Uma iniciativa original: para ajudar a atrair público para o museu da Universidade de Sydney, foi construído um Coliseu de Lego com mais de 200 mil peças e um metro de altura. Nossos museus, com acervos muitas vezes interessantes mas sofrendo de pouca divulgação, poderiam se inspirar...
Aqui, o link para a história original: http://www.smh.com.au/entertainment/art-and-design/i-came-i-saw-i-constructed-20120628-213dy.html. Mesmo para quem não lê inglês, as fotos merecem ser vistas.
Onde o ontem vive no hoje. Notas sobre a história, a ciência histórica e a vida acadêmica para leitores curiosos.
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julho 01, 2012
janeiro 31, 2012
54. Moedas romanas?
Hoje, um exercício de comparação entre o que sai na mídia sobre uma descoberta arqueológica e a opinião dos especialistas. Exemplo de caso divertido: uma moeda ou ficha romana com uma imagem erótica.
Primeira versão: a midiática, vinda do Estadão.
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A moeda de bronze do século 1 encontrada há mais de um ano nas proximidades do rio Tâmisa era, segundo os especialistas, uma forma de pagamento nos bordéis do Império Romano, informa o Museu de Londres.
A peça tem um tamanho similar ao de uma moeda de dois euros e em uma de suas faces é possível ver um casal, enquanto na outra aparece inscrito o número 15 em algarismos romanos.
Apesar de sua antiguidade, reproduz bastante nitidamente a imagem de uma mulher deitada em um sofá ao lado de uma figura masculina, aparentemente durante um ato sexual.
Os analistas do Museu de Londres, onde está sendo exibida a moeda, acreditam que este tipo de objeto era trocado por sexo e que o número que aparece no reverso da moeda é o preço do serviço prestado.
A curadora do museu, Caroline McDonald, afirmou que se trata de um objeto arqueológico "perfeito, sexy e provocativo", embora demonstre que a vida de uma escrava romana não era muito feliz.
"Este tipo de objeto pode nos ajudar a gerar debates sobre temas relevantes para a cidade e seus visitantes", continuou.
A peça foi encontrada na margem do Tâmisa no outono de 2010, por um homem com um detector de metais.
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Deixando de lado o curioso eufemismo de a mulher estar deitada "ao lado" do homem, logo fica claro que, segundo a reportagem, a função da moeda era bem clara: uma ficha usada em bordéis.
Agora, a segunda versão, saída do blog de Mary Beard, professora de clássicos (leia-se: Grécia e Roma antigas) em Cambridge. Apenas em inglês, lamento:
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I was hoping to keep out of the story about the "Roman brothel token" found by a metal detectorist near Putney Bridge and now on display at the Museum of London. But I think someone had better give a different version from the torrent of lurid stuff now pouring out about the sex-life of Roman London.
The object in question is a small bronze "coin" -- with a scene of sex on one side and a the Roman numeral XIIII on the other. Assuming that it is genuine (and there are quite a few fakes of these circulating and this one was not actually found in an archaeological context), then it is what archaeologists term a "spintria". This is a Latin word for male prostitute... but it is an entirely modern practice to apply it to these little objects; we haven't got the foggiest clue what the Romans called them... or (despite what you read) what they used them for. Quite a few have been found across the Roman world (there's another on the right).
The favourite idea circulating about this recent discovery is that it was part of the highly developed Roman brothel economy. Perhaps you handed over 14 asses (the coin not the animal, I mean), got the token and then went and redeemed it at one of the local brothels (a bit like a book token). Or maybe the sexual position depicted on the token was what you had paid your 14 asses for (shades here of the tour guides' explanations for the paintings of the different sexual positions depicted on the walls of the brothel at Pompeii ... a kind of visual menu for those who couldnt ask for it in Latin. Errr.. come again?)
Now, as there is no evidence for these things at all, no-one could actually disprove that. But remember that there is no Roman mention of such things, none have been found in any place that has been identified as a "brothel" . . . and just think of the kind of infrastructure of the ancient "brothel industry" that this kind of internal currency would imply. (Let's face it, most sex for money in the ancient world -- like now --happened at street corners, under bridges, after closing time at the bar... NOT in designated "brothels" . . . )
So what is a more likely explanation?
Well, first remember that just because something has a sex scene on
it doesn't mean it was used for sex. That assumption has led to the
discovery of 80 odd "brothels" in Pompeii (ie any room with a scene of
sex on the walls....). But look at the Suburban Baths at Pompeii, there different sex scenes seem just to have been used as aide memoires for the different "lockers" in the changing room.
Almost certainly these were tokens whose main function was the numeral, and the sex scene on the back was 'decoration". One possibility would be an amphitheatre token, and the XIIII would indicate which entrance you were to use. But I doubt that any amphitheatre in Britain was so big as to need that kind of crowd management (though of course, being found by the Thames, this thing could actually have been brought back from Italy by some eighteenth century traveller who just accidentally dropped it by Putney Bridge on his way home).
More likely, if you ask me (and as the curator at the Museum of London concedes it might be so), is that it is a gaming token, for one of the many Roman board games... whose rules and customs were anyway shot through with sex (the best throw of the Roman dice was called a "Venus throw"). This belonged, in other words, on a board in a Roman bar, not in a brothel.
The trouble is that we just want the Romans to take us into the world of their brothels, and we want vicariously to enjoy their wicked sex lives. Though, in this case, there has been a politically correct, early 21st century twist added to the tale. After ogling at the Romans for a bit, many of the eager journalists (prompted by the Museum of London) have finally chosen to spare half a thought for the victims of the ancient sex industry. Don't forget, insisted the curator (correctly), that many prostitutes would be slaves. "It has resonance with modern-day London because people are still being sold into the sex trade."
True and terrible, but in most reports it only added to the prurient edge of the find.
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Evidência de que a moeda/ficha esteja relacionada à prostituição antiga: exatamente zero. Nenhum outro exemplar foi encontrado num bordel, como seria de esperar se fosse o caso.
Evidência para qualquer outro uso em particular: também zero. Como Beard disse, "não temos a mínima ideia de como os romanos chamavam esses objetos ou para que eram usados".
Mas, como está firme em nossas cabeças o estereótipo dos romanos depravados e libertinos, a versão divulgada para o grande público é a que todos esperam ouvir: ficha de bordel. Mesmo porque um objeto de função desconhecida rende uma notícia muito menos interessante...
A possibilidade que Mary Beard sugere, que fosse uma ficha de jogo, também não tem como ser provada ou desprovada por enquanto, mas é igualmente provável.
Primeira versão: a midiática, vinda do Estadão.
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Moeda encontrada no Tâmisa era usada como pagamento em bordéis do século 1
Apesar da antiguidade, o objeto reproduz bastante nitidamente a imagem de uma mulher deitada em um sofá ao lado de uma figura masculina, aparentemente durante o ato sexual
A moeda de bronze do século 1 encontrada há mais de um ano nas proximidades do rio Tâmisa era, segundo os especialistas, uma forma de pagamento nos bordéis do Império Romano, informa o Museu de Londres.
Museu de Londres/AP
Peça foi encontrada na margem do Tâmisa no outono de 2010
A peça tem um tamanho similar ao de uma moeda de dois euros e em uma de suas faces é possível ver um casal, enquanto na outra aparece inscrito o número 15 em algarismos romanos.
Apesar de sua antiguidade, reproduz bastante nitidamente a imagem de uma mulher deitada em um sofá ao lado de uma figura masculina, aparentemente durante um ato sexual.
Os analistas do Museu de Londres, onde está sendo exibida a moeda, acreditam que este tipo de objeto era trocado por sexo e que o número que aparece no reverso da moeda é o preço do serviço prestado.
A curadora do museu, Caroline McDonald, afirmou que se trata de um objeto arqueológico "perfeito, sexy e provocativo", embora demonstre que a vida de uma escrava romana não era muito feliz.
"Este tipo de objeto pode nos ajudar a gerar debates sobre temas relevantes para a cidade e seus visitantes", continuou.
A peça foi encontrada na margem do Tâmisa no outono de 2010, por um homem com um detector de metais.
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Deixando de lado o curioso eufemismo de a mulher estar deitada "ao lado" do homem, logo fica claro que, segundo a reportagem, a função da moeda era bem clara: uma ficha usada em bordéis.
Agora, a segunda versão, saída do blog de Mary Beard, professora de clássicos (leia-se: Grécia e Roma antigas) em Cambridge. Apenas em inglês, lamento:
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A Roman brothel token?
I was hoping to keep out of the story about the "Roman brothel token" found by a metal detectorist near Putney Bridge and now on display at the Museum of London. But I think someone had better give a different version from the torrent of lurid stuff now pouring out about the sex-life of Roman London.
The object in question is a small bronze "coin" -- with a scene of sex on one side and a the Roman numeral XIIII on the other. Assuming that it is genuine (and there are quite a few fakes of these circulating and this one was not actually found in an archaeological context), then it is what archaeologists term a "spintria". This is a Latin word for male prostitute... but it is an entirely modern practice to apply it to these little objects; we haven't got the foggiest clue what the Romans called them... or (despite what you read) what they used them for. Quite a few have been found across the Roman world (there's another on the right).
The favourite idea circulating about this recent discovery is that it was part of the highly developed Roman brothel economy. Perhaps you handed over 14 asses (the coin not the animal, I mean), got the token and then went and redeemed it at one of the local brothels (a bit like a book token). Or maybe the sexual position depicted on the token was what you had paid your 14 asses for (shades here of the tour guides' explanations for the paintings of the different sexual positions depicted on the walls of the brothel at Pompeii ... a kind of visual menu for those who couldnt ask for it in Latin. Errr.. come again?)
Now, as there is no evidence for these things at all, no-one could actually disprove that. But remember that there is no Roman mention of such things, none have been found in any place that has been identified as a "brothel" . . . and just think of the kind of infrastructure of the ancient "brothel industry" that this kind of internal currency would imply. (Let's face it, most sex for money in the ancient world -- like now --happened at street corners, under bridges, after closing time at the bar... NOT in designated "brothels" . . . )
So what is a more likely explanation?
Almost certainly these were tokens whose main function was the numeral, and the sex scene on the back was 'decoration". One possibility would be an amphitheatre token, and the XIIII would indicate which entrance you were to use. But I doubt that any amphitheatre in Britain was so big as to need that kind of crowd management (though of course, being found by the Thames, this thing could actually have been brought back from Italy by some eighteenth century traveller who just accidentally dropped it by Putney Bridge on his way home).
More likely, if you ask me (and as the curator at the Museum of London concedes it might be so), is that it is a gaming token, for one of the many Roman board games... whose rules and customs were anyway shot through with sex (the best throw of the Roman dice was called a "Venus throw"). This belonged, in other words, on a board in a Roman bar, not in a brothel.
The trouble is that we just want the Romans to take us into the world of their brothels, and we want vicariously to enjoy their wicked sex lives. Though, in this case, there has been a politically correct, early 21st century twist added to the tale. After ogling at the Romans for a bit, many of the eager journalists (prompted by the Museum of London) have finally chosen to spare half a thought for the victims of the ancient sex industry. Don't forget, insisted the curator (correctly), that many prostitutes would be slaves. "It has resonance with modern-day London because people are still being sold into the sex trade."
True and terrible, but in most reports it only added to the prurient edge of the find.
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Evidência de que a moeda/ficha esteja relacionada à prostituição antiga: exatamente zero. Nenhum outro exemplar foi encontrado num bordel, como seria de esperar se fosse o caso.
Evidência para qualquer outro uso em particular: também zero. Como Beard disse, "não temos a mínima ideia de como os romanos chamavam esses objetos ou para que eram usados".
Mas, como está firme em nossas cabeças o estereótipo dos romanos depravados e libertinos, a versão divulgada para o grande público é a que todos esperam ouvir: ficha de bordel. Mesmo porque um objeto de função desconhecida rende uma notícia muito menos interessante...
A possibilidade que Mary Beard sugere, que fosse uma ficha de jogo, também não tem como ser provada ou desprovada por enquanto, mas é igualmente provável.
setembro 06, 2011
40. Calígula e seu cavalo
Preconceitos, por sua própria natureza, não são exatamente muito racionais. Por exemplo, a minha posição a respeito dos idiomas é descritivista: a linguagem é uma convenção entre seus usuários e, portanto, a maioria deles não pode estar errada. Se os dicionários dizem drible e a maior parte dos brasileiros diz dible, quem está com a razão são as pessoas nas ruas, e azar dos dicionários e do professor Pasquale. Mesmo assim, fico com vontade de subir pelas paredes quando ouço algumas dessas variações, como alguém dizendo enterter ao invés de entreter, císnei no lugar de cisne ou xalxicha no lugar de salsicha. Não faz muito sentido, mas é assim que as coisas são.
Em relação à história, as pessoas também falam o que querem o tempo todo, com a diferença de que ela envolve questões de veracidade, e não (só) de convenção. A maior parte do que se ouve são chavões que, no melhor dos casos, são apenas em parte verdade, e no mais das vezes são pelo menos 99% de bobagem. Coisas que você já deve ter ouvido também, do tipo "o Brasil não dá certo porque foi povoado por criminosos", "os chineses não têm tradição política porque ficaram milênios seguindo os imperadores", "o Ocidente é mais avançado graças à sua democracia", e por aí vai. Infelizmente, separar as meias verdades e os mitos nesses casos exige uma análise mais ou menos complexa.
O que realmente me incomoda, voltando à questão dos preconceitos, são aquelas bobagens que qualquer um poderia se dar ao trabalho de conferir se são verdade ou não. Aquelas que não envolvem grandes questões macrohistóricas, mas as pequenas anedotas que as pessoas soltam para ilustrar algum argumento.
Uma delas, que tive o desprazer de ouvir recentemente pela enésima vez, é do tipo que certamente todos já ouviram: "Incitatus, o cavalo do imperador romano Calígula, foi cônsul". É uma afirmação tão comum e corriqueira que não parece haver motivo para duvidar: afinal, Calígula era louco, e loucos não fazem coisas como dar altos cargos para seus cavalos?
Pena que é tão simples testar a veracidade do consulado de Incitatus. Vamos começar com os fatos básicos: Caio foi imperador romano de 37 a 41, e apelidado de Calígula porque, quando pequeno, seu pai, o importante general Germânico, fazia Caio acompanhá-lo pelos acampamentos militares vestido de soldadinho, e o uniforme da época incluía as caligas, sandálias usadas pelos soldados. Daí Caio ser até hoje mais conhecido como "sandalinha" - seria mais ou menos como termos um presidente filho de militares apelidado de Coturninho.
Seu curto reinado está terrivelmente mal documentado hoje em dia - temos pouquíssimos relatos escritos por pessoas que conheceram o imperador, sendo o mais importante deles a Embaixada a Caio, escrito por Fílon de Alexandria, judeu que liderou uma delegação ao imperador para reclamar dos maus tratos que a população judia estava sofrendo na metrópole egípcia.
Tirando o texto da Embaixada, sobram as obras dos historiadores. Os autores mais próximos desse período foram Suetônio e Tácito, que escreveram no começo do século 2, ou seja, quando todos os envolvidos já estavam mortos há tempo. Para complicar, não temos o relato de Tácito sobre Calígula: foi encontrada apenas uma cópia medieval das obras de Tácito, bastante incompleta, e uma das partes que faltam é exatamente a que mostrava Caio no poder. Sobra Suetônio. Ele não era exatamente um historiador, mas algo como um biógrafo sensacionalista, interessado nas anedotas bizarras, de preferência as sexuais - é culpa de Suetônio, e da falta quase completa de alternativa a ele, acharmos que tantos dos primeiros imperadores romanos eram depravados. O quanto ele disse de verdadeiro, o quanto inventou e o quanto escreveu boatos como se fossem pura verdade é um problema grande e difícil de resolver.
De volta a Calígula: as fontes que temos - Fílon, Suetônio, uma que outra passagem de Tácito e as obras de historiadores bem posteriores - são unânimes em afirmar que ele foi um péssimo imperador. Do tipo que declarou ser um deus, matava seus oponentes sem muita piedade, entre outras coisas mais. Talvez tenha tido as irmãs como amantes, se você acha que Suetônio merece confiança quanto a isso. Enfim, dois mil anos depois, é difícil saber ao certo se ele foi realmente louco ou se isso era apenas a explicação dada para justificar suas arbitrariedades - Calígula pode ter sido "apenas" um deslumbrado pelo poder, como os Saddams e Kaddafis dos nossos tempos.
Mas uma coisa que podemos dizer que ele não fez foi nomear seu cavalo cônsul. Eis o que Suetônio disse a respeito (Vida de Calígula, 55, 3): "Na véspera dos jogos circenses, ele enviava seus soldados para ordenarem a vizinhança a fazer silêncio a fim de que o cavalo Incitatus não fosse incomodado. Além de um estábulo de mármore, uma manjedoura de marfim, cobertores de púrpura e um colar de pedras preciosas, ele ainda deu ao cavalo uma casa, um conjunto de escravos e mobília, para melhor recepção dos hóspedes convidados em seu nome. E também se diz que ele planejava torná-lo cônsul".
"Se diz" e "planejava" = o cavalo não foi cônsul. É possível discutir se Incitatus realmente recebeu seu estábulo de mármore e tudo o mais, e, se recebeu, qual a motivação de Calígula - não é tão difícil imaginar um ditador convidando as pessoas a falar com seu cavalo e outras humilhações do tipo, sem que o ditador seja necessariamente insano. Talvez ele tenha dito aos políticos romanos "aposto que até meu cavalo faz o serviço de vocês", e daí começaram os boatos.
Mas vamos dizer isso mais uma vez, para garantir: Incitatus nunca foi cônsul...
Em relação à história, as pessoas também falam o que querem o tempo todo, com a diferença de que ela envolve questões de veracidade, e não (só) de convenção. A maior parte do que se ouve são chavões que, no melhor dos casos, são apenas em parte verdade, e no mais das vezes são pelo menos 99% de bobagem. Coisas que você já deve ter ouvido também, do tipo "o Brasil não dá certo porque foi povoado por criminosos", "os chineses não têm tradição política porque ficaram milênios seguindo os imperadores", "o Ocidente é mais avançado graças à sua democracia", e por aí vai. Infelizmente, separar as meias verdades e os mitos nesses casos exige uma análise mais ou menos complexa.
O que realmente me incomoda, voltando à questão dos preconceitos, são aquelas bobagens que qualquer um poderia se dar ao trabalho de conferir se são verdade ou não. Aquelas que não envolvem grandes questões macrohistóricas, mas as pequenas anedotas que as pessoas soltam para ilustrar algum argumento.
Uma delas, que tive o desprazer de ouvir recentemente pela enésima vez, é do tipo que certamente todos já ouviram: "Incitatus, o cavalo do imperador romano Calígula, foi cônsul". É uma afirmação tão comum e corriqueira que não parece haver motivo para duvidar: afinal, Calígula era louco, e loucos não fazem coisas como dar altos cargos para seus cavalos?
Pena que é tão simples testar a veracidade do consulado de Incitatus. Vamos começar com os fatos básicos: Caio foi imperador romano de 37 a 41, e apelidado de Calígula porque, quando pequeno, seu pai, o importante general Germânico, fazia Caio acompanhá-lo pelos acampamentos militares vestido de soldadinho, e o uniforme da época incluía as caligas, sandálias usadas pelos soldados. Daí Caio ser até hoje mais conhecido como "sandalinha" - seria mais ou menos como termos um presidente filho de militares apelidado de Coturninho.
Seu curto reinado está terrivelmente mal documentado hoje em dia - temos pouquíssimos relatos escritos por pessoas que conheceram o imperador, sendo o mais importante deles a Embaixada a Caio, escrito por Fílon de Alexandria, judeu que liderou uma delegação ao imperador para reclamar dos maus tratos que a população judia estava sofrendo na metrópole egípcia.
Tirando o texto da Embaixada, sobram as obras dos historiadores. Os autores mais próximos desse período foram Suetônio e Tácito, que escreveram no começo do século 2, ou seja, quando todos os envolvidos já estavam mortos há tempo. Para complicar, não temos o relato de Tácito sobre Calígula: foi encontrada apenas uma cópia medieval das obras de Tácito, bastante incompleta, e uma das partes que faltam é exatamente a que mostrava Caio no poder. Sobra Suetônio. Ele não era exatamente um historiador, mas algo como um biógrafo sensacionalista, interessado nas anedotas bizarras, de preferência as sexuais - é culpa de Suetônio, e da falta quase completa de alternativa a ele, acharmos que tantos dos primeiros imperadores romanos eram depravados. O quanto ele disse de verdadeiro, o quanto inventou e o quanto escreveu boatos como se fossem pura verdade é um problema grande e difícil de resolver.
De volta a Calígula: as fontes que temos - Fílon, Suetônio, uma que outra passagem de Tácito e as obras de historiadores bem posteriores - são unânimes em afirmar que ele foi um péssimo imperador. Do tipo que declarou ser um deus, matava seus oponentes sem muita piedade, entre outras coisas mais. Talvez tenha tido as irmãs como amantes, se você acha que Suetônio merece confiança quanto a isso. Enfim, dois mil anos depois, é difícil saber ao certo se ele foi realmente louco ou se isso era apenas a explicação dada para justificar suas arbitrariedades - Calígula pode ter sido "apenas" um deslumbrado pelo poder, como os Saddams e Kaddafis dos nossos tempos.
Mas uma coisa que podemos dizer que ele não fez foi nomear seu cavalo cônsul. Eis o que Suetônio disse a respeito (Vida de Calígula, 55, 3): "Na véspera dos jogos circenses, ele enviava seus soldados para ordenarem a vizinhança a fazer silêncio a fim de que o cavalo Incitatus não fosse incomodado. Além de um estábulo de mármore, uma manjedoura de marfim, cobertores de púrpura e um colar de pedras preciosas, ele ainda deu ao cavalo uma casa, um conjunto de escravos e mobília, para melhor recepção dos hóspedes convidados em seu nome. E também se diz que ele planejava torná-lo cônsul".
"Se diz" e "planejava" = o cavalo não foi cônsul. É possível discutir se Incitatus realmente recebeu seu estábulo de mármore e tudo o mais, e, se recebeu, qual a motivação de Calígula - não é tão difícil imaginar um ditador convidando as pessoas a falar com seu cavalo e outras humilhações do tipo, sem que o ditador seja necessariamente insano. Talvez ele tenha dito aos políticos romanos "aposto que até meu cavalo faz o serviço de vocês", e daí começaram os boatos.
Mas vamos dizer isso mais uma vez, para garantir: Incitatus nunca foi cônsul...
maio 17, 2011
27. Manuscritos perdidos, e porque eles importam
Especialistas em línguas clássicas descobriram dezenas de novos manuscritos de Ovídio, como diz a reportagem abaixo. Dois esclarecimentos prévios para entender melhor a notícia.
Primeiro, quem foi Ovídio: um poeta romano que estava ativo durante o reinado de Augusto, primeiro imperador romano (reinou de 27ac - 14 dc). Suas duas obras mais conhecidas são As metamorfoses, uma série de poemas que tratam de histórias mitológicas em que alguém passava por uma mudança de forma. Menos épico, mas talvez mais fácil de encontrar nas livrarias de hoje, é um pequeno tratado sobre A arte de amar. Pouca semelhança com um Kama Sutra, sendo em sua maior parte apenas um guia de como encontrar e conquistar mulheres na Roma antiga. Seus comentários, às vezes, soam bastante familiares, como ao dizer que os parques públicos estão cheios de mulheres que passeiam arrumadas mais para serem vistas do que para ver. Outras passagens fazem os antigos romanos parecerem quase alienígenas, como sua sugestão de escrever mensagens secretas nas costas de escravas, ou o conselho pitoresco de como esquecer uma mulher pela qual se apaixonou: o remédio é esconder-se para vê-la fazendo suas... necessidades fisiológicas. Talvez tenha funcionado para o próprio Ovídio...
Segundo, que diferença fazem os novos manuscritos: como praticamente para todos os textos escritos antes do surgimento da imprensa, não temos os originais de Ovídio. O que temos são cópias, cópias de cópias, cópias de cópias de cópias, nas quais os erros vão se acumulando. Ao copiar textos longos, nada menos surpreendente do que cometer falhas - talvez o copista não tenha entendido uma palavra aqui e colocado outra mais familiar, talvez seu antecessor tivesse uma letra difícil e ele entendeu mal alguma passagem, talvez ele estivesse cansado de forçar a visão à luz de velas e deixou de se concentrar. Ou talvez ele tenha acrescentado seus próprios comentários no corpo do texto, ou feito censuras ao que desaprovava. De uma forma ou de outra, praticamente todos os textos antigos que ainda temos estão cheios de pequenas e grandes variações. Para isso servem os manuscritos extras: com a comparação, pode ser possível chegar mais perto daquilo que o autor quis dizer originalmente.
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Primeiro, quem foi Ovídio: um poeta romano que estava ativo durante o reinado de Augusto, primeiro imperador romano (reinou de 27ac - 14 dc). Suas duas obras mais conhecidas são As metamorfoses, uma série de poemas que tratam de histórias mitológicas em que alguém passava por uma mudança de forma. Menos épico, mas talvez mais fácil de encontrar nas livrarias de hoje, é um pequeno tratado sobre A arte de amar. Pouca semelhança com um Kama Sutra, sendo em sua maior parte apenas um guia de como encontrar e conquistar mulheres na Roma antiga. Seus comentários, às vezes, soam bastante familiares, como ao dizer que os parques públicos estão cheios de mulheres que passeiam arrumadas mais para serem vistas do que para ver. Outras passagens fazem os antigos romanos parecerem quase alienígenas, como sua sugestão de escrever mensagens secretas nas costas de escravas, ou o conselho pitoresco de como esquecer uma mulher pela qual se apaixonou: o remédio é esconder-se para vê-la fazendo suas... necessidades fisiológicas. Talvez tenha funcionado para o próprio Ovídio...
Segundo, que diferença fazem os novos manuscritos: como praticamente para todos os textos escritos antes do surgimento da imprensa, não temos os originais de Ovídio. O que temos são cópias, cópias de cópias, cópias de cópias de cópias, nas quais os erros vão se acumulando. Ao copiar textos longos, nada menos surpreendente do que cometer falhas - talvez o copista não tenha entendido uma palavra aqui e colocado outra mais familiar, talvez seu antecessor tivesse uma letra difícil e ele entendeu mal alguma passagem, talvez ele estivesse cansado de forçar a visão à luz de velas e deixou de se concentrar. Ou talvez ele tenha acrescentado seus próprios comentários no corpo do texto, ou feito censuras ao que desaprovava. De uma forma ou de outra, praticamente todos os textos antigos que ainda temos estão cheios de pequenas e grandes variações. Para isso servem os manuscritos extras: com a comparação, pode ser possível chegar mais perto daquilo que o autor quis dizer originalmente.
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Localizan 71 nuevos manuscritos de Ovidio repartidos por el mundo
Varios expertos en lenguas clásicas han logrado recuperar casi todos los manuscritos y ediciones críticas que existen de Ovidio, especialmente de las Metamorfosis, y que se conservan en bibliotecas de todo el mundo. A los ya conocidos, se han podido añadir más de 71 nuevos códices o fragmentos "cuya existencia no se conocía”, entre los que se puede mencionar el Dertusensis 134, “el más antiguo manuscrito de los españoles que data de finales del siglo XII".
La recopilación de los textos de Ovidio (43 a. C. - 17 a. C.) ha sido el resultado de la investigación del grupo Nicolaus Heinsius de la Universidad de Huelva (UHU). Los miembros del equipo emprenden ahora el comentario crítico textual de Las Metamorfosis del escritor latino en el seno del proyecto de excelencia Edición crítica de las Metamorfosis y Opera minora de Ovidio, financiado por la Consejería de Economía, Innovación y Ciencia con casi 158.000 euros, cuyos trabajos estarán culminados para 2013.
"Se trata de un objetivo ambicioso por la pretensión de incluir en ella los comentarios, incidencias y variantes de Las Metamorfosis desde sus orígenes hasta la actualidad", argumenta Luis Rivero, investigador en la UHU. El objetivo último, por tanto, es dar a la luz la edición crítica de Las Metamorfosis más completa e informada de cuantas se han realizado hasta el momento.
El poema ovidiano, que reúne en 15 libros una colección de relatos sobre mitología clásica, se ha convertido en una de las creaciones más populares de la literatura romana. Muy conocida por los escritores medievales y humanistas, sigue teniendo influencia en la literatura contemporánea, según se desprende de los diferentes estudios sobre Publio Ovidio Nasón. Una de las ediciones más antiguas fue la realizada en 1471 en Roma por John Andreas.
Una herramienta on line para estudiosos del poeta
"Sin embargo, a día de hoy apenas se ha leído un centenar de manuscritos", indica el investigador. "En el reciente comentario de la profesora S. Myers, al libro XIV de Las Metamorfosis, en el año 2009, se domina a la perfección toda la bibliografía de los últimos 50 años pero no se ha leído ni un solo manuscrito y ni uno solo de los comentarios anteriores a 1950", indica Antonio Ramírez de Verger, otro de los investigadores del grupo Nicolaus Heinsius.
Para el estudio pormenorizado de los 15 libros que constituyen la obra Las Metamorfosis "se ha organizado el trabajo de manera que cada investigador se encargará de estudiar uno de ellos, con sus respectivas ediciones a lo largo de los siglos", explica el Ramírez de Verger. Es un examen riguroso de un total de 12.000 versos en más de 500 versiones que se corresponden con cada uno de los manuscritos y ediciones críticas confeccionados desde la Antigüedad hasta la edad contemporánea.
Asimismo, los investigadores Ramírez de Verger y Rivero prevén editar también los Opera minora de Ovidio, es decir, las obras menores del poeta latino o a él atribuidas: Ibis, Consolatio ad Liuiam, Nux, Halieutica; para lo cual ya han firmado un contrato con la editorial W. de Gruyter (Berlín-Nueva York), de forma que el libro se publicará en la Bibliotheca Teubneriana, colección de referencia mundial en textos clásicos. A este volumen se añadirá otro, a cargo del profesor Estévez Sola, con los Scholia in Ibim, también en la Bibliotheca Teubneriana.
Este equipo de investigadores de la Onubense comparte tarea con expertos de las Universidades Pablo de Olavide, Sevilla, Granada, Málaga, Extremadura y las Universidades Johns Hopkins (Baltimore, Estados Unidos) y Burdeos (Francia).
Las copias de los manuscritos se encuentran ya digitalizadas en CD,s y volcadas en memorias externas disponibles en cada uno de los centros de trabajo. Asimismo, cualquier investigador en el mundo puede acceder a muy valiosa información sobre la transmisión del texto de Ovidio a través de la página web del proyecto. Los científicos no solo pretenden divulgar sus trabajos a través de ella sino convertir la plataforma en una herramienta de trabajo para investigadores e interesados en la obra del poeta latino de todo el mundo.
Estos nuevos códices, junto con los 467 ya conocidos, amplían el catálogo hasta los 538. "Ahora somos una referencia para los investigadores de todo el mundo en el texto de Ovidio", asegura el Catedrático de Filología Latina de la UHU.
La recopilación de los textos de Ovidio (43 a. C. - 17 a. C.) ha sido el resultado de la investigación del grupo Nicolaus Heinsius de la Universidad de Huelva (UHU). Los miembros del equipo emprenden ahora el comentario crítico textual de Las Metamorfosis del escritor latino en el seno del proyecto de excelencia Edición crítica de las Metamorfosis y Opera minora de Ovidio, financiado por la Consejería de Economía, Innovación y Ciencia con casi 158.000 euros, cuyos trabajos estarán culminados para 2013.
"Se trata de un objetivo ambicioso por la pretensión de incluir en ella los comentarios, incidencias y variantes de Las Metamorfosis desde sus orígenes hasta la actualidad", argumenta Luis Rivero, investigador en la UHU. El objetivo último, por tanto, es dar a la luz la edición crítica de Las Metamorfosis más completa e informada de cuantas se han realizado hasta el momento.
El poema ovidiano, que reúne en 15 libros una colección de relatos sobre mitología clásica, se ha convertido en una de las creaciones más populares de la literatura romana. Muy conocida por los escritores medievales y humanistas, sigue teniendo influencia en la literatura contemporánea, según se desprende de los diferentes estudios sobre Publio Ovidio Nasón. Una de las ediciones más antiguas fue la realizada en 1471 en Roma por John Andreas.
Una herramienta on line para estudiosos del poeta
"Sin embargo, a día de hoy apenas se ha leído un centenar de manuscritos", indica el investigador. "En el reciente comentario de la profesora S. Myers, al libro XIV de Las Metamorfosis, en el año 2009, se domina a la perfección toda la bibliografía de los últimos 50 años pero no se ha leído ni un solo manuscrito y ni uno solo de los comentarios anteriores a 1950", indica Antonio Ramírez de Verger, otro de los investigadores del grupo Nicolaus Heinsius.
Para el estudio pormenorizado de los 15 libros que constituyen la obra Las Metamorfosis "se ha organizado el trabajo de manera que cada investigador se encargará de estudiar uno de ellos, con sus respectivas ediciones a lo largo de los siglos", explica el Ramírez de Verger. Es un examen riguroso de un total de 12.000 versos en más de 500 versiones que se corresponden con cada uno de los manuscritos y ediciones críticas confeccionados desde la Antigüedad hasta la edad contemporánea.
Asimismo, los investigadores Ramírez de Verger y Rivero prevén editar también los Opera minora de Ovidio, es decir, las obras menores del poeta latino o a él atribuidas: Ibis, Consolatio ad Liuiam, Nux, Halieutica; para lo cual ya han firmado un contrato con la editorial W. de Gruyter (Berlín-Nueva York), de forma que el libro se publicará en la Bibliotheca Teubneriana, colección de referencia mundial en textos clásicos. A este volumen se añadirá otro, a cargo del profesor Estévez Sola, con los Scholia in Ibim, también en la Bibliotheca Teubneriana.
Este equipo de investigadores de la Onubense comparte tarea con expertos de las Universidades Pablo de Olavide, Sevilla, Granada, Málaga, Extremadura y las Universidades Johns Hopkins (Baltimore, Estados Unidos) y Burdeos (Francia).
Las copias de los manuscritos se encuentran ya digitalizadas en CD,s y volcadas en memorias externas disponibles en cada uno de los centros de trabajo. Asimismo, cualquier investigador en el mundo puede acceder a muy valiosa información sobre la transmisión del texto de Ovidio a través de la página web del proyecto. Los científicos no solo pretenden divulgar sus trabajos a través de ella sino convertir la plataforma en una herramienta de trabajo para investigadores e interesados en la obra del poeta latino de todo el mundo.
Estos nuevos códices, junto con los 467 ya conocidos, amplían el catálogo hasta los 538. "Ahora somos una referencia para los investigadores de todo el mundo en el texto de Ovidio", asegura el Catedrático de Filología Latina de la UHU.
dezembro 08, 2010
5. As 210 causas da queda de Roma
No último post, quis mostrar as dificuldades que temos ao tentar descobrir o que "realmente aconteceu", e como às vezes isso é praticamente impossível - o melhor que se consegue é ficar entre duas ou três interpretações coerentes, mas sem motivos para preferir uma delas à outra. O caso de Nero, por mais interessante que seja, é relativamente simples: o que uma pessoa fez durante alguns anos. As dificuldades aumentam infinitamente quando o problema estudado é mais complexo; talvez o exemplo mais extremo, pela atenção que recebeu de inúmeros estudiosos pelos últimos séculos, seja o da queda de Roma (por Roma entenda-se a parte ocidental do império, cuja capital no século 5 já não era a cidade de Roma).
O historiador alemão Alexander Demandt reuniu em um livro as 210 causas que já haviam sido usadas para explicar a queda de Roma. Como o livro é de 1984, certamente surgiu mais um punhado de possibilidades desde então, mas Demandt serve como ponto de partida. A lista completa pode ser vista aqui (em inglês), e coloquei abaixo alguns dos destaques:
1 - abolição dos deuses;
2 - abolição dos direitos;
3 - ausência de caráter;
4 - absolutismo;
5 - questão agrária;
6 - escravidão agrária;
7 - anarquia;
8 - antigermanismo;
9 - apatia;
10 - aristocracia;
11 - ascetismo;
12 - ataque dos germanos;
13 - ataque dos hunos;
14 - ataque de cavaleiros nômades;
21 - bolchevização;
23 - burocracia;
26 - capitalismo;
29 - celibato;
30 - centralização;
32 - cristianismo;
33 - concessão de cidadania;
34 - guerra civil;
36 - comunismo;
43 - excessos culinários;
44 - neurose cultural;
45 - descentralização;
46 - declínio do caráter nórdico;
50 - degeneração;
61 - desarmamento;
68 - emancipação dos escravos;
70 - epidemias;
73 - escapismo;
76 - excesso de civilização;
78 - excesso de infiltração estrangeira;
84 - emancipação feminina;
85 - feudalização;
90 - hedonismo;
93 - homossexualidade;
97 - grandeza desmedida;
107 - inflação;
110 - irracionalidade;
111 - influência judaica;
121 - envenenamento por chumbo;
122 - letargia;
135 - militarismo;
139 - declínio moral;
148 - pacifismo;
157 - politeísmo;
158 - pressão populacional;
164 - psicoses;
165 - banhos públicos;
166 - degeneração racial;
169 - racionalismo;
179 - ruína da classe média;
187 - escravidão;
189 - socialismo de Estado;
196 - fraqueza estrutural;
199 - terrorismo;
201 - totalitarismo;
210 - vulgarização.
Algumas dessas "causas" não devem ser defendidas por ninguém desde o final da II Guerra (degeneração racial? Declínio do caráter nórdico? Influência judaica?), mas só as 60 que selecionei aqui já explicam a ascensão e a queda de praticamente qualquer coisa. Quando o mesmo fenômeno já foi atribuído ao capitalismo e ao comunismo, à anarquia, ao totalitarismo e à feudalização, ao militarismo e ao pacifismo, à centralização e à descentralização, ao racionalismo e à irracionalidade, temos um problema. O que as 210 hipóteses têm em comum é que são absurdas, ou contraditórias, ou vagas demais (incluindo a minha preferida, "fraqueza estrutural"), ou impossíveis de testar (como podemos medir o declínio moral ou o excesso de civilização?), ou ocorreram em muito pequena escala para explicar tudo (terrorismo, envenenamento por chumbo), ou, finalmente, não explicam porque apenas a metade ocidental e mais pobre do império caiu.
Para dizer a verdade, nem todas elas são ruins, e algumas só parecem absurdas quando sintetizadas em uma frase. Os ataques dos germanos tiveram alguma relação com a crise, e a fraqueza estrutural, se bem definida, também - o que leva à velha questão: Roma morreu ou foi assassinada? Caiu pelos ataques de fora ou porque estava enfraquecida demais para resistir a eles? E precisa ser por um motivo ou outro, como se as coisas não estivessem ligadas entre si?
Ou - Demandt não colocou essa possibilidade na lista, mas é uma hipótese interessante - será que Roma não caiu? A parte oriental do império, a mais populosa e rica, sobreviveu por mais um milênio, e seus habitantes se consideravam romanos até o fim, mesmo que hoje muitos os chamem de "bizantinos". A parte ocidental se fragmentou e deixou de ter um imperador em 476, mas os reis que surgiram em seu lugar eram fiéis, pelo menos teoricamente, ao imperador em Constantinopla, e em geral faziam o possível para manter o que pudessem de "romanidade" em seus territórios - afinal, a população que havia vivido sob os Césares era a mesma que agora servia aos reis visigodos, francos, etc. A tese continuísta tem seus defensores, e contribuiu para enriquecer a compreensão da cultura e da sociedade do período que se denominou Antiguidade Tardia - cujos limites são imprecisos, mas iriam, no extremo, de 200 a 800 - vista agora não pelo ângulo do "declínio", mas por seus aspectos criativos: a cristianização da sociedade, a transformação do cristianismo, a síntese cultural entre germanos e romanos, e por aí vai.
Entre os continuístas e os adeptos da "queda de Roma", com suas múltiplas hipóteses, o debate continua, e certamente vai continuar assim por bastante tempo. Para quem precisar de assunto para uma tese, sempre é possível tentar subverter as explicações e, quem sabe, atribuir a continuidade de Roma à emancipação feminina, aos excessos culinários e aos banhos públicos.
O historiador alemão Alexander Demandt reuniu em um livro as 210 causas que já haviam sido usadas para explicar a queda de Roma. Como o livro é de 1984, certamente surgiu mais um punhado de possibilidades desde então, mas Demandt serve como ponto de partida. A lista completa pode ser vista aqui (em inglês), e coloquei abaixo alguns dos destaques:
1 - abolição dos deuses;
2 - abolição dos direitos;
3 - ausência de caráter;
4 - absolutismo;
5 - questão agrária;
6 - escravidão agrária;
7 - anarquia;
8 - antigermanismo;
9 - apatia;
10 - aristocracia;
11 - ascetismo;
12 - ataque dos germanos;
13 - ataque dos hunos;
14 - ataque de cavaleiros nômades;
21 - bolchevização;
23 - burocracia;
26 - capitalismo;
29 - celibato;
30 - centralização;
32 - cristianismo;
33 - concessão de cidadania;
34 - guerra civil;
36 - comunismo;
43 - excessos culinários;
44 - neurose cultural;
45 - descentralização;
46 - declínio do caráter nórdico;
50 - degeneração;
61 - desarmamento;
68 - emancipação dos escravos;
70 - epidemias;
73 - escapismo;
76 - excesso de civilização;
78 - excesso de infiltração estrangeira;
84 - emancipação feminina;
85 - feudalização;
90 - hedonismo;
93 - homossexualidade;
97 - grandeza desmedida;
107 - inflação;
110 - irracionalidade;
111 - influência judaica;
121 - envenenamento por chumbo;
122 - letargia;
135 - militarismo;
139 - declínio moral;
148 - pacifismo;
157 - politeísmo;
158 - pressão populacional;
164 - psicoses;
165 - banhos públicos;
166 - degeneração racial;
169 - racionalismo;
179 - ruína da classe média;
187 - escravidão;
189 - socialismo de Estado;
196 - fraqueza estrutural;
199 - terrorismo;
201 - totalitarismo;
210 - vulgarização.
Algumas dessas "causas" não devem ser defendidas por ninguém desde o final da II Guerra (degeneração racial? Declínio do caráter nórdico? Influência judaica?), mas só as 60 que selecionei aqui já explicam a ascensão e a queda de praticamente qualquer coisa. Quando o mesmo fenômeno já foi atribuído ao capitalismo e ao comunismo, à anarquia, ao totalitarismo e à feudalização, ao militarismo e ao pacifismo, à centralização e à descentralização, ao racionalismo e à irracionalidade, temos um problema. O que as 210 hipóteses têm em comum é que são absurdas, ou contraditórias, ou vagas demais (incluindo a minha preferida, "fraqueza estrutural"), ou impossíveis de testar (como podemos medir o declínio moral ou o excesso de civilização?), ou ocorreram em muito pequena escala para explicar tudo (terrorismo, envenenamento por chumbo), ou, finalmente, não explicam porque apenas a metade ocidental e mais pobre do império caiu.
Para dizer a verdade, nem todas elas são ruins, e algumas só parecem absurdas quando sintetizadas em uma frase. Os ataques dos germanos tiveram alguma relação com a crise, e a fraqueza estrutural, se bem definida, também - o que leva à velha questão: Roma morreu ou foi assassinada? Caiu pelos ataques de fora ou porque estava enfraquecida demais para resistir a eles? E precisa ser por um motivo ou outro, como se as coisas não estivessem ligadas entre si?
Ou - Demandt não colocou essa possibilidade na lista, mas é uma hipótese interessante - será que Roma não caiu? A parte oriental do império, a mais populosa e rica, sobreviveu por mais um milênio, e seus habitantes se consideravam romanos até o fim, mesmo que hoje muitos os chamem de "bizantinos". A parte ocidental se fragmentou e deixou de ter um imperador em 476, mas os reis que surgiram em seu lugar eram fiéis, pelo menos teoricamente, ao imperador em Constantinopla, e em geral faziam o possível para manter o que pudessem de "romanidade" em seus territórios - afinal, a população que havia vivido sob os Césares era a mesma que agora servia aos reis visigodos, francos, etc. A tese continuísta tem seus defensores, e contribuiu para enriquecer a compreensão da cultura e da sociedade do período que se denominou Antiguidade Tardia - cujos limites são imprecisos, mas iriam, no extremo, de 200 a 800 - vista agora não pelo ângulo do "declínio", mas por seus aspectos criativos: a cristianização da sociedade, a transformação do cristianismo, a síntese cultural entre germanos e romanos, e por aí vai.
Entre os continuístas e os adeptos da "queda de Roma", com suas múltiplas hipóteses, o debate continua, e certamente vai continuar assim por bastante tempo. Para quem precisar de assunto para uma tese, sempre é possível tentar subverter as explicações e, quem sabe, atribuir a continuidade de Roma à emancipação feminina, aos excessos culinários e aos banhos públicos.
dezembro 05, 2010
4. Nero e os limites do conhecimento
Existem três coisas que são de conhecimento geral sobre o imperador romano Nero (quinto imperador, governou de 54 até 68):
1 - ele era maaaaau e bandido;
2 - de tão mau, colocou fogo em Roma. De tão bandido, tocou lira e cantou durante o incêndio;
3 - de tão mau, perseguiu cristãos. De tão bandido, matou os apóstolos Pedro e Paulo.
Existem outros fatozinhos mais ou menos conhecidos - ele matou também a própria mãe, se considerava um artista, a população celebrou a sua morte - e todos contribuem para formar a imagem de um vilão insano, digno de filmes de James Bond.
Em outras palavras, Nero se tornou praticamente um símbolo perfeito de uma das concepções que as pessoas fazem de Roma: a de um império moralmente corrompido, entregue a orgias, com uma sucessão de tiranos homicidas no governo, que passavam seus dias entre as festas e atirar os cristãos aos leões. De alguma maneira difícil de entender, essa visão consegue coexistir com a de Roma como império iluminado, o maior do mundo, fonte de leis e cultura, de altas realizações na engenharia, e que vivia se protegendo dos bárbaros que, esses sim, eram realmente maus.
Resolver essa esquizofrenia cultural seria assunto para mais de um livro, especialmente porque as duas visões vêm da própria época romana: como hoje existem pessoas que acham que o Brasil está se tornando uma potência e as que pensam que ele está perdido, que a geração de hoje não tem moralidade, a família tradicional está desaparecendo e há bandidos em cada canto (etc etc etc), alguns romanos achavam que estava tudo bem com o império enquanto outros viam problemas por todos os lados e louvavam os bons velhos tempos em que Roma supostamente era simples e virtuosa.
Mas voltemos a Nero. Como é que sabemos que ele era desse ou daquele jeito, que fez essas ou aquelas coisas? Como podemos saber qualquer coisa a respeito dele? Eis o problema básico da atividade de historiador.
Via de regra, não usamos laboratórios (os arqueólogos podem usar laboratórios para datar materiais, mas essa é praticamente a única exceção). Não temos como fazer experimentos que recriem o passado, colocando algumas pessoas dentro da reconstrução de uma casa romana e fazendo um reality show a respeito (seria uma experiência exótica e talvez desse audiência, mas não aprenderíamos nada sobre a vida romana). Não temos como entrevistar Nero, seus amigos, subordinados, inimigos, nem ninguém que tenha vivido na metade do século 1, a menos que algum médium prestativo se disponha a fazer uma contribuição à ciência.
O que fazemos é agir um pouco como Sherlock Holmes: ele também não podia reconstruir o passado para fazer suas investigações. Ao invés disso, ele juntava pistas - os vestígios que o passado deixou (relatos das testemunhas, pegadas, a arma do crime...) - e com elas formulava teorias para responder a questão que estava investigando. Como Sherlock era um gênio com uma capacidade de observação impressionante, e ainda por cima tinha a vantagem injusta de ser o protagonista, quase sempre chegava à conclusão certa e descobria quem estava quebrando bustos de Napoleão, quem roubou o cavalo Estrela de Prata ou o que significava o ritual Musgrave.
O método do historiador é mais ou menos o mesmo: fazer uma pergunta, juntar as evidências, interpretá-las de uma forma que faça sentido. Infelizmente, enquanto Sherlock podia provar definitivamente que estava certo encontrando o cavalo desaparecido, ou capturando o assassino e ouvindo sua confissão, nem toda pergunta histórica tem uma prova tão conclusiva - é raro alguém encontrar o equivalente a um diário de Nero contando todas as suas preparações para incendiar a capital. Na falta de uma solução definitiva, os historiadores passam boa parte do tempo discutindo interpretações, se tal evidência é confiável ou não, qual de dois depoimentos contraditórios está correto - algo como os desembargadores em um tribunal.
(Apenas para constar, as comparações com Sherlock Holmes ou com juízes não são inéditas. São da autoria de Carlo Ginzburg, um dos maiores historiadores vivos.)
Então, quais são as pistas que temos sobre Nero? Não muitas; moedas do seu reinado, ou os vestígios do seu palácio, podem ajudar a compreender a situação de Roma sob seu governo, mas não nos dizem muito sobre o indivíduo. Para compreendê-lo, precisamos nos voltar para os textos, e esses também são poucos. A maior parte do que se escreveu na época, como em qualquer período antes da imprensa, está perdido - como todos os livros da época eram manuscritos, a sobrevivência de um livro qualquer através das gerações dependia de pelo menos uma das poucas cópias parar nas mãos de alguém disposto a preservar seu manuscrito e fazer uma nova cópia se necessário. A surpresa, nessas condições, não é que tenhamos perdido quase tudo, mas que alguns textos tenham sido preservados.
Infelizmente, não temos muito acesso ao que os contemporâneos de Nero pensavam dele. Algumas menções passageiras sobreviveram, mas nenhum relato detalhado. Para encontrar os primeiros relatos, precisamos avançar no tempo até várias décadas após a morte do imperador, quando surgem as principais fontes do que podemos saber sobre ele: as Vidas dos doze césares, de Suetônio, e os Anais e Histórias de Tácito, escritos no começo do século 2.
Em tese, encontramos nossas pistas, e bastaria juntar o que dizem para podermos saber que tipo de pessoa foi Nero. Uma leitura rápida das fontes mostra que concordam no básico: o governo de Nero começou bem mas logo tornou-se tirânico, com direito a montes de execuções, Roma pegou fogo, ele começou a perseguir os cristãos, e eventualmente se tornou tão odiado que alguns dos principais generais resolveram derrubá-lo e, para escapar à captura, Nero cometeu suicídio. Apenas para complicar os pobres romanos, cada general agiu separadamente em busca do poder, causando uma guerra civil após a morte de Nero, e ainda hoje 69 é conhecido como o Ano dos Quatro Imperadores, em referência aos breves reinados de Galba, Oto, Vitélio e o início do reinado de Vespasiano.
Mas o diabo está nos detalhes. Primeiro problema: é discutível até que ponto podemos confiar nas fontes. Ambos escreveram quase cinquenta anos depois da morte de Nero, quando a coleta de informações era mais difícil. As Vidas de Suetônio são especialmente problemáticas: ele gostava de falar das intrigas familiares, das anedotas picantes e de fatos sensacionalistas que tornam seu livro o equivalente antigo a um tabloide - foi ele, por exemplo, quem disse que Calígula planejava tornar seu cavalo cônsul. Tácito é considerado um historiador mais confiável, mas parte de seu relato sobre Nero está perdido. Ainda por cima, os dois, mas principalmente Tácito, não eram grandes fãs do regime imperial, preferindo a tradição republicana associada aos senadores.
Até agora, temos relatos escritos mais tarde do que o desejado, e por autores que tinham seus motivos para, na dúvida, falar mal de um imperador. Outro problema, agora mais sério: eles não concordam em tudo. Suetônio diz que Nero foi o responsável pelo incêndio de Roma, e enquanto assistia a destruição do alto de uma torre cantou uma música sobre o saque de Troia (Vida de Nero, c. 38). Mas Tácito conta uma história completamente diferente: Nero nem estava em Roma quando começou o incêndio, e ao voltar construiu abrigos para os sem-teto, inclusive em suas próprias terras, e trouxe suprimentos de comida a preços baixos - medidas de relações públicas que teriam fracassado graças ao rumor de que, durante o incêndio, ele teria cantado sobre a destruição de Troia em um palco particular (Anais, 15, 39). Não é preciso muito esforço mental para deduzir que pelo menos uma dessas narrativas está errada. Apesar de o Nero piromaníaco de Suetônio ser o preferido no imaginário das pessoas, a versão de Tácito tem um ponto forte a seu favor: Tácito detestava Nero, e faz longas listas das barbaridades que ele cometeu. Se Tácito pudesse ter atribuído o incêndio de Roma a Nero com alguma credibilidade, provavelmente teria feito exatamente isso.
Outras questões também são difíceis de resolver. Suetônio e Tácito concordam que Nero perseguiu os cristãos - Suetônio fala deles como "adeptos de uma superstição nova e maléfica", e Tácito diz que serviram como bodes expiatórios pelo incêndio de Roma, para que Nero pudesse recuperar sua credibilidade. Nenhuma menção a cristãos específicos, como Pedro e Paulo, e a Bíblia também não nos diz nada sobre seus supostos martírios em Roma. Os martírios só são mencionados em documentos ainda posteriores, como a História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, do início do século 4:
"Foi também ele [Nero], o primeiro de todos os figadais inimigos de Deus, que teve a presunção de matar os apóstolos. Com efeito, conta-se que sob seu reinado Paulo foi decapitado em Roma. E ali igualmente Pedro foi crucificado. Confirmam tal asserção os nomes de Pedro e de Paulo, até hoje atribuídos aos cemitérios da cidade" (História Eclesiástica, livro 2, 25, 5).
Podemos afirmar confiantemente que Nero perseguiu cristãos, mas como ter certeza desses dois em particular? Eusébio e outros autores cristãos estariam relatando uma tradição autêntica, ou os cristãos de Roma teriam associado a sua cidade a dois dos maiores líderes cristãos, com todo o prestígio que essa associação traz ainda hoje, sem grandes evidências?
Finalmente, é discutível se Nero era mesmo universalmente odiado. Suetônio termina sua Vida dizendo que algumas pessoas colocavam flores em seu túmulo, e havia mesmo pessoas que se faziam passar por Nero, com algum sucesso. Tácito diz que a "porção respeitável" da sociedade alegrou-se com sua morte, mas não a "população degradada" (Histórias, 1, 4). Vindo de um romano da elite, isso não leva a crer que o imperador era detestado pela elite, mas não pela população em geral?
É por incertezas assim que questões como "o verdadeiro Nero" são discutidas há tempo e continuarão sendo: infelizmente, nosso conhecimento tem limites e em alguns casos só podemos dizer o que é mais ou menos provável. O que exatamente ele fez, ou como conciliar toda sua violência com o respeito que os pobres aparentemente tinham por ele, são quebra-cabeças com várias peças faltando.
Mas continuo achando que ele não teve nada a ver com o incêndio.
1 - ele era maaaaau e bandido;
2 - de tão mau, colocou fogo em Roma. De tão bandido, tocou lira e cantou durante o incêndio;
3 - de tão mau, perseguiu cristãos. De tão bandido, matou os apóstolos Pedro e Paulo.
Existem outros fatozinhos mais ou menos conhecidos - ele matou também a própria mãe, se considerava um artista, a população celebrou a sua morte - e todos contribuem para formar a imagem de um vilão insano, digno de filmes de James Bond.
Em outras palavras, Nero se tornou praticamente um símbolo perfeito de uma das concepções que as pessoas fazem de Roma: a de um império moralmente corrompido, entregue a orgias, com uma sucessão de tiranos homicidas no governo, que passavam seus dias entre as festas e atirar os cristãos aos leões. De alguma maneira difícil de entender, essa visão consegue coexistir com a de Roma como império iluminado, o maior do mundo, fonte de leis e cultura, de altas realizações na engenharia, e que vivia se protegendo dos bárbaros que, esses sim, eram realmente maus.
Resolver essa esquizofrenia cultural seria assunto para mais de um livro, especialmente porque as duas visões vêm da própria época romana: como hoje existem pessoas que acham que o Brasil está se tornando uma potência e as que pensam que ele está perdido, que a geração de hoje não tem moralidade, a família tradicional está desaparecendo e há bandidos em cada canto (etc etc etc), alguns romanos achavam que estava tudo bem com o império enquanto outros viam problemas por todos os lados e louvavam os bons velhos tempos em que Roma supostamente era simples e virtuosa.
Mas voltemos a Nero. Como é que sabemos que ele era desse ou daquele jeito, que fez essas ou aquelas coisas? Como podemos saber qualquer coisa a respeito dele? Eis o problema básico da atividade de historiador.
Via de regra, não usamos laboratórios (os arqueólogos podem usar laboratórios para datar materiais, mas essa é praticamente a única exceção). Não temos como fazer experimentos que recriem o passado, colocando algumas pessoas dentro da reconstrução de uma casa romana e fazendo um reality show a respeito (seria uma experiência exótica e talvez desse audiência, mas não aprenderíamos nada sobre a vida romana). Não temos como entrevistar Nero, seus amigos, subordinados, inimigos, nem ninguém que tenha vivido na metade do século 1, a menos que algum médium prestativo se disponha a fazer uma contribuição à ciência.
O que fazemos é agir um pouco como Sherlock Holmes: ele também não podia reconstruir o passado para fazer suas investigações. Ao invés disso, ele juntava pistas - os vestígios que o passado deixou (relatos das testemunhas, pegadas, a arma do crime...) - e com elas formulava teorias para responder a questão que estava investigando. Como Sherlock era um gênio com uma capacidade de observação impressionante, e ainda por cima tinha a vantagem injusta de ser o protagonista, quase sempre chegava à conclusão certa e descobria quem estava quebrando bustos de Napoleão, quem roubou o cavalo Estrela de Prata ou o que significava o ritual Musgrave.
O método do historiador é mais ou menos o mesmo: fazer uma pergunta, juntar as evidências, interpretá-las de uma forma que faça sentido. Infelizmente, enquanto Sherlock podia provar definitivamente que estava certo encontrando o cavalo desaparecido, ou capturando o assassino e ouvindo sua confissão, nem toda pergunta histórica tem uma prova tão conclusiva - é raro alguém encontrar o equivalente a um diário de Nero contando todas as suas preparações para incendiar a capital. Na falta de uma solução definitiva, os historiadores passam boa parte do tempo discutindo interpretações, se tal evidência é confiável ou não, qual de dois depoimentos contraditórios está correto - algo como os desembargadores em um tribunal.
(Apenas para constar, as comparações com Sherlock Holmes ou com juízes não são inéditas. São da autoria de Carlo Ginzburg, um dos maiores historiadores vivos.)
Então, quais são as pistas que temos sobre Nero? Não muitas; moedas do seu reinado, ou os vestígios do seu palácio, podem ajudar a compreender a situação de Roma sob seu governo, mas não nos dizem muito sobre o indivíduo. Para compreendê-lo, precisamos nos voltar para os textos, e esses também são poucos. A maior parte do que se escreveu na época, como em qualquer período antes da imprensa, está perdido - como todos os livros da época eram manuscritos, a sobrevivência de um livro qualquer através das gerações dependia de pelo menos uma das poucas cópias parar nas mãos de alguém disposto a preservar seu manuscrito e fazer uma nova cópia se necessário. A surpresa, nessas condições, não é que tenhamos perdido quase tudo, mas que alguns textos tenham sido preservados.
Infelizmente, não temos muito acesso ao que os contemporâneos de Nero pensavam dele. Algumas menções passageiras sobreviveram, mas nenhum relato detalhado. Para encontrar os primeiros relatos, precisamos avançar no tempo até várias décadas após a morte do imperador, quando surgem as principais fontes do que podemos saber sobre ele: as Vidas dos doze césares, de Suetônio, e os Anais e Histórias de Tácito, escritos no começo do século 2.
Em tese, encontramos nossas pistas, e bastaria juntar o que dizem para podermos saber que tipo de pessoa foi Nero. Uma leitura rápida das fontes mostra que concordam no básico: o governo de Nero começou bem mas logo tornou-se tirânico, com direito a montes de execuções, Roma pegou fogo, ele começou a perseguir os cristãos, e eventualmente se tornou tão odiado que alguns dos principais generais resolveram derrubá-lo e, para escapar à captura, Nero cometeu suicídio. Apenas para complicar os pobres romanos, cada general agiu separadamente em busca do poder, causando uma guerra civil após a morte de Nero, e ainda hoje 69 é conhecido como o Ano dos Quatro Imperadores, em referência aos breves reinados de Galba, Oto, Vitélio e o início do reinado de Vespasiano.
Mas o diabo está nos detalhes. Primeiro problema: é discutível até que ponto podemos confiar nas fontes. Ambos escreveram quase cinquenta anos depois da morte de Nero, quando a coleta de informações era mais difícil. As Vidas de Suetônio são especialmente problemáticas: ele gostava de falar das intrigas familiares, das anedotas picantes e de fatos sensacionalistas que tornam seu livro o equivalente antigo a um tabloide - foi ele, por exemplo, quem disse que Calígula planejava tornar seu cavalo cônsul. Tácito é considerado um historiador mais confiável, mas parte de seu relato sobre Nero está perdido. Ainda por cima, os dois, mas principalmente Tácito, não eram grandes fãs do regime imperial, preferindo a tradição republicana associada aos senadores.
Até agora, temos relatos escritos mais tarde do que o desejado, e por autores que tinham seus motivos para, na dúvida, falar mal de um imperador. Outro problema, agora mais sério: eles não concordam em tudo. Suetônio diz que Nero foi o responsável pelo incêndio de Roma, e enquanto assistia a destruição do alto de uma torre cantou uma música sobre o saque de Troia (Vida de Nero, c. 38). Mas Tácito conta uma história completamente diferente: Nero nem estava em Roma quando começou o incêndio, e ao voltar construiu abrigos para os sem-teto, inclusive em suas próprias terras, e trouxe suprimentos de comida a preços baixos - medidas de relações públicas que teriam fracassado graças ao rumor de que, durante o incêndio, ele teria cantado sobre a destruição de Troia em um palco particular (Anais, 15, 39). Não é preciso muito esforço mental para deduzir que pelo menos uma dessas narrativas está errada. Apesar de o Nero piromaníaco de Suetônio ser o preferido no imaginário das pessoas, a versão de Tácito tem um ponto forte a seu favor: Tácito detestava Nero, e faz longas listas das barbaridades que ele cometeu. Se Tácito pudesse ter atribuído o incêndio de Roma a Nero com alguma credibilidade, provavelmente teria feito exatamente isso.
Outras questões também são difíceis de resolver. Suetônio e Tácito concordam que Nero perseguiu os cristãos - Suetônio fala deles como "adeptos de uma superstição nova e maléfica", e Tácito diz que serviram como bodes expiatórios pelo incêndio de Roma, para que Nero pudesse recuperar sua credibilidade. Nenhuma menção a cristãos específicos, como Pedro e Paulo, e a Bíblia também não nos diz nada sobre seus supostos martírios em Roma. Os martírios só são mencionados em documentos ainda posteriores, como a História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, do início do século 4:
"Foi também ele [Nero], o primeiro de todos os figadais inimigos de Deus, que teve a presunção de matar os apóstolos. Com efeito, conta-se que sob seu reinado Paulo foi decapitado em Roma. E ali igualmente Pedro foi crucificado. Confirmam tal asserção os nomes de Pedro e de Paulo, até hoje atribuídos aos cemitérios da cidade" (História Eclesiástica, livro 2, 25, 5).
Podemos afirmar confiantemente que Nero perseguiu cristãos, mas como ter certeza desses dois em particular? Eusébio e outros autores cristãos estariam relatando uma tradição autêntica, ou os cristãos de Roma teriam associado a sua cidade a dois dos maiores líderes cristãos, com todo o prestígio que essa associação traz ainda hoje, sem grandes evidências?
Finalmente, é discutível se Nero era mesmo universalmente odiado. Suetônio termina sua Vida dizendo que algumas pessoas colocavam flores em seu túmulo, e havia mesmo pessoas que se faziam passar por Nero, com algum sucesso. Tácito diz que a "porção respeitável" da sociedade alegrou-se com sua morte, mas não a "população degradada" (Histórias, 1, 4). Vindo de um romano da elite, isso não leva a crer que o imperador era detestado pela elite, mas não pela população em geral?
É por incertezas assim que questões como "o verdadeiro Nero" são discutidas há tempo e continuarão sendo: infelizmente, nosso conhecimento tem limites e em alguns casos só podemos dizer o que é mais ou menos provável. O que exatamente ele fez, ou como conciliar toda sua violência com o respeito que os pobres aparentemente tinham por ele, são quebra-cabeças com várias peças faltando.
Mas continuo achando que ele não teve nada a ver com o incêndio.
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