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setembro 30, 2012

79. Músicas e guerra (2)

E voltamos com a Rádio "Músicas de Guerra". Hoje, duas canções russas.

A primeira é o clássico soviético da Segunda Guerra (ou Grande Guerra Patriótica, como chamam por lá), Katyusha. A melodia foi utilizada logo depois em outros países, como pelos resistentes italianos em seu Fischia il vento, que vimos anteriormente. Já a letra é quase um Erika ao contrário: a jovem Katyusha, diminutivo de Ekaterina, espera seu amado que cumpre o dever na guerra.

Existem inúmeras versões na internet, mas aqui vai uma que ao menos tem a tradução para o espanhol:





Em seguida, uma anterior, da época da Guerra Russo-Japonesa.
O que foi a Guerra Russo-Japonesa? Nada menos que um dos conflitos mais importantes do século e do qual quase nada se sabe por aqui. Em 1904 e 1905, a Rússia czarista e o império japonês lutaram para decidir qual seria a potência dominante na Manchúria (região nordeste da China) e Coreia. Os japoneses venceram, com consequências importantes:
a) mostrou a todo o mundo que um país asiático poderia derrotar um europeu;
b) firmou o expansionismo japonês na Ásia continental, o que mais tarde causaria sua tentativa de conquistar a China e seu envolvimento na Segunda Guerra;
c) os gastos na guerra e a derrota solaparam o prestígio do czar e precipitaram a Revolução de 1905, um prólogo moderado do que seria 1917.

Voltando à música, chama-se Nos morros da Manchúria, composta por Ilya Shatrov após a derrota russa. É um lamento aos soldados russos mortos na Manchúria e a promessa de que serão lembrados e vingados:




setembro 24, 2012

77. Músicas e guerra

O objetivo de hoje é mostrar que o YouTube é um acervo audiovisual gigantesco e que, se bem peneirado, pode mostrar muitas coisas interessantes além das últimas músicas de sucesso. O tema da vez, escolhido sem nenhum motivo em particular, é "músicas relacionadas a guerras" - em princípio, qualquer relação conta: músicas militares, anti-guerra, que se tornaram populares em época de guerra, etc. Vou precisar de vários posts, pois a seleção de hoje mal começa a dar conta das possibilidades. Para começar, algumas da Segunda Guerra Mundial:


A primeira se chama Le chant des partisans (A canção dos resistentes), uma das principais músicas da Resistência francesa contra a ocupação nazista:


Seguem a letra e tradução, vindas desse site:


Ami, entends-tu
Le vol noir des corbeaux
Sur nos plaines?
Ami, entends-tu
Les cris sourds du pays
Qu'on enchaîne?
Ohé! partisans,
Ouvriers et paysans,
C'est l'alarme!
Ce soir l'ennemi
Connaîtra le prix du sang
Et des larmes!

Amigo, ouves
o voo negro dos corvos
nas nossas planícies?
Amigo, ouves
os gritos surdos do país
que acorrentam?
Oh resistente,
Operários e Camponeses,
É o alarme!
Esta noite o inimigo
Conhecerá o preço do sangue
e das lágrimas!

Montez de la mine,
Descendez des collines,
Camarades!
Sortez de la paille
Les fusils, la mitraille,
Les grenades...
Ohé! les tueurs,
A la balle et au couteau,
Tuez vite!
Ohé! saboteur,
Attention à ton fardeau:
Dynamite!

Subam das minas
Desçam das colinas
Camaradas!
Tirem dos fardos de palha
As espingardas, as munições,
as granadas
Matadores,
com balas e com facas,
matai depressa!
Sabotador!
Cuidado com o teu fardo
Dinamite!

C'est nous qui brisons
Les barreaux des prisons
Pour nos frères,
La haine à nos trousses
Et la faim qui nous pousse,
La misère...
Il y a des pays
Ou les gens au creux de lits
Font des rêves;
Ici, nous, vois-tu,
Nous on marche et nous on tue,
Nous on crève.

Somos nós que quebramos
as barras das prisões
para os nossos irmãos,
o ódio que nos persegue
a fome que nos empurra
A miséria ...
Há países onde na cama
as pessoas sonham;
Aqui, nós, vê-la tu,
Nós marchamos e matamos
nós morremos.

Ici chacun sait
Ce qu'il veut, ce qui'il fait
Quand il passe...
Ami, si tu tombes
Un ami sort de l'ombre
A ta place.
Demain du sang noir
Séchera au grand soleil
Sur les routes.
Sifflez, compagnons,
Dans la nuit la Liberté
Nous écoute...

Aqui cada um sabe
o que quer, o que faz
quando passa ...
Amigo se tu caíres
Outro amigo sai da sombra
No teu lugar.
Amanhã o sangue negro
secará ao sol
nas estradas
assobiai, companheiros,
Na noite a liberdade,
ouve-nos ...


A segunda música é Fischia il vento (Sopra o vento), da resistência italiana. Mais enérgica, com a melodia da canção russa Katyusha, e muito mais comunista que sua contraparte francesa:



Letra e tradução, do letras.com.br:

Fischia il vento ed infuria la bufera
Sopra o vento e enfurece-se a tempestade
scarpe rotte e pur bisogna andar
sapatos velhos e ainda necessitamos andar
a conquistare la rossa primavera
a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

...a conquistare la rossa primavera
...a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

Ogni contrada è patria del ribelle
Cada vizinhança é pátria do rebelde
ogni donna a lui dona un sospir
cada mulher doa a ele un suspiro
nella notte lo guidano le stelle
na noite guiam as estrelas
forte il cuor e il braccio nel colpir
forte o coração e o braço para golpear

...nella notte lo guidano le stelle
...na noite guiam as estrelas
forte il cuor e il braccio nel colpir
forte o coração e o braço para golpear

E se ci coglie la crudele morte
E se si colhe a cruel morte
dura vendetta fara dal partigian
dura vingança fará do partisan
ormai sicura è già la dura sorte
no entanto já é certo o duro destino
del fascista vile traditor
do fascista vil traidor

...ormai sicura è già la dura sorte
...no entanto já é certo o duro destino
del fascista vile traditor
do fascista vil traidor

Cessa il vento, calma è la bufera
Calma o vento, calma é a tempestade
torna a casa il fiero partigian
torna a casa o altivo partisan
sventolando la rossa sua bandiera
abanando a vermelha, sua bandeira
vittoriosi, e alfin liberi siam!
vitoriosos, e enfim somos livres!

...sventolando la rossa sua bandiera
...abanando a vermelha, sua bandeira
vittoriosi, e alfin liberi siam!
vitoriosos, e enfim somos livres!
Fischia il vento ed infuria la bufera
Sopra o vento e enfurece-se a tempestade
scarpe rotte e pur bisogna andar
sapatos velhos e ainda necessitamos andar
a conquistare la rossa primavera
a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

...a conquistare la rossa primavera
...a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro 
Em terceiro, uma do lado alemão - Erika:
Não encontrei uma tradução da letra em português, mas é bastante inocente: um soldado vê uma flor de urze (em alemão, Erika) no campo e se lembra de sua noiva que tem o mesmo nome. Infelizmente essa canção tão bonita foi emporcalhada por associação com os nazistas - era a música de marcha da Waffen-SS...

junho 28, 2012

71. Novos artigos

Dois artigos meus foram publicados recentemente e seus links ainda não haviam sido colocados aqui, então aqui estão:

Colocando os Direitos Sociais em Prática: O Tratamento dado às Reclamatórias Individuais de Trabalhadores Grevistas do Frigorífico Z. D. Costi (Passo Fundo/RS, 1988) - texto feito juntamente com o colega Felipe Abal e publicado na revista Passagens da UFF. Resumindo, é uma demonstração da teoria de E. P. Thompson acerca do direito: este não pode ser um simples instrumento de controle dos dominados pela classe dominante (como dizia a interpretação marxista tradicional), porque uma legislação escancaradamente opressora não vai cumprir seu papel de enganar e facilitar a dominação de ninguém. Ao invés disso, o mundo jurídico possui uma certa autonomia e nele podemos ver conflitos sociais, que ali seguem as regras propriamente jurídicas.
O que faz bastante sentido, mesmo para quem, como eu, está longe de aderir a todas as ideias do marxismo.


COMEÇANDO A HISTÓRIA PELO INÍCIO – POSSIBILIDADES E DESAFIOS DA GRANDE HISTÓRIA - publicado na Semina da UPF. Trata de uma corrente de historiadores dos países de língua inglesa, chamada Big History ou Grande História. Seu diferencial é propor o estudo de escalas de tempo muito mais amplas do que as que os historiadores costumam empregar, para inserir a história humana no mundo ao seu redor. É cedo para dizer se a moda pode pegar por aqui, mas pode ser uma possibilidade de ensino bastante interessante, um meio de utilizar a interdisciplinaridade para superar a fragmentação decorrente de pesquisas cada vez mais especializadas.

abril 14, 2012

63. As aventuras do "servo de Deus"

Saiu recentemente um texto meu no jornal O Nacional, minha contribuição para a coluna do Arquivo Histórico Regional. Os leitores mais assíduos vão reconhecer o tema, um caso de curandeirismo no interior gaúcho ocorrido nos anos 60. Transformar o texto acadêmico anteriormente produzido em outro para um público mais geral foi uma experiência positiva, mas difícil - em um espaço limitado, precisei contar um causo pitoresco, mostrar a importância do Arquivo e transmitir um pouco da ideia de que "o passado é um outro país". Deixo a outros decidirem o quanto fui bem-sucedido:

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AS AVENTURAS DO “SERVO DE DEUS”
Sexta-Feira, 13/04/2012 por Arquivo Histórico Reginal

    Dos muitos pequenos tesouros guardados no Arquivo Histórico Regional, os milhares de processos criminais estão entre os mais importantes. Não que os casos tenham envolvido pessoas famosas ou gerado repercussão nacional (talvez alguns tenham – muito do material ainda está por ser estudado). Na verdade, a sua importância histórica se dá exatamente pelo motivo oposto: envolver gente comum. Lendo seus depoimentos e histórias de vida e prestando atenção aos detalhes, é possível descobrir informações valiosas sobre a vida cotidiana, a mentalidade, as relações sociais e muitas outras coisas que dificilmente se encontram em outros documentos do passado. Para alegria dos pesquisadores, alguns dos casos, além de ricos em informações, também fornecem boas histórias. Eis uma delas, derivada de um processo criminal.
    O ano era 1966. O lugar, o interior da pequena e recém-emancipada Fontoura Xavier. Um agricultor, ao passar na casa de um amigo, encontrou ali outro visitante, que logo descobriu ser um “curandeiro”, conhecido por seus remédios de chás e ervas. Isso veio a calhar para o agricultor, pois sua mulher sofria de uma doença de pele. Ele pediu para que o homem ajudasse sua esposa. O convite foi aceito e o curandeiro empregou seus remédios habituais, que surtiram algum efeito, terapêutico ou psicológico: enquanto ele esteve ali, ela não sentiu sintomas de sua doença. O casal, agradecido, hospedou em sua casa e pagou suas despesas para que ele morasse ali, continuando o tratamento. Ele havia adquirido seus dois primeiros seguidores.
    Nos meses seguintes, o curandeiro, um homem de meia idade e analfabeto, expandiu suas ambições. Praticamente mandava na casa, criando desavenças entre o casal e jogando um contra o outro. Começou a dizer que era um servo de Deus, que “havia sido enviado para apartar o bem do mal”. Com uma roupa que misturava trajes de médico e padre, começou a realizar consultas para os moradores da região, fazendo um sucesso considerável: de acordo com um depoimento, ele chegava a realizar até quarenta consultas por dia. Algumas vezes cobrando a consulta, outras vezes apenas os remédios, estava ganhando bem com suas curas. A vida estava agradável para o curandeiro, e poderia ter continuado assim se um outro lado de suas atividades não tivesse sido descoberto.
    O casal que o hospedava tinha uma filha adolescente, com o casamento já marcado para o início do ano seguinte. O “servo de Deus” havia sido convidado como padrinho, mas recusou, dizendo que ele mesmo tinha capacidade para realizar o casamento e até mesmo batizados. A confiança de todos da casa no suposto homem de Deus era tamanha que ninguém viu problema em deixar a adolescente a seu serviço todos os dias para ajudar na preparação dos remédios. Isso é, ninguém viu problema até o dia em que seus pais descobriram que ela estava grávida de três meses. Havia sido seduzida pelo curandeiro, que dizia precisar de uma “profetisa”. Ela queria ter contado antes o que acontecera, mas ele ameaçou matar toda a família, dizendo ter poderes sobrenaturais e ser capaz de eliminar uma pessoa sem encostar nela.
    Foi o fim das curas do “servo de Deus”. O agricultor explicou a situação à polícia, que prendeu o curandeiro ao tentar fugir para Barros Cassal, onde morava com sua família: era casado e pai de oito filhos. Ele tentou se defender de todas as formas possíveis, claro: disse que nada tinha acontecido entre ele e a jovem; que não cobrava por seus remédios e apenas estava realizando seu dever de caridade como espírita. Foi em vão, pois o curandeirismo era crime, como continua sendo até hoje, se aproveitar de uma menor era ainda mais grave e as provas contra ele eram convincentes. Recebeu pena de quase cinco anos de prisão, sendo chamado pelo juiz de “pretenso místico explorador da boa fé e crendice exagerada” da população rural, que vivia em estado de abandono social. Como o juiz poderia saber que, quase cinquenta anos depois, o curandeirismo estaria ainda vicejando no campo e nas cidades?

Emannuel Reichert
Mestrando em História/UPF
Fonte: Acervo do AHR
* Os artigos expressam a opinião de seus autores.

fevereiro 28, 2012

57. Novamente o genocídio armênio

O Conselho Constitucional francês derrubou a lei que criminalizava a negação do genocídio armênio, mas o governo Sarkozy promete tentar de novo.
Os leitores do meu primeiro post a respeito devem saber que estou plenamente de acordo com o Conselho - a verdade não é bem servida mandando para a prisão quem fala bobagens. Melhor ainda, claro, seria se o governo turco revogasse sua própria lei a respeito, que nem ao menos tem os fatos do seu lado.


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El Constitucional francés tumba la ley sobre el genocidio armenio

Los 'sabios' del Consejo consideran que vulnera la libertad de expresión

Ankara se muestra satisfecha con la decisión


El presidente de Francia, Nicolas Sarkozy, en una foto de archivo. / REUTERS

El Consejo Constitucional francés ha censurado este martes la polémica ley que prevé castigar la negación de los genocidios reconocidos por el Estado francés, dirigida en particular al de los armenios en 1915 por parte de los turcos, al considerar que es contraria a la libertad de expresión. La votación del texto por el Parlamento francés el pasado 23 de enero había provocado graves tensiones diplomáticas entre París y Ankara. El presidente francés, Nicolas Sarkozy, para quien el negacionismo supone una “amenaza a nuestra comunidad nacional”, ha pedido a su Gobierno la elaboración de una nuevo texto que supere el veto constitucional.
Los denominados sabios del Consejo consideran que al pretender “reprimir la puesta en duda de la existencia y de la calificación jurídica de crímenes que él mismo hubiera reconocido o calificado como tales”, el legislador vulnera el derecho constitucional “al ejercicio de la libertad de expresión y de comunicación”, según recalca en un comunicado. El texto de ley preveía castigar con un año de cárcel y 45.000 euros de multa la negación de cualquier genocidio reconocido oficialmente por el Estado. Francia solo ha reconocido hasta ahora el Holocausto, cuya puesta en duda ya está castigada con la misma pena por otro texto de 1990, y el armenio, en una ley de 2001.
“El presidente de la República considera que el negacionismo es intolerable y debe por lo tanto ser castigo”, ha reaccionado el Elíseo en un comunicado emitido nada más conocerse la decisión del Constitucional, en el que el mandatario se lamenta por “la inmensa decepción y profunda tristeza de quienes acogieron con reconocimiento y esperanza la adopción de esta ley”. La nota añade que el presidente “ha encargado al Gobierno preparar un nuevo texto que tome en cuenta la decisión del Consejo Constitucional”.
En su comunicación, el Consejo aclara por otra parte que el legislador puede “instituir incriminaciones que repriman los abusos del ejercicio de la libertad de expresión” que atenten “al orden público y al derecho de terceros”. Sin embargo, estipula que la restricciones impuestas a dicha libertad de expresión, “una condición de la democracia”, deben ser “necesarias, adaptadas y proporcionales al objetivo perseguido”.
El garante de la Constitución echa así por tierra la polémica ley defendida en persona por el presidente Nicolas Sarkozy y presentada ante el Parlamento por la diputada de su partido, la Unión por un Movimiento Popular, Valérie Boyer. Su votación a finales de enero provocó la ira del primer ministro turco, quien denunció la “subida de la islamofobia y del racismo en Europa”, llamó a su embajador a consultas y atacó lo que consideraba una maniobra política en vísperas de las presidenciales de esta primavera destinada a hacerse con el voto de los cerca de 500.000 franceses de origen armenio. Ahora, en cambio, Ankara está satisfecha. Lo ha hecho saber a través de su Embajada en París, y el ministro de Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, ha calificado la resolución de "positiva", aunque ha advertido de que "intentar colocar la ley de nuevo en la agenda sería un error grave", informa Efe citando al diario turco Hrryet.
Un grupo de 137 parlamentarios conservadores y de la oposición recurrieron la ley el 31 de enero, apenas una semana tras su aprobación, ante el Consejo Constitucional, el órgano habilitado para censurar cualquier legislación antes de su entrada en vigor.

janeiro 28, 2012

53. Genocídio armênio

Um espectro ronda a Turquia, e se chama genocídio armênio.

Em 1915, o então Império Otomano estava envolvido na I Guerra Mundial, ao lado da Alemanha e Áustria-Hungria. Um de seus muitos problemas: os russos ao norte. Surgiram dúvidas quanto à lealdade dos armênios, uma etnia cristã dividida entre os dois lados da fronteira otomano-russa. O governo otomano expediu ordens para a deportação dos armênios para longe da fronteira.

Aqui, as opiniões se dividem. O que os armênios, e a maior parte dos historiadores, diz a respeito é que as "deportações" eram apenas uma máscara para uma política oficial de extermínio sistemático, provocando a morte de cerca de 1,5 milhão de armênios.
Pela versão turca, praticamente só aceita pelos próprios turcos, realmente muitos armênios morreram, assim como muitos turcos, árabes e praticamente todos os povos existentes no império, em decorrência da situação difícil que o mesmo enfrentava. As mortes poderiam ser uma tragédia, mas não seriam um genocídio por não serem deliberadas.

A Turquia, além de não reconhecer a existência de um genocídio, criminaliza qualquer afirmação nesse sentido como um crime contra a "turquicidade".

Nesta semana, a França fez o oposto: criminalizou a negação do genocídio. Desnecessário dizer que o governo turco não ficou feliz com a nova lei francesa e ameaça com retaliações diplomáticas.

O genocídio armênio não é o único a ganhar essa "proteção especial" dos franceses, que também criminalizam a negação do holocausto judeu.

Embora os franceses estejam com a verdade dos fatos a seu lado, não sou particularmente a favor de usar a lei para silenciar a discussão, por parte de qualquer dos lados. Mesmo porque a lista de possíveis genocídios que poderiam ser reconhecidos sob pena de cadeia poderia ir muito longe. Um senador francês que votou contra a lei, Jacques Mézard, tem uma argumentação interessante (traduzida desta reportagem):

"Ela [a lei] põe em questão a pesquisa histórica e científica. Amanhã haverá a questão de um genocídio da Vendeia?", perguntou ele, referindo-se a uma revolta contra o governo revolucionário francês em 1793. "Vamos colocar a ferros os espanhóis e os Estados Unidos pelo massacre de nativos americanos? Devemos rejeitar esse texto e deixá-lo para os livros de história".

Nada a dizer sobre o Brasil, senador Mézard?

novembro 21, 2011

46. Resgatando o passado?

Depois de muita espera, saíram duas leis que trazem alguma esperança: a 12.527, que garante o acesso a informações públicas, e a 12.528, que cria a Comissão da Verdade destinada a investigar os abusos do governo militar.

A grande pergunta é: esses são passos no sentido da transparência governamental e da investigação honesta da verdade ou são mais dois pedaços de papel que não vão fazer diferença nenhuma?

Carlos Fico, em um post recente no seu blog, diz que "o que realmente importa é a pressão da sociedade". Ele está certo, obviamente, mas isso não é muito animador. O que me faz pensar isso? Para entender, acesse este texto do Reinaldo Azevedo e veja os comentários dos leitores. Eu sei de todos os estereótipos do leitor da Veja como um reacionário de classe média*, mas algumas coisas assustam.

* Como muitos estereótipos, esse tem um pouco de verdade e um tanto de exagero. Eu próprio leio a Veja de tempos em tempos e penso que, embora a cobertura de política externa deles - entre outras coisas - seja tendenciosa, a revista tem um lado mais positivo, como as infinitas denúncias contra os nossos políticos. E, em todo caso, ter uma linha política é um direito da publicação, apesar de eu preferir que ela se identificasse abertamente como uma revista socialmente conservadora e economicamente liberal ou o que fosse.

Voltando: lembrar que o golpe de 1964 aconteceu em um contexto de radicalização política crescente, e que muita gente na esquerda também não estava muito interessada em democracia é uma coisa. Outra bem diferente é achar que os militares salvaram o Brasil do comunismo. Na minha visão das coisas, tomar o poder, fazer as leis como bem entendiam, respeitar os direitos humanos só na medida em que não fosse muito inconveniente, censurar, torturar e matar, e chamar isso de salvação da pátria é um tanto estranho.

Na mesma linha, a Comissão da Verdade não é parcial só porque vai se concentrar nos abusos cometidos por agentes do governo. Os guerrilheiros não eram 100% bonzinhos, fizeram as suas sacanagens também? Sem dúvida. A pequena diferença é que esse pessoal já teve os seus atos investigados pelo governo militar. Agora, quem investigou os militares? Reconhecer que existe essa disparidade, que os dois lados abusaram mas um tinha infinitamente mais poder para isso que o outro, não significa necessariamente aprovar a república comunista que muitos guerrilheiros queriam criar. Vamos separar as coisas...

setembro 28, 2011

42. Artigo - curandeirismo

Com o começo do I Congresso Internacional de História Regional da UPF, foram publicados os anais eletrônicos do evento, com um texto deste que vos escreve. Minha contribuição trata da história do curandeirismo no Brasil e um estudo de caso.

Aos interessados, os anais do evento: http://www.upf.br/historiaregional/index.php?option=com_content&view=article&id=18&Itemid=21

Aos ainda mais interessados, farei a apresentação amanhã de manhã. Quem vier, verá...

setembro 13, 2011

41. A casa de Hitler nas montanhas - tombar ou destruir?

Para quem acha que o passado está morto, vai um exemplo de como ele segue vivo.

Apenas duas observações rápidas:

- Particularmente, sou a favor de manter o lugar. A monstruosidade do nazismo é importante demais para ser esquecida e, de certa forma, um lugar aparentemente tão inocente quanto Berghof faz parte do Terceiro Reich tanto quanto os campos de concentração. Afinal, parte da lição do nazismo é precisamente essa: Hitler não era um sujeito obviamente mau como o imperador Palpatine de Star Wars, que qualquer um percebe que não quer boa coisa. Ele podia parecer uma pessoa normal, um cara que gostava de sua dieta vegetariana, de cachorros, de passar uns dias na serra... e de ordenar a morte de milhões de pessoas. Os ditadores genocidas têm mais chance de ter a cara de Hitler que a de Palpatine, e não podemos esquecer isso de jeito nenhum. Então, se Berghof puder servir de lembrete, que fique lá.

- Quem seguir o link para a matéria original no Yahoo encontrará entre os comentários vários que defendem Hitler e o nazismo. Alguns poderiam dizer que é um horror deixar esses malucos pregando uma ideologia tão nociva - de fato, fazer defesa do nazismo é contra as leis brasileiras. Acho que aqui a lei erra, pois ver os neonazistas falando é a melhor garantia que temos de que o nazismo não volte: a cada frase que soltam, suas ideias parecem mais e mais absurdas e incoerentes...



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Uma montanha bávara à sombra de Adolf Hitler



Sessenta e seis anos após sua morte, a alma de Adolf Hitler assombra ainda hoje uma montanha da Baviera - os alemães não sabem o que fazer dos vestígios de sua casa; e alguns não a querem como curiosidade turística, nem como memorial.


A antiga residência de Hitler nos Alpes.

Bombardeada, dinamitada, desimpedida com máquinas, não resta muito de "Berghof", a residência favorita do Führer nos Alpes, que frequentava regularmente durante mais de dez anos antes da morte, num bunker em Berlim, em 1945.
As autoridades evitam indicar o caminho, e é só quando se está no local que se descobre, num desvio da pista de cascalhos, no meio de uma floresta de pinheiros, um pedaço cinzento de muro, meio perdido na montanha, acompanhado de um quadro explicativo.
É o único vestígio que leva à casa que conhecemos, principalmente, através de filmes amadores, que mostravam um Hitler sorridente no terraço, ao lado de Eva Braun, tendo ao fundo a paisagem idílica.
Situada a meio caminho de Oberzalsberg, a montanha que domina a aldeia de Berchtesgaden, na fronteira germano-austríaca, o lugar serviu de estada para os soldados americanos de infantaria, GI's, antes de sua partida, em 1995.


Fachada de 'Berghof', na montanha de Berchtesgaden

"Quando os americanos estavam lá, não havia problemas," afirma Ingrid Scharfenberg, 80 anos, que dirige desde o final da guerra a pequena pensão "Zum Türken" bem ao lado de Berghof, e que, hoje, está mal acomodada, em relação à notoriedade da vizinhança.
"As pessoas dizem que esta é a montanha nazista e que todos em Berchtesgaden são nazistas. Mas não se pode detestar dez gerações simplesmente porque (Hitler) viveu aqui", comenta ela.
"Não há peregrinações neonazistas aqui", assegura por sua vez o diretor da agência de turismo, Michael Griesser.
"Os neonazistas são raros", afirma Axel Drecoll, 36 anos, historiador do Centro de Documentação de Obersalzberg, que apresenta uma exposição sobre Hitler e a ditadura nazista.
Acontece que, junto da casa, "um pequeno número de pessoas acendem, em segredo, velas e depositam flores, por ocasião do aniversário, ou para lembrar a morte" do ditador, acrescenta ele. Mas tudo é recolhido e jogado fora pelo porteiro do Centro, que fica próximo.
Se o caminho em direção à residência de Berghof permanece quase confidencial, não acontece o mesmo com a estrada que leva ao "Ninho da Águia", um chalé construído pelos nazistas no pico de uma montanha vizinha, oferecido de presente a Hitler pelo seu aniversário de 50 anos.
Às dezenas de milhares, os turistas pegam uma rota vertiginosa para beber aí uma cerveja e admirar a paisagem espetacular.
Para alguns, a aura do ditador envenena menos o Ninho da Águia do que a casa de Berghof, porque Hitler sentia vertigens, e ia pouco lá.
Para evitar qualquer curiosidade doentia, o Estado da Baviera retirou de helicóptero, do Ninho da Águia, alguns móveis de época que ainda estavam no local.
Numerosos historiadores, entre eles Egon Johannes Greipl, chefe do Departamento bávaro de Monumentos Históricos, gostariam de ver tombados todos os sítios nazistas da região.
"Ninguém pensaria em demolir as ruínas de Olímpia (na Grécia) a pretexto de que tudo ficaria mais bem apresentado num Centro de documentação", afirma Greipl. "São testemunhas in loco da História", que falam de um período crucial e de um fato, os crimes nazistas".
Greipl considera incoerente que a Baviera tenha incluído, secretamente, durante décadas, esses locais numa lista de sítios históricos protegidos, antes de decidir "por motivos políticos" varrê-los do mapa.
"Atribuir um estatuto cultural particular à casa Berghof" e a outras ruínas nazistas, entre elas 12 quilômetros de bunkers e de túneis sob a montanha, "serviria apenas para encorajar a construção de uma espécie de trilha do nacional-socialismo", replica Walter Schön, funcionário local encarregado do patrimônio e número dois do ministério da Justiça da Baviera.
Charlotte Knobloch, dirigente da comunidade judaica de Munique, lamenta igualmente qualquer ideia de tombamento.
"De qualquer forma, não resta nada" de Berghof e é preciso evitar fazer da casa um alvo de peregrinação neonazista, segundo ela.
Drecoll, por sua vez, tem menos medo de atrair grupos de extrema-direita do que ver os locais desvirtuados numa espécie de "Disneilândia do nazismo", fora do contexto histórico.
"Claro, é preciso satisfazer a curiosidade dos turistas, mas sem cair no sensacionalismo", diz ele. A grande dificuldade é evitar que "a pesquisa histórica ceda lugar ao kitsch comercial".

maio 05, 2011

25. Um olhar sobre a velha Rússia

O site já está no ar há bastante tempo, e alguns leitores devem tê-lo visitado antes. Que importa? Algumas coisas na vida são dignas de serem vistas e revistas novamente.
Estou falando de uma exibição, organizada pela Biblioteca do Congresso americano, das fotos de Sergei Prokudin-Gorskii. Sergei foi um dos mestres da fotografia do início do século passado, contribuindo também para seu avanço técnico, bolando inclusive técnicas de fotografar com cores, como no caso das fotos ali expostas.



Nicolau II, o último dos czares, incumbiu Prokudin-Gorskii de viajar por seu império e registrar por imagens como estava a Rússia. O fotógrafo saiu assim a explorar todas as belezas e contrastes de um império que em nada perdia para o Brasil atual em termos de diversidade: fábricas e cameleiros, ferrovias e bazares, ortodoxos, judeus e muçulmanos, citadinos, agricultores e nômades... Mesmo que as autoridades russas estivessem envolvidas num processo de russificar a população por várias décadas, fica visível o sucesso muito limitado desses esforços.


O projeto de fotografar a Rússia ocupou quase uma década e foi interrompido pela revolução de 1917, mas as fotos já feitas sobreviveram e contam um pouco da história de um mundo que deixava de existir naquele momento.
O site indicado acima mostra algumas imagens organizadas por categoria e comentadas - para os não-anglófonos: introdução, arquitetura, etnias, transporte e trabalho. Mas a verdadeira preciosidade está na opção de ver a coleção completa, com centenas de fotografias que não foram incluídas nas categorias acima.

março 27, 2011

20. Novo artigo

Mais feliz era Heródoto, que viveu antes das universidades: bastou um livro para assegurar a sua imortalidade. Hoje em dia, qualquer um que se envolva no meio acadêmico precisa produzir um fluxo constante de publicações, apresentações, qualquer coisa que possa acrescentar algumas linhas ao currículo; um CV volumoso aumenta as chances de entrar na pós-graduação, ser contratado, enfim, todas as coisas boas.

Não que a simples quantidade baste: onde se é publicado também é importante. O índice Qualis, uma das obsessões dos pesquisadores, mede a qualidade dos periódicos, não dos textos. As revistas recebem uma avaliação de 0 a 7 (expressa em letras; em ordem crescente, temos: C, B5, B4, B3, B2, B1, A2 e A1) de acordo com uma série de critérios, e os pesquisadores têm sua produção avaliada de acordo com as revistas em que publicaram. Colocando em termos práticos, se Einstein fosse brasileiro e tivesse publicado a teoria da relatividade especial em uma revista de Qualis baixo, isso beneficiaria menos a carreira dele do que publicar artigos medíocres em revistas conceituadas. Provavelmente precisamos de alguma espécie de critério objetivo para saber quem é mais ou menos relevante em sua área, mas se até eu vejo os problemas do sistema atual em dois minutos, é porque realmente temos problemas.

Depois desse preâmbulo para explicar porque é do meu interesse ter publicações, informo aos interessados que acabo de ter um artigo publicado na nova edição da revista Semina, que trata de como era visto o trabalho feminino nos anos 20 do século passado. Para não estragar a surpresa, apenas vou adiantar que era complicado, porque havia valores conflitantes em jogo.

Confiram a revista, deem uma chance aos artigos, divulguem...

janeiro 03, 2011

10. Lovecraft e a crise do antropocentrismo

Falar de períodos de crise é fácil; definir o que exatamente conta como uma crise é mais difícil. Mesmo assim, não parece exagerado dizer que a primeira metade do século 20 foi uma fase de crise para a civilização ocidental. Se alguém duvida, que vá discutir com Eric Hobsbawm - foi ele que chamou o período de 1914 a 1945 de "Era da Catástrofe".

As duas guerras mundiais desempenharam sua parte nisso, com o ápice da ciência e tecnologia sendo empregado para facilitar a morte em grande escala. Material e moralmente, os países europeus foram abalados pelas guerras - não é por acaso que em 1918 o historiador Oswald Spengler publicou O declínio do Ocidente, livro que pretendia mostrar que as civilizações passavam por fases de ascensão e queda (o título do livro já conta o que ele pensava do estado da sua própria civilização). Com o final da I Guerra, um livro que antes pareceria absurdo tornou-se um grande sucesso. Mas o problema era anterior a 1914, e seus sintomas culturais podem ser percebidos retrospectivamente: o século 20 começou com transformações nas ciências (Einstein e sua teoria da relatividade especial, de 1905), na psicologia (A interpretação dos sonhos, primeiro grande trabalho de Freud, foi publicado em 1899) e na arte (Les demoiselles d'Avignon, de Picasso, de 1907).

As mudanças tinham um vínculo entre si: todas foram no sentido de tornar o mundo um lugar mais difícil de compreender. Einstein substituiu o mundo bem ordenado de Newton por um onde o tempo e o espaço eram relativos; concordemos ou não com a psicanálise, Freud mostrou que não éramoss os seres racionais que pensávamos ser, e nem ao menos os senhores de nossas próprias mentes, sujeitas a influências que nos passam despercebidas; as artes visuais, das quais Picasso é apenas um dos expoentes, afastavam-se cada vez mais do realismo em busca de novos mundos, interiores e imaginativos, a explorar. O ser humano racional, senhor de si e do mundo, estava em baixa.

Como seria de esperar, a crise teve consequências também na literatura - tomando o caso mais famoso, foi em 1922 que James Joyce publicou Ulysses com sua narrativa tortuosa e repleta de fluxos de consciência. Mas Joyce não era o único escritor importante na ativa; outro autor que transformou a literatura, e infelizmente um tanto menos conhecido no Brasil, foi o americano Howard Phillips Lovecraft (1890-1937).

Influenciado principalmente por Poe, Lovecraft foi um dos principais escritores de histórias de terror do século 20. Sua grande contribuição ao gênero, que reflete bem a época em que viveu, consistiu em tirar a importância dos seres humanos e descrever um universo que não foi feito para nós e que não fomos feitos para compreender.

Para a literatura de terror anterior, a humanidade estava, de alguma forma, no centro do palco. Nos contos de Poe, o terror estava na insanidade e naquilo que um louco é capaz de fazer (O gato preto, Coração delator, O barril de Amontillado - a lista dos loucos assassinos em Poe não é pequena). Frankenstein, de Mary Shelley, não é sobre um monstro ensandecido, mas sobre a responsabilidade de um criador negligente, o dr. Frankenstein, por sua criatura imperfeita, que ao ser abandonada por seu criador e rejeitada pelo mundo acaba trilhando o caminho do mal - a analogia com a relação entre o Deus cristão e a humanidade é evidente. Drácula, de Bram Stoker, é sobre a luta dos protagonistas armados com a ciência moderna para proteger a civilização inglesa - e as mulheres inglesas - de um monstro primitivo, perigoso mas infantil, saído do interior da Transilvânia, além dos limites da Europa civilizada. E, como os cineastas posteriores mostraram com clareza excessiva, é também sobre o fascínio e o medo da sedução: afinal, o vampiro sai à noite em busca de virgens inocentes, que depois de seu ataque são transformadas em mulheres agressivas e também sedutoras - de novo, a metáfora está aí para quem quiser ver. E a lista poderia seguir porque, de alguma forma, as pessoas ocupam lugar de destaque nas histórias de terror: contos de fantasmas com suas tragédias antigas, O médico e o monstro, em que o monstro é o lado negro do ser humano, e assim vai...

Até que Lovecraft tirou esse papel de destaque que ocupávamos até então. Suas histórias, como quaisquer outras de terror, são sobre medos humanos, mas o medo aqui é o de ser uma criatura insignificante vivendo em um universo estranho e hostil, que parece mais estranho e hostil quanto melhor o compreendemos. Na mitologia de Lovecraft, o mundo não é governado por deuses ou demônios, que ao menos são seres com motivações humanas e compreensíveis, e que se ocupam com a humanidade, seja para salvá-la ou corrompê-la. A perspectiva lovecraftiana é pós-religiosa: os "deuses" são seres alienígenas cujas motivações são incompreensíveis, cujas formas verdadeiras podem enlouquecer uma mente humana limitada, e que simplesmente não se importam com a humanidade, estando tão acima dela que nem percebem sua existência. A humanidade, longe de desempenhar um papel cósmico central, é uma espécie comum que apenas conseguiu dominar um planeta comum porque os seres realmente avançados se afastaram temporariamente. Mas eles voltarão:

Nem devemos pensar que o homem é o mais antigo ou o último dos mestres da Terra, ou que a vida e substância comum estão sozinhas. Os Antigos eram, os Antigos são e os Antigos serão. Não nos espaços que conhecemos, mas entre eles, eles andam serenos e primevos, sem dimensões e invisíveis para nós. Yog-Sothoth conhece o portal. Yog-Sothoth é o portal. Yog-Sothoth é a chave e o guardião do portal. Passado, presente, futuro, todos são um em Yog-Sothoth. Ele sabe por onde os Antigos entraram no passado, e por onde Eles entrarão novamente. Ele sabe onde Eles percorreram os campos da Terra, e onde Eles ainda os percorrem, e porque ninguém pode observá-los enquanto andam. (...) Sua mão está em vossas gargantas, e nem assim os vedes; e Sua morada é una com seu umbral protegido. Yog-Sothoth é a chave do portal, onde as esferas se encontram. O homem governa agora onde Eles já governaram; Eles em breve governarão onde o homem governa agora. Depois do verão vem o inverno, depois do inverno, o verão. Eles aguardam pacientes e potentes, pois aqui Eles reinarão novamente. (O horror de Dunwich, c. 5)

Ainda pior que a existência de monstros completamente desumanos que ameaçam a humanidade sem nem perceber é o problema de esses monstros serem reflexos de um cosmos não menos desumano.

A coisa mais misericordiosa do mundo, acho, é a inabilidade da mente humana de correlacionar todos seus conteúdos. Vivemos em uma ilha plácida de ignorância em meio aos mares negros do infinito, e não fomos feitos para viajar longe. As ciências, cada uma avançando em sua própria direção, até o momento nos fizeram pouco mal; mas algum dia a reunião do saber agora desconexo abrirá panoramas tão aterrorizantes da realidade, e de nossa posição assustadora nela, que iremos ou enlouquecer com a revelação ou fugir da luz rumo à paz e segurança de uma nova Idade das Trevas (O chamado de Cthulhu, c. 1).


Talvez por isso Lovecraft seja tão atual mais de 70 anos depois de sua morte: o medo de que ele fala continua vivo sob a superfície. Como se sentir confortável com o pensamento de que vivemos em um universo que não surgiu por nenhum motivo aparente, evoluímos como qualquer outra espécie, sem um desígnio especial por trás disso, nossos cérebros não foram feitos para compreender a verdadeira estrutura do mundo (quem realmente consegue compreender a vastidão de um ano-luz, de um milhão de anos, ou a estranheza de que tudo aquilo que vemos ao nosso redor e consideramos sólido, inclusive nós mesmos, são aglomerados de pequenas partículas em meio ao vazio?), e não há nenhuma base segura no mundo para nossos ideais de beleza, paz, razão e justiça?

Algumas religiões oferecem uma resposta, identificando o sentido do mundo com a vontade divina. Uma alternativa não religiosa foi pensada pelos filósofos existencialistas (de Nietzsche, que viveu antes de surgir o termo existencialista, em diante): o sentido não é inerente ao mundo, então só pode ser criado por nós. Acho que os existencialistas estão mais próximos da verdade, o que não deixa de ser uma pena: o existencialismo não oferece o conforto emocional das religiões.

Qualquer que seja a sua resposta, dê uma chance aos contos de Lovecraft. Existem traduções para o português à venda nas livrarias, e a versão original em inglês já pode ser lida online no site do Gutenberg Australia.
Veja como você reaje à perspectiva de um mundo assustadoramente sem sentido, e então olhe ao redor...