um papel cósmico central, é uma espécie comum que apenas conseguiu dominar um planeta comum porque os seres realmente avançados se afastaram temporariamente. Mas eles voltarão:

Nem devemos pensar que o homem é o mais antigo ou o último dos mestres da Terra, ou que a vida e substância comum estão sozinhas. Os Antigos eram, os Antigos são e os Antigos serão. Não nos espaços que conhecemos, mas entre eles, eles andam serenos e primevos, sem dimensões e invisíveis para nós. Yog-Sothoth conhece o portal. Yog-Sothoth é o portal. Yog-Sothoth é a chave e o guardião do portal. Passado, presente, futuro, todos são um em Yog-Sothoth. Ele sabe por onde os Antigos entraram no passado, e por onde Eles entrarão novamente. Ele sabe onde Eles percorreram os campos da Terra, e onde Eles ainda os percorrem, e porque ninguém pode observá-los enquanto andam. (...) Sua mão está em vossas gargantas, e nem assim os vedes; e Sua morada é una com seu umbral protegido. Yog-Sothoth é a chave do portal, onde as esferas se encontram. O homem governa agora onde Eles já governaram; Eles em breve governarão onde o homem governa agora. Depois do verão vem o inverno, depois do inverno, o verão. Eles aguardam pacientes e potentes, pois aqui Eles reinarão novamente. (O horror de Dunwich, c. 5)

Ainda pior que a existência de monstros completamente desumanos que ameaçam a humanidade sem nem perceber é o problema de esses monstros serem reflexos de um cosmos não menos desumano.

A coisa mais misericordiosa do mundo, acho, é a inabilidade da mente humana de correlacionar todos seus conteúdos. Vivemos em uma ilha plácida de ignorância em meio aos mares negros do infinito, e não fomos feitos para viajar longe. As ciências, cada uma avançando em sua própria direção, até o momento nos fizeram pouco mal; mas algum dia a reunião do saber agora desconexo abrirá panoramas tão aterrorizantes da realidade, e de nossa posição assustadora nela, que iremos ou enlouquecer com a revelação ou fugir da luz rumo à paz e segurança de uma nova Idade das Trevas (O chamado de Cthulhu, c. 1).


Talvez por isso Lovecraft seja tão atual mais de 70 anos depois de sua morte: o medo de que ele fala continua vivo sob a superfície. Como se sentir confortável com o pensamento de que vivemos em um universo que não surgiu por nenhum motivo aparente, evoluímos como qualquer outra espécie, sem um desígnio especial por trás disso, nossos cérebros não foram feitos para compreender a verdadeira estrutura do mundo (quem realmente consegue compreender a vastidão de um ano-luz, de um milhão de anos, ou a estranheza de que tudo aquilo que vemos ao nosso redor e consideramos sólido, inclusive nós mesmos, são aglomerados de pequenas partículas em meio ao vazio?), e não há nenhuma base segura no mundo para nossos ideais de beleza, paz, razão e justiça?

Algumas religiões oferecem uma resposta, identificando o sentido do mundo com a vontade divina. Uma alternativa não religiosa foi pensada pelos filósofos existencialistas (de Nietzsche, que viveu antes de surgir o termo existencialista, em diante): o sentido não é inerente ao mundo, então só pode ser criado por nós. Acho que os existencialistas estão mais próximos da verdade, o que não deixa de ser uma pena: o existencialismo não oferece o conforto emocional das religiões.

Qualquer que seja a sua resposta, dê uma chance aos contos de Lovecraft. Existem traduções para o português à venda nas livrarias, e a versão original em inglês já pode ser lida online no site do Gutenberg Australia.
Veja como você reaje à perspectiva de um mundo assustadoramente sem sentido, e então olhe ao redor...

dezembro 12, 2010

6. Mulheres, história, literatura

De todos os grupos minoritários que costumamos esquecer de incluir na história, cabe papel de destaque para um que não tem nada de minoritário e consiste, na verdade, em metade da população mundial. Estou falando, naturalmente, das mulheres.

Isso se deve, em grande parte, ao fato de que elas tradicionalmente ficaram mais ou menos relegadas à vida doméstica, privada, enquanto a história por muito tempo se concentrou nos grandes acontecimentos da vida pública. Esse foco está mudando aos poucos, mas a essência permanece. Se um leitor me disser que gosta da Grécia antiga, posso supor com bastante segurança que ele sabe um pouco sobre a alta cultura - a tríade filosófica Sócrates-Platão-Aristóteles, a tríade de dramaturgos trágicos Ésquilo-Sófocles-Eurípides, a tríade de historiadores Heródoto-Tucídides-Políbio, poetas como Homero, cientistas como Arquimedes - e um pouco sobre os grandes acontecimentos políticos e militares - a construção da democracia ateniense, as guerras com os persas, a Guerra do Peloponeso, a ascensão de Alexandre - mas provavelmente sabe pouco ou nada de como viviam os gregos em seu dia-a-dia. Como o envolvimento feminino na alta cultura, na política e na guerra na Grécia clássica eram bastante desencorajados, para dizer o mínimo, ele só saberá que terão existido mulheres ali porque, de alguma forma, todos esses homens famosos precisavam se reproduzir.

A Grécia clássica é um caso extremo, e em geral as mulheres encontraram formas de participar da vida pública e dos grandes acontecimentos. Algumas foram rainhas reinantes, de Hatshepsut e Cleópatra às duas Elizabeths da Inglaterra e Catarina da Rússia. Outras eram o poder por trás do trono: Lívia, esposa do primeiro imperador romano, Augusto, era tão temida quanto o marido. Voltando a um tema anterior, é extremamente provável que Nero tenha matado sua mãe, Agripina. Ele fez isso por ser mau e bandido? Não exatamente; na verdade, ele respondeu do seu modo violento a um problema sério para qualquer imperador megalomaníaco de respeito: a influência política de Agripina era comparável a do próprio Nero, e dizia-se que ela tinha envenenado o imperador anterior, Cláudio, para apressar a subida de Nero ao poder. Se casar com um imperador, envenená-lo e continuar exercendo força política através do filho por alguns anos não é uma carreira importante, não sei o que é.

Além das rainhas, as mulheres estiveram em quase todos os campos possíveis. Elas foram desde cientistas, como Marie Curie e a marquesa du Châtelet (mais conhecida por ser amante de Voltaire, também contribuiu para a física do século 18) até ativistas, como Mary Shelley (a mesma de Frankenstein) e Olympe de Gouges, que em plena Revolução Francesa propôs uma Declaração dos Direitos da Mulher. Mas a ideia de Olympe não deu certo, e seu carrasco Robespierre continua sendo mais conhecido do que dela.

Contudo, integrar as mulheres na história não pode ser feito simplesmente mencionando exceções como essas. Apesar de todas essas mulheres terem levado vidas interessantes, elas foram algumas das raras "vencedoras" em um jogo em que a maioria não tinha como vencer e realizar grandes feitos (o que também se aplica à maior parte dos homens). Mencionar Olympe de Gouges numa história da Revolução Francesa simplesmente substitui uma história dos grandes homens por uma dos "grandes homens... e uma mulher", quando a maior parte dos homens não era como Robespierre, Danton ou Napoleão, e a maior parte das mulheres não era como Olympe.

Uma alternativa é partir para os grandes processos históricos e ignorar o indivíduo, fazendo uma história da Revolução Francesa voltada para a ascensão da burguesia e do nacionalismo, ou o que for, e que possa passar igualmente sem Olympes e Robespierres. Para mim, os processos são importantes, mas pensar só neles é tirar o "cheiro de humanidade" da história, e atribuir toda a capacidade de agir e realizar mudanças a forças impessoais e não a pessoas concretas. Sinto muito, mas acho que não funciona.

O que pode funcionar é aumentar nossos horizontes gradualmente, até que alguém encontre uma maneira de juntar todas as pontas soltas. Como um exemplo disso, gostaria de mostrar um pedaço da história, muito ignorado por aqui, onde as mulheres tiveram participação importante - o Japão antigo.

O Japão atual é um lugar um tanto machista, e a imagem que se faz do japonês antigo (como a do gaúcho tradicional), é a do homem guerreiro, honrado e viril, como se alguma vez todos os japoneses tivessem sido samurais perfeitos. Deixando de lado as seleções e idealizações inerentes aos tradicionalismos, tanto os de CTGs quando os de escolas de artes marciais, os samurais não governaram o Japão desde sempre. E antes deles, o Japão era um lugar diferente.

O período Heian começou em 794, com a construção da nova capital Heian-kyô, Capital da paz e tranquilidade (atual Kyoto), e terminou em 1192, quando Minamoto no Yoritomo tornou-se o primeiro xogum, ou governante militar, inaugurando um estilo de governo pelos guerreiros que duraria até o século 19. Apenas no final do período Heian os guerreiros das províncias começaram a se aproximar do poder; por séculos, o Japão foi governado por um imperador semidivino e sua corte de civis refinados, onde as disputas políticas não eram decididas pelas armas, mas pelo prestígio. Pertencer a uma família nobre e ter um bom currículo na administração não bastava para cair nas graças do imperador ou de seus regentes do clã Fujiwara: era preciso ser sofisticado, conhecer a cultura chinesa, ter uma caligrafia elegante, saber fazer incenso ou jogar bola, mostrar apreciação pelas coisas belas da vida e, mais importante, dominar a arte da poesia.

(Quanto à cultura chinesa, ela por séculos foi no leste asiático o que a cultura greco-romana foi na Europa: o modelo a ser seguido e imitado.)

Hoje a poesia tem sua importância cultural diminuída em toda parte, exceto na forma de música, o que torna difícil entender como ela era essencial para os aristocratas do Japão Heian. Os poemas que eles compunham de improviso pressupunham erudição e conhecimento de poesia japonesa e chinesa, que possibilitavam todo tipo de referências sutis que apenas os entendidos compreenderiam. Fazer um poema, então, era uma mostra de boa formação e uma chance de falar nas entrelinhas: um poeta que conseguisse xingar um rival fazendo referência aos clássicos literários ganhava a apreciação de todos, especialmente se o insulto fosse tão inteligente que todos rissem do rival sem que ele percebesse o que tinha acontecido.

Nessa sociedade de corte, as mulheres tinham sua chance de brilhar, e elas eram participantes ativas da cultura de elite. Elas faziam a moda, faziam seus poemas para competir entre si por fama e para impressionar os homens, consumiam a literatura da época - e produziam essa literatura. Diversos clássicos da literatura japonesa foram escritos pelas nobres de Heian-Kyô, boa parte deles sendo relatos de vida, entre diários e autobiografias, muito antes de essa literatura intimista entrar em voga na literatura ocidental. O mais famoso de todos (e acredito que o único lançado em português) é o Livro de travesseiro (Makura no soshi) de Sei Shônagon, dama de companhia de uma imperatriz, escrito por volta do ano mil. O Livro de travesseiro é uma coletânea caótica e fascinante dos pensamentos da autora, incluindo dezenas de listas ("coisas que provocam impaciência", "bons temas de poesia", "coisas que não podem ser comparadas") e episódios da vida na corte, principalmente os momentos em que ela e sua imperatriz brilhavam.

Murasaki Shikibu, dama de companhia de uma imperatriz rival (os imperadores podiam ter diversas esposas e concubinas, cada uma tendo o apoio da facção de seus parentes, e assim as preferências do imperador eram uma questão política), também escreveu um diário (onde, previsivelmente, louvava sua imperatriz e criticava Sei Shônagon) e, mais importante, a História de Genji (Genji monogatari), a história ficcional de Genji, o príncipe brilhante, que alguns classificam como o primeiro romance escrito. E que, também previsivelmente, não foi lançada no Brasil.