O matemático e filósofo Alfred Whitehead escreveu certa vez que a filosofia europeia consistia em uma série de notas de rodapé a Platão, e a frase espalhou-se com o sucesso que tantas vezes têm as generalizações.
(Para ser justo com Whitehead, ele sabia que estava fazendo uma generalização. Sua frase original é: The safest general characterization of the European philosophical tradition is that it consists of a series of footnotes to Plato.)
No mesmo nível apressado das generalizações, seria igualmente possível dizer que a ciência europeia consiste em notas de rodapé a Aristóteles. Afinal, foi esse filósofo grego do século 4 a.c. que, além de suas incursões por aquilo que hoje continuamos chamando de filosofia (metafísica, epistemologia, ética, etc.), foi um pioneiro em muitos campos do conhecimento que, mais tarde, viriam a ganhar autonomia como ciências, como a biologia, a mecânica e a ótica. Sem falar de discussões sobre literatura, política e quase tudo o que um grego do século 4 a.c. poderia discutir, apesar de não termos mais grande parte do que ele escreveu, como sabem todos os fãs de O nome da rosa.
Sem querer desmerecer Aristóteles, que foi um gigante intelectual (e, para mim, preferível a Platão, mas cada um com o seu gosto), muitas dessas "notas de rodapé" consistiriam no seguinte: "sobre esse ponto, Aristóteles estava completamente errado". Pasteur provou que a teoria aristotélica da geração espontânea da vida estava errada, Galileu fez o mesmo com o geocentrismo, e por aí vai.
Provavelmente a maior parte das pessoas reconhece os nomes de Galileu e Pasteur, apesar de talvez não saber que seu legado foi corrigir noções que remontavam a Aristóteles, quando não eram ainda mais antigas e haviam sido apenas mencionadas por ele. Suspeito que muito menos pessoas reconheceriam o nome de outro cientista tão importante quanto eles: Al-Hasan ibn al-Haytham (965-1040), pensador muçulmano originário da cidade de Basra, no atual Iraque, e nada menos que o pai da ótica moderna.
Em aproximadamente 1011, na cidade do Cairo, ibn al-Haytham começou a escrever sua principal obra, o Livro da ótica, em que demonstrou, através de experimentos, como funcionava a visão: o olho não emite "raios de visibilidade" nem absorve partículas emitidas pelos objetos visíveis, como Aristóteles e seus sucessores até então pensavam, mas recebe raios de luz. Com base nessa descoberta fundamental, passou a experimentar com a luz, fazendo descobertas sobre lentes, espelhos, reflexão e refração da luz, o funcionamento do olho humano e tudo o mais que atormenta a existência dos estudantes de ensino médio e possibilita desde avanços na astronomia até os óculos e a oftalmologia moderna.
Esse breve comentário sobre um gênio muçulmano foi em parte uma pequena homenagem aos eventos recentes no Egito, Tunísia e outros países islâmicos, e em parte uma pegadinha. O leitor atento terá percebido que comecei falando em ciência europeia para passar para um cientista do Oriente Médio. Isso porque, como no caso da filosofia, nunca houve uma "ciência europeia" fechada a influências externas - no caso da filosofia, considerem por um momento a importância do cristianismo, uma religião também vinda do Oriente Médio, sobre quase todos os pensadores europeus dos últimos dois milênios. No caso da ciência, ibn al-Haytham foi um dos muitos sábios islâmicos que estava em contato com a tradição cultural da antiga Grécia, e cujas descobertas foram depois reabsorvidas pelos europeus: o livro de "Alhazen", como latinizaram seu nome, foi traduzido para o latim e incorporou-se ao corpo de conhecimentos científicos ocidentais.
Ironicamente, a tradução foi feita no século 12, que combinou grande avanço científico com as principais Cruzadas. Mas alguém ainda acredita que conhecimento e insensatez sejam incompatíveis?
Onde o ontem vive no hoje. Notas sobre a história, a ciência histórica e a vida acadêmica para leitores curiosos.
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fevereiro 24, 2011
novembro 28, 2010
2. O mito da Terra plana
Os historiadores têm um grave problema: pesquisam, discutem e reinterpretam tudo, mas não conseguem fazer os resultados disso circular pela sociedade. As últimas descobertas médicas, pelo menos as de aplicação prática, circulam sem controle, tanto que as pessoas já perceberam que a medicina, como qualquer ciência, só chega a conclusões provisórias, que podem ser rediscutidas quando surgem novas evidências - é o caso da eterna questão de saber se o café ou o chocolate fazem bem ou mal. As descobertas das ciências exatas, embora seus conteúdos não sejam tão divulgados por serem quase incompreensíveis aos leigos, têm consequências visíveis na forma de novas tecnologias.
Mas o nosso departamento de divulgação é um fracasso completo. As pessoas são bombardeadas com anos de aulas de história nos colégios, veem filmes, programas de tv, revistas, romances históricos, enfim, são expostas ao assunto o tempo todo... e praticamente tudo que acham que aprenderam a respeito está obsoleto.
Quem mais sofre com isso são os medievalistas. Por todo o século passado, eles destruíram a visão da Idade Média como um milênio de trevas, ignorância, tirania papal e tudo o mais. Criaram uma nova imagem, de um período que teve seus problemas, como qualquer outro, mas não foi especialmente ruim. É uma pena que tenham esquecido de avisar o resto do mundo.
Um dos mitos persistentes sobre a Europa medieval é o da Terra plana. Todos já ouviram falar que as pessoas, nessa época, pensavam que o planeta era achatado, que era possível cair da beira do mundo, e que esse era um dos medos que os marinheiros tinham durante as grandes navegações. Alguns também devem ter ouvido falar que Cristóvão Colombo era um dos poucos seres pensantes que perceberam que o mundo era redondo, e para conseguir financiamento para suas viagens precisou debater com os doutores da universidade de Salamanca, que não ficaram muito convencidos dessas heresias.
Não é uma história bonitinha? O herói solitário, armado apenas com a verdade, lutando contra os dogmas da ignorância... seria bonitinho mesmo, se tivesse acontecido. O problema é que nunca aconteceu.
Colombo realmente enfrentou os doutores de Salamanca em discussões, mas todos os envolvidos, como todo mundo na Europa do final do século 15, sabiam que a Terra era redonda. O debate era em torno do seu tamanho: Colombo pensava que a Terra era bem menor do que na realidade, e por isso seria possível chegar à Ásia através do Atlântico. Os doutores sabiam do tamanho aproximado da Terra, e por isso achavam que a expedição de Colombo era suicida. E eles estariam certos, se não fosse um pequeno detalhe que os dois lados desconheciam: a América.
Desde que Aristóteles, no século 4 a.C., demonstrou que o mundo é esférico, as pessoas não esqueceram disso. Os medievalistas devem poder apontar pilhas de documentos que mostram como o conhecimento se manteve; eu sei de pelo menos dois.
No começo do século 14 (ou seja, quase 200 anos antes de Colombo), Dante já sabia o formato do mundo. Na Divina Comédia, ele colocou seu inferno no interior da Terra, de tal forma que ele entra por um lugar e sai no extremo oposto do mundo, depois de ter passado pelo seu centro, onde o próprio Satã punia os traidores - os três maiores deles, na verdade: Judas (o que não surpreende ninguém) e Brutus e Cássio, os assassinos de César, o que pode ser uma surpresa para quem pensa que o conhecimento da antiguidade se perdeu na Idade Média.
E antes de Dante, na metade do século 13, Tomás de Aquino, como bom aristotélico que era, escreveu em sua Suma Teológica (parte I, questão 1, artigo 1):
As ciências são diferenciadas pelos diversos meios através dos quais o conhecimento é obtido. Pois o astrônomo e o filósofo natural [físico] podem ambos demonstrar a mesma conclusão: por exemplo, que a Terra é redonda, o astrônomo por meios matemáticos (abstraindo da matéria) e o filósofo natural através da própria matéria.
Vejam que ele toma isso como tão evidente que não se sente na obrigação de dizer quais os argumentos do astrônomo e do físico - por que fazer isso, se ele só dizia o que todos já sabiam?
Para quem quiser uma discussão mais aprofundada, inclusive sobre a questão de Colombo, fica uma sugestão de leitura: Os sete mitos da conquista espanhola, de Matthew Restall, que trata dessa e outras invencionices que deveriam sair do nosso imaginário.
Mas o nosso departamento de divulgação é um fracasso completo. As pessoas são bombardeadas com anos de aulas de história nos colégios, veem filmes, programas de tv, revistas, romances históricos, enfim, são expostas ao assunto o tempo todo... e praticamente tudo que acham que aprenderam a respeito está obsoleto.
Quem mais sofre com isso são os medievalistas. Por todo o século passado, eles destruíram a visão da Idade Média como um milênio de trevas, ignorância, tirania papal e tudo o mais. Criaram uma nova imagem, de um período que teve seus problemas, como qualquer outro, mas não foi especialmente ruim. É uma pena que tenham esquecido de avisar o resto do mundo.
Um dos mitos persistentes sobre a Europa medieval é o da Terra plana. Todos já ouviram falar que as pessoas, nessa época, pensavam que o planeta era achatado, que era possível cair da beira do mundo, e que esse era um dos medos que os marinheiros tinham durante as grandes navegações. Alguns também devem ter ouvido falar que Cristóvão Colombo era um dos poucos seres pensantes que perceberam que o mundo era redondo, e para conseguir financiamento para suas viagens precisou debater com os doutores da universidade de Salamanca, que não ficaram muito convencidos dessas heresias.
Não é uma história bonitinha? O herói solitário, armado apenas com a verdade, lutando contra os dogmas da ignorância... seria bonitinho mesmo, se tivesse acontecido. O problema é que nunca aconteceu.
Colombo realmente enfrentou os doutores de Salamanca em discussões, mas todos os envolvidos, como todo mundo na Europa do final do século 15, sabiam que a Terra era redonda. O debate era em torno do seu tamanho: Colombo pensava que a Terra era bem menor do que na realidade, e por isso seria possível chegar à Ásia através do Atlântico. Os doutores sabiam do tamanho aproximado da Terra, e por isso achavam que a expedição de Colombo era suicida. E eles estariam certos, se não fosse um pequeno detalhe que os dois lados desconheciam: a América.
Desde que Aristóteles, no século 4 a.C., demonstrou que o mundo é esférico, as pessoas não esqueceram disso. Os medievalistas devem poder apontar pilhas de documentos que mostram como o conhecimento se manteve; eu sei de pelo menos dois.
No começo do século 14 (ou seja, quase 200 anos antes de Colombo), Dante já sabia o formato do mundo. Na Divina Comédia, ele colocou seu inferno no interior da Terra, de tal forma que ele entra por um lugar e sai no extremo oposto do mundo, depois de ter passado pelo seu centro, onde o próprio Satã punia os traidores - os três maiores deles, na verdade: Judas (o que não surpreende ninguém) e Brutus e Cássio, os assassinos de César, o que pode ser uma surpresa para quem pensa que o conhecimento da antiguidade se perdeu na Idade Média.
E antes de Dante, na metade do século 13, Tomás de Aquino, como bom aristotélico que era, escreveu em sua Suma Teológica (parte I, questão 1, artigo 1):
As ciências são diferenciadas pelos diversos meios através dos quais o conhecimento é obtido. Pois o astrônomo e o filósofo natural [físico] podem ambos demonstrar a mesma conclusão: por exemplo, que a Terra é redonda, o astrônomo por meios matemáticos (abstraindo da matéria) e o filósofo natural através da própria matéria.
Vejam que ele toma isso como tão evidente que não se sente na obrigação de dizer quais os argumentos do astrônomo e do físico - por que fazer isso, se ele só dizia o que todos já sabiam?
Para quem quiser uma discussão mais aprofundada, inclusive sobre a questão de Colombo, fica uma sugestão de leitura: Os sete mitos da conquista espanhola, de Matthew Restall, que trata dessa e outras invencionices que deveriam sair do nosso imaginário.
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