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outubro 01, 2012

80. Eric Hobsbawm (1917-2012)

Eric Hobsbawm, um dos grandes historiadores de nosso tempo, morreu hoje de pneumonia. O tamanho da perda intelectual que seu falecimento representa é bem conhecido por quem tiver lido um de seus livros sobre numerosos assuntos: marxismo, história do trabalho, história do jazz, o "longo século 19" de 1789-1914, o "curto século 20" de 1914-1991, globalização, invenção de tradições culturais e provavelmente outros assuntos ainda...

Qual livro dele mais me marcou? O primeiro que li, Era dos extremos. Foi uma das obras que me convenceram de que um historiador pode transmitir ideias inteligentes e ao mesmo tempo escrever de forma acessível aos leitores.

O que gostaria que ele tivesse vivido para fazer? Uma revisão de Era das revoluções, Era do capital e Era dos impérios. A "trilogia das eras" abarca todo o século 19 e continua importante ainda hoje, mas foi escrita há bastante tempo (o primeiro foi lançado em 1962) e teria ganho um surto extra de vitalidade com a revisão e atualização de detalhes em que a historiografia avançou desde então.


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Morre aos 95 anos em Londres o historiador Eric Hobsbawm

Intelectual é considerado um dos maiores historiadores do século XX.
Britânico escreveu 'A era dos extremos', 'A era do capital' e outras obras.

Do G1, com agências internacionais
172 comentários
O historiador britânico Eric Hobsbawm morreu de pneumonia nesta segunda-feira (1º) aos 95 anos no hospital Royal Free de Londres, informou sua família.
O intelectual marxista é considerado um dos maiores historiadores do século XX e escreveu "A era das revoluções", "A era do capital", "A era dos impérios", "Era dos extremos", entre outras obras.
Ele também era um entusiasta e crítico do jazz, escrevendo resenhas para jornais sobre o gênero musical e publicando o livro "História social do jazz".
Sua filha, Julia Hobsbawm, disse: "Ele morreu de pneumonia nas primeiras horas da manhã em Londres. Ele fará falta não apenas para sua esposa há 50 anos, Marlene, e seus três filhos, sete netos e um bisneto, mas também por seus milhares de leitores e estudantes ao redor do mundo".
"Até o fim, ele estava se esforçando ao máximo, ele estava se atualizando, havia uma pilha de jornais em sua cama", completou a filha.
Na manhã desta segunda-feira, Julia escreveu em seu perfil no Twitter que se sentia "comovida" pela "gentileza e pelas condolências de amigos e desconhecidos hoje pelo meu amável e incomparável pai" (leia o tuíte, em inglês).
Trajetória
Eric John Ernest Hobsbawm nasceu de uma família judia em Alexandria, no Egito, em 9 de junho de 1917.
Seu pai era britânico, descendente de artesãos da Polônia e Rússia, e a família de sua mãe era da classe média austríaca.
Hobsbawn cresceu em Viena, capital da Áustria, e em Berlim, capital da Alemanha.
Ele aderiu ao Partido Comunista aos 14 anos, após a morte precoce de seus pais. Na ocasião, ele foi morar com seu tio.
Na escola, ele informou o diretor que ele era comunista e argumentou que o país precisava de uma revolução.
"Ele me fez umas perguntas e disse: 'Você claramente não faz ideia do que está falando. Faça o favor de ir à biblioteca e veja o que consegue descobrir'", disse em uma entrevista à BBC em 2012. "E então eu descobri o Manifesto Comunista [de Karl Marx] e foi isso", relatou, indicando o começo de sua formação marxista.
Em 1933, quando Hitler começava a subir no poder na Alemanha, Hobsbawm foi para Londres, na Inglaterra, onde obteve cidadania britânica.
O historiador se filiou ao Partido Comunista da Inglaterra em 1936 e continuou membro da legenda mesmo após o ataque das forças soviéticas à Hungria em 1956 e as reformas liberais de Praga em 1968, embora tenha criticado os dois eventos. O ex-líder do partido Neil Kinnock chegou a chamar Hobsbawm de "meu marxista predileto".
'Muito comovida pela total gentileza e pelas condolências de amigos e desconhecidos hoje pelo meu amável e incomparável pai', escreveu Julia (Foto: Reprodução)'Muito comovida pela total gentileza e pelas
condolências de amigos e desconhecidos hoje
pelo meu amável e incomparável pai', escreveu
Julia na manhã desta segunda (Foto: Reprodução)
Anos depois, ele disse que "nunca havia tentado diminuir as coisas terríveis que haviam acontecido na Rússia", mas que acreditava que, no início do projeto comunista, um novo mundo estava nascendo.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Hobsbawm foi alocado a uma unidade de engenharia em que foi apresentada a ele, pela primeira vez, a classe proletária.
"Eu não sabia muito sobre a classe proletária britânica, apesar de ser comunista. Mas, vivendo e trabalhando com eles, pensei que eram boas pessoas", disse à BBC em 1995.
O historiador aprovou neles a "solidariedade, e um sentimento muito forte de classe, um sentimento de pertencer junto, de não querer que ninguém os derrubasse".
Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana".
Ele veio ao Brasil em 2003 participar da primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), evento do qual foi estrela.
 Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana" (Foto:  AFP/©Effigie/Leemage) Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana" (Foto: AFP/©Effigie/Leemage)
Vida acadêmica
Hobsbawm estudou no King's College de Cambridge e começou a dar aula na Universidade de Birkbeck em 1947, mais tarde tornando-se reitor da instituição.
Ele também passou temporadas como professor convidado nos Estados Unidos e lecionou na Universidade de Stanford, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e na Universidade de Cornel.
Em 1998, ele recebeu o título de Companhia de Honra. O prêmio, raramente concedido a historiadores, o colocou ao lado de ilustres como Stephen Hawking, Doris Lessing e Sir Ian McKellan.
Seu colega historiador A.J.P. Taylor, morto em 1990, disse que o trabalho de Hobsbawm se destacava pelas explicações precisas dos acontecimentos pelo interesse em pessoas comuns.
"A maior parte dos historiadores, por uma espécie de mal da profissão, se interessa somente pelas classes mais altas e pressupõe que eles mesmos fariam parte destes privilegiados se tivessem vivido um século ou dois atrás - uma possibilidade muito remota", escreveu Taylor. "A lealdade do Sr. Hobsbawm está firmemente do outro lado das barricadas", disse.
Eric Hobsbawm durante uma feira do livro em Leipzig, em 1999 (Foto: Eckehard Schulz/AP)Eric Hobsbawm durante uma feira do livro em
Leipzig, em 1999 (Foto: Eckehard Schulz/AP)
ObrasO primeiro livro de Hobsbawm, "Rebeldes primitivos", publicado em 1959, é um estudo dos que ele chamava de "agitadores sociais pré-políticos", incluindo ligas de camponeses sicilianos e gangues e bandidos metropolitanos, um exemplo de seu interesse pela história das organizações da classe trabalhadora.
No mesmo ano, ele escreveu uma obra sobre jazz e começou a colaborar como crítico para a revista "New Statesman" usando o pseudônimo Francis Newton, em homenagem ao trompetista comunista que acompanhava a cantora americana de jazz Billie Holiday.
Em 1962, ele publicou "Era da revolução", primeiro de três volumes sobre o que chamou de "o longo século XIX", cobrindo o período entre 1789, ano da Revolução Francesa, e 1914, começo da I Guerra Mundial. Os seguintes foram "Era do capital" (1975) e "Era dos impérios" (1987).
O quarto livro da sequência, "Era dos extremos" (1994), retratou a história até 1991, com o fim da União Soviética. Ele foi traduzido para quase 40 línguas e recebeu muitos prêmios internacionais.
Suas memórias, publicadas quando tinha 85 anos, elencaram os momentos cruciais na história europeia moderna nos quais ele viveu, e também foram um best-seller.
Seu último livro é "Como mudar o mundo", de 2011, e é um compilado de textos escritos, desde a década de 1960, sobre Karl Marx e o marxismo
De acordo com o jornal britânico "The Guardian", ele tem um livro em revisão a ser publicado em 2013.

setembro 27, 2012

78. O alcance limitado da Comissão da Verdade

Um texto do historiador Carlos Fico que dá o que pensar. Por que a população brasileira em geral não está dando a mínima para as investigações da Comissão da Verdade? A resposta que ele oferece faz sentido: porque existe uma ênfase grande na repressão aos militantes de esquerda e membros da luta armada, que (isso ele não diz com todas as letras, mas se subentende) tinham uma posição minoritária e não compartilhada por muitos. A solução para isso: mudar o foco para as arbitrariedades e desmandos cometidos em um nível mais cotidiano, coisas como o artista que era censurado sem saber o motivo ou o político que era investigado por vingança de um rival, entre outros exemplos que Fico dá.

Ou, colocando de outra forma: é preciso resgatar as pessoas comuns que viveram no período e não necessariamente se identificavam quer com os militares quer com a guerrilha.

A opinião dele vai ser levada em conta? Dificilmente. Mas o que ele sugere é exatamente o tipo de investigação que mostraria que não eram apenas os guerrilheiros que sofreram, que poderia destruir o velho mito dos saudosistas do governo militar: "quem não criava problemas não tinha o que temer".

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Verdade para todos


Carlos Fico

Por que os trabalhos da Comissão da Verdade mobilizam apenas a militância dos direitos humanos?

Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos visitou a Argentina, em 1979, ainda durante a ditadura, formaram-se filas de pessoas que traziam suas denúncias. Depois do término do regime militar, a entrega e publicação do relatório final da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas alcançou grande repercussão.

A Comissão da Verdade da África do Sul transmitiu suas audiências pela TV e pelo rádio.

A comissão brasileira está há seis meses trabalhando, desde março deste ano. Somente neste mês de setembro decidiu que vai mesmo enfatizar a ditadura militar (e não todo o período 1946/1988, como estabelece a lei que a criou) e que apenas investigará os "agentes públicos" e não os adversários do regime, resposta à polêmica sobre investigar apenas um ou os dois "lados".

Nos eventos públicos que promove, a frequência é quase sempre a mesma, reunindo vítimas e parentes de vítimas da repressão durante o regime militar, militantes que lutam pela defesa dos direitos humanos, segmentos organizados da sociedade (movimento estudantil, alguns sindicatos), pesquisadores e quase só. As questões que a Comissão da Verdade tem levantado aparentemente não interessam à maioria da sociedade.

Isso não mudará se alguma providência não for tomada. Em agosto passado, atendendo a convite, falei à comissão sobre as razões do golpe de 1964. No final da minha exposição, pedi licença para considerar outras questões. Afirmei que seria importante incluir as "pessoas comuns" no rol das vítimas.

De fato, muitas pessoas que não participaram da luta armada, ou sequer faziam oposição ostensiva à ditadura militar, foram vítimas do regime. Mas quase não se fala delas. Um professor universitário, por exemplo, pode ter sido cogitado para um cargo de chefia qualquer em sua universidade, mas não foi promovido porque a espionagem da época impediu. Casos assemelhados podem ter acontecido nas empresas estatais e autarquias. Essas pessoas podem nem ao menos saber o que lhes aconteceu.

Políticos inexpressivos de pequenas cidades podem ter sido injustamente investigados pela Comissão Geral de Investigações (um tribunal de exceção que julgava sumariamente supostos corruptos) apenas porque um adversário local, por vingança pessoal, enviou uma carta acusando-o.

Cineastas, dramaturgos, atores, escritores e músicos foram censurados. Não necessariamente porque produziam obras de arte críticas, de protesto, mas, por exemplo, porque o censor da época identificou algo de "imoral" em seus trabalhos.

A abordagem desses e de outros casos assemelhados pela Comissão da Verdade talvez conferisse outra dimensão aos seus trabalhos, chamando a atenção da sociedade para o fato de que a ditadura militar brasileira foi muito violenta - mesmo que no Brasil não tenha havido tantos mortos quanto no caso da Argentina. Nesses exemplos não houve tortura ou assassinato, mas eles também são expressão de um tipo de violência, decorrente da capacidade do regime brasileiro de invadir o cotidiano das pessoas e - segundo seus critérios obscuros - fazer o que quisesse.

Essas histórias estão guardadas nos documentos recentemente liberados pelo Arquivo Nacional. Seria preciso pesquisá-los.

julho 12, 2012

74. Caos no Mali

Se os transtornos que abalam o Mali nos últimos tempos estivessem ocorrendo em outra região do mundo que não a África, certamente nossa mídia estaria prestando atenção constante. Mas como os malineses são africanos, ganham apenas algumas notícias esporádicas.



O Mali, ex-colônia francesa com território duas vezes maior que o da ex-metrópole, tinha até recentemente um regime democrático bem estabelecido, apesar de ser um país pobre. Por "recentemente", entenda-se março, quando um golpe militar derrubou o presidente Amadou Touré. Para os militares, Touré não estava lidando de forma competente com o separatismo na região norte do país.



A imagem de satélite acima mostra a divisão geográfica do Mali: o sul mais fértil, por onde passa o rio Níger e onde se encontra a maior parte da população, e o norte desértico, parte do Saara. No norte predominam os tuaregues, etnia cuja atividade principal é o pastoreio, e que não estão restritos ao Mali, vivendo em zonas também desérticas dos países vizinhos.
Os tuaregues estão reivindicando há tempos seu próprio país, já tendo se revoltado nas décadas de 60 e 90. O que tornou sua atividade recente mais intensa? A queda do governante da Líbia, Muamar Kadafi. Com a morte de Kadafi em outubro de 2011, muitos tuaregues que formavam parte de seu exército voltaram para o Mali com armamentos pesados.



Até aqui, temos: guerra civil na Líbia > morte de Kadafi > tuaregues que serviam no exército líbio regressam ao Mali > aumento do separatismo entre os tuaregues do norte do Mali > militares depõem o presidente por não conseguir lidar com a crise.
Ironicamente, a ação dos militares serviu para precipitar a situação que queriam evitar. Enquanto militares e civis disputavam o poder na capital Bamako, os rebeldes ao norte tomaram diversas cidades. O principal grupo separatista, o MNLA (Movimento Nacional pela Libertação do Azawad), declarou independência em 6 de abril. Até o momento, o Azawad (como os tuaregues chamam sua região e o novo país) não foi reconhecido por nenhum país.

Isso poderia parecer meramente um reajuste das fronteiras africanas, tão frágeis por serem completamente arbitrárias. Como se sabe, os países do continente são quase todos derivados das colônias europeias estabelecidas no final do século 19, sem nenhuma consideração pela realidade geográfica, étnica ou política local, e isso contribuiu para tornar esses países altamente instáveis. Mas há outro elemento no caldeirão de caos malinês: o Islã militante.

O MNLA, formado por muçulmanos com tendências seculares, era o principal grupo separatista, mas não o único. O segundo grupo em importância é o Ansar Dine, muçulmanos radicais que pretendiam formar um Estado islâmico no Azawad e, diz-se, vinculados à Al-Qaida. O MNLA e o Ansar Dine aliaram-se por algum tempo, mas agora estão se enfrentando, e os radicais levam vantagem. Em particular, tomaram a cidade histórica de Timbuctu, que o MNLA pretendia tornar a capital do novo país.

Timbuctu, fundada no século 12, foi por muito tempo um centro comercial por onde passavam as caravanas trans-saarianas e um centro intelectual de difusão do Islã pela África ocidental. Um dos monumentos a seus dias de glória é a mesquisa de Djinguereber, construída no século 14, que além de servir como templo abrigava um importante madraçal (simplificando um pouco, uma faculdade/escola religiosa islâmica).


Os membros do Ansar Dine querem agora conformar Timbuctu aos seus próprios padrões de como deveria ser o Islã, mesmo que isso signifique arruinar monumentos. Nos últimos dias, entraram em Djinguereber e destruíram várias tumbas de santos sufistas enterrados ali.

O leitor talvez pergunte: eles não são muçulmanos? Por que estão destruindo monumentos muçulmanos? E o que são santos sufistas?
A resposta às duas primeiras perguntas é bem simples: o Islã é um pouco parecido com o cristianismo na sua capacidade de gerar divisões que fazem pouco sentido para quem está de fora, mas são importantíssimas para os membros de grupos rivais. O Ansar Dine, ao que parece, segue a vertente salafista, defensora do retorno às origens islâmicas e que poderíamos chamar de puritanos ou fundamentalistas. Portanto, do seu ponto de vista, eles não estão destruindo monumentos: estão purificando um santuário.
Já o sufismo é a corrente mística do Islã, tomando a palavra "místico" em seu sentido original: a busca por contato direto e pessoal com a divindade. Apesar de serem considerados pouco ortodoxos por boa parte dos demais muçulmanos, eles se mantêm até hoje. E, ao longo do tempo, alguns dos principais líderes sufistas se tornaram quase objetos de culto, com peregrinações anuais a seus túmulos, aproximando-se um pouco dos santos católicos. A reverência aos "santos" e as peregrinações são, desnecessário dizer, exatamente o que o Ansar Dine espera parar com suas depredações.

Em suma, eis a situação atual do Mali, dividido entre um governo fraco ao sul, dois grupos separatistas ao norte, um conflito com potencial para se alastrar pelos países vizinhos com minorias tuaregues, e, além de tudo, tentativas de destruir o passado e a religiosidade popular de seus habitantes. Pelo jeito, o século 21 ainda não vai ser o século da África.

junho 17, 2012

70. Patrimônio italiano ameaçado


Uma consequência da crise econômica italiana: o patrimônio artístico e histórico do país, que já não era preservado como deveria, está mais abandonado que de costume. Além dos problemas de Pompeia e do Coliseu, agora é a vez da Fontana di Trevi, uma das principais atrações de Roma, começar a deteriorar - pedaços da decoração já estão caindo por falta de manutenção.

Talvez seja hora de o governo italiano lembrar que a preservação de monumentos é, no mínimo dos mínimos, um investimento para atrair turistas, e que em 2011 a Itália, como quinto país mais procurado, ganhou 30.9 bilhões de euros com turismo (atrás apenas de Estados Unidos, Espanha, França e China). Isso para não falar em seu valor cultural ou como elemento de uma identidade nacional, que na Itália ainda está em construção - um país em crise pode cometer o erro de colocar a cultura em segundo plano, mas não o de esquecer suas fontes de receita.







Abaixo, a notícia do The Guardian:

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Rome's Trevi fountain crumbling 'for lack of maintenance'

City officials blame freak snowfall for damage, but critics decry 'dangerous' cuts to funding to protect Italian heritage


Ornate stucco reliefs have crumbled from the Trevi fountain, Rome's baroque masterpiece, making it the latest in a series of Italian monuments to suffer damage and reigniting a row over Italy's commitment to protect its heritage.
As hundreds of tourists lobbed pennies into the fountain's pool on Monday, workmen were erecting scaffolding around a section of the facade where fragments of a gargoyle's head and foliage crashed to the ground on Saturday night.
City officials played down the damage, blaming it on Rome's freak snowfall this winter, which caused water infiltration. But as the rest of the fountain was checked for crumbling stucco, Italy's Green party launched a campaign against what it described as dangerous cuts to the funding to maintain Rome's monuments.
"We are asking Romans to tip us off to sites which are not being taken care of," said the Green party president, Angelo Bonelli.
Bonelli cited the Colosseum, where stone fragments fell from a wall last year, and Nero's palace, the Domus Aurea, which has been closed to visitors since a roof collapsed. Archaeologists have also blamed the collapse of a number of walls at Italy's best known dig, Pompeii, on a lack of day-to-day maintenance.
The Trevi fountain, which centres on a statue of Neptune on a chariot and features a cascade of rocky waterfalls, last underwent major works in 1990.
Commissioned in 1732, it attained iconic status when Anita Ekberg waded into its 20-metre-wide pool in the 1960 film La Dolce Vita. In 2007, it ran out of water when the underground Roman aqueduct that still supplies it was blocked by workmen digging a garage.This year, masonry crumbled from the arches holding up two other, disused, Roman aqueducts in the Italian capital, the Acqua Claudia and the Acqua Felix.
"That damage, just like the damage at the Trevi, was due to the heavy snow and rain this winter," said Umberto Broccoli, Rome's cultural heritage superintendent. "Rome is not Glasgow, and buildings were built accordingly," he added.
Broccoli said that previous restoration efforts were also to blame for this weekend's damage at the Trevi fountain. "I climbed up yesterday and saw that lead struts inserted to protect the facade had split."
But he agreed that regular maintenance was key to keeping monuments from falling over. "You need more teams of masons patrolling sites," he said. "The problem is we have so many monuments. The UK has Hadrian's wall, while we have walls around every town to protect."
Sections of the Aurelian walls surrounding the city of Rome, which were built in the third century, have collapsed in recent years, but Broccoli said the walls' builders were partly to blame. "They built in a hurry, right across amphitheatres, tombs and aqueducts, and it already needed restoration by the 4th century," he said.
Obtaining the €75m (£60m) needed to restore the walls would be impossible, he added, unless Rome was allowed to cover the scaffolding with adverts, a solution that provoked fierce controversy in Venice when a huge Coca-Cola billboard blocked views of the Bridge of Sighs.

maio 14, 2012

65. Quando Roberto Carlos bancou o censor

O cantor Roberto Carlos é conhecido por todo o Brasil. O censor Roberto Carlos já foi esquecido por muitos, embora os dois sejam a mesma pessoa. Há alguns anos, RC foi à justiça para proibir a publicação de uma biografia sua feita pelo historiador Paulo César de Araújo. A justificativa? Não que a biografia tivesse erros graves ou qualquer desrespeito ao biografado. O problema era mais simples: RC alegava que o seu passado, sua história de vida, fazia parte do seu patrimônio. Nosso Judiciário concordou com essa tese absurda que estende a propriedade privada ao passado, e sabe-se lá como vai ficar a vida dos historiadores se outras pessoas importantes resolverem seguir o precedente.
O site Café História está com uma entrevista a Paulo César de Araújo, incluindo sua opinião sobre esse acontecimento lamentável e outros episódios de sua vida de pesquisador.


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Um Biógrafo em Detalhes
Em entrevista ao Café História, o historiador e jornalista Paulo César de Araújo fala de sua obra proibida sobre Roberto Carlos e também de suas pesquisas no campo da Música Popular Brasileira. Tudo, em detalhes
Baiano de Vitória da Conquista, mas erradicado há vários anos em Niterói, Paulo César de Araújo vem se consolidando como um dos principais pesquisadores brasileiros da chamada Música Popular Brasileira. Em 2002, lançou o excelente “Eu não sou Cachorro, Não: música popular cafona e ditadura militar”, livro com o qual quebrou tabus ao discutir como os cantores considerados “cafonas” também foram alvos da ditadura militar no Brasil, além de ressaltar a importância deste gênero musical na história da MPB. No final de 2006, Paulo César deu sequencia ao seu trabalho no campo da música lançando a biografia de Roberto Carlos, intitulada “Roberto Carlos em Detalhes”, pela Editora Planeta. Em poucos meses, o livro tornou-se um best-seller, vendendo mais de vinte mil cópias.

O sucesso, porém, foi interrompido por um processo movido pelo próprio Roberto Carlos na 20a Vara Criminal da Barra Funda, na cidade de São Paulo. O cantor, que considera-se o único detentor dos direitos de sua história, chegou a pedir no processo a prisão de Paulo César. Interessou-se por essas histórias? Então, não perca a nova entrevista do Café História, que está imperdível!
Paulo César de Araújo: Jornalista formado pela PUC-RJ e Historiador pela UFF, além de mestre em Memória Social pela UNIRIO e professor de história em escolas públicas da capital fluminense.
CAFÉ HISTÓRIA: Paulo César, seja muito bem-vindo e muito obrigado pela entrevista. É um prazer recebe-lo aqui no Café História. Vamos começar nossa conversa falando sobre o principal debate público envolvendo o seu nome nos últimos anos: a proibição de seu ensaio biográfico “Roberto Carlos em Detalhes”, em 2007. Na época, você chegou a correr risco de ter que pagar uma multa milionária e até mesmo de ser preso. Como esse episódio impactou em sua vida pessoal e profissional e em que pé esse imbróglio está hoje?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Corri risco não apenas de pagar multa milionária, mas também de ser preso, pois RC pediu minha condenação e prisão no processo criminal. Mas apesar dessas ameaças e da proibição do livro, não me sinto derrotado. A biografia foi escrita, publicada, reconhecida pela crítica e pelo público, se tornou um best-seller. Claro que lamento o que aconteceu. Lamento por mim e pelo próprio Roberto Carlos. A esta altura da carreira ele não precisava ter este triste capítulo na sua história. Mas minha advogada continua brigando na Justiça para trazer meu livro de volta. E isto ficará mais fácil quando for aprovada a Lei das Biografias (Projeto de Lei 3378/08), que está sendo discutida no congresso. De autoria do deputado federal Newton Lima, o projeto altera o artigo 20 do Código Civil, tornando livre informações biográficas de pessoas famosas ou de notoriedade pública. Nesse sentido, estou em duas frentes: na Justiça e torcendo para o Congresso aprovar logo a Lei das Biografias.
CAFÉ HISTÓRIA: Paulo, a Editora Planeta, que publicou o livro, acatou facilmente a decisão da justiça e lhe deixou desamparado. Como foi a sua relação com a editora? Hoje, você está totalmente sozinho na luta pela publicação do livro?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Minha relação com a Editora Planeta foi boa durante todo o processo de produção do livro. A postura da editora também foi positiva no primeiro momento da briga judicial, quando prometeu que seus advogados iriam defender o autor e o livro. Porém, isto não ocorreu. Ela capitulou na audiência de conciliação. É unânime que a Editora Planeta falhou ao não levar esta briga adiante. Isto teria sido bom para a imagem da própria editora, que honraria seu nome. Mas, infelizmente, ela optou por uma solução imediatista, mais cômoda e barata. Hoje não tenho mais nada com esta editora, pois o contrato para edição do meu livro já venceu e não foi renovado. Sigo agora minha luta sozinho, e quando “Roberto Carlos em detalhes” for reeditado, será por outra editora.
CAFÉ HISTÓRIA: Nos últimos anos, você deu diversas entrevistas sobre o tema. No entanto, boa parte da imprensa tratou a questão como uma disputa sua com o Roberto Carlos. Mas o foco principal deste debate não deveria estar na legislação brasileira? Qual a sua opinião sobre a nossa legislação?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: A rigor, se as leis fossem devidamente interpretadas pelos magistrados, ou seja, com ponderação, bom senso, nem precisaria mudar a legislação. Mas, infelizmente, nem sempre isto ocorre. Na nossa Constituição o direito à liberdade de informação e o de privacidade se equivalem em termos de peso, um não prevalece sobre o outro. Eles são tratados como direitos iguais. Ocorre que houve um retrocesso com o novo Código Civil de 2002, que deu um peso maior à proteção da imagem e da privacidade em detrimento do direito de informação. Porém, Código Civil é lei ordinária e não poderia prevalecer sobre uma lei maior, a Carta Magna. Mas na prática os juízes têm evocado este artigo 20 para justificar seus atos censórios. Os advogados de Roberto Carlos, por exemplo, se agarraram a este mesmo artigo para obter a proibição do livro. Por isso, é mais do que necessário o projeto que tramita no Congresso visando mudar o artigo 20 do Código Civil.
CAFÉ HISTÓRIA: Paulo, no I Festival de História, realizado na cidade de Diamantina, em outubro de 2011, você disse que o livro circula na internet sem qualquer tipo de controle. E que ele tem sofrido até mesmo edições e acréscimos dos leitores. Isso é bastante inusitado, não? Que tipo de alteração você já viu? Na sua opinião, o livro ainda circular nesse meio lhe prejudica ainda mais ou pode ser positivo?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: O livro apareceu na internet logo após a sua proibição, em 2007, e entendi isto como um ato de desobediência civil. Mas nas primeiras versões a biografia aparecia com modificações, as pessoas incluíam textos de outros livros e até piadinhas com Roberto, Erasmo e Wanderléa. Registre-se, entretanto, que vários outros livros (e também músicas) correm livres na internet. Isto é um dado da realidade atual. O que lamento é que meu livro não possa continuar também livremente nas livrarias, na forma como foi originalmente publicado. Seja como for, o importante é que “Roberto Carlos em detalhes” continua acessível ao público. Eu escrevi para ser lido. E atualmente recebo mensagens de uma nova leva de leitores que afirmam estar lendo o livro na internet.
CAFÉ HISTÓRIA: “Roberto Carlos em Detalhes” é fruto de 15 anos de pesquisa. E não é exatamente uma biografia, como você mesmo disse em outras ocasiões. Trata-se de uma pesquisa que tenta responder o que é o fenômeno Roberto Carlos. Como você respondeu essa pergunta em seu livro? Que chaves de entendimentos foram utilizadas?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Eu uso o Roberto como fio condutor para contar a história da moderna música brasileira, surgida a partir dos anos 50. Seguindo os passos de Roberto Carlos analiso a jovem guarda, a bossa nova, o tropicalismo, os festivais da canção, a ditadura militar e outros momentos e movimentos ocorridos ao longo deste período. Trato Roberto como personagem da história do Brasil, não apenas como cantor. Escrevi sobre ele como poderia escrever sobre Lula, Pelé, Luiz Carlos Prestes, personagens marcantes da nossa história. O resgate de trajetórias individuais é útil para iluminar questões ou contextos mais amplos. Como ensina Eric Hobsbawm, o acontecimento, o indivíduo, não são fins em si mesmos, mas constituem o meio de esclarecer questões mais abrangentes, que vão além da história particular e seus personagens. Foi o que me propus ao escrever sobre a trajetória de Roberto Carlos na história brasileira.
CAFÉ HISTÓRIA: A proibição do livro abre um precedente perigoso: pessoas públicas são as únicas detentoras, intérpretes e senhoras de suas própria história. Na sua opinião, qual as implicações deste tipo de premissa para o trabalho do historiador?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Roberto Carlos resumiu este pensamento ao justificar porque entrou na Justiça contra mim. “A minha história é um patrimônio meu, quem escreveu este livro se apropriou deste meu patrimônio e o usou em seu próprio beneficio". Esta talvez seja a forma mais radical que se conhece de propriedade privada; não apenas aquela sobre os meios de produção, um imóvel ou um automóvel, mas a propriedade privada de sua história. Se isto prevalecer, ninguém poderá mais contar a história do Brasil. Imagine se o presidente Lula ou os herdeiros de Getúlio Vargas também reivindicassem que a história deles é patrimônio exclusivo e que ninguém poderia escrever sobre o tema sem autorização? Nesse sentido, o caso é realmente grave e necessita da reação da sociedade.
CAFÉ HISTÓRIA: Deixemos Roberto Carlos de lado, agora. Seus trabalhos vão bem mais além deste episódio. Você escreveu um livro importantíssimo sobre a música popular brasileira, “Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e a ditadura militar”, que rompe com um silêncio: músicos considerados “cafonas” durante a ditadura militar também sofreram com o autoritarismo vigente no país. Como surgiu a ideia desse livro e que fontes você utilizou em sua pesquisa?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: A ideia deste livro surgiu a partir de uma constatação: a música brega estava excluída dos livros de história da nossa música popular. Quando ingressei na faculdade percebi que as pessoas falavam bastante de rock, bossa nova, tropicalismo, samba de raiz, mas não tinham maiores referências sobre a história da música brega. É como se ela não existisse, fosse invisível. A partir desta constatação resolvi investigar o repertório e o porquê da exclusão. Mas eu não queria ficar restrito à produção musical, avancei também pela história social, relacionando as canções ao tempo histórico em que foram produzidas. E na pesquisa constatei que os cantores bregas também foram censurados pela ditadura militar. Pesquisei diversas fontes: arquivos da censura, discos, jornais, revistas, além de entrevistas que realizei com os cantores bregas. A discografia foi garimpada em sebos, pois estava quase tudo fora de catálogo. Fui ao Arquivo Nacional do Rio e em Brasília atrás de documentos da Censura, que hoje já podem ser facilmente acessadas, mas na época requeria um trabalho de detetive.
CAFÉ HISTÓRIA: Quais foram os artistas do chamado “brega” ou “cafona” que mais sofreram nas mãos do regime militar? E o que no trabalho desses artistas incomodava aos militares e a direita?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Eles incomodaram porque na época não havia apenas repressão política; havia também repressão moral. A referência explícita à sexualidade era identificada como um ato de subversão. O cantor podia dizer “eu te amo, eu te adoro”. Isto não era problema. Mas Odair José cantava: “Eu te amo debaixo do chuveiro”. Aí era proibido. As composições bregas focalizavam temas como prostituição, homossexualismo, adultério, divórcio, racismo, alienação, consumo de drogas, exclusão social. Temas tabus e de impressionante modernidade. Não por acaso Odair José foi um dos mais censurados artistas no período da ditadura. Ele ousava, desafiava a repressão. Por exemplo: 25 anos antes de Marcelo D2, Odair gravou a balada apologética “Viagem”, que convida: “Venha comigo na minha viagem / não se preocupe eu tenho as passagens...”. Outro tema como, por exemplo, o divórcio, que não aparecia no repertório da MPB dos anos 70, foi bastante comentado pelo repertório brega. Ou até mais do que isto. Em 1977, quando muito se falava dos treze anos da chamada “revolução de 64”, Luiz Ayrão fez uma música chamada “Treze Anos”, que diz: “Treze anos eu te aturo e não aguento mais / Treze anos me seguro e agora não dá mais / Se treze é minha sorte, vai, me deixa em paz..”. O título e a mensagem eram óbvios demais e a música foi proibida. Mas, aí, malandramente, ao melhor estilo de um Julinho da Adelaide, Ayrão mudou o título para “O divórcio” e enviou a música para um outro órgão da censura. Os censores de plantão imaginaram tratar-se de mais uma canção de amor e liberaram a gravação.
CAFÉ HISTÓRIA: Em “Eu não sou cachorro, não”, são reveladores os depoimentos de Waldik Soriano sobre a tortura, além de outros igualmente reveladores, como Agnaldo Timóteo e Odair José. Porque esse capítulo da história ficou tanto tempo silenciado? E o que os artistas deste gênero acharam do livro? Pelo visto, foram mais elegantes que Roberto Carlos, não?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Este capítulo estava fora da história porque no campo da nossa música popular se produziu uma memória histórica autoritária e excludentes. Isto tem a ver com o que o sociólogo Michel Pollak chama de processo de enquadramento da memória. Há um fosso que separa a memória de grupos sociais marginalizados da memória nacional dominante. Os cantores bregas fazem parte da memória afetiva da maioria da população brasileira. Porém, a história tem sido contada por uma elite intelectual que despreza este repertório popular. O resultado foi um amplo descaso com a trajetória de artistas de grande importância para a vida de milhões brasileiros. Além de excluídos dos benefícios do sistema econômico, para grande parte da nossa população não lhes restava nem o registro da sua história, dos seus ídolos e intérpretes. Meu livro foi bem recebido por todos os artistas bregas. Recentemente, na revista Piauí, Odair José até fez um comentário interessante ao dizer que depois de ler “Eu não sou cachorro, não” passou a ter mais afeto e respeito por sua própria obra. Ou seja, Odair havia introjetado o discurso dominante.
CAFÉ HISTÓRIA: O cantor Lobão vem nos últimos anos se notabilizando por seus comentários críticos sobre a música popular brasileira. Comentários insistentes e em muitos pontos até mesmo superficiais. Existe hoje uma incompreensão da música popular brasileira? Na sua opinião, como devemos problematizar a música produzida ontem e hoje no país?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Costuma-se dizer que todos brasileiro é técnico de futebol, porque todos nós entendemos deste esporte. No campo da música popular acorre algo parecido. Todos são especialistas em MPB, todos debatem, discutem, opinam, escrevem, mas geralmente de maneira superficial. Um dos grandes problemas é que os pesquisadores não separam seu gosto pessoal da análise. E então acontece algo do tipo: “eu gosto de Chico Buarque, logo Chico é o maior nome da história da MPB”. Ou, “eu gosto mais de Noel Rosa, logo é Noel o maior de todos os tempos”. Geralmente os pesquisadores colocam o seu gosto pessoal ou o da sua classe como parâmetro para definir o passado musical da sociedade. E aí pode ocorrer de alguém se propor a contar a história da música popular brasileira do fim do século 20 e não destacar o funk carioca, o sertanejo ou pagode por considerá-los ruins ou de mau gosto. Mas, afinal, quais os critérios de julgamento na definição da “boa” música popular? Por que Nelson Sargento é considerado bom e Waldick Soriano ruim? Quem determina estes critérios como universalmente válidos? Estas questões precisam ser problematizadas nas análises de nossa música popular.
CAFÉ HISTÓRIA: Para encerrar nosso ótimo papo, Paulo, duas rápidas perguntas curiosas. 1) Você está preparando algum novo livro sobre música? 2) Você é um grande flamenguista. Já pensou em biografar algum jogador do Flamengo ou de outro clube do futebol brasileiro? Afinal não existe maior dobradinha no Brasil do que música e futebol...
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: No próximo trabalho vou narrar os bastidores da pesquisa que resultou nos meus dois livros, “Eu não sou cachorro, não” e “Roberto Carlos em detalhes”. Ao longo de quinze anos de pesquisa entrevistei cerca de 200 personagens da música brasileira. Vou falar de meus encontros com Tom Jobim, Waldick Soriano, João Gilberto, Tim Maia, e dos desencontros com Roberto Carlos. Enfim, vou contar a minha história, os caminhos de um biógrafo. Depois pretendo sim fazer um trabalho sobre futebol. Tenho, inclusive, uma pesquisa iniciada no tempo da faculdade. Só não defini ainda se será a biografia de algum craque ou uma análise mais geral. Seja com for, o Flamengo será destaque, pois é um dos construtores da grandeza do nosso futebol.

março 27, 2012

61. Espionagem amadora, segurança idem

A reportagem abaixo, vinda da Carta Capital, merece uma indagação: quem é pior, os espiões estrangeiros que usam técnicas amadoras e chegam sem nenhum conhecimento do lugar que querem espionar, ou os nossos ignorantes locais que caíram nessa? Se o nosso alto escalão entrega informações secretas por qualquer rostinho bonito, não seria melhor que as informações fossem públicas de uma vez?

E, mesmo sem ser simpatizante da ideologia costumeira da revista, não deixa de ser interessante a provocação no fim do texto:
Oficialmente, o governo sempre negou a existência de atividades terroristas no Brasil – e continua negando, mesmo depois das revelações do Wikileaks. Já os militares brasileiros parecem ficar bem mas à vontade quando falam do assunto com americanos – sejam eles diplomatas, militares, ou arapongas como os da Stratfor.

Sim, nosso governo e militares - todos, em última análise, nossos funcionários, pagos com nosso dinheiro - confiam mais nos americanos do que em nós quando se trata de dizer o que realmente está acontecendo...

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Alunos de Clouseau


 “Foi uma honra e um privilégio tomar parte em uma conversa tão estimulante na sala de situação e ser levada em um tour guiado pelo palácio presidencial.” Era janeiro de 2011 e a Stratfor era apenas uma agência curiosamente bem colocada no mundo das informações de inteligência e geopolítica internacional, quando sua diretora de análise, Reva Bhalla, escreveu um e-mail mais que agradecido ao secretário-adjunto do Gabinete de Segurança Institucional do Planalto, José Antônio de Macedo Soares, por tê-la apresentado ao local reservado onde militares e agentes se reúnem em tempos de crise de segurança.
Bhalla queria ainda reaver um mapa do Brasil presenteado por Soares e roubado no aeroporto. “Fiquei com o coração partido. Eu realmente amei o mapa e estava tão honrada em tê-lo.” Um mês depois, Soares lhe escreveu: tinha em mãos a cópia do mapa, feito para a Marinha. “Para qual endereço devo mandar esse tubo de aparência tão suspeita com o mapa?” Bhalla respondeu agradecida, emocionada, difícil de conter. “Eu estava num bar com amigos ontem e um cara perto de mim viu o imenso sorriso que surgiu em meurosto quando eu vi sua mensagem, virou pra mim e disse: ‘uau, queria saber o que faz uma garota sorrir assim’. Acho que ele nunca adivinharia que tinha a ver com um mapa múndi com o Brasil no centro”. Deu ainda o endereço para postagem. E pediu o dele, “caso haja algo que eu queira mandar como agradecimento por toda a simpatia e hospitalidade que você mostrou durante minha visita ao seu belo país.”
Geralmente discreta em público, a executiva americana de origem indiana ficou conhecida mundo afora depois que a comunicação da Stratfor, hackeada em dezembro do ano passado, passou a ser publicada pelo WikiLeaks. Em um dos emails mais polêmicos, Bhalla é instruída pelo seu chefe, o autor de best sellers sobre estratégia militar e CEO da Stratfor, George Fridman, sobre como lidar com suas “fontes”, homens ligados a empresas e governos detentores de informações de interesse. “Se você considera a fonte valiosa, tem de assumir o controle sobre ela. Controle significa controle financeiro, sexual ou psicológico”, ensina o mestre,
Até agora pouco se sabia sobre como a Stratfor agia no Brasil. Mas documentos aos quais a Agência Pública e a Carta Capital tiveram acesso descortinam um modus operanti tragicômico, no centro do qual figura Reva Bhalla. Ela esteve no País por dois meses, em uma temporada de encontros nos quais abusou do seu charme e foi recebida de braços abertos até por funcionários de carreira do GSI, órgão responsável por garantir a segurança da presidência e que lhe confiou informações sensíveis às quais poucos brasileiros têm acesso. Em um dos e-mails, Bhalla relata aos colegas da Stratfor que naquela visita ao GSI chegou a se reunir com o ministro-chefe, o general José Elito Siqueira. Foi até convidada a visitar um posto militar na Amazônia. E durante a longa conversa com Macedo Soares, diz ter ouvido que a Abin capturara “terroristas” em São Paulo, incluindo pessoas ligadas aos ataques de 11 de setembro. O GSI confirmou a visita de Bhalla.
Clique aqui para ler o relato sobre o encontro de Bhalla com a cúpula do GSI
Batizado de “Arquivos de Inteligencia Global”, o novo vazamento do Wikileaks trouxe luz a um ramo pouco conhecido da inteligência privada, exatamente por situar-se na fronteira entre a análise e produção de boletins geopolíticos de baixa qualidade e a simples arapongagem. Abreviação de “Straregic Forecasting Inc”, algo como “previsão estratégica”, a Stratfor mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem para vender a seus clientes “previsões” sobre o que vai acontecer em diversos países do mundo. Além de oferecer um boletim com análises geopolíticas e militares, faz relatórios por encomenda e fornece “briefings” por teleconferência. Por trás de tudo o que leva a marca Stratfor está George Friedman.

Dos arapongas à bola de cristal
Filho de judeus fugido do holocausto húngaro que dedicou sua vida a lecionar sobre a arte da guerra nos Estados Unidos, Friedman é dono de uma biografia cara ao modelo americano de self made man. Cresceu no Bronx novaiorquino e doutorou-se em ciência política pela prestigiada universidade Cornell, antes de se tornar consultor para o Pentágono, o Army War College e a National Defense University. Por duas décadas entremeou pesquisas acadêmicas com a publicação de livros sobre os mesmas temas e com títulos bombásticos, como America’s Secret War, The Intelligence Edge, The Coming War With Japan, The Future of War e dois best sellers da lista do Times (The Next 100 Years e The Next Decade, exatamente os dois nos quais prevê o futuro da humanidade sob o ponto de vista da geopolítica e da guerra).
Foi essa figura, então então professor da Universidade Estadual da Louisiana, quem fundou em Austin, Texas, em 1996, uma empresa nova no ramo. Ele juntou com 15 jovens alunos e os levou para o Texas, onde os transformou em analistas de inteligência. Nascia a Stratfor – que, em 1999, já chamava a atenção ao “prever” os desenvolvimentos do conflito nos Balcãs. Um Centro de Crise para Kosovo foi colocado online e passou a ser seguido e mesmo citado por jornalões como o New York Times.
A fórmula de Friedman era simples e eficiente: juntar, sob sua influência, antigos espiões soviéticos com know-how sobre países da antiga influência comunista, militares aposentados americanos, adidos e jornalistas mundo afora interessados em “colaborar” para ganhar dinheiro com sua grande paixão, a geopolítica. Tanto que a correspondência da empresa, obtidas pelo WikiLeaks, inclui dezenas de documentos internos do FBI e das forças de segurança americanas, tendo revelado por exemplo que o Departamento de Segurança Pública do Texas tem um agente encoberto no Occupy Austin. Embora esteja longe de ser uma das maiores no mercado de “análise de risco”, a Stratfor conta ente seus clientes com empresas como a Lockheed Martin, Morthrop Grumman, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical. A pedido das duas últimas, monitorava as atividades de ativistas de direitos humanos e ambientais que pudessem lhes causar problemas. Além disso, faturou um contrato do comando da Marinha americana para fazer uma previsão estratégica para os próximos anos.
Apesar do delicado perfil ético e da proximidade de suas fontes com o poder, a verdade é que grande parte dos documentos revelados até agora mostram como a Stratfor agia com um amadorismo risível, marcada por informação de má qualidade. Nada de Sherlock Holmes ou James Bond; algo mais próximo do inspetor Clouseau, magistralmente interpretado por Peter Sellers. Nada de investigação de ponta, o que fica claro por outro documento publicado pelo Wikileaks, uma espécie de “glossário” com máximas de uso interno da empresa. “O fluxo de material passivo reduz o custo da inteligência e aumenta o tempo de análise. O poder da Stratfor é reunir com eficiência a análise passiva, descobrir padrões rapidamente, e análise fabulosa. Ou é isso que dizemos aos clientes. É melhor ter algumas fontes no bolso também.” É com essa visão “geoestratégica”, crivada por um discurso militarista de direita, que a empresa consegue enorme simpatia dentre os “aficionados por inteligência”, como descreve o mesmo glossário: um cliente com apetite de CIA e orçamento de Botswana “define a maioria dos clientes da Stratfor”.
No Brasil, a clientela da Strafor inclui o Brazilian Army Comission, comissão do exército sediada em Washington, com uma assinatura anual do boletim no valor de US$ 1.825; o Ministério da Defesa, com três assinaturas num valor total de US$ 9.702; e a ABIN, com uma assinatura anual de US$ 3.450. Por incrível que pareça, assinar os boletins da empresa é praxe, por exemplo, entre os cursos de relações internacionais do Brasil, segundo Reginaldo Mattar Nasser, professor de relações internacionais da PUC-SP. “A questão é que nesse ‘pacote’ de informações objetivas, que não é assinado por ninguém, aparecem avaliações políticas que entram como se fossem informações corretas, incontestáveis”. Nasser diz que os alunos gostam dos boletins porque eles trazem informações gerais, como PIB e o histórico dos países. O problema é que, no bolo, vêm análises conservadoras: segundo a Stratfor, a Primavera Árabe geraria ambientes de anarquia, os palestinos seriam os agressores unilaterais a Israel e os adeptos do Islã seriam todos terroristas.

tour de Reva Bhalla no Brasil
Foi para formular uma visão própria do Brasil e criar “fontes que se mantém no bolso” que a analista Reva Bhalla esteve no País entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011. “Após passar tempo com cariocas no Rio, o pessoal do Itamaraty em Brasília, os gaúchos no Rio Grande do Sul e todo tipo de paulistas em SP, deixo seu belo país com uma melhor compreensão da alma brasileira”, escreveu ela a Macedo Soares, do GSI. Na verdade, Reva conseguiu pouca informação que não pudesse ser encontrada com uma busca rápida do Google. A conversa com o alto escalão do GSI é a notável exceção – e bastante preocupante, se contarmos que se trata de funcionários públicos encarregados justamente de proteger informações sensíveis à segurança nacional.
Além do GSI, Reva conversou com o diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso. O cientista político Sérgio Fausto diz que de fato se encontrou com Bhalla em seu escritório em São Paulo. “Nunca tinha ouvido falar da Stratfor. Olhei o site deles e tal. Ela me encontrou aqui. Era uma moça muito bonita, aliás, uma jovem de uns 30 anos bem vestida como convém a executivas da área. Mas uma moça que não conhecia nada de Brasil e estava tateando. Tinha uma preocupação específica sobre segurança pública e sobre a atuação do Brasil na vizinhança, com a Bolívia, a questão do narcotráfico. Questões que eu conhecia apenas de ler jornal”.
Bhalla ainda solicitou contatos por e-mail, que Fausto passou sem problemas. No fim do e-mail, porém, ele ironizava: “Como um dos nossos melhores compositores, Antonio Carlos Jobim, costumava dizer: ‘Brasil não é um país para principiantes’”. Assim como ironiza agora o trabalho da empresa. “Se eu fosse um cliente interessado em informações de mercado, não os contrataria. Eles não têm as conexões latino-americanas nem a expertise no assunto.”
A principal fonte da Stratfor no Brasil é, na verdade, o jornalista Nelson During, editor-chefe do Defesa Net, site que “tem um pensamento como o da Stratfor”, nas palavras de Bhalla. Pouco conhecido fora dos círculos dos aficionados por temas militares e inteligência, o Defesa Net surgiu em 1999, quando During começou a enviar boletins semanais por e-mail para órgãos governamentais, empresas privadas e pessoas interessadas nas áreas. Incomunicável em uma base militar nos Estados Unidos, segundo informou sua assistente, ele não respondeu à reportagem. Em emails subsequentes ao seu encontro com Bhalla em janeiro de 2011 – no qual discutou do submarino nuclear à tríplice fronteira –uring é citado como “fonte de inteligência”, e ganha o código BR 707, sendo interlocutor constante sobre assuntos de relevância estratégica, como a presença britânica nas Malvinas.
Durante os dois meses, Bhalla foi também ao Rio de Janeiro, onde visitou o morro Dona Marta para conhecer as UPPS. “Não dá para não ficar impressionado com este modelo”, escreveu. E esteve na Escola Superior de Guerra, onde foi recebida por um major-general não identificado. Ali, ouviu frases com potencial para se tornarem pérolas da literatura Wikileakiana. Em email no dia 6 de janeiro, descreve as informações sobre “futuras questões sobre a Defesa brasileira” dizendo que, segundo sua fonte, a maior prioridade para os militares brasileiros agora é a modernização. “Uma força militar é como um cachorro que você mantem no quintal. Nosso cão tem envelhecido, está perdendo vários dentes, mesmo ficando cego de um olho. Não precisamos de um Rottweiller per si, mas sim de um bom cão de guarda, só para deixar claro que ‘estamos aqui’”, filosofou a tal fonte.
Segundo os documentos, a relação entre a Stratfor e a ESG não acabaram aí. Em novembro do ano passado, o atual analista da empresa para o Brasil, Renato Whitaker, marcou um encontro com o diretor do Centro de Estudos Estratégicos da escola e comandante da Artilharia Divisionária da 6ª Divisão de Exército, o general-de-brigada João Cesar Zambão da Silva, onde conseguiu “folhear o esboço do Livro Branco da Defesa”, no dia 25 – antes, portanto, que o “documento chave da Política Nacional” fosse publicado.
Clique aqui para ler o relato sobre o encontro de Bhalla com a cúpula do GSI
Zambão afirmou a Carta Capital: “ Conheço sim o Sr. Whitaker, que trabalha para a Stratfor e que vem a ser filho de um embaixador que serviu na ESG como assistente do Ministério das Relações Exteriores e, por seu intermédio, informalmente, tomei conhecimento da atuação da empresa no País. A ESG não tem qualquer interesse na Stratfor e o Centro de Estudos Estratégicos não tem relações com a empresa. Inclusive, a Escola não é assinante de qualquer produto da Stratfor.”
Zambão confirma ainda o encontro marcado para o dia 25 de novembro de 2011 na própria ESG. “Recebi o sr. Whitaker para uma conversa informal, (como costumo fazer com qualquer pessoa, em situações similares) e, sim, conversamos sobre o Livro Branco, principalmente sobre a sua importância como veículo de divulgação de assuntos de defesa para a sociedade.” Ainda assim, afirma não ter qualquer relação com a empresa. “Gostaria de esclarecer que não ‘sou fonte da empresa’ e não tenho qualquer espécie de vínculo com ela.”

Os ensinamentos da Stratfor: como cativar fontes 
Renato Whitaker, um rapaz de apenas 23 anos, é formado pelo Ibmec em relações internacionaisEx-estagiário da Santos Lab, fabricante de aeronaves não tripuladas para militares e civis, aparece no Facebook com um cachimbo a la Sherlock Homes e um bigode falso. Mas não é exatamente o currículo ou a imagem o que o ajudou a adentrar o mundo da inteligência corporativa. Ser filho do embaixador aposentado Christiano Whitaker, sim.
Em 12 de setembro de 2011, recém-contratado, Whitaker escreveu aos chefes oferecendo uma lista de potenciais fontes de informação – entre elas uma amiga que estudava medicina e poderia opinar sobre malária e seu professor brasileiro de krav magá, luta israelense –, mas cuja maioria dos contatos era “graças a meu pai”, “ex-diplomata, bem versado nos assuntos internacionais do Brasil, grande mente e com boas conexões”. Um certo major do Exército, ligado à ESG, seria amigo de seu pai, assim como o chefe do GSI, “uma espécie de mini-Stratfor do governo”. Um colega de treino trabalharia para a Petrobrás. “Não sei com o que ele trabalha lá e se ainda trabalha, mas pode ser uma boa entrada no setor de petróleo”.
A carta era uma resposta às orientações passadas a ele pela analista para América do Sul, Allison Marie Fedirka. A jovem também passou dois meses no Brasil levantando “fontes”. Americana, Fedirka nasceu em Lombard, Illinois, e se formou em espanhol pela Washington University in St. Louis, no Missouri – daí ser a “correspondente” da empresa para a região. Fiel às regras da Stratfor, ela comenta que em 2009 chegou a entrar em contato com um diplomata brasileiro sem se identificar como funcionária da empresa de inteligência. “Eu não recebi autorização para me declarar abertamente Stratfor até março ou abril de 2010”.
Em visita ao Paraguai naquele ano, Fedirka conseguiu cativar o adido policial da embaixada brasileira, que a recebeu no seu escritório em pleno sábado, em caráter excepcional. “Por mim não haveria problema em, excepcionalmente, atendê-la no dia 03.07 às 10:00 hs porquanto, inobstante as instalações da Adidância Policial serem parte integrante da estrutura da Embaixada do Brasil, possuem entrada independente e autônoma e como moro praticamente ao lado da Embaixada não me causaria nenhum problema.”, escreveu o delegado Antonio Celso dos Santos em 21 de junho de 2010. Em outubro, ele lamenta que ela não voltará a visitá-lo e pede que ela mande notícias: “gosto muito de conversar com você”. Ao que Fedirka comenta em email a outro analista da Stratfor, Paulo Gregoire: “Que saco que eu não vou voltar mais. Me dar bem com um cara da polícia federal parece algo que poderia ser muito útil”.
Os documentos mostram que todas as conversas de Fedirka com o delegado foram repassadas para Gregoire, seu superior, de acordo com a norma interna da Stratfor, elucidadas por George Friedman naquele polêrmico email sobre como lidar com as fontes. “A decisão sobre como estabelecer o seu contato virá do seu supervisor e não de você. (…) Cada encontro seria planejado entre você e o seu supervisor e cada encontro teria um objetivo específico que não seria discutir o assunto de interesse, que seria escondido, mas analisar a personalidade (da fonte) e caminhar para o controle”.
Em 2011, encarregada de introduzir Whitaker no mundo da alta inteligência, Fedirka escreveu: “Parece que você já conheceu algumas pessoas interessantes com quem pode construer relacionamentos e utilizar como fontes mlitares. Lembre-se de, quando for só bater papo com eles, enviar tudo através de insights”. Ao pedir uma lista de pessoas que ele conhece, ela escreve: “Eu o encorajaria a ver se há alguma maneira de se envolver com o setor de petróleo no Rio. Você sabe que é mais fácil dizer que fazer, mas você está no lugar certo para isso. Podemos escolher um alvo particular ou dois e tentar arrumar uma reunião. Isso é uma ambição de médio prazo – leva tempo para identificar lugares, eventos e ou conseguir marcar reuniões”.

Stratfor e a mídia brasileira
No final do email a Whitaker, Fedirka manda uma lista de temas de interesse da Stratfor que enviara ao jornal Folha de São Paulo, incluindo a relação com a China, projetos financiados pelo BNDES, projetos de infraestrutura e exercícios militares na fronteira. Afinal, sua principal missão em 2011 fora entrar em contato com grandes veículos de imprensa no Brasil para oferecer-lhes assinaturas dos boletins da Stratfor em um acordo de cooperação que os tornaria parte do grupo de “Confed Partners” – ou “Confed Fuck House”, o bordel dos confederados, como Friedman e sua equipe chamavam entre quatro paredes os parceiros.
A Stratfor chegou a escrever acordos de “cooperação” para serem fechados com a Agência Estado, o portal Terra, a revista Época e a Folha de S Paulo. Os memorandos previam, invariavelmente, que ambas as partes poderiam republicar informações do outro e que as duas empresas “se apoiariam com informação de background e pesquisa, quando for pedido pela outra parte”. Em um email em que explica os termos do acordo proposto para a Folha de S Paulo, Fedirka descreve: “Nós esperamos que a comunicação flua nos dois sentidos uma vez por semana, e mais se houver uma crise. É apenas um diálogo informal via email”.
Procuradas pela reportagem, o editor-executivo da Agência Estado, Roberto Lira, negou ter registro ou conhecimento de qualquer relacionamento com a Stratfor. O site Terra confirmou através da sua assessoria de imprensa que foi procurado pela Strafor, mas disse que o acordo não foi assinado e “portanto nunca publicou conteúdo proveniente da Stratfor em nenhum dos seus portais”. Hélio Gurowitz, diretor de redação da Época, afirmou que “Desde que dirijo ÉPOCA, nunca assinamos nenhum conteúdo da Stratfor nem firmamos nenhum tipo de acordo de colaboração com eles. Apenas, eventualmente, nossos jornalistas da área de internacional consultaram analistas ou relatórios da Stratfor como uma entre várias fontes para algumas reportagens”.
A Folha de S Paulo foi o único jornal que chegou a assinar o acordo, segundo as comunicações obtidas pelo Wikileaks. A reportagem apurou que jornalistas da Folha foram apresentados e conversaram com analistas da Stratfor sobre questões de background. Ana Estela de Sousa Pinto, editora da Folha, nega que houvesse “acordo de troca de informações, no sentido mercantil” entre seus jornalistas e a Stratfor. “Jornalista da Folha não tem que falar algo para eles. Não há o que você chama de parceria”, escreveu por email.
A mídia já foi mais afeita à Stratfor. Não apenas jornais como o New York Times, mas agências como a AFP consultavam relatórios da empresa e até entrevistavam seus analistas sempre que eclodia alguma nova guerra. O próprio Times, curioso com a meteórica ascenção da empresa, encarregou um repórter de entender como funcionava a bola de cristal de Fridman. Em 2003, a reportagem narra o encontro em um hotel de Austin, justamente no dia em que a Guerra do Iraque começara. Qual um oráculo bem informado, Friedman cravara a data e o horário do início da guerra. Afinal, ele tinha suas fontes militares in loco, o que justificaria que milhares de pessoas de Wall Street ao Oriente Médio pagassem por seus boletins.
Desde a eclosão dos documentos do Wikileaks, a divulgação dos boletins tem sido gratuita. Mas a Stratforcontinua na ativa. Como bem descreveu a reportagem do Times, “esse mundo de espionagem privada parece a rotina de um adolescente de 16 anos: demanda passar horas sentado num computador, mandando SMS para todo mundo que você conhece”. Uma fórmula barata que rendia à Stratfor, segundo estimativas, uma receita de cerca de doze milhões de dólares ao ano. Friedman não desistiria assim fácil de talgalinha de ovos de ouro.

Reva Bhalla, da Stratfor, no GSI
Atual diretora de análise da Stratfor, a americana Reva Bhalla não precisou gastar um tostão, grampear telefones ou pagar propinas para conseguir fácil acesso ao alto escalão da inteligência brasileira.
Em 6 de janeiro de 2011, segundo documentos internos da empresa analisados pela Agência Pública e pela Carta Capital, Bhalla foi recebida com entusiasmo pelo gabinete do ministro-chefe do GSI, o general José Elito Siqueira, menos de um mês depois de chegar ao País para sua missão em nome da Stratfor.
Mais do que ser bem recebida, Bhalla obteve informações confidenciais de funcionários do GSI que são negadas até mesmo aos brasileiros.
No seu relato, ela diz ter sido levada à chamada “sala de situação”, local onde militares e agentes de inteligência se reunem com a presidência em caso de crises de segurança nacional. “Eu tive a impressão de que o Brasil não tem que lidar com esse tipo de questão com muita freqüência. Eles disseram que durante o governo Lula eles se reuniram 64 vezes. Havia mapas muito legais por todo o lugar. Eles me deram de presente um lindo mapa do mundo com Brasilia ao centro (muito ambicioso? Ahaha)”, escreve.
O contato, segundo ela, teria sido armado por um “amigo diplomata” que estaria trabalhando no escritório da própria presidenta, diz ela, sem identificar o nome. “Todos, inclusive o General Elito Sequeiro (sic) -  o chefe do GSI, o qual eu encontrei mais tarde no seu escritório, conhecem e lêem os relatórios da Stratfor regularmente. Eles estavam, literalmente, me dizendo sobre as notícias da Stratfor que haviam lido nesta manhã, e que quase todos ali eram membros”.
Animada com o “tour completo” que recebeu do palácio presidencial, Bhalla chegou à sala da presidenta Dilma Rousseff – mas ela estava numa reunião. “Eu queria dizer ‘olá’ em nome da Stratfor”.
A analista relata ter conversado longamente com o secretario-adjunto José Antônio Macedo Soares, cujo nome chegou a ser cotado pelo Palácio do Planalto para assumir a direção da Abin. Segundo seu relato, ele lhe explicou tranquilamente que o Brasil se esforça para não atrair atenção para si mesmo como palco de ações ligadas ao terrorismo. “Como Macedo Soares me disse, nós capturamos vários ‘terroristas’ em São Paulo – pessoas da Al Qaeda, Hezbollah, e até pessoas ligadas aos ataques de 11 de setembro. Mas nós não queremos nos vangloriar por isso e  não queremos atenção. Isso não serve nossos interesses e não queremos que os EUA nos empurre para esse assunto’”, escreve.
A informação, prontamente repassada para a rede de analistas da Stratfor, confirma uma revelação feita pelo WikiLeaks em 2010, nos primeiros documentos diplomáticos sobre o Brasil publicados pela organização. Os despachos traziam o então embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Clifford Sobel, a dizer, ainda em 2008, que a Polícia Federal “frequentemente prende pessoas ligadas ao terrorismo, mas os acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para evitar chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo”. O mesmo telegrama de Sobel cita dois exemplos. Em 2007, a PF teria capturado um potencial facilitador terrorista sunita que operava primordialmente em Santa Catarina sob acusação de entrar no País sem declarar fundos – e estaria trabalhando pela sua deportação. A operação Byblos, que desmantelou uma quadrilha de falsifcação de documentos brasileiros no Rio de Janeiro para libaneses também é citada como exemplo de operação de contra-terrorismo.
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Histórias sobre prisões de suspeitos de terrorismo no Brasil haviam pipocado antes do vazamento dos documentos diplomáticos. Em maio de 2009, a PF prendeu um libanês acusado de propagar pela internet material racista. À época, o colunista da Folha Jânio de Freitas escreveu que para preservar o sigilo a PF atribuiu a prisão, inclusive internamente, a uma investigação sobre células de neonazistas, enquanto o libanês seria na verdade suspeito de ligação com a Al Qaeda. Quase um mês depois, o Gabinete da Segurança Institucional da Presidência criou um grupo de prevenção e combate ao terrorismo, com a finalidade oficial de exercer o “acompanhamento de assuntos pertinentes ao terrorismo internacional e de ações” para “a sua prevenção e neutralização”.
Foi exatamente no GSI e com funcionários do órgão que Bhalla teve reuniões pessoais que renderam relatórios de inteligência privada, para alimentar os boletins a clientes no mundo todo.
Naquele encontro, ela teria perguntado ainda sobre a capacidade do GSI em vigiar e capturar esses ‘terroristas’. “A resposta não me pareceu tão confiante assim. Ele disse basicamente que isso é muito difícil. São Paulo tem uma população estrangeira muito grande. Fronteiras são difíceis de controlar: essa é a atitude brasileira em relação a isso”. Segundo a analista, eles teriam reonhecido que há alvos de terrorismo no Brasil. E teriam citado uma misteriosa “casa noturna israelense” em São Paulo como um exemplo.
“Eu levantei a questão do terrorismo, já que Macedo Soares é basicamente o único brasileiro que foi citado pelo Wikileaks. Eu perguntei a ele se isso causou algum tipo de problemas e ele riu e disse “só inveja”! Aparentemente vários oficiais brasileiros ficaram seriamente com ciúmes de que ele tenha ficado com toda a fama, haha”, relata Bhalla no seu email. Macedo Soares foi interlocutor do ex-embaixador Sobel nos primeiros documentos diplomáticos vazados.

Amazônia e crack
A conversa não parou por aí. Bhalla chegou a ser convidada a visitar um posto militar na Amazônia na sua próxima visita, “coisa que eu definitivamente vou fazer”. Ouviu do alto escalão do GSI, que “a corrupção nesses postos é mais concentrado na polícia do que nos militares”.
“Um deles levantou um ponto interessante, dizendo que uma coisa que o Brasil tem feito muito bem é controlar a qualidade dos precursores químicos que entram no país. Então, a cocaína produzida na Bolívia, por exemplo, não é ‘classe A’ que os compradores de NY querem. Ao invés disso, são de baixa qualidade, crack, que é vendido em São Paulo. Então essa é uma conseqüência não-intencional para eles: drogas mais baratas e de baixo valor permeiam o mercado brasileiro”, descreveu.
No fim da mensagem, a analista diz ter desgostado da capital federal, no mesmo tom informal que marca os demais emails da Stratfor publicados pelo WikiLeaks. E envia uma foto sua diante da catedral de Brasília.
A correspondência com Macedo Soares não terminou aí, como mostra a esfuziante mensagem sobre o mapa com o Brasil no centro, reenviado a Bhalla dois meses depois da visita.
A reportagem procurou o GSI através da sua assessoria de imprensa, mas recebeu como resposta que o ministro José Antônio de Macedo Soares está de férias no exterior e se dispinibilizaria a esclarecer o assunto depois do dia 3 de março. A assessoria confirmou, no entanto, que o ministro-chefe José Elito Siqueira “recebeu, em 06 Jan 11, a Sra Reva Bhalla para cumprimento protocolar durante a sua visita ao GSI”.
Oficialmente, o governo sempre negou a existência de atividades terroristas no Brasil – e continua negando, mesmo depois das revelações do Wikileaks. Já os militares brasileiros parecem ficar bem mas à vontade quando falam do assunto com americanos – sejam eles diplomatas, militares, ou arapongas como os da Stratfor.
*Colaboraram Luiza Bodenmüller e Jessica Mota. Reportagem feita em parceria com a Agência Pública de jornalismo investigativo: www.apublica.org

março 04, 2012

58. Israel e o governo americano

Vou tomar a liberdade de pressupor que todos estão mais ou menos informados sobre as atuais controvérsias relativas ao Irã - os controversos verdadeiros objetivos de sua pesquisa nuclear e a possibilidade de um ataque israelense -, e passar para um tema diferente, mas relacionado. A leitura de hoje é um texto proveitoso de Gustavo Chacra a respeito de uma outra complicação do Oriente Médio, que claramente acaba por influenciar a atual contenda iraniana: a tendência dos políticos americanos de tratar Israel de forma excepcional, sempre pisando em ovos, nunca criticando seriamente nenhuma atitude de seu governo. A explicação mais comum para esse tratamento - Israel é a única democracia na região, palestinos à parte - faria sentido se os americanos tratassem todos seus aliados democráticos assim, o que Chacra lembra que não é o caso.

O fato de um único governo numa região turbulenta ser tratado com todos os mimos e carta branca irrestrita pela maior potência mundial não tem sido necessariamente uma bênção para quem gostaria de ver a paz no Oriente Médio...

Apenas para que não se diga que não coloquei nada de valor agregado neste post, devo dizer que a solução de dois Estados - Israel e Palestina - não é tão óbvia quanto Chacra faz parecer. Manter a situação atual, de uma ocupação semicolonial israelense nos territórios palestinos, não é desejável, certo. Os israelenses dificilmente se interessarão hoje por uma solução de um Estado único em que os palestinos sejam a maioria, também é certo.
Por outro lado, alguém realmente acredita na viabilidade de um Estado palestino dividido territorialmente entre Gaza e a Cisjordânia? Mesmo se supormos que Israel não imporia condições (razoáveis, de certo ponto de vista) que limitariam a soberania palestina - restrições sobre suas forças armadas, por exemplo?
Talvez fosse o momento de considerar uma solução triestatal - Israel com os territórios pré-1967, a faixa de Gaza para o Egito e a Cisjordânia para a Jordânia. Ideal, não seria, mas dentro das alternativas que garantem paz para todos e alguma dignidade à população palestina, essa merece alguma consideração. Não que possa se concretizar em breve...

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Obama e a dificuldade dos políticos dos EUA em criticar o GOVERNO de Israel


no twitter @gugachacra
Barack Obama fez campanha eleitoral no início de seu discurso na AIPAC (organização pró-Israel) em Washington. Depois, deixou clara qual é a política americana para o Oriente Médio. Basicamente, “não retira nenhuma opção da mesa” para conter um Irã “nuclear”, incluindo “uma alternativa militar”, e defendeu a solução de dois Estados para israelenses e palestinos. Nenhuma novidade nisso. Mas nas entrelinhas vemos que o presidente discorda do governo de Israel.
No primeiro caso, Obama, mesmo sem descartar uma ação contra as instalações nucleares iranianas, não quer que Israel ataque neste momento. O presidente acredita que as inéditas sanções contra o Banco Central de Teerã aliada ao embargo ao petróleo terão o efeito desejado. Benjamin Netanyahu, com quem ele se reúne amanhã, discorda – eu tendo a concordar com o premeiro-ministro, mas creio que as armas atômicas iranianas podem ser contidas através da Teoria da Mutua Destruição Assegurada, e não de operações militares com elevado risco de fracasso.
Já na questão Israel-Palestina, Obama falou o óbvio. Defende dois Estados. Caso contrário, Israel deixará de ser judaico e democrático. Como todos estão cansados de saber, não dá para ter uma democracia, com maioria judaica e em todo o território, pois seria necessário conceder cidadania a milhões de palestinos ou instituir o Apartheid, onde milhões de pessoas teriam menos direitos do que os outros. Netanyahu até concorda com Obama, mas claramente quer o máximo possível de terras que a maior parte da comunidade internacional considera palestinas – para os israelenses, estão em disputa.
O que chamou a atenção, como todos os anos, é a necessidade de um presidente dos EUA precisar tratar Israel como algo diferente de seus outros grandes aliados, como a Inglaterra, o Canadá e o México. Eu assusto ao ver líderes políticos como o vice-presidente Joe Biden dizendo “amar Israel” e outros como Obama literalmente puxando o saco e dizendo de “supostas” ligações afetivas com o país. Isso não acontece quando eles falam dos ingleses, dos mexicanos e dos canadenses. Por que?
Quando era professor da Universidade de Chicago, Obama era próximo do meu professor em Columbia, Rashid Khalidi, um dos maiores críticos do governo – e note a palavra governo – na academia americana. O atual presidente também discordava e muito do governo de Israel. Virou político e mudou o discurso. Obviamente, se reeleito, Israel precisa se preparar. Depois, em outro post, me aprofundo de os palestinos estarem esperando para levar adiante a questão do reconhecimento do Estado na ONU.
E,  voltando para a AIPAC, acho importante eles defenderem Israel nos EUA. Lobby é uma atividade legal e a Arábia Saudita, um país árabe e muçulmano, domina melhor do que ninguém. Ao mesmo tempo, acho que eles confundem Israel com governo israelense. Outras organizações judaicas americanas, com predomínio mais jovem, sabem da diferença e têm contribuído muito para o debate. Pena que Obama tenha medo de discursar nestas entidades, como a J-Street.
No Brasil, vemos pessoas que amam o país criticando sem problemas ações da administrações de Lula e Dilma sem serem chamadas de “anti-Brasil”. O governo americano é ultra criticado por seus adversários. Mas não dá para chamar os republicanos de “anti-EUA”. Por que não poder criticar Netanyahu sem ser “anti-Israel”?
Obs. O pré-candidato republicano Ron Paul, com sua visão libertária, não vê problemas em discordar do governo israelense. Ao mesmo tempo, tampouco acho que os EUA devam se intrometer nas decisões de Netanyahu. Para ele, Israel é um país como qualquer outro.

janeiro 18, 2012

52. Protesto da wikipedia e história da internet

Segue uma notícia do Estadão cujo conteúdo deve ser bem conhecido a essa altura - a wikipedia em inglês está fazendo um protesto de um dia contra projetos de lei americanos que, se aprovados, prometem tornar muito menos livre a internet, tudo sob a justificativa de preservar os direitos autorais. Como a presença americana na rede é forte, o impacto seria sentido em todo o mundo.

Derrotar esses projetos é uma causa louvável, mas o que me fez começar este post foi circular pela internet e ver que muitos sites - revistas, quadrinhos, blogs acadêmicos, de tudo um pouco - estão participando dos protestos. Precisamos de uma história da internet. Não um amontoado de datas e avanços técnicos da Arpanet até a Web 2.0, e sim uma pesquisa que mostre como o que no início era uma redezinha militar americana cresceu e tornou-se parte tão integrante de nossas vidas que os protestos, assim como os efeitos dos projetos, estão sendo bastante discutidos fora dos Estados Unidos.

Quem se habilitar a escrever esse best-seller em potencial, espero que faça a gentileza de mencionar meu nome nos agradecimentos.


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Wikipedia faz protesto contra lei antipirataria

Se aprovada, a lei permitiria que os tribunais ordenassem que sites de busca restrinjam certos resultados



NOVA YORK - A enciclopédia virtual Wikipedia e outros sites populares converteram suas páginas em banners de protesto virtual, no início desta quarta-feira, como parte de um esforço para barrar uma legislação antipirataria que está sendo avaliada pelo Congresso dos Estados Unidos. O site de notícias Huffington Post, por exemplo, trocou a tradicional foto de sua chamada principal por uma extensa caixa preta, que direciona para uma matéria sobre o tema.
A Wikipedia, décimo site mais popular nos EUA, paralisou nesta quarta-feira a maior parte de seus serviços em língua inglesa, substituindo por uma página branca e cinza com seu símbolo em negro. "Imaginem um mundo sem o conhecimento livre", afirma um texto no site. Segundo a Wikipedia, "neste momento, o Congresso dos EUA estão considerando legislação que poderia prejudicar fatalmente a internet livre e aberta". Conhecida como Lei de Proteção à Propriedade Intelectual (Sopa, na sigla em inglês), a lei permitiria que o Departamento de Justiça busque os tribunais para ordenar que sites de busca restrinjam certos resultados dos sites, entre outras medidas antipirataria.
"A lei é mal construída, muito perigosa e não lida na verdade com o problema real da pirataria", afirmou Jimmy Wales, cofundador da Wikipedia, em entrevista. "A política para a internet não deveria ser ditada por Hollywood."
A Wikipedia, comandada pela entidade sem fins lucrativos Wikimedia Foundation, deve ser acompanhada nesse dia de protesto por milhares de sites menores. O gigante Google também lembrou o caso. Mesmo sem fechar seu site, o Google cobriu por volta da meia-noite a maior parte do logo em sua página inicial dos EUA com uma caixa preta, acrescentando um link para que os usuários digam aos congressistas para eles não censurarem a web. "Como muitas empresas e usuários da internet, nos opomos a esses projetos de lei", disse um porta-voz do Google.
Wales disse que os congressistas apenas ouviram até agora lobistas profissionais e Hollywood para a elaboração da lei. Ele lembrou que é preciso ouvir sobre como as pessoas usam a internet e se notar os motivos pelos quais ela deveria continuar da forma que é. Segundo ele, é difícil prever como a Wikipedia seria afetada pela nova legislação. "Nós poderíamos ser barrados de ter links em sites que são considerados como sites ilegais no exterior, e isso gera muitas questões obviamente muito profundas relativas à primeira emenda", apontou. A primeira emenda da Constituição dos EUA trata da liberdade de expressão.
O blecaute na Wikipedia afeta o site em inglês para usuários por todo o mundo, mas as outras versões em outras línguas e as versões formatadas para celulares continuam a operar. As informações são da Dow Jones.

51. Historiadores versus juízes, round 2

A briga de nossa associação contra a destruição indiscriminada de processos antigos por parte do Judiciário continua, e o alvo da vez é o STF.
O título do texto abaixo, apesar de provocador, não deixa de ser a pura verdade, e teríamos muito menos problemas se os juízes, desembargadores e ministros soubessem disso: com poucas exceções, eles não sabem história, como não sabem e não precisam saber física, geologia, arquitetura e mil outras coisas. Mas todo mundo se acha um pouco historiador, como se o que se aprende na escola fosse mais que um resumo mal digerido e obsoleto de alguns dos produtos da ciência histórica, ao invés da ciência em si, com seus métodos e discussões próprios. E, pela minha experiência, os juristas são mais propensos que a maioria a cair nesse erro. Não é como se uma cadeira mal dada de História do Direito e resumos de Beccaria, Rousseau, Montesquieu e Kant tornassem alguém um especialista em história...

Enfim, a democracia depende de as autoridades levarem algumas patadas não muito sutis de vez em quando para lembrarem dos seus limites, e concordo plenamente com esta em particular. O original do texto pode ser conferido no site da ANPUH, mas coloquei uma cópia aqui para facilitar a vida de todos:

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O STF NÃO SABE O QUE É HISTÓRIA

O Ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), promulgou, em 29 de novembro de 2011, a Resolução No 474 que “estabelece critérios para atribuição de relevância e de valor histórico aos processos e demais documentos do Supremo Tribunal Federal”. O documento causa perplexidade aos historiadores e a todos aqueles que, minimamente, tem acompanhado o desenvolvimento da historiografia contemporânea, em especial por duas razões: por procurar estabelecer “por decreto” o que é ou não histórico e por apontar como subsídio para essa classificação critérios considerados ultrapassados há, pelo menos, um século. Por esse motivo, a Associação Nacional de História (ANPUH), entidade que congrega os profissionais de história atuantes no ensino, na pesquisa e nas entidades ligadas ao patrimônio histórico-cultural, não poderia deixar de trazer a público a sua inconformidade com a referida Resolução.
Apesar de seus precursores mais remotos (como os gregos Heródoto e Tucídides), o conhecimento histórico só se estabeleceu como disciplina autônoma e com pretensões científicas no século XIX, acompanhando o processo de surgimento e/ou consolidação dos Estados nacionais. Naquele momento era importante alicerçar em uma narrativa fidedigna, ancorada em provas documentais, a história desses Estados, comprovando sua existência ao longo do tempo e reforçando os laços de identidade entre seus habitantes, com base em uma presumida origem comum. Não é à toa que, justamente nesse período, surgiram os Arquivos Nacionais, inclusive no Brasil, como forma de reunir e conservar os documentos oficiais que dissessem respeito à “biografia” das jovens nações. Muitos historiadores, por seu turno, voltavam sua atenção aos ditos “acontecimentos consagrados”, aos “grandes personagens”, aos “fatos marcantes” da história de seus países; acontecimentos, personagens e fatos esses, diga-se de passagem, em geral ligados às elites políticas, econômicas, culturais, militares e intelectuais a quem se atribuía o “fazer da História”.
Ora, desde ao menos o final da década de 1920, tal visão do que é ou não histórico foi fortemente contestada pelas principais correntes contemporâneas da historiografia por seu caráter limitado e elitista. Desde então, se sabe que nenhum documento possui “relevância” ou “valor” histórico em si, mas somente a partir das perguntas que o historiador dirige ao passado. Por exemplo: por muito tempo, não se deu valor às experiências das mulheres na história, ou apenas quando elas participavam de espaços tradicionalmente masculinos como a política e a guerra. Hoje uma das áreas mais desenvolvidas da historiografia brasileira e mundial é, justamente, a história das mulheres, que, para se desenvolver, precisou se utilizar de documentos antes considerados “não históricos” (talvez por envolver mulheres pouco famosas), como registros policiais e documentos judiciais referentes a, por exemplo, violência doméstica, guarda de crianças, brigas entre vizinhos, etc. Neste sentido, um exemplo entre muitos outros é o livro da consagrada historiadora Maria Odila Leite da Silva Dias, “Quotidiano e poder no século XIX”, cuja leitura indicamos aos ministros do STF, que apresenta as lutas femininas em São Paulo naquele período e as estratégias de sobrevivência de mulheres pobres, talvez “sem valor histórico” na visão desses magistrados, como lavadeiras, quitandeiras, escravas, forras, entre outras.
Enfim, no âmbito do conhecimento histórico contemporâneo, é realmente um equívoco legislar sobre que documentos são históricos ou não, pois, em primeiro lugar, a própria noção do que é histórico também é histórica, variando no tempo e em diferentes sociedades, e, em segundo lugar, porque, potencialmente, todo vestígio do passado pode ser uma fonte histórica, dependendo do que queremos conhecer desse passado. O desconhecimento destas idéias pelo órgão superior de nosso Poder Judiciário é estarrecedor.
Também causa espanto a nomeação, pela Resolução, de quem pode atribuir relevância histórica aos documentos do Supremo e quais são os critérios para tal atribuição. Não se menciona nunca a participação de historiadores nesse processo; profissionais que, ao longo de sua formação, espera-se, tomam conhecimento dos debates teóricos e metodológicos antes esboçados. A “atribuição de relevância” caberia, segundo o documento, ao Ministro-relator do processo, ao Presidente do STF, ao Diretor de Secretaria (quando se tratar de processo administrativo) e ao Presidente da Comissão Permanente de Avaliação de Documentos – CPAD (quando se tratar de processo arquivado e encaminhado à deliberação da Comissão), ou seja, profissionais que certamente são extremamente qualificados no métier jurídico, mas que também certamente não conhecem, nem têm obrigação de conhecer, as metodologias da pesquisa histórica e as discussões atuais da historiografia. Não se quer, com isso, criar uma “reserva de autoridade” para os historiadores na atribuição de valor histórico aos documentos. Ao contrário, é saudável e democrático tal que atribuição seja fruto de múltiplos olhares e, no caso do Poder Judiciário, inclua a participação daqueles que o constituem, ou seja, magistrados e servidores. Porém, não se pode liminar essa tarefa a eles, desconsiderando o saber específico dos profissionais de História. Afinal, sem o olhar “treinado” do historiador, como será possível avaliar os processos “cujo assunto seja considerado de grande valor para a sociedade e para o STF”, conforme quer a Recomendação? Se cabe aos magistrados determinarem o valor histórico de documentos, será que um dia os historiadores serão chamados a julgar nos tribunais?
Posteriormente afirma-se que a “Coordenadoria de Gestão Documental ou Memória Institucional – CDOC poderá encaminhar sugestão à CPAD para atribuição de relevância em processo enviado para arquivamento definitivo”, mas não se informa que profissionais compõem essa comissão. Estarão historiadores entre eles? E mais, caso haja historiadores, eles terão alguma autonomia para fazer valer o seu saber específico ou terão apenas que respaldar, com base, talvez, no medo de perderem funções gratificadas, decisões tomadas por profissionais de outra área? Sobre isso, diz-se no máximo que a CPDA “PODERÁ *grifo meu] convocar servidores e profissionais especializados [quais?] para auxiliar nos trabalhos de seleção dos processos e demais documentos de potencial histórico”. Que grande concessão! Talvez assim os historiadores possam ser ouvidos! Mas certamente de forma tímida, pois a eles cabe, no máximo, auxiliar quando os doutos magistrados não tiverem certeza se determinado documento é ou não histórico.
Quando a Recomendação lista critérios para determinar documentos “de potencial histórico”, a desatualização de quem a elaborou torna-se ainda mais flagrante. Fala-se então de acontecimentos, fatos e situações que tiveram “grande repercussão nos meios de comunicação”, como se os fatos com pouca repercussão não possam se revelar, no futuro, extremamente importantes historicamente; e em
documentos referentes “à nomeação, posse, exercício e atuação dos ministros do STF” e “personalidades de renome nacional e internacional”, numa volta espetacular ao século XIX e sua idealização dos “grandes personagens”, evidenciando, mais uma vez, o desconhecimento das transformações vividas pela historiografia. Depois, são invocados como “relevantes” os documentos referentes à história institucional do Tribunal, relacionados à sua “modernização e reforma na estrutura orgânica”, ao seu “planejamento estratégico”, as “suas atividades anuais”, aos “acordos, tratados, convênios, programas e projetos com pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras de relevância para o Poder Judiciário” e aos seus “atos normativos”. Ora, será que ao STF só cabe conservar os documentos referentes a sua própria história, desconsiderando que neles estão contidos dados relevantes para a história da sociedade brasileira como um todo? Mais uma vez, a Justiça isola-se e, em um exercício narcísico, parece se considerar importante por si mesma. Por fim, listam-se como potencialmente relevantes documentos relacionados a “revoluções, rebeliões e demais movimento sociais no Brasil e no exterior” e a “problemas fronteiriços entre os Estados da Federação”. Nenhuma objeção do ponto de vista histórico desde que se considere que tais movimentos e problemas não esgotam a história brasileira, que muitos “pequenos movimentos” e “pequenos problemas”, muitas vezes quotidianos e envolvendo pessoas comuns, fizeram e fazem a nossa sociedade, determinaram e determinam quem somos e quem podemos ser.
Ao final, poder-se-ia perguntar: então todos os documentos produzidos por uma sociedade e por uma instituição como o STF devem ser permanentemente arquivados? Certamente que não, pois guardar tudo não significa permitir um conhecimento completo da história. Além disso, deve-se levar em conta o investimento de recursos materiais e humanos necessário a esse arquivamento. Porém, não é determinando por decreto o que é ou não um documento histórico, sobretudo a partir de critérios reconhecidamente ultrapassados, que se faz essa seleção. Tal processo deve ser encaminhado por comissões multidisciplinares, formadas por profissionais competentes e com um mínimo de independência, das quais participem com voz ativa historiadores com experiência na pesquisa histórica e conhecimento dos debates historiográficos contemporâneos. Essas comissões devem implementar mecanismos de gestão documental orgânicos e sistemáticos que levem em conta especialmente a importância do patrimônio documental, do direito à história e à memória, componentes fundamentais da cidadania, e não a disponibilidade de recursos. Esses, no caso do Poder Judiciário, que muitas vezes desloca somas vultuosas à construção de prédios suntuosos, certamente não vão faltar, se a escala de prioridades orçamentárias sofrer modificações. Será que não vale à pena investir mais em arquivos capazes de prover as informações históricas necessárias aos pesquisadores e à sociedade em geral do que em gabinetes luxuosos?
Com base nessas considerações, rogamos ao STF que revogue a Resolução No 474, pelo bem da memória nacional, da pesquisa histórica, da cidadania, e, por que não, da imagem já tão desgastada de nosso Judiciário.
Diretoria da ANPUH – Associação Nacional de História
Gestão 2011-2013