O Brasil oitocentista não está na lista de assuntos que estudo no momento, então foi por pura curiosidade que comprei em um sebo um livro com anúncios de jornais do período.
A maior parte do conteúdo, apesar de interessante, era de se esperar: anúncios de escravos fugidos, compra e venda de escravos, avisos de missas, anúncios de lojas, bugigangas da Índia (no começo do século) e da Europa (mais tarde), etc.
Mas o livro valeu seu preço modesto por um dado surpreendente (ao menos para mim): existia, no Brasil Império, uma prática forte de aluguel de escravos. Algo assim (com a grafia modernizada):
Precisa-se alugar um preto ou preta que saiba cozinhar e o mais arranjo de uma casa de família; na rua das Flores número 13. - O 19 de dezembro (PR), 8/4/1854
Alugam-se uma negrinha de 14 anos, duas pretas perfeitas cozinheiras, lavadeiras e engomadeiras de roupa de senhora; informa-se por favor, à rua Luiz de Camões n. 14, antiga da Lampadosa, venda. - Jornal do Comércio (RJ), 1/10/1881
Aluga-se uma escrava crioula, sabendo lavar, engomar e cozinhar; sem vícios e fiel: quem a pretender dirija-se à rua do Alecrim, segunda casa do canto ao lado do sr. Cidade, que achará com quem tratar. - O Novo Íris (SC), 19/7/1850
Fica a dúvida, que alguém já deve ter estudado: como essa prática se inseria na economia? Havia gente que comprava escravos apenas para alugar ou era algo feito por proprietários que estivessem com mão de obra demais e dinheiro faltando?
E a constatação mais óbvia: esse tipo de coisa acontecia há apenas 130 anos atrás. Hoje seria impensável, e mesmo na década de 1880 já havia abolicionistas se opondo à escravidão, mas essa instituição ainda era aceita o suficiente para que as pessoas pudessem colocar anúncios desses nos jornais com a maior naturalidade.
Não sou daqueles que acreditam na evolução moral da humanidade. Quase sempre, olhar do passado ao presente e ver os costumes ficarem cada vez mais parecidos com os nossos, até culminar em nós do presente, e achar que isso significa que algo melhorou, é o cúmulo dos horizontes estreitos. Mas anunciar aluguel de escravos é algo que definitivamente não faz falta...
Aos interessados, o livro é E os preços eram commodos - anúncios de jornais brasileiros do século XIX, volume 2, organizado por Marymarcia Guedes e Rosane de Andrade Berlinck.
Onde o ontem vive no hoje. Notas sobre a história, a ciência histórica e a vida acadêmica para leitores curiosos.
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março 14, 2012
janeiro 31, 2012
54. Moedas romanas?
Hoje, um exercício de comparação entre o que sai na mídia sobre uma descoberta arqueológica e a opinião dos especialistas. Exemplo de caso divertido: uma moeda ou ficha romana com uma imagem erótica.
Primeira versão: a midiática, vinda do Estadão.
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A moeda de bronze do século 1 encontrada há mais de um ano nas proximidades do rio Tâmisa era, segundo os especialistas, uma forma de pagamento nos bordéis do Império Romano, informa o Museu de Londres.
A peça tem um tamanho similar ao de uma moeda de dois euros e em uma de suas faces é possível ver um casal, enquanto na outra aparece inscrito o número 15 em algarismos romanos.
Apesar de sua antiguidade, reproduz bastante nitidamente a imagem de uma mulher deitada em um sofá ao lado de uma figura masculina, aparentemente durante um ato sexual.
Os analistas do Museu de Londres, onde está sendo exibida a moeda, acreditam que este tipo de objeto era trocado por sexo e que o número que aparece no reverso da moeda é o preço do serviço prestado.
A curadora do museu, Caroline McDonald, afirmou que se trata de um objeto arqueológico "perfeito, sexy e provocativo", embora demonstre que a vida de uma escrava romana não era muito feliz.
"Este tipo de objeto pode nos ajudar a gerar debates sobre temas relevantes para a cidade e seus visitantes", continuou.
A peça foi encontrada na margem do Tâmisa no outono de 2010, por um homem com um detector de metais.
-----------------------------------------------------------------------------------
Deixando de lado o curioso eufemismo de a mulher estar deitada "ao lado" do homem, logo fica claro que, segundo a reportagem, a função da moeda era bem clara: uma ficha usada em bordéis.
Agora, a segunda versão, saída do blog de Mary Beard, professora de clássicos (leia-se: Grécia e Roma antigas) em Cambridge. Apenas em inglês, lamento:
--------------------------------------------------------------------------------------
I was hoping to keep out of the story about the "Roman brothel token" found by a metal detectorist near Putney Bridge and now on display at the Museum of London. But I think someone had better give a different version from the torrent of lurid stuff now pouring out about the sex-life of Roman London.
The object in question is a small bronze "coin" -- with a scene of sex on one side and a the Roman numeral XIIII on the other. Assuming that it is genuine (and there are quite a few fakes of these circulating and this one was not actually found in an archaeological context), then it is what archaeologists term a "spintria". This is a Latin word for male prostitute... but it is an entirely modern practice to apply it to these little objects; we haven't got the foggiest clue what the Romans called them... or (despite what you read) what they used them for. Quite a few have been found across the Roman world (there's another on the right).
The favourite idea circulating about this recent discovery is that it was part of the highly developed Roman brothel economy. Perhaps you handed over 14 asses (the coin not the animal, I mean), got the token and then went and redeemed it at one of the local brothels (a bit like a book token). Or maybe the sexual position depicted on the token was what you had paid your 14 asses for (shades here of the tour guides' explanations for the paintings of the different sexual positions depicted on the walls of the brothel at Pompeii ... a kind of visual menu for those who couldnt ask for it in Latin. Errr.. come again?)
Now, as there is no evidence for these things at all, no-one could actually disprove that. But remember that there is no Roman mention of such things, none have been found in any place that has been identified as a "brothel" . . . and just think of the kind of infrastructure of the ancient "brothel industry" that this kind of internal currency would imply. (Let's face it, most sex for money in the ancient world -- like now --happened at street corners, under bridges, after closing time at the bar... NOT in designated "brothels" . . . )
So what is a more likely explanation?
Well, first remember that just because something has a sex scene on
it doesn't mean it was used for sex. That assumption has led to the
discovery of 80 odd "brothels" in Pompeii (ie any room with a scene of
sex on the walls....). But look at the Suburban Baths at Pompeii, there different sex scenes seem just to have been used as aide memoires for the different "lockers" in the changing room.
Almost certainly these were tokens whose main function was the numeral, and the sex scene on the back was 'decoration". One possibility would be an amphitheatre token, and the XIIII would indicate which entrance you were to use. But I doubt that any amphitheatre in Britain was so big as to need that kind of crowd management (though of course, being found by the Thames, this thing could actually have been brought back from Italy by some eighteenth century traveller who just accidentally dropped it by Putney Bridge on his way home).
More likely, if you ask me (and as the curator at the Museum of London concedes it might be so), is that it is a gaming token, for one of the many Roman board games... whose rules and customs were anyway shot through with sex (the best throw of the Roman dice was called a "Venus throw"). This belonged, in other words, on a board in a Roman bar, not in a brothel.
The trouble is that we just want the Romans to take us into the world of their brothels, and we want vicariously to enjoy their wicked sex lives. Though, in this case, there has been a politically correct, early 21st century twist added to the tale. After ogling at the Romans for a bit, many of the eager journalists (prompted by the Museum of London) have finally chosen to spare half a thought for the victims of the ancient sex industry. Don't forget, insisted the curator (correctly), that many prostitutes would be slaves. "It has resonance with modern-day London because people are still being sold into the sex trade."
True and terrible, but in most reports it only added to the prurient edge of the find.
--------------------------------------------------------------------------
Evidência de que a moeda/ficha esteja relacionada à prostituição antiga: exatamente zero. Nenhum outro exemplar foi encontrado num bordel, como seria de esperar se fosse o caso.
Evidência para qualquer outro uso em particular: também zero. Como Beard disse, "não temos a mínima ideia de como os romanos chamavam esses objetos ou para que eram usados".
Mas, como está firme em nossas cabeças o estereótipo dos romanos depravados e libertinos, a versão divulgada para o grande público é a que todos esperam ouvir: ficha de bordel. Mesmo porque um objeto de função desconhecida rende uma notícia muito menos interessante...
A possibilidade que Mary Beard sugere, que fosse uma ficha de jogo, também não tem como ser provada ou desprovada por enquanto, mas é igualmente provável.
Primeira versão: a midiática, vinda do Estadão.
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Moeda encontrada no Tâmisa era usada como pagamento em bordéis do século 1
Apesar da antiguidade, o objeto reproduz bastante nitidamente a imagem de uma mulher deitada em um sofá ao lado de uma figura masculina, aparentemente durante o ato sexual
A moeda de bronze do século 1 encontrada há mais de um ano nas proximidades do rio Tâmisa era, segundo os especialistas, uma forma de pagamento nos bordéis do Império Romano, informa o Museu de Londres.
Museu de Londres/AP
Peça foi encontrada na margem do Tâmisa no outono de 2010
A peça tem um tamanho similar ao de uma moeda de dois euros e em uma de suas faces é possível ver um casal, enquanto na outra aparece inscrito o número 15 em algarismos romanos.
Apesar de sua antiguidade, reproduz bastante nitidamente a imagem de uma mulher deitada em um sofá ao lado de uma figura masculina, aparentemente durante um ato sexual.
Os analistas do Museu de Londres, onde está sendo exibida a moeda, acreditam que este tipo de objeto era trocado por sexo e que o número que aparece no reverso da moeda é o preço do serviço prestado.
A curadora do museu, Caroline McDonald, afirmou que se trata de um objeto arqueológico "perfeito, sexy e provocativo", embora demonstre que a vida de uma escrava romana não era muito feliz.
"Este tipo de objeto pode nos ajudar a gerar debates sobre temas relevantes para a cidade e seus visitantes", continuou.
A peça foi encontrada na margem do Tâmisa no outono de 2010, por um homem com um detector de metais.
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Deixando de lado o curioso eufemismo de a mulher estar deitada "ao lado" do homem, logo fica claro que, segundo a reportagem, a função da moeda era bem clara: uma ficha usada em bordéis.
Agora, a segunda versão, saída do blog de Mary Beard, professora de clássicos (leia-se: Grécia e Roma antigas) em Cambridge. Apenas em inglês, lamento:
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A Roman brothel token?
I was hoping to keep out of the story about the "Roman brothel token" found by a metal detectorist near Putney Bridge and now on display at the Museum of London. But I think someone had better give a different version from the torrent of lurid stuff now pouring out about the sex-life of Roman London.
The object in question is a small bronze "coin" -- with a scene of sex on one side and a the Roman numeral XIIII on the other. Assuming that it is genuine (and there are quite a few fakes of these circulating and this one was not actually found in an archaeological context), then it is what archaeologists term a "spintria". This is a Latin word for male prostitute... but it is an entirely modern practice to apply it to these little objects; we haven't got the foggiest clue what the Romans called them... or (despite what you read) what they used them for. Quite a few have been found across the Roman world (there's another on the right).
The favourite idea circulating about this recent discovery is that it was part of the highly developed Roman brothel economy. Perhaps you handed over 14 asses (the coin not the animal, I mean), got the token and then went and redeemed it at one of the local brothels (a bit like a book token). Or maybe the sexual position depicted on the token was what you had paid your 14 asses for (shades here of the tour guides' explanations for the paintings of the different sexual positions depicted on the walls of the brothel at Pompeii ... a kind of visual menu for those who couldnt ask for it in Latin. Errr.. come again?)
Now, as there is no evidence for these things at all, no-one could actually disprove that. But remember that there is no Roman mention of such things, none have been found in any place that has been identified as a "brothel" . . . and just think of the kind of infrastructure of the ancient "brothel industry" that this kind of internal currency would imply. (Let's face it, most sex for money in the ancient world -- like now --happened at street corners, under bridges, after closing time at the bar... NOT in designated "brothels" . . . )
So what is a more likely explanation?
Almost certainly these were tokens whose main function was the numeral, and the sex scene on the back was 'decoration". One possibility would be an amphitheatre token, and the XIIII would indicate which entrance you were to use. But I doubt that any amphitheatre in Britain was so big as to need that kind of crowd management (though of course, being found by the Thames, this thing could actually have been brought back from Italy by some eighteenth century traveller who just accidentally dropped it by Putney Bridge on his way home).
More likely, if you ask me (and as the curator at the Museum of London concedes it might be so), is that it is a gaming token, for one of the many Roman board games... whose rules and customs were anyway shot through with sex (the best throw of the Roman dice was called a "Venus throw"). This belonged, in other words, on a board in a Roman bar, not in a brothel.
The trouble is that we just want the Romans to take us into the world of their brothels, and we want vicariously to enjoy their wicked sex lives. Though, in this case, there has been a politically correct, early 21st century twist added to the tale. After ogling at the Romans for a bit, many of the eager journalists (prompted by the Museum of London) have finally chosen to spare half a thought for the victims of the ancient sex industry. Don't forget, insisted the curator (correctly), that many prostitutes would be slaves. "It has resonance with modern-day London because people are still being sold into the sex trade."
True and terrible, but in most reports it only added to the prurient edge of the find.
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Evidência de que a moeda/ficha esteja relacionada à prostituição antiga: exatamente zero. Nenhum outro exemplar foi encontrado num bordel, como seria de esperar se fosse o caso.
Evidência para qualquer outro uso em particular: também zero. Como Beard disse, "não temos a mínima ideia de como os romanos chamavam esses objetos ou para que eram usados".
Mas, como está firme em nossas cabeças o estereótipo dos romanos depravados e libertinos, a versão divulgada para o grande público é a que todos esperam ouvir: ficha de bordel. Mesmo porque um objeto de função desconhecida rende uma notícia muito menos interessante...
A possibilidade que Mary Beard sugere, que fosse uma ficha de jogo, também não tem como ser provada ou desprovada por enquanto, mas é igualmente provável.
janeiro 16, 2012
49. Cabral em 1500 - Achamento intencional ou acidental?
A pergunta do título deste post é uma dúvida histórica que com frequência se ouve: ao encontrar o que viria a ser o Brasil em abril de 1500, Cabral sabia antecipadamente o que estava fazendo ou veio parar aqui por acidente?
Um dos principais historiadores portugueses da atualidade, Luís Filipe Thomaz, escreveu um artigo com sua contribuição para a questão. O resumo dá uma boa ideia de seu posicionamento:
O grande projeto de d. Manuel (r. 1495-1521) era, na sua essência, um projeto de
cruzada, visando o ataque ao Império Mameluco pelo mar Roxo e a recuperação
de Jerusalém. O Brasil não podia representar nele senão o modesto papel de escala
técnica para as naus da Índia. Embora haja múltiplos indícios de que, pelo menos
ca. 1492, conhecia-se já vagamente a existência de terras naquela zona do globo
e de que o desvio de Pedro Álvares Cabral para ocidente foi intencional, este não
parece imputável a instruções secretas de d. Manuel, mas antes a manobras da corte,
majoritariamente adversa aos planos de cruzada do soberano.
Primeiro fato: o continente americano estava sendo descoberto aos poucos e ninguém conhecia sua extensão exata em 1500. Cada nova expedição castelhana ou portuguesa trazia notícias de mais um pedaço de terra - uma ilha, um pedaço de continente? - e ainda não se tinha certeza de como as peças se encaixavam no mapa. Em todo caso, era razoável concluir que devia existir alguma terra na área dada aos portugueses pelo Tratado de Tordesilhas:
Eram certamente essas tais terras de cuja existência suspeitava d. João que
apareciam debuxadas, não sabemos com que grau de verossimilhança, no mapa
de Pero Vaz Bisagudo a que se refere mestre João. O esboço era sem dúvida
conjetural, pois não podia haver delas senão uma vaga ideia. Nem sequer se
devia saber ao certo se eram ilhas, como criam os habitantes de Santiago, se
terra firme, como afirmava d. João II. A dúvida manter-se-ia mesmo depois do
descobrimento cabralino: tanto Pero Vaz de Caminha como mestre João opinam
que se trataria de ilha ou arquipélago; a continentalidade da terra descoberta
só começa a ser decididamente afirmada em documentos de 1501: a relação
do crético à senhoria de Veneza, a carta de Vespúcio escrita do Cabo Verde e,
embora com menos convicção, a chamada Relação do piloto anónimo. O crético
é assaz peremptório: “esta terra é terra firme, porque viram mais de duas mil
milhas de costa e não lhe encontraram fim”. Vespúcio vai mais longe ainda,
identificando o continente tocado por Cabral com o que ele próprio costeara no
ano precedente ao serviço de Castela, integrado, como se sabe, na expedição
de Hojeda. O mais provável é que, como afirma Gaspar Correia, o navio
de Gaspar de Lemos, mandado a Lisboa com a nova do achamento do Brasil,
mesmo sem efetuar novos desembarques, o tenha costeado de Porto Seguro
para norte, apercebendo-se então da sua continentalidade.
Segundo fato: a rota seguida por Cabral é um tanto quanto peculiar. Segundo os entendidos em navegação e correntes marítimas, não haveria muita chance de ele ter sido desviado de rumo acidentalmente, por uma tempestade ou coisa do tipo.
É difícil abstrair de tal pano de fundo ao considerar a rota seguida por Cabral.
Já no século XVI, se afigurava insólita, levando vários cronistas a imaginar uma
tempestade que, no Atlântico sul, o teria arrastado para sueste, mas que as fontes
coevas mais fidedignas, como Caminha, mestre João e a primeira edição de
Castanheda, não referem nem deixam entrever; ou então, como imagina António
Galvão, que a armada tivesse perdido a rota, ao procurar em vão a nau que dela
se apartara em Cabo Verde, o que tampouco é exato. O que mais espanta é que
Cabral tivesse aterrado no Brasil tanto a ocidente e tanto a sul, quase à latitude
em que, na rota mais expedita para a Índia, devia começar a inflectir para leste.
Desde o século passado que os marinheiros e geógrafos que estudaram o
percurso de Cabral, como Baldaque da Silva, Gago Coutinho e o almirante
Fonseca, foram unânimes em mostrar, com argumentos que seria ocioso repetir
aqui, que no condicionalismo físico de ventos e correntes do Atlântico meridional
nada implicava tamanho bordo para sueste numa viagem em direção ao Cabo – pelo que parece impor-se a conclusão de que o bordo foi intencional.
Problema: se foi intencional, de quem veio a ideia? A resposta mais óbvia: do rei d. Manuel de Portugal, mentor da expedição. Parece uma conclusão lógica, mas levanta mais dificuldades do que explica.
Primeiro obstáculo: as instruções dadas pelo rei a Cabral não mencionam nenhum desvio para oeste a fim de encontrar novas terras. Seria possível que ele tivesse dado instruções secretas nesse sentido, o que nos leva ao
Segundo obstáculo: a frota comandada por Cabral era de grande porte, um investimento caríssimo destinado a visitar a Índia e ganhar apoio dos supostos cristãos indianos para os projetos expansionistas do rei. Qual o sentido de arriscar um investimento desses para fazer o que um único navio poderia fazer? Se a intenção era demarcar as novas terras contra avanços espanhóis, um navio, explorando a costa norte do continente (cuja existência já se conhecia vagamente) no sentido leste-oeste até chegar à linha de Tordesilhas, seria a solução mais conveniente.
Por parte de Portugal impunha-se, portanto, a vigilância. Não era, contudo,
a costa norte-sul do Brasil que importava vigiar, mas a costa leste-oeste do Rio
Grande do Norte ao Maranhão. A solução mais lógica seria despachar imediatamente
de Lisboa uma caravela a tomar posse das terras reservadas a Portugal pelo
tratado e delimitar a raia; mas, nesse caso, o objetivo seria a costa setentrional do
Brasil, onde, devido ao regime de ventos e correntes, jamais se poderia passar
em viagem para a Índia, e não o sul baiano a que Cabral aportou.
Não é de crer, por conseguinte, que no momento de despachar para a Índia
seu segundo capitão, o rei, que com tamanho esforço prosseguia, em luta surda
com a corte, a sua política oriental, quisesse pôr em risco o seu objetivo central
para proceder ao reconhecimento de um território cuja posse ficara assegurada
já em Tordesilhas, e que uma simples caravela enviada de Lisboa poderia
facilmente explorar. Desviar da sua rota uma frota inteira para representar na
costa sul-americana a farsa do descobrimento ocasional era expô-la inutilmente
aos riscos de encalhar nos recifes coralinos que acompanham quase todas as
costas tropicais, de incorrer em recontros com nativos, de perder tempo e dobrar
o Cabo no pino do inverno, quando são mais temíveis os ventos de oeste, de
falhar no Índico a monção mais favorável e ter de invernar na África Oriental,
como dois anos antes ia sucedendo ao Gama.
Se havia a certeza de que essas terras do sudoeste do Atlântico recaíam
dentro da demarcação portuguesa, a farsa era de todo inútil. Se, pelo contrário,
havia dúvidas quanto à sua situação em relação à raia de Tordesilhas, uma caravela
isolada poderia efetuar as observações necessárias e as medições que se
impunham muito mais discretamente que uma armada imponente em que boa
parte da Europa tinha os olhos postos.
Terceiro obstáculo: qual o motivo para o rei dar ordens secretas? Os espanhóis não teriam o que protestar se fossem encontradas terras na área portuguesa, e os nobres portugueses estavam mais interessados que o rei no Atlântico.
No caso de Pedro Álvares Cabral, por que sigilo? Por via da oposição interna?
Mas essa estava, segundo tudo leva a crer, muito mais interessada que
d. Manuel no Atlântico; nada conviria mais ao soberano para aquietá-la do que
acenar-lhe com compensações, significando-lhe que era também sua intenção
mandar descobrir terra em que em breve poderiam mercadejar a seu talante.
Quanto a Castela, não se compreende porque precisaria o soberano português
de mandar secretamente descobrir o que pelo Tratado de Tordesilhas lhe cabia
manifestamente em sorte. Se, em 1493, quando as negociações estavam ainda
em curso, ninguém guardara o segredo e as suspeitas de d. João II chegaram
ao conhecimento dos Reis Católicos, para que o sigilo agora que tudo ficara
regulado e o filho de d. Manuel era o herdeiro jurado das três coroas?
[...]
De qualquer modo, entre a redação das instruções para Cabral, que não deve
ter tido lugar antes da sua nomeação para capitão da frota, a 15 de fevereiro, e a
sua partida efetiva, a 9 de março, nenhum concorrente externo teria tempo para
se antecipar a Portugal e fincar pé no Brasil. Não parece pois haver qualquer
razão para que d. Manuel desse a Pedro Álvares Cabral instruções secretas
contraditórias das que lhe dava por escrito.
Quarto obstáculo: se as terras americanas fossem importantes para o rei a ponto de merecerem ordens secretas para um desvio da fronta, presumivelmente d. Manuel estaria interessado em contar a todo o mundo sua descoberta, a fim de legitimar sua posse e exaltar as façanhas portuguesas. Mas não foi o que ele fez - na verdade, a descoberta de Cabral pouco interessou ao rei de Portugal...
Seja como for, se foi este quem montou toda aquela encenação, pouco partido
tirou dela. Ao contrário do que se passara no ano anterior com o regresso
de Vasco da Gama, e do que se passaria mais tarde com as sucessivas façanhas
dos portugueses na Índia, não há qualquer prova documental de que d. Manuel
tenha participado o achamento do Brasil aos concelhos, mandado celebrar ações
de graças, notificado a Santa Sé, ou comunicado aos sogros o feito. Só a estes
o viria a participar mais tarde, após o regresso de Cabral da Índia, intercalando
na relação do que no Malabar se passara, que era o que deveras lhe importava
e constituía o escopo da missiva, um curto parágrafo sobre o achamento do
Brasil, nitidamente inspirado na carta de Pero Vaz de Caminha.
Se o achamento do Brasil não foi por ordens reais, mesmo assim pode ter sido proposital. A explicação mais simples é que Cabral tenha desviado a frota a fim de reabastecê-la nessas terras de cuja existência se suspeitava:
O fato de o desvio da frota de Cabral para sudoeste não parecer imputável a
instruções d’el-rei não invalida que possa ter sido intencional. Pode, por exemplo,
ter tido uma causa assaz prosaica. A armada não parara em Cabo Verde
para fazer aguada, como previam as instruções dadas por Vasco da Gama. Não
é impossível que, passado já o arquipélago, tenham se arrependido, receando
que lhes viesse a faltar água e lenha. Sabendo que algures, a ocidente, se dizia
à boca cheia haver terras emersas, podem ter rumado para lá, na esperança de aí
se poderem aprovisionar de madeira e água doce – como de fato veio a suceder
e, na esteira de Caminha, d. Manuel refere aos Reis Católicos. É a mais simples
e quiçá a mais verossímil das suposições.
Thomaz levanta outra hipótese, um pouco mais conspiratória: o desvio teria se dado por iniciativa de capitães da frota, mais interessados no comércio do Atlântico (que prosperava na costa africana) que nos projetos expansionistas reais no Mar Vermelho.
Aos opositores da política indiana do Venturoso conviria, por qualquer meio,
desviar do mar Roxo as atenções do poder e os cabedais, energias e recursos
humanos da nação, oferecendo-lhes no Atlântico sul um campo alternativo de
expansão. Extrapolando para inícios do século XVI o que se passaria em seus
finais e na centúria seguinte, podemos, por outro lado, presumir que a média
burguesia nacional, mormente a dos portos secundários, que não dispunha de
cabedais suficientes para se empenhar no trato da longa rota do Cabo, anelaria
por achar outros mercados, mais vizinhos.
Um pouco improvável, talvez, mas interessante ainda assim. O que não muda é que, tenha sido por acidente, ordens do rei, parada para reabastecimento ou foco de expansão no Atlântico sul, encontrar as futuras terras brasileiras foi muito menos interessante para Portugal do que o comércio e conquistas na Índia, uma das regiões mais ricas do mundo em 1500. O Brasil permaneceu pouco explorado por cerca de 30 anos, e só se tornou a grande prioridade portuguesa quando as possessões indianas entraram em declínio pela competição com outras potências europeias no século 17. Nossa existência pressupõe não só Portugal, mas também a Índia. Mesmo assim, parece que só nos damos ao trabalho de aprender um dos lados dessa história. Pouco se diz das grandes rotas de comércio no Oceano Índico, por onde passavam muito mais mercadorias do que as especiarias de que tanto se fala, e que justificavam que os europeus atravessassem meio mundo a navio apenas para tirar sua fatia dos lucros. Mas isso fica para outra vez....
Um dos principais historiadores portugueses da atualidade, Luís Filipe Thomaz, escreveu um artigo com sua contribuição para a questão. O resumo dá uma boa ideia de seu posicionamento:
O grande projeto de d. Manuel (r. 1495-1521) era, na sua essência, um projeto de
cruzada, visando o ataque ao Império Mameluco pelo mar Roxo e a recuperação
de Jerusalém. O Brasil não podia representar nele senão o modesto papel de escala
técnica para as naus da Índia. Embora haja múltiplos indícios de que, pelo menos
ca. 1492, conhecia-se já vagamente a existência de terras naquela zona do globo
e de que o desvio de Pedro Álvares Cabral para ocidente foi intencional, este não
parece imputável a instruções secretas de d. Manuel, mas antes a manobras da corte,
majoritariamente adversa aos planos de cruzada do soberano.
Primeiro fato: o continente americano estava sendo descoberto aos poucos e ninguém conhecia sua extensão exata em 1500. Cada nova expedição castelhana ou portuguesa trazia notícias de mais um pedaço de terra - uma ilha, um pedaço de continente? - e ainda não se tinha certeza de como as peças se encaixavam no mapa. Em todo caso, era razoável concluir que devia existir alguma terra na área dada aos portugueses pelo Tratado de Tordesilhas:
Eram certamente essas tais terras de cuja existência suspeitava d. João que
apareciam debuxadas, não sabemos com que grau de verossimilhança, no mapa
de Pero Vaz Bisagudo a que se refere mestre João. O esboço era sem dúvida
conjetural, pois não podia haver delas senão uma vaga ideia. Nem sequer se
devia saber ao certo se eram ilhas, como criam os habitantes de Santiago, se
terra firme, como afirmava d. João II. A dúvida manter-se-ia mesmo depois do
descobrimento cabralino: tanto Pero Vaz de Caminha como mestre João opinam
que se trataria de ilha ou arquipélago; a continentalidade da terra descoberta
só começa a ser decididamente afirmada em documentos de 1501: a relação
do crético à senhoria de Veneza, a carta de Vespúcio escrita do Cabo Verde e,
embora com menos convicção, a chamada Relação do piloto anónimo. O crético
é assaz peremptório: “esta terra é terra firme, porque viram mais de duas mil
milhas de costa e não lhe encontraram fim”. Vespúcio vai mais longe ainda,
identificando o continente tocado por Cabral com o que ele próprio costeara no
ano precedente ao serviço de Castela, integrado, como se sabe, na expedição
de Hojeda. O mais provável é que, como afirma Gaspar Correia, o navio
de Gaspar de Lemos, mandado a Lisboa com a nova do achamento do Brasil,
mesmo sem efetuar novos desembarques, o tenha costeado de Porto Seguro
para norte, apercebendo-se então da sua continentalidade.
Segundo fato: a rota seguida por Cabral é um tanto quanto peculiar. Segundo os entendidos em navegação e correntes marítimas, não haveria muita chance de ele ter sido desviado de rumo acidentalmente, por uma tempestade ou coisa do tipo.
É difícil abstrair de tal pano de fundo ao considerar a rota seguida por Cabral.
Já no século XVI, se afigurava insólita, levando vários cronistas a imaginar uma
tempestade que, no Atlântico sul, o teria arrastado para sueste, mas que as fontes
coevas mais fidedignas, como Caminha, mestre João e a primeira edição de
Castanheda, não referem nem deixam entrever; ou então, como imagina António
Galvão, que a armada tivesse perdido a rota, ao procurar em vão a nau que dela
se apartara em Cabo Verde, o que tampouco é exato. O que mais espanta é que
Cabral tivesse aterrado no Brasil tanto a ocidente e tanto a sul, quase à latitude
em que, na rota mais expedita para a Índia, devia começar a inflectir para leste.
Desde o século passado que os marinheiros e geógrafos que estudaram o
percurso de Cabral, como Baldaque da Silva, Gago Coutinho e o almirante
Fonseca, foram unânimes em mostrar, com argumentos que seria ocioso repetir
aqui, que no condicionalismo físico de ventos e correntes do Atlântico meridional
nada implicava tamanho bordo para sueste numa viagem em direção ao Cabo – pelo que parece impor-se a conclusão de que o bordo foi intencional.
Problema: se foi intencional, de quem veio a ideia? A resposta mais óbvia: do rei d. Manuel de Portugal, mentor da expedição. Parece uma conclusão lógica, mas levanta mais dificuldades do que explica.
Primeiro obstáculo: as instruções dadas pelo rei a Cabral não mencionam nenhum desvio para oeste a fim de encontrar novas terras. Seria possível que ele tivesse dado instruções secretas nesse sentido, o que nos leva ao
Segundo obstáculo: a frota comandada por Cabral era de grande porte, um investimento caríssimo destinado a visitar a Índia e ganhar apoio dos supostos cristãos indianos para os projetos expansionistas do rei. Qual o sentido de arriscar um investimento desses para fazer o que um único navio poderia fazer? Se a intenção era demarcar as novas terras contra avanços espanhóis, um navio, explorando a costa norte do continente (cuja existência já se conhecia vagamente) no sentido leste-oeste até chegar à linha de Tordesilhas, seria a solução mais conveniente.
Por parte de Portugal impunha-se, portanto, a vigilância. Não era, contudo,
a costa norte-sul do Brasil que importava vigiar, mas a costa leste-oeste do Rio
Grande do Norte ao Maranhão. A solução mais lógica seria despachar imediatamente
de Lisboa uma caravela a tomar posse das terras reservadas a Portugal pelo
tratado e delimitar a raia; mas, nesse caso, o objetivo seria a costa setentrional do
Brasil, onde, devido ao regime de ventos e correntes, jamais se poderia passar
em viagem para a Índia, e não o sul baiano a que Cabral aportou.
Não é de crer, por conseguinte, que no momento de despachar para a Índia
seu segundo capitão, o rei, que com tamanho esforço prosseguia, em luta surda
com a corte, a sua política oriental, quisesse pôr em risco o seu objetivo central
para proceder ao reconhecimento de um território cuja posse ficara assegurada
já em Tordesilhas, e que uma simples caravela enviada de Lisboa poderia
facilmente explorar. Desviar da sua rota uma frota inteira para representar na
costa sul-americana a farsa do descobrimento ocasional era expô-la inutilmente
aos riscos de encalhar nos recifes coralinos que acompanham quase todas as
costas tropicais, de incorrer em recontros com nativos, de perder tempo e dobrar
o Cabo no pino do inverno, quando são mais temíveis os ventos de oeste, de
falhar no Índico a monção mais favorável e ter de invernar na África Oriental,
como dois anos antes ia sucedendo ao Gama.
Se havia a certeza de que essas terras do sudoeste do Atlântico recaíam
dentro da demarcação portuguesa, a farsa era de todo inútil. Se, pelo contrário,
havia dúvidas quanto à sua situação em relação à raia de Tordesilhas, uma caravela
isolada poderia efetuar as observações necessárias e as medições que se
impunham muito mais discretamente que uma armada imponente em que boa
parte da Europa tinha os olhos postos.
Terceiro obstáculo: qual o motivo para o rei dar ordens secretas? Os espanhóis não teriam o que protestar se fossem encontradas terras na área portuguesa, e os nobres portugueses estavam mais interessados que o rei no Atlântico.
No caso de Pedro Álvares Cabral, por que sigilo? Por via da oposição interna?
Mas essa estava, segundo tudo leva a crer, muito mais interessada que
d. Manuel no Atlântico; nada conviria mais ao soberano para aquietá-la do que
acenar-lhe com compensações, significando-lhe que era também sua intenção
mandar descobrir terra em que em breve poderiam mercadejar a seu talante.
Quanto a Castela, não se compreende porque precisaria o soberano português
de mandar secretamente descobrir o que pelo Tratado de Tordesilhas lhe cabia
manifestamente em sorte. Se, em 1493, quando as negociações estavam ainda
em curso, ninguém guardara o segredo e as suspeitas de d. João II chegaram
ao conhecimento dos Reis Católicos, para que o sigilo agora que tudo ficara
regulado e o filho de d. Manuel era o herdeiro jurado das três coroas?
[...]
De qualquer modo, entre a redação das instruções para Cabral, que não deve
ter tido lugar antes da sua nomeação para capitão da frota, a 15 de fevereiro, e a
sua partida efetiva, a 9 de março, nenhum concorrente externo teria tempo para
se antecipar a Portugal e fincar pé no Brasil. Não parece pois haver qualquer
razão para que d. Manuel desse a Pedro Álvares Cabral instruções secretas
contraditórias das que lhe dava por escrito.
Quarto obstáculo: se as terras americanas fossem importantes para o rei a ponto de merecerem ordens secretas para um desvio da fronta, presumivelmente d. Manuel estaria interessado em contar a todo o mundo sua descoberta, a fim de legitimar sua posse e exaltar as façanhas portuguesas. Mas não foi o que ele fez - na verdade, a descoberta de Cabral pouco interessou ao rei de Portugal...
Seja como for, se foi este quem montou toda aquela encenação, pouco partido
tirou dela. Ao contrário do que se passara no ano anterior com o regresso
de Vasco da Gama, e do que se passaria mais tarde com as sucessivas façanhas
dos portugueses na Índia, não há qualquer prova documental de que d. Manuel
tenha participado o achamento do Brasil aos concelhos, mandado celebrar ações
de graças, notificado a Santa Sé, ou comunicado aos sogros o feito. Só a estes
o viria a participar mais tarde, após o regresso de Cabral da Índia, intercalando
na relação do que no Malabar se passara, que era o que deveras lhe importava
e constituía o escopo da missiva, um curto parágrafo sobre o achamento do
Brasil, nitidamente inspirado na carta de Pero Vaz de Caminha.
Se o achamento do Brasil não foi por ordens reais, mesmo assim pode ter sido proposital. A explicação mais simples é que Cabral tenha desviado a frota a fim de reabastecê-la nessas terras de cuja existência se suspeitava:
O fato de o desvio da frota de Cabral para sudoeste não parecer imputável a
instruções d’el-rei não invalida que possa ter sido intencional. Pode, por exemplo,
ter tido uma causa assaz prosaica. A armada não parara em Cabo Verde
para fazer aguada, como previam as instruções dadas por Vasco da Gama. Não
é impossível que, passado já o arquipélago, tenham se arrependido, receando
que lhes viesse a faltar água e lenha. Sabendo que algures, a ocidente, se dizia
à boca cheia haver terras emersas, podem ter rumado para lá, na esperança de aí
se poderem aprovisionar de madeira e água doce – como de fato veio a suceder
e, na esteira de Caminha, d. Manuel refere aos Reis Católicos. É a mais simples
e quiçá a mais verossímil das suposições.
Thomaz levanta outra hipótese, um pouco mais conspiratória: o desvio teria se dado por iniciativa de capitães da frota, mais interessados no comércio do Atlântico (que prosperava na costa africana) que nos projetos expansionistas reais no Mar Vermelho.
Aos opositores da política indiana do Venturoso conviria, por qualquer meio,
desviar do mar Roxo as atenções do poder e os cabedais, energias e recursos
humanos da nação, oferecendo-lhes no Atlântico sul um campo alternativo de
expansão. Extrapolando para inícios do século XVI o que se passaria em seus
finais e na centúria seguinte, podemos, por outro lado, presumir que a média
burguesia nacional, mormente a dos portos secundários, que não dispunha de
cabedais suficientes para se empenhar no trato da longa rota do Cabo, anelaria
por achar outros mercados, mais vizinhos.
Um pouco improvável, talvez, mas interessante ainda assim. O que não muda é que, tenha sido por acidente, ordens do rei, parada para reabastecimento ou foco de expansão no Atlântico sul, encontrar as futuras terras brasileiras foi muito menos interessante para Portugal do que o comércio e conquistas na Índia, uma das regiões mais ricas do mundo em 1500. O Brasil permaneceu pouco explorado por cerca de 30 anos, e só se tornou a grande prioridade portuguesa quando as possessões indianas entraram em declínio pela competição com outras potências europeias no século 17. Nossa existência pressupõe não só Portugal, mas também a Índia. Mesmo assim, parece que só nos damos ao trabalho de aprender um dos lados dessa história. Pouco se diz das grandes rotas de comércio no Oceano Índico, por onde passavam muito mais mercadorias do que as especiarias de que tanto se fala, e que justificavam que os europeus atravessassem meio mundo a navio apenas para tirar sua fatia dos lucros. Mas isso fica para outra vez....
setembro 06, 2011
40. Calígula e seu cavalo
Preconceitos, por sua própria natureza, não são exatamente muito racionais. Por exemplo, a minha posição a respeito dos idiomas é descritivista: a linguagem é uma convenção entre seus usuários e, portanto, a maioria deles não pode estar errada. Se os dicionários dizem drible e a maior parte dos brasileiros diz dible, quem está com a razão são as pessoas nas ruas, e azar dos dicionários e do professor Pasquale. Mesmo assim, fico com vontade de subir pelas paredes quando ouço algumas dessas variações, como alguém dizendo enterter ao invés de entreter, císnei no lugar de cisne ou xalxicha no lugar de salsicha. Não faz muito sentido, mas é assim que as coisas são.
Em relação à história, as pessoas também falam o que querem o tempo todo, com a diferença de que ela envolve questões de veracidade, e não (só) de convenção. A maior parte do que se ouve são chavões que, no melhor dos casos, são apenas em parte verdade, e no mais das vezes são pelo menos 99% de bobagem. Coisas que você já deve ter ouvido também, do tipo "o Brasil não dá certo porque foi povoado por criminosos", "os chineses não têm tradição política porque ficaram milênios seguindo os imperadores", "o Ocidente é mais avançado graças à sua democracia", e por aí vai. Infelizmente, separar as meias verdades e os mitos nesses casos exige uma análise mais ou menos complexa.
O que realmente me incomoda, voltando à questão dos preconceitos, são aquelas bobagens que qualquer um poderia se dar ao trabalho de conferir se são verdade ou não. Aquelas que não envolvem grandes questões macrohistóricas, mas as pequenas anedotas que as pessoas soltam para ilustrar algum argumento.
Uma delas, que tive o desprazer de ouvir recentemente pela enésima vez, é do tipo que certamente todos já ouviram: "Incitatus, o cavalo do imperador romano Calígula, foi cônsul". É uma afirmação tão comum e corriqueira que não parece haver motivo para duvidar: afinal, Calígula era louco, e loucos não fazem coisas como dar altos cargos para seus cavalos?
Pena que é tão simples testar a veracidade do consulado de Incitatus. Vamos começar com os fatos básicos: Caio foi imperador romano de 37 a 41, e apelidado de Calígula porque, quando pequeno, seu pai, o importante general Germânico, fazia Caio acompanhá-lo pelos acampamentos militares vestido de soldadinho, e o uniforme da época incluía as caligas, sandálias usadas pelos soldados. Daí Caio ser até hoje mais conhecido como "sandalinha" - seria mais ou menos como termos um presidente filho de militares apelidado de Coturninho.
Seu curto reinado está terrivelmente mal documentado hoje em dia - temos pouquíssimos relatos escritos por pessoas que conheceram o imperador, sendo o mais importante deles a Embaixada a Caio, escrito por Fílon de Alexandria, judeu que liderou uma delegação ao imperador para reclamar dos maus tratos que a população judia estava sofrendo na metrópole egípcia.
Tirando o texto da Embaixada, sobram as obras dos historiadores. Os autores mais próximos desse período foram Suetônio e Tácito, que escreveram no começo do século 2, ou seja, quando todos os envolvidos já estavam mortos há tempo. Para complicar, não temos o relato de Tácito sobre Calígula: foi encontrada apenas uma cópia medieval das obras de Tácito, bastante incompleta, e uma das partes que faltam é exatamente a que mostrava Caio no poder. Sobra Suetônio. Ele não era exatamente um historiador, mas algo como um biógrafo sensacionalista, interessado nas anedotas bizarras, de preferência as sexuais - é culpa de Suetônio, e da falta quase completa de alternativa a ele, acharmos que tantos dos primeiros imperadores romanos eram depravados. O quanto ele disse de verdadeiro, o quanto inventou e o quanto escreveu boatos como se fossem pura verdade é um problema grande e difícil de resolver.
De volta a Calígula: as fontes que temos - Fílon, Suetônio, uma que outra passagem de Tácito e as obras de historiadores bem posteriores - são unânimes em afirmar que ele foi um péssimo imperador. Do tipo que declarou ser um deus, matava seus oponentes sem muita piedade, entre outras coisas mais. Talvez tenha tido as irmãs como amantes, se você acha que Suetônio merece confiança quanto a isso. Enfim, dois mil anos depois, é difícil saber ao certo se ele foi realmente louco ou se isso era apenas a explicação dada para justificar suas arbitrariedades - Calígula pode ter sido "apenas" um deslumbrado pelo poder, como os Saddams e Kaddafis dos nossos tempos.
Mas uma coisa que podemos dizer que ele não fez foi nomear seu cavalo cônsul. Eis o que Suetônio disse a respeito (Vida de Calígula, 55, 3): "Na véspera dos jogos circenses, ele enviava seus soldados para ordenarem a vizinhança a fazer silêncio a fim de que o cavalo Incitatus não fosse incomodado. Além de um estábulo de mármore, uma manjedoura de marfim, cobertores de púrpura e um colar de pedras preciosas, ele ainda deu ao cavalo uma casa, um conjunto de escravos e mobília, para melhor recepção dos hóspedes convidados em seu nome. E também se diz que ele planejava torná-lo cônsul".
"Se diz" e "planejava" = o cavalo não foi cônsul. É possível discutir se Incitatus realmente recebeu seu estábulo de mármore e tudo o mais, e, se recebeu, qual a motivação de Calígula - não é tão difícil imaginar um ditador convidando as pessoas a falar com seu cavalo e outras humilhações do tipo, sem que o ditador seja necessariamente insano. Talvez ele tenha dito aos políticos romanos "aposto que até meu cavalo faz o serviço de vocês", e daí começaram os boatos.
Mas vamos dizer isso mais uma vez, para garantir: Incitatus nunca foi cônsul...
Em relação à história, as pessoas também falam o que querem o tempo todo, com a diferença de que ela envolve questões de veracidade, e não (só) de convenção. A maior parte do que se ouve são chavões que, no melhor dos casos, são apenas em parte verdade, e no mais das vezes são pelo menos 99% de bobagem. Coisas que você já deve ter ouvido também, do tipo "o Brasil não dá certo porque foi povoado por criminosos", "os chineses não têm tradição política porque ficaram milênios seguindo os imperadores", "o Ocidente é mais avançado graças à sua democracia", e por aí vai. Infelizmente, separar as meias verdades e os mitos nesses casos exige uma análise mais ou menos complexa.
O que realmente me incomoda, voltando à questão dos preconceitos, são aquelas bobagens que qualquer um poderia se dar ao trabalho de conferir se são verdade ou não. Aquelas que não envolvem grandes questões macrohistóricas, mas as pequenas anedotas que as pessoas soltam para ilustrar algum argumento.
Uma delas, que tive o desprazer de ouvir recentemente pela enésima vez, é do tipo que certamente todos já ouviram: "Incitatus, o cavalo do imperador romano Calígula, foi cônsul". É uma afirmação tão comum e corriqueira que não parece haver motivo para duvidar: afinal, Calígula era louco, e loucos não fazem coisas como dar altos cargos para seus cavalos?
Pena que é tão simples testar a veracidade do consulado de Incitatus. Vamos começar com os fatos básicos: Caio foi imperador romano de 37 a 41, e apelidado de Calígula porque, quando pequeno, seu pai, o importante general Germânico, fazia Caio acompanhá-lo pelos acampamentos militares vestido de soldadinho, e o uniforme da época incluía as caligas, sandálias usadas pelos soldados. Daí Caio ser até hoje mais conhecido como "sandalinha" - seria mais ou menos como termos um presidente filho de militares apelidado de Coturninho.
Seu curto reinado está terrivelmente mal documentado hoje em dia - temos pouquíssimos relatos escritos por pessoas que conheceram o imperador, sendo o mais importante deles a Embaixada a Caio, escrito por Fílon de Alexandria, judeu que liderou uma delegação ao imperador para reclamar dos maus tratos que a população judia estava sofrendo na metrópole egípcia.
Tirando o texto da Embaixada, sobram as obras dos historiadores. Os autores mais próximos desse período foram Suetônio e Tácito, que escreveram no começo do século 2, ou seja, quando todos os envolvidos já estavam mortos há tempo. Para complicar, não temos o relato de Tácito sobre Calígula: foi encontrada apenas uma cópia medieval das obras de Tácito, bastante incompleta, e uma das partes que faltam é exatamente a que mostrava Caio no poder. Sobra Suetônio. Ele não era exatamente um historiador, mas algo como um biógrafo sensacionalista, interessado nas anedotas bizarras, de preferência as sexuais - é culpa de Suetônio, e da falta quase completa de alternativa a ele, acharmos que tantos dos primeiros imperadores romanos eram depravados. O quanto ele disse de verdadeiro, o quanto inventou e o quanto escreveu boatos como se fossem pura verdade é um problema grande e difícil de resolver.
De volta a Calígula: as fontes que temos - Fílon, Suetônio, uma que outra passagem de Tácito e as obras de historiadores bem posteriores - são unânimes em afirmar que ele foi um péssimo imperador. Do tipo que declarou ser um deus, matava seus oponentes sem muita piedade, entre outras coisas mais. Talvez tenha tido as irmãs como amantes, se você acha que Suetônio merece confiança quanto a isso. Enfim, dois mil anos depois, é difícil saber ao certo se ele foi realmente louco ou se isso era apenas a explicação dada para justificar suas arbitrariedades - Calígula pode ter sido "apenas" um deslumbrado pelo poder, como os Saddams e Kaddafis dos nossos tempos.
Mas uma coisa que podemos dizer que ele não fez foi nomear seu cavalo cônsul. Eis o que Suetônio disse a respeito (Vida de Calígula, 55, 3): "Na véspera dos jogos circenses, ele enviava seus soldados para ordenarem a vizinhança a fazer silêncio a fim de que o cavalo Incitatus não fosse incomodado. Além de um estábulo de mármore, uma manjedoura de marfim, cobertores de púrpura e um colar de pedras preciosas, ele ainda deu ao cavalo uma casa, um conjunto de escravos e mobília, para melhor recepção dos hóspedes convidados em seu nome. E também se diz que ele planejava torná-lo cônsul".
"Se diz" e "planejava" = o cavalo não foi cônsul. É possível discutir se Incitatus realmente recebeu seu estábulo de mármore e tudo o mais, e, se recebeu, qual a motivação de Calígula - não é tão difícil imaginar um ditador convidando as pessoas a falar com seu cavalo e outras humilhações do tipo, sem que o ditador seja necessariamente insano. Talvez ele tenha dito aos políticos romanos "aposto que até meu cavalo faz o serviço de vocês", e daí começaram os boatos.
Mas vamos dizer isso mais uma vez, para garantir: Incitatus nunca foi cônsul...
junho 03, 2011
30. Jefferson e o espírito de resistência
Olhando por acaso as cartas de Thomas Jefferson*, encontrei uma passagem que tem um pouco em comum com o post anterior.
Trata-se do trecho de uma carta escrita em fevereiro de 1787 para Abigail Adams (esposa de John Adams, primeiro vice-presidente e segundo presidente dos EUA), em que Jefferson faz um comentário sobre o fim da revolta de Shays, um movimento de pequenos fazendeiros de Massachusetts descontentes com a situação da jovem república pós-independência**:
Espero que eles tenham sido perdoados. O espírito de resistência ao governo é tão valioso em certas ocasiões que espero que seja sempre mantido vivo. Ele será muitas vezes exercido erroneamente, mas é melhor isso do que ele não ser exercido. Gosto de uma pequena revolta de vez em quando. É como uma tempestade na atmosfera.
O texto original pode ser encontrado neste link. Uma tempestade na atmosfera...
* Thomas Jefferson: advogado/dono de terras/político da Virgínia, principal autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos, terceiro presidente americano, de 1800 a 1807.
** Apesar de raramente se ouvir falar dessa revolta por aqui, e de sua pequena escala, ela gerou um clamor em favor de um governo central mais forte que pudesse impedir esse tipo de movimento. A Constituição americana, no mesmo ano, criou justamente um governo central assim. A revolta de Shays não foi a única causa do fortalecimento do governo federal, mas foi uma causa. O nome da revolta vem de seu líder Daniel Shays, veterano da guerra de independência.
Trata-se do trecho de uma carta escrita em fevereiro de 1787 para Abigail Adams (esposa de John Adams, primeiro vice-presidente e segundo presidente dos EUA), em que Jefferson faz um comentário sobre o fim da revolta de Shays, um movimento de pequenos fazendeiros de Massachusetts descontentes com a situação da jovem república pós-independência**:
Espero que eles tenham sido perdoados. O espírito de resistência ao governo é tão valioso em certas ocasiões que espero que seja sempre mantido vivo. Ele será muitas vezes exercido erroneamente, mas é melhor isso do que ele não ser exercido. Gosto de uma pequena revolta de vez em quando. É como uma tempestade na atmosfera.
O texto original pode ser encontrado neste link. Uma tempestade na atmosfera...
* Thomas Jefferson: advogado/dono de terras/político da Virgínia, principal autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos, terceiro presidente americano, de 1800 a 1807.
** Apesar de raramente se ouvir falar dessa revolta por aqui, e de sua pequena escala, ela gerou um clamor em favor de um governo central mais forte que pudesse impedir esse tipo de movimento. A Constituição americana, no mesmo ano, criou justamente um governo central assim. A revolta de Shays não foi a única causa do fortalecimento do governo federal, mas foi uma causa. O nome da revolta vem de seu líder Daniel Shays, veterano da guerra de independência.
maio 25, 2011
28. Prata americana = inflação na Europa
Nenhuma grande novidade na reportagem abaixo, referente a um estudo que basicamente comprova o que já se sabia. Em português claro: para o espanhol comum dos séculos 16 e 17, aquele que nem usava uma coroa na cabeça nem era empreendedor o bastante para se aventurar pelas conquistas (no século 16) ou para recomeçar a vida nas cidades coloniais, a consequência prática da conquista da América foi uma grande inflação. A mesma coisa valia para o europeu comum que não tivesse participação em algum dos bancos credores da coroa espanhola.
(Havia o efeito positivo de uma dieta mais variada com a adoção da batata, tomate, milho, etc, mas é outra questão saber se o nosso europeu comum teria achado que uma coisa compensava a outra. E, claro, o cálculo fica ainda mais complicado quando consideramos produtos americanos nem tão bons assim, como o tabaco!)
________________________________________________________________________________
"Entre o século XVI e o século XVIII, aproximadamente 300 toneladas anuais de prata saíram de minas nas colônias americanas da Espanha", afirma o artigo publicado pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Os autores da pesquisa, liderados por Anne Marie Desaulty, da Escola Normal Superior de Lyon, acrescentaram que "as economias locais da América não puderam absorver tal quantidade de prata e, portanto, o metal precioso marchou rumo ao mercado europeu através dos portos espanhóis, principalmente Sevilha", e também em direção ao Extremo Oriente pelas Filipinas.
Os pesquisadores empregaram uma técnica chamada espectrometria de massas para identificar a origem da prata, do cobre e dos isótopos de chumbo em 91 moedas antigas do Mediterrâneo oriental, do Império Romano, da Europa ocidental na Idade Média, e de moedas da Espanha, México e dos Andes entre 1550 e 1750.
Entre os reinados de Felipe III (1598-1621) e Felipe V (1700-1746), a coroa espanhola empregou volumes crescentes de prata americana para pagar suas dívidas com os bancos da Europa.
A partir do filósofo francês Jean Bodin (1530-1596), vários estudiosos e economistas apontaram a possibilidade de esse fluxo de metal precioso ter sido o ingrediente principal da chamada "revolução dos preços", na realidade uma inflação acelerada na Europa.
A hipótese, assinala o estudo publicado na PNAS, "foi motivo de controvérsia recentemente e alguns autores enfatizam que a chegada dos metais americanos, aproximadamente entre 1520 e 1809, não coincide com o período de inflação, entre 1520 e 1650".
No entanto, os pesquisadores puderam provar como foi crescendo a presença de prata americana na economia europeia, e como foi substituindo a prata extraída no Velho Continente.
"Claramente a prata da antiguidade é um componente menor da base monetária medieval", dizem os pesquisadores para comprovar o impacto que a prata americana teve na economia europeia.
A análise das ligas metálicas das moedas prova como em apenas oito décadas, entre os reinados de Felipe III e Felipe V, a prata americana substituiu a europeia nas moedas da Espanha.
A busca espanhola por prata nas Américas começou já em 1498, segundo os autores da pesquisa, que acrescentaram que "no início do século XVI as minas maiores foram abertas".
Os pesquisadores afirmaram que 20% da prata extraída nas Américas permaneceu no continente, 10% foi usada para pagar tecidos, porcelanas e especiarias na Ásia, e 15% caiu nas mãos de piratas que deixavam aproximadamente 200 toneladas do metal precioso no porto de Sevilha por ano.
"Felipe II cessou os pagamentos da dívida espanhola em 1557, 1560, 1575 e 1596, e reabriu a Rio Tinto e outras minas de prata espanholas, confirmando que a prata americana não permaneceu na Espanha por muito tempo", esclarece o artigo.
A prata que chegou à Espanha "foi usada principalmente para pagar os empréstimos obtidos junto a banqueiros alemães para garantir a eleição de Carlos V e pagar outros empréstimos a banqueiros genoveses".
(Havia o efeito positivo de uma dieta mais variada com a adoção da batata, tomate, milho, etc, mas é outra questão saber se o nosso europeu comum teria achado que uma coisa compensava a outra. E, claro, o cálculo fica ainda mais complicado quando consideramos produtos americanos nem tão bons assim, como o tabaco!)
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Estudo prova efeito inflacionário da prata americana nos séculos XVI e XVIII
Os pesquisadores empregaram uma técnica chamada espectrometria de massas para identificar a origem da prata que chegou ao mercado europeu através dos portos espanhóis nesse período
WASHINGTON - Pesquisadores comprovaram, analisando as ligas metálicas das moedas espanholas dos séculos XVI e XVIII, o efeito inflacionário causado na Europa pela chegada em massa de prata procedente das Américas.Os autores da pesquisa, liderados por Anne Marie Desaulty, da Escola Normal Superior de Lyon, acrescentaram que "as economias locais da América não puderam absorver tal quantidade de prata e, portanto, o metal precioso marchou rumo ao mercado europeu através dos portos espanhóis, principalmente Sevilha", e também em direção ao Extremo Oriente pelas Filipinas.
Os pesquisadores empregaram uma técnica chamada espectrometria de massas para identificar a origem da prata, do cobre e dos isótopos de chumbo em 91 moedas antigas do Mediterrâneo oriental, do Império Romano, da Europa ocidental na Idade Média, e de moedas da Espanha, México e dos Andes entre 1550 e 1750.
Entre os reinados de Felipe III (1598-1621) e Felipe V (1700-1746), a coroa espanhola empregou volumes crescentes de prata americana para pagar suas dívidas com os bancos da Europa.
A partir do filósofo francês Jean Bodin (1530-1596), vários estudiosos e economistas apontaram a possibilidade de esse fluxo de metal precioso ter sido o ingrediente principal da chamada "revolução dos preços", na realidade uma inflação acelerada na Europa.
A hipótese, assinala o estudo publicado na PNAS, "foi motivo de controvérsia recentemente e alguns autores enfatizam que a chegada dos metais americanos, aproximadamente entre 1520 e 1809, não coincide com o período de inflação, entre 1520 e 1650".
No entanto, os pesquisadores puderam provar como foi crescendo a presença de prata americana na economia europeia, e como foi substituindo a prata extraída no Velho Continente.
"Claramente a prata da antiguidade é um componente menor da base monetária medieval", dizem os pesquisadores para comprovar o impacto que a prata americana teve na economia europeia.
A análise das ligas metálicas das moedas prova como em apenas oito décadas, entre os reinados de Felipe III e Felipe V, a prata americana substituiu a europeia nas moedas da Espanha.
A busca espanhola por prata nas Américas começou já em 1498, segundo os autores da pesquisa, que acrescentaram que "no início do século XVI as minas maiores foram abertas".
Os pesquisadores afirmaram que 20% da prata extraída nas Américas permaneceu no continente, 10% foi usada para pagar tecidos, porcelanas e especiarias na Ásia, e 15% caiu nas mãos de piratas que deixavam aproximadamente 200 toneladas do metal precioso no porto de Sevilha por ano.
"Felipe II cessou os pagamentos da dívida espanhola em 1557, 1560, 1575 e 1596, e reabriu a Rio Tinto e outras minas de prata espanholas, confirmando que a prata americana não permaneceu na Espanha por muito tempo", esclarece o artigo.
A prata que chegou à Espanha "foi usada principalmente para pagar os empréstimos obtidos junto a banqueiros alemães para garantir a eleição de Carlos V e pagar outros empréstimos a banqueiros genoveses".
fevereiro 24, 2011
16. Ibn al-Haytham, o pai da ótica
O matemático e filósofo Alfred Whitehead escreveu certa vez que a filosofia europeia consistia em uma série de notas de rodapé a Platão, e a frase espalhou-se com o sucesso que tantas vezes têm as generalizações.
(Para ser justo com Whitehead, ele sabia que estava fazendo uma generalização. Sua frase original é: The safest general characterization of the European philosophical tradition is that it consists of a series of footnotes to Plato.)
No mesmo nível apressado das generalizações, seria igualmente possível dizer que a ciência europeia consiste em notas de rodapé a Aristóteles. Afinal, foi esse filósofo grego do século 4 a.c. que, além de suas incursões por aquilo que hoje continuamos chamando de filosofia (metafísica, epistemologia, ética, etc.), foi um pioneiro em muitos campos do conhecimento que, mais tarde, viriam a ganhar autonomia como ciências, como a biologia, a mecânica e a ótica. Sem falar de discussões sobre literatura, política e quase tudo o que um grego do século 4 a.c. poderia discutir, apesar de não termos mais grande parte do que ele escreveu, como sabem todos os fãs de O nome da rosa.
Sem querer desmerecer Aristóteles, que foi um gigante intelectual (e, para mim, preferível a Platão, mas cada um com o seu gosto), muitas dessas "notas de rodapé" consistiriam no seguinte: "sobre esse ponto, Aristóteles estava completamente errado". Pasteur provou que a teoria aristotélica da geração espontânea da vida estava errada, Galileu fez o mesmo com o geocentrismo, e por aí vai.
Provavelmente a maior parte das pessoas reconhece os nomes de Galileu e Pasteur, apesar de talvez não saber que seu legado foi corrigir noções que remontavam a Aristóteles, quando não eram ainda mais antigas e haviam sido apenas mencionadas por ele. Suspeito que muito menos pessoas reconheceriam o nome de outro cientista tão importante quanto eles: Al-Hasan ibn al-Haytham (965-1040), pensador muçulmano originário da cidade de Basra, no atual Iraque, e nada menos que o pai da ótica moderna.
Em aproximadamente 1011, na cidade do Cairo, ibn al-Haytham começou a escrever sua principal obra, o Livro da ótica, em que demonstrou, através de experimentos, como funcionava a visão: o olho não emite "raios de visibilidade" nem absorve partículas emitidas pelos objetos visíveis, como Aristóteles e seus sucessores até então pensavam, mas recebe raios de luz. Com base nessa descoberta fundamental, passou a experimentar com a luz, fazendo descobertas sobre lentes, espelhos, reflexão e refração da luz, o funcionamento do olho humano e tudo o mais que atormenta a existência dos estudantes de ensino médio e possibilita desde avanços na astronomia até os óculos e a oftalmologia moderna.
Esse breve comentário sobre um gênio muçulmano foi em parte uma pequena homenagem aos eventos recentes no Egito, Tunísia e outros países islâmicos, e em parte uma pegadinha. O leitor atento terá percebido que comecei falando em ciência europeia para passar para um cientista do Oriente Médio. Isso porque, como no caso da filosofia, nunca houve uma "ciência europeia" fechada a influências externas - no caso da filosofia, considerem por um momento a importância do cristianismo, uma religião também vinda do Oriente Médio, sobre quase todos os pensadores europeus dos últimos dois milênios. No caso da ciência, ibn al-Haytham foi um dos muitos sábios islâmicos que estava em contato com a tradição cultural da antiga Grécia, e cujas descobertas foram depois reabsorvidas pelos europeus: o livro de "Alhazen", como latinizaram seu nome, foi traduzido para o latim e incorporou-se ao corpo de conhecimentos científicos ocidentais.
Ironicamente, a tradução foi feita no século 12, que combinou grande avanço científico com as principais Cruzadas. Mas alguém ainda acredita que conhecimento e insensatez sejam incompatíveis?
(Para ser justo com Whitehead, ele sabia que estava fazendo uma generalização. Sua frase original é: The safest general characterization of the European philosophical tradition is that it consists of a series of footnotes to Plato.)
No mesmo nível apressado das generalizações, seria igualmente possível dizer que a ciência europeia consiste em notas de rodapé a Aristóteles. Afinal, foi esse filósofo grego do século 4 a.c. que, além de suas incursões por aquilo que hoje continuamos chamando de filosofia (metafísica, epistemologia, ética, etc.), foi um pioneiro em muitos campos do conhecimento que, mais tarde, viriam a ganhar autonomia como ciências, como a biologia, a mecânica e a ótica. Sem falar de discussões sobre literatura, política e quase tudo o que um grego do século 4 a.c. poderia discutir, apesar de não termos mais grande parte do que ele escreveu, como sabem todos os fãs de O nome da rosa.
Sem querer desmerecer Aristóteles, que foi um gigante intelectual (e, para mim, preferível a Platão, mas cada um com o seu gosto), muitas dessas "notas de rodapé" consistiriam no seguinte: "sobre esse ponto, Aristóteles estava completamente errado". Pasteur provou que a teoria aristotélica da geração espontânea da vida estava errada, Galileu fez o mesmo com o geocentrismo, e por aí vai.
Provavelmente a maior parte das pessoas reconhece os nomes de Galileu e Pasteur, apesar de talvez não saber que seu legado foi corrigir noções que remontavam a Aristóteles, quando não eram ainda mais antigas e haviam sido apenas mencionadas por ele. Suspeito que muito menos pessoas reconheceriam o nome de outro cientista tão importante quanto eles: Al-Hasan ibn al-Haytham (965-1040), pensador muçulmano originário da cidade de Basra, no atual Iraque, e nada menos que o pai da ótica moderna.
Em aproximadamente 1011, na cidade do Cairo, ibn al-Haytham começou a escrever sua principal obra, o Livro da ótica, em que demonstrou, através de experimentos, como funcionava a visão: o olho não emite "raios de visibilidade" nem absorve partículas emitidas pelos objetos visíveis, como Aristóteles e seus sucessores até então pensavam, mas recebe raios de luz. Com base nessa descoberta fundamental, passou a experimentar com a luz, fazendo descobertas sobre lentes, espelhos, reflexão e refração da luz, o funcionamento do olho humano e tudo o mais que atormenta a existência dos estudantes de ensino médio e possibilita desde avanços na astronomia até os óculos e a oftalmologia moderna.
Esse breve comentário sobre um gênio muçulmano foi em parte uma pequena homenagem aos eventos recentes no Egito, Tunísia e outros países islâmicos, e em parte uma pegadinha. O leitor atento terá percebido que comecei falando em ciência europeia para passar para um cientista do Oriente Médio. Isso porque, como no caso da filosofia, nunca houve uma "ciência europeia" fechada a influências externas - no caso da filosofia, considerem por um momento a importância do cristianismo, uma religião também vinda do Oriente Médio, sobre quase todos os pensadores europeus dos últimos dois milênios. No caso da ciência, ibn al-Haytham foi um dos muitos sábios islâmicos que estava em contato com a tradição cultural da antiga Grécia, e cujas descobertas foram depois reabsorvidas pelos europeus: o livro de "Alhazen", como latinizaram seu nome, foi traduzido para o latim e incorporou-se ao corpo de conhecimentos científicos ocidentais.
Ironicamente, a tradução foi feita no século 12, que combinou grande avanço científico com as principais Cruzadas. Mas alguém ainda acredita que conhecimento e insensatez sejam incompatíveis?
dezembro 16, 2010
7. Sobre doenças e homens
A última grande notícia na internet é a suposta descoberta de uma cura para a AIDS. O que aconteceu, na verdade, foi a publicação de um artigo confirmando que um paciente, Timothy Brown, submetido a tratamento com células tronco em 2007, não apresentou sinais de HIV desde então. Por “tratamento” leia-se um transplante de medula óssea, realizado para tratar leucemia; o doador tinha resistência natural ao HIV e a resistência foi transmitida ao receptor. Ainda não é a cura da doença: o método é caro demais, arriscado demais para os pacientes e envolve encontrar doadores resistentes ao HIV que sejam compatíveis com os infectados. Se Brown tem muito o que comemorar, para o resto do mundo fica apenas um vislumbre de uma vitória ainda distante contra essa doença.
Falando em doenças, talvez elas não sejam um tema apropriado para conversas leves, mas vou aproveitar a oportunidade porque esse é um assunto sobre o qual muito pode ser dito. As doenças e a luta contra elas têm sido não só uma parte integrante do nosso dia-a-dia (alguém ainda lembra da histeria em torno da gripe suína?), o que já seria extremamente importante, mas por vezes entraram no palco dos acontecimentos de forma mais drástica. Dois casos familiares foram a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro do começo do século passado, e a peste bubônica que assolou o Velho Mundo nos séculos 6 e 14 (não, a peste negra não atacou só uma vez). Mas houve um caso que ajuda a explicar algumas coisas em nossas vidas que normalmente não paramos para considerar: por que falamos português e não uma língua tupi? Por que a imensa maioria dos brasileiros descende de imigrantes (voluntários ou não) da África e Eurásia, e poucos descendem de índios? Por que, não só no atual território brasileiro mas em todo o continente americano, os índios foram subjugados, ao invés de expulsarem o que no início era um punhado de conquistadores?
Como sempre, a resposta tem muitas partes. Para começar, não faz sentido achar que os habitantes daqui se viam como “índios”, membros de algum tipo de grande comunidade continental e que deviam se unir contra um inimigo comum. Mais ou menos como os europeus, eles eram membros de grupos que tinham suas próprias relações e conflitos, e mais de uma vez envolveram os europeus em suas guerras – um dos recursos de Cortez para conquistar o império asteca mexicano foi o auxílio de povos que não estavam satisfeitos com sua dominação pelos astecas, e que contribuíram com exércitos muito maiores do que o bando de conquistadores espanhóis. Com o tempo, quem ganhou com isso foram os europeus, mas não havia como saber na época que seria uma má ideia recrutar os recém-chegados como aliados.
(Colocando de outra forma: antes de Colombo, não existiam índios na América. Existiam incas, astecas, maias, tupis, guaranis, apaches, sioux e centenas de outros povos diferentes. Foram os europeus que colocaram todos eles no mesmo saco, chamando todos de índios.)
Mas voltemos às doenças, que foram ainda mais importantes. O segredo do sucesso de espanhóis e portugueses era a sua capacidade de transmitir doenças às quais os nativos não tinham resistência. Os europeus pertenciam a sociedades em que os animais domésticos estavam por toda parte em contato com humanos. Grande parte das doenças humanas surgiu de parasitas de animais que mutaram para infectar humanos (a gripe suína, como o nome diz, originou-se nos porcos, por exemplo). Ao longo dos milênios, animais transmitiram doenças para seres humanos, que aos poucos foram adquirindo resistência (ou, melhor dizendo, as pessoas mais resistentes às doenças tinham maior chance de sobreviver e ter filhos). E, quando os europeus chegaram na América, seu arsenal biológico acumulado ao longo do tempo devastou populações que nunca haviam tido contato com esses germes. Além de matar milhões, as epidemias espalharam o caos pelas sociedades nativas; por exemplo, Pizarro conquistou o império inca dos Andes com um pequeno grupo de conquistadores, em grande parte porque a varíola havia chegado antes dele, como uma onda de destruição transmitida de região a região, e matado o inca, ou imperador, iniciando uma guerra civil pela sucessão ao trono da qual os espanhóis se aproveitaram. Se hoje em dia doenças que matam algumas centenas de pessoas já geram pânico, tente imaginar uma que, aparentemente surgida do nada, destruísse uma porcentagem significativa da população, incluindo as lideranças do governo. Foi isso que os incas enfrentaram na década de 1530, antes que o primeiro espanhol chegasse em suas terras. Não chega a ser surpreendente que eles tenham sido conquistados nessas circunstâncias; o que realmente causa surpresa é que ainda tenham montado uma resistência à conquista, liderada por remanescentes da família real – o último soberano inca, Tupac Amaru, foi capturado e executado apenas em 1572.
Porque os europeus não foram mortos pelas doenças infecciosas americanas? Simplesmente porque não havia muitas. Os europeus adquiriram doenças com seus animais domésticos, o que os índios não podiam fazer porque no continente americano quase não havia animais domesticáveis. A falta de animais levou a uma falta de doenças transmissíveis capazes de destruir os europeus, e isso decidiu a sorte de nosso continente.
Essa tese foi popularizada por Jared Diamond em seu Armas, germes e aço, um livro bastante controverso entre a comunidade acadêmica e muitas vezes acusado de determinismo geográfico. Em todo caso, a polêmica diz respeito a outras partes do livro, e a importância dos germes na conquista da América é amplamente reconhecida.
Mais um fato importante: essas mesmas doenças contribuíram para que a maior parte dos escravos do Brasil fossem importados da África, e não índios capturados localmente. Um índio tinha grande chance de morrer doente em pouco tempo, enquanto que um africano – com mais resistência às doenças dos europeus, que eram as mesmas de todo o Velho Mundo – tinha maior probabilidade de sobreviver, daí isso o maior investimento em africanos. Não que a escravidão indígena tenha sido abandonada por inteiro, principalmente na região de São Paulo, onde as bandeiras tinham como um de seus objetivos precisamente resolver o problema da mão-de-obra do que então era uma área periférica demais para manter o tráfico negreiro em grandes proporções.
Doenças e economia, gente, e não besteiras como “vagabundagem dos índios” ou “docilidade dos negros”, eis o que determinou os rumos da escravidão no Brasil; entender isso nos ajudaria não só a perceber o que realmente aconteceu, mas também a esquecer esses e outros preconceitos.
dezembro 12, 2010
6. Mulheres, história, literatura
De todos os grupos minoritários que costumamos esquecer de incluir na história, cabe papel de destaque para um que não tem nada de minoritário e consiste, na verdade, em metade da população mundial. Estou falando, naturalmente, das mulheres.
Isso se deve, em grande parte, ao fato de que elas tradicionalmente ficaram mais ou menos relegadas à vida doméstica, privada, enquanto a história por muito tempo se concentrou nos grandes acontecimentos da vida pública. Esse foco está mudando aos poucos, mas a essência permanece. Se um leitor me disser que gosta da Grécia antiga, posso supor com bastante segurança que ele sabe um pouco sobre a alta cultura - a tríade filosófica Sócrates-Platão-Aristóteles, a tríade de dramaturgos trágicos Ésquilo-Sófocles-Eurípides, a tríade de historiadores Heródoto-Tucídides-Políbio, poetas como Homero, cientistas como Arquimedes - e um pouco sobre os grandes acontecimentos políticos e militares - a construção da democracia ateniense, as guerras com os persas, a Guerra do Peloponeso, a ascensão de Alexandre - mas provavelmente sabe pouco ou nada de como viviam os gregos em seu dia-a-dia. Como o envolvimento feminino na alta cultura, na política e na guerra na Grécia clássica eram bastante desencorajados, para dizer o mínimo, ele só saberá que terão existido mulheres ali porque, de alguma forma, todos esses homens famosos precisavam se reproduzir.
A Grécia clássica é um caso extremo, e em geral as mulheres encontraram formas de participar da vida pública e dos grandes acontecimentos. Algumas foram rainhas reinantes, de Hatshepsut e Cleópatra às duas Elizabeths da Inglaterra e Catarina da Rússia. Outras eram o poder por trás do trono: Lívia, esposa do primeiro imperador romano, Augusto, era tão temida quanto o marido. Voltando a um tema anterior, é extremamente provável que Nero tenha matado sua mãe, Agripina. Ele fez isso por ser mau e bandido? Não exatamente; na verdade, ele respondeu do seu modo violento a um problema sério para qualquer imperador megalomaníaco de respeito: a influência política de Agripina era comparável a do próprio Nero, e dizia-se que ela tinha envenenado o imperador anterior, Cláudio, para apressar a subida de Nero ao poder. Se casar com um imperador, envenená-lo e continuar exercendo força política através do filho por alguns anos não é uma carreira importante, não sei o que é.
Além das rainhas, as mulheres estiveram em quase todos os campos possíveis. Elas foram desde cientistas, como Marie Curie e a marquesa du Châtelet (mais conhecida por ser amante de Voltaire, também contribuiu para a física do século 18) até ativistas, como Mary Shelley (a mesma de Frankenstein) e Olympe de Gouges, que em plena Revolução Francesa propôs uma Declaração dos Direitos da Mulher. Mas a ideia de Olympe não deu certo, e seu carrasco Robespierre continua sendo mais conhecido do que dela.
Contudo, integrar as mulheres na história não pode ser feito simplesmente mencionando exceções como essas. Apesar de todas essas mulheres terem levado vidas interessantes, elas foram algumas das raras "vencedoras" em um jogo em que a maioria não tinha como vencer e realizar grandes feitos (o que também se aplica à maior parte dos homens). Mencionar Olympe de Gouges numa história da Revolução Francesa simplesmente substitui uma história dos grandes homens por uma dos "grandes homens... e uma mulher", quando a maior parte dos homens não era como Robespierre, Danton ou Napoleão, e a maior parte das mulheres não era como Olympe.
Uma alternativa é partir para os grandes processos históricos e ignorar o indivíduo, fazendo uma história da Revolução Francesa voltada para a ascensão da burguesia e do nacionalismo, ou o que for, e que possa passar igualmente sem Olympes e Robespierres. Para mim, os processos são importantes, mas pensar só neles é tirar o "cheiro de humanidade" da história, e atribuir toda a capacidade de agir e realizar mudanças a forças impessoais e não a pessoas concretas. Sinto muito, mas acho que não funciona.
O que pode funcionar é aumentar nossos horizontes gradualmente, até que alguém encontre uma maneira de juntar todas as pontas soltas. Como um exemplo disso, gostaria de mostrar um pedaço da história, muito ignorado por aqui, onde as mulheres tiveram participação importante - o Japão antigo.
O Japão atual é um lugar um tanto machista, e a imagem que se faz do japonês antigo (como a do gaúcho tradicional), é a do homem guerreiro, honrado e viril, como se alguma vez todos os japoneses tivessem sido samurais perfeitos. Deixando de lado as seleções e idealizações inerentes aos tradicionalismos, tanto os de CTGs quando os de escolas de artes marciais, os samurais não governaram o Japão desde sempre. E antes deles, o Japão era um lugar diferente.
O período Heian começou em 794, com a construção da nova capital Heian-kyô, Capital da paz e tranquilidade (atual Kyoto), e terminou em 1192, quando Minamoto no Yoritomo tornou-se o primeiro xogum, ou governante militar, inaugurando um estilo de governo pelos guerreiros que duraria até o século 19. Apenas no final do período Heian os guerreiros das províncias começaram a se aproximar do poder; por séculos, o Japão foi governado por um imperador semidivino e sua corte de civis refinados, onde as disputas políticas não eram decididas pelas armas, mas pelo prestígio. Pertencer a uma família nobre e ter um bom currículo na administração não bastava para cair nas graças do imperador ou de seus regentes do clã Fujiwara: era preciso ser sofisticado, conhecer a cultura chinesa, ter uma caligrafia elegante, saber fazer incenso ou jogar bola, mostrar apreciação pelas coisas belas da vida e, mais importante, dominar a arte da poesia.
(Quanto à cultura chinesa, ela por séculos foi no leste asiático o que a cultura greco-romana foi na Europa: o modelo a ser seguido e imitado.)
Hoje a poesia tem sua importância cultural diminuída em toda parte, exceto na forma de música, o que torna difícil entender como ela era essencial para os aristocratas do Japão Heian. Os poemas que eles compunham de improviso pressupunham erudição e conhecimento de poesia japonesa e chinesa, que possibilitavam todo tipo de referências sutis que apenas os entendidos compreenderiam. Fazer um poema, então, era uma mostra de boa formação e uma chance de falar nas entrelinhas: um poeta que conseguisse xingar um rival fazendo referência aos clássicos literários ganhava a apreciação de todos, especialmente se o insulto fosse tão inteligente que todos rissem do rival sem que ele percebesse o que tinha acontecido.
Nessa sociedade de corte, as mulheres tinham sua chance de brilhar, e elas eram participantes ativas da cultura de elite. Elas faziam a moda, faziam seus poemas para competir entre si por fama e para impressionar os homens, consumiam a literatura da época - e produziam essa literatura. Diversos clássicos da literatura japonesa foram escritos pelas nobres de Heian-Kyô, boa parte deles sendo relatos de vida, entre diários e autobiografias, muito antes de essa literatura intimista entrar em voga na literatura ocidental. O mais famoso de todos (e acredito que o único lançado em português) é o Livro de travesseiro (Makura no soshi) de Sei Shônagon, dama de companhia de uma imperatriz, escrito por volta do ano mil. O Livro de travesseiro é uma coletânea caótica e fascinante dos pensamentos da autora, incluindo dezenas de listas ("coisas que provocam impaciência", "bons temas de poesia", "coisas que não podem ser comparadas") e episódios da vida na corte, principalmente os momentos em que ela e sua imperatriz brilhavam.
Murasaki Shikibu, dama de companhia de uma imperatriz rival (os imperadores podiam ter diversas esposas e concubinas, cada uma tendo o apoio da facção de seus parentes, e assim as preferências do imperador eram uma questão política), também escreveu um diário (onde, previsivelmente, louvava sua imperatriz e criticava Sei Shônagon) e, mais importante, a História de Genji (Genji monogatari), a história ficcional de Genji, o príncipe brilhante, que alguns classificam como o primeiro romance escrito. E que, também previsivelmente, não foi lançada no Brasil.
Isso se deve, em grande parte, ao fato de que elas tradicionalmente ficaram mais ou menos relegadas à vida doméstica, privada, enquanto a história por muito tempo se concentrou nos grandes acontecimentos da vida pública. Esse foco está mudando aos poucos, mas a essência permanece. Se um leitor me disser que gosta da Grécia antiga, posso supor com bastante segurança que ele sabe um pouco sobre a alta cultura - a tríade filosófica Sócrates-Platão-Aristóteles, a tríade de dramaturgos trágicos Ésquilo-Sófocles-Eurípides, a tríade de historiadores Heródoto-Tucídides-Políbio, poetas como Homero, cientistas como Arquimedes - e um pouco sobre os grandes acontecimentos políticos e militares - a construção da democracia ateniense, as guerras com os persas, a Guerra do Peloponeso, a ascensão de Alexandre - mas provavelmente sabe pouco ou nada de como viviam os gregos em seu dia-a-dia. Como o envolvimento feminino na alta cultura, na política e na guerra na Grécia clássica eram bastante desencorajados, para dizer o mínimo, ele só saberá que terão existido mulheres ali porque, de alguma forma, todos esses homens famosos precisavam se reproduzir.
A Grécia clássica é um caso extremo, e em geral as mulheres encontraram formas de participar da vida pública e dos grandes acontecimentos. Algumas foram rainhas reinantes, de Hatshepsut e Cleópatra às duas Elizabeths da Inglaterra e Catarina da Rússia. Outras eram o poder por trás do trono: Lívia, esposa do primeiro imperador romano, Augusto, era tão temida quanto o marido. Voltando a um tema anterior, é extremamente provável que Nero tenha matado sua mãe, Agripina. Ele fez isso por ser mau e bandido? Não exatamente; na verdade, ele respondeu do seu modo violento a um problema sério para qualquer imperador megalomaníaco de respeito: a influência política de Agripina era comparável a do próprio Nero, e dizia-se que ela tinha envenenado o imperador anterior, Cláudio, para apressar a subida de Nero ao poder. Se casar com um imperador, envenená-lo e continuar exercendo força política através do filho por alguns anos não é uma carreira importante, não sei o que é.
Além das rainhas, as mulheres estiveram em quase todos os campos possíveis. Elas foram desde cientistas, como Marie Curie e a marquesa du Châtelet (mais conhecida por ser amante de Voltaire, também contribuiu para a física do século 18) até ativistas, como Mary Shelley (a mesma de Frankenstein) e Olympe de Gouges, que em plena Revolução Francesa propôs uma Declaração dos Direitos da Mulher. Mas a ideia de Olympe não deu certo, e seu carrasco Robespierre continua sendo mais conhecido do que dela.
Contudo, integrar as mulheres na história não pode ser feito simplesmente mencionando exceções como essas. Apesar de todas essas mulheres terem levado vidas interessantes, elas foram algumas das raras "vencedoras" em um jogo em que a maioria não tinha como vencer e realizar grandes feitos (o que também se aplica à maior parte dos homens). Mencionar Olympe de Gouges numa história da Revolução Francesa simplesmente substitui uma história dos grandes homens por uma dos "grandes homens... e uma mulher", quando a maior parte dos homens não era como Robespierre, Danton ou Napoleão, e a maior parte das mulheres não era como Olympe.
Uma alternativa é partir para os grandes processos históricos e ignorar o indivíduo, fazendo uma história da Revolução Francesa voltada para a ascensão da burguesia e do nacionalismo, ou o que for, e que possa passar igualmente sem Olympes e Robespierres. Para mim, os processos são importantes, mas pensar só neles é tirar o "cheiro de humanidade" da história, e atribuir toda a capacidade de agir e realizar mudanças a forças impessoais e não a pessoas concretas. Sinto muito, mas acho que não funciona.
O que pode funcionar é aumentar nossos horizontes gradualmente, até que alguém encontre uma maneira de juntar todas as pontas soltas. Como um exemplo disso, gostaria de mostrar um pedaço da história, muito ignorado por aqui, onde as mulheres tiveram participação importante - o Japão antigo.
O Japão atual é um lugar um tanto machista, e a imagem que se faz do japonês antigo (como a do gaúcho tradicional), é a do homem guerreiro, honrado e viril, como se alguma vez todos os japoneses tivessem sido samurais perfeitos. Deixando de lado as seleções e idealizações inerentes aos tradicionalismos, tanto os de CTGs quando os de escolas de artes marciais, os samurais não governaram o Japão desde sempre. E antes deles, o Japão era um lugar diferente.
O período Heian começou em 794, com a construção da nova capital Heian-kyô, Capital da paz e tranquilidade (atual Kyoto), e terminou em 1192, quando Minamoto no Yoritomo tornou-se o primeiro xogum, ou governante militar, inaugurando um estilo de governo pelos guerreiros que duraria até o século 19. Apenas no final do período Heian os guerreiros das províncias começaram a se aproximar do poder; por séculos, o Japão foi governado por um imperador semidivino e sua corte de civis refinados, onde as disputas políticas não eram decididas pelas armas, mas pelo prestígio. Pertencer a uma família nobre e ter um bom currículo na administração não bastava para cair nas graças do imperador ou de seus regentes do clã Fujiwara: era preciso ser sofisticado, conhecer a cultura chinesa, ter uma caligrafia elegante, saber fazer incenso ou jogar bola, mostrar apreciação pelas coisas belas da vida e, mais importante, dominar a arte da poesia.
(Quanto à cultura chinesa, ela por séculos foi no leste asiático o que a cultura greco-romana foi na Europa: o modelo a ser seguido e imitado.)
Hoje a poesia tem sua importância cultural diminuída em toda parte, exceto na forma de música, o que torna difícil entender como ela era essencial para os aristocratas do Japão Heian. Os poemas que eles compunham de improviso pressupunham erudição e conhecimento de poesia japonesa e chinesa, que possibilitavam todo tipo de referências sutis que apenas os entendidos compreenderiam. Fazer um poema, então, era uma mostra de boa formação e uma chance de falar nas entrelinhas: um poeta que conseguisse xingar um rival fazendo referência aos clássicos literários ganhava a apreciação de todos, especialmente se o insulto fosse tão inteligente que todos rissem do rival sem que ele percebesse o que tinha acontecido.
Nessa sociedade de corte, as mulheres tinham sua chance de brilhar, e elas eram participantes ativas da cultura de elite. Elas faziam a moda, faziam seus poemas para competir entre si por fama e para impressionar os homens, consumiam a literatura da época - e produziam essa literatura. Diversos clássicos da literatura japonesa foram escritos pelas nobres de Heian-Kyô, boa parte deles sendo relatos de vida, entre diários e autobiografias, muito antes de essa literatura intimista entrar em voga na literatura ocidental. O mais famoso de todos (e acredito que o único lançado em português) é o Livro de travesseiro (Makura no soshi) de Sei Shônagon, dama de companhia de uma imperatriz, escrito por volta do ano mil. O Livro de travesseiro é uma coletânea caótica e fascinante dos pensamentos da autora, incluindo dezenas de listas ("coisas que provocam impaciência", "bons temas de poesia", "coisas que não podem ser comparadas") e episódios da vida na corte, principalmente os momentos em que ela e sua imperatriz brilhavam.
Murasaki Shikibu, dama de companhia de uma imperatriz rival (os imperadores podiam ter diversas esposas e concubinas, cada uma tendo o apoio da facção de seus parentes, e assim as preferências do imperador eram uma questão política), também escreveu um diário (onde, previsivelmente, louvava sua imperatriz e criticava Sei Shônagon) e, mais importante, a História de Genji (Genji monogatari), a história ficcional de Genji, o príncipe brilhante, que alguns classificam como o primeiro romance escrito. E que, também previsivelmente, não foi lançada no Brasil.
dezembro 08, 2010
5. As 210 causas da queda de Roma
No último post, quis mostrar as dificuldades que temos ao tentar descobrir o que "realmente aconteceu", e como às vezes isso é praticamente impossível - o melhor que se consegue é ficar entre duas ou três interpretações coerentes, mas sem motivos para preferir uma delas à outra. O caso de Nero, por mais interessante que seja, é relativamente simples: o que uma pessoa fez durante alguns anos. As dificuldades aumentam infinitamente quando o problema estudado é mais complexo; talvez o exemplo mais extremo, pela atenção que recebeu de inúmeros estudiosos pelos últimos séculos, seja o da queda de Roma (por Roma entenda-se a parte ocidental do império, cuja capital no século 5 já não era a cidade de Roma).
O historiador alemão Alexander Demandt reuniu em um livro as 210 causas que já haviam sido usadas para explicar a queda de Roma. Como o livro é de 1984, certamente surgiu mais um punhado de possibilidades desde então, mas Demandt serve como ponto de partida. A lista completa pode ser vista aqui (em inglês), e coloquei abaixo alguns dos destaques:
1 - abolição dos deuses;
2 - abolição dos direitos;
3 - ausência de caráter;
4 - absolutismo;
5 - questão agrária;
6 - escravidão agrária;
7 - anarquia;
8 - antigermanismo;
9 - apatia;
10 - aristocracia;
11 - ascetismo;
12 - ataque dos germanos;
13 - ataque dos hunos;
14 - ataque de cavaleiros nômades;
21 - bolchevização;
23 - burocracia;
26 - capitalismo;
29 - celibato;
30 - centralização;
32 - cristianismo;
33 - concessão de cidadania;
34 - guerra civil;
36 - comunismo;
43 - excessos culinários;
44 - neurose cultural;
45 - descentralização;
46 - declínio do caráter nórdico;
50 - degeneração;
61 - desarmamento;
68 - emancipação dos escravos;
70 - epidemias;
73 - escapismo;
76 - excesso de civilização;
78 - excesso de infiltração estrangeira;
84 - emancipação feminina;
85 - feudalização;
90 - hedonismo;
93 - homossexualidade;
97 - grandeza desmedida;
107 - inflação;
110 - irracionalidade;
111 - influência judaica;
121 - envenenamento por chumbo;
122 - letargia;
135 - militarismo;
139 - declínio moral;
148 - pacifismo;
157 - politeísmo;
158 - pressão populacional;
164 - psicoses;
165 - banhos públicos;
166 - degeneração racial;
169 - racionalismo;
179 - ruína da classe média;
187 - escravidão;
189 - socialismo de Estado;
196 - fraqueza estrutural;
199 - terrorismo;
201 - totalitarismo;
210 - vulgarização.
Algumas dessas "causas" não devem ser defendidas por ninguém desde o final da II Guerra (degeneração racial? Declínio do caráter nórdico? Influência judaica?), mas só as 60 que selecionei aqui já explicam a ascensão e a queda de praticamente qualquer coisa. Quando o mesmo fenômeno já foi atribuído ao capitalismo e ao comunismo, à anarquia, ao totalitarismo e à feudalização, ao militarismo e ao pacifismo, à centralização e à descentralização, ao racionalismo e à irracionalidade, temos um problema. O que as 210 hipóteses têm em comum é que são absurdas, ou contraditórias, ou vagas demais (incluindo a minha preferida, "fraqueza estrutural"), ou impossíveis de testar (como podemos medir o declínio moral ou o excesso de civilização?), ou ocorreram em muito pequena escala para explicar tudo (terrorismo, envenenamento por chumbo), ou, finalmente, não explicam porque apenas a metade ocidental e mais pobre do império caiu.
Para dizer a verdade, nem todas elas são ruins, e algumas só parecem absurdas quando sintetizadas em uma frase. Os ataques dos germanos tiveram alguma relação com a crise, e a fraqueza estrutural, se bem definida, também - o que leva à velha questão: Roma morreu ou foi assassinada? Caiu pelos ataques de fora ou porque estava enfraquecida demais para resistir a eles? E precisa ser por um motivo ou outro, como se as coisas não estivessem ligadas entre si?
Ou - Demandt não colocou essa possibilidade na lista, mas é uma hipótese interessante - será que Roma não caiu? A parte oriental do império, a mais populosa e rica, sobreviveu por mais um milênio, e seus habitantes se consideravam romanos até o fim, mesmo que hoje muitos os chamem de "bizantinos". A parte ocidental se fragmentou e deixou de ter um imperador em 476, mas os reis que surgiram em seu lugar eram fiéis, pelo menos teoricamente, ao imperador em Constantinopla, e em geral faziam o possível para manter o que pudessem de "romanidade" em seus territórios - afinal, a população que havia vivido sob os Césares era a mesma que agora servia aos reis visigodos, francos, etc. A tese continuísta tem seus defensores, e contribuiu para enriquecer a compreensão da cultura e da sociedade do período que se denominou Antiguidade Tardia - cujos limites são imprecisos, mas iriam, no extremo, de 200 a 800 - vista agora não pelo ângulo do "declínio", mas por seus aspectos criativos: a cristianização da sociedade, a transformação do cristianismo, a síntese cultural entre germanos e romanos, e por aí vai.
Entre os continuístas e os adeptos da "queda de Roma", com suas múltiplas hipóteses, o debate continua, e certamente vai continuar assim por bastante tempo. Para quem precisar de assunto para uma tese, sempre é possível tentar subverter as explicações e, quem sabe, atribuir a continuidade de Roma à emancipação feminina, aos excessos culinários e aos banhos públicos.
O historiador alemão Alexander Demandt reuniu em um livro as 210 causas que já haviam sido usadas para explicar a queda de Roma. Como o livro é de 1984, certamente surgiu mais um punhado de possibilidades desde então, mas Demandt serve como ponto de partida. A lista completa pode ser vista aqui (em inglês), e coloquei abaixo alguns dos destaques:
1 - abolição dos deuses;
2 - abolição dos direitos;
3 - ausência de caráter;
4 - absolutismo;
5 - questão agrária;
6 - escravidão agrária;
7 - anarquia;
8 - antigermanismo;
9 - apatia;
10 - aristocracia;
11 - ascetismo;
12 - ataque dos germanos;
13 - ataque dos hunos;
14 - ataque de cavaleiros nômades;
21 - bolchevização;
23 - burocracia;
26 - capitalismo;
29 - celibato;
30 - centralização;
32 - cristianismo;
33 - concessão de cidadania;
34 - guerra civil;
36 - comunismo;
43 - excessos culinários;
44 - neurose cultural;
45 - descentralização;
46 - declínio do caráter nórdico;
50 - degeneração;
61 - desarmamento;
68 - emancipação dos escravos;
70 - epidemias;
73 - escapismo;
76 - excesso de civilização;
78 - excesso de infiltração estrangeira;
84 - emancipação feminina;
85 - feudalização;
90 - hedonismo;
93 - homossexualidade;
97 - grandeza desmedida;
107 - inflação;
110 - irracionalidade;
111 - influência judaica;
121 - envenenamento por chumbo;
122 - letargia;
135 - militarismo;
139 - declínio moral;
148 - pacifismo;
157 - politeísmo;
158 - pressão populacional;
164 - psicoses;
165 - banhos públicos;
166 - degeneração racial;
169 - racionalismo;
179 - ruína da classe média;
187 - escravidão;
189 - socialismo de Estado;
196 - fraqueza estrutural;
199 - terrorismo;
201 - totalitarismo;
210 - vulgarização.
Algumas dessas "causas" não devem ser defendidas por ninguém desde o final da II Guerra (degeneração racial? Declínio do caráter nórdico? Influência judaica?), mas só as 60 que selecionei aqui já explicam a ascensão e a queda de praticamente qualquer coisa. Quando o mesmo fenômeno já foi atribuído ao capitalismo e ao comunismo, à anarquia, ao totalitarismo e à feudalização, ao militarismo e ao pacifismo, à centralização e à descentralização, ao racionalismo e à irracionalidade, temos um problema. O que as 210 hipóteses têm em comum é que são absurdas, ou contraditórias, ou vagas demais (incluindo a minha preferida, "fraqueza estrutural"), ou impossíveis de testar (como podemos medir o declínio moral ou o excesso de civilização?), ou ocorreram em muito pequena escala para explicar tudo (terrorismo, envenenamento por chumbo), ou, finalmente, não explicam porque apenas a metade ocidental e mais pobre do império caiu.
Para dizer a verdade, nem todas elas são ruins, e algumas só parecem absurdas quando sintetizadas em uma frase. Os ataques dos germanos tiveram alguma relação com a crise, e a fraqueza estrutural, se bem definida, também - o que leva à velha questão: Roma morreu ou foi assassinada? Caiu pelos ataques de fora ou porque estava enfraquecida demais para resistir a eles? E precisa ser por um motivo ou outro, como se as coisas não estivessem ligadas entre si?
Ou - Demandt não colocou essa possibilidade na lista, mas é uma hipótese interessante - será que Roma não caiu? A parte oriental do império, a mais populosa e rica, sobreviveu por mais um milênio, e seus habitantes se consideravam romanos até o fim, mesmo que hoje muitos os chamem de "bizantinos". A parte ocidental se fragmentou e deixou de ter um imperador em 476, mas os reis que surgiram em seu lugar eram fiéis, pelo menos teoricamente, ao imperador em Constantinopla, e em geral faziam o possível para manter o que pudessem de "romanidade" em seus territórios - afinal, a população que havia vivido sob os Césares era a mesma que agora servia aos reis visigodos, francos, etc. A tese continuísta tem seus defensores, e contribuiu para enriquecer a compreensão da cultura e da sociedade do período que se denominou Antiguidade Tardia - cujos limites são imprecisos, mas iriam, no extremo, de 200 a 800 - vista agora não pelo ângulo do "declínio", mas por seus aspectos criativos: a cristianização da sociedade, a transformação do cristianismo, a síntese cultural entre germanos e romanos, e por aí vai.
Entre os continuístas e os adeptos da "queda de Roma", com suas múltiplas hipóteses, o debate continua, e certamente vai continuar assim por bastante tempo. Para quem precisar de assunto para uma tese, sempre é possível tentar subverter as explicações e, quem sabe, atribuir a continuidade de Roma à emancipação feminina, aos excessos culinários e aos banhos públicos.
dezembro 05, 2010
4. Nero e os limites do conhecimento
Existem três coisas que são de conhecimento geral sobre o imperador romano Nero (quinto imperador, governou de 54 até 68):
1 - ele era maaaaau e bandido;
2 - de tão mau, colocou fogo em Roma. De tão bandido, tocou lira e cantou durante o incêndio;
3 - de tão mau, perseguiu cristãos. De tão bandido, matou os apóstolos Pedro e Paulo.
Existem outros fatozinhos mais ou menos conhecidos - ele matou também a própria mãe, se considerava um artista, a população celebrou a sua morte - e todos contribuem para formar a imagem de um vilão insano, digno de filmes de James Bond.
Em outras palavras, Nero se tornou praticamente um símbolo perfeito de uma das concepções que as pessoas fazem de Roma: a de um império moralmente corrompido, entregue a orgias, com uma sucessão de tiranos homicidas no governo, que passavam seus dias entre as festas e atirar os cristãos aos leões. De alguma maneira difícil de entender, essa visão consegue coexistir com a de Roma como império iluminado, o maior do mundo, fonte de leis e cultura, de altas realizações na engenharia, e que vivia se protegendo dos bárbaros que, esses sim, eram realmente maus.
Resolver essa esquizofrenia cultural seria assunto para mais de um livro, especialmente porque as duas visões vêm da própria época romana: como hoje existem pessoas que acham que o Brasil está se tornando uma potência e as que pensam que ele está perdido, que a geração de hoje não tem moralidade, a família tradicional está desaparecendo e há bandidos em cada canto (etc etc etc), alguns romanos achavam que estava tudo bem com o império enquanto outros viam problemas por todos os lados e louvavam os bons velhos tempos em que Roma supostamente era simples e virtuosa.
Mas voltemos a Nero. Como é que sabemos que ele era desse ou daquele jeito, que fez essas ou aquelas coisas? Como podemos saber qualquer coisa a respeito dele? Eis o problema básico da atividade de historiador.
Via de regra, não usamos laboratórios (os arqueólogos podem usar laboratórios para datar materiais, mas essa é praticamente a única exceção). Não temos como fazer experimentos que recriem o passado, colocando algumas pessoas dentro da reconstrução de uma casa romana e fazendo um reality show a respeito (seria uma experiência exótica e talvez desse audiência, mas não aprenderíamos nada sobre a vida romana). Não temos como entrevistar Nero, seus amigos, subordinados, inimigos, nem ninguém que tenha vivido na metade do século 1, a menos que algum médium prestativo se disponha a fazer uma contribuição à ciência.
O que fazemos é agir um pouco como Sherlock Holmes: ele também não podia reconstruir o passado para fazer suas investigações. Ao invés disso, ele juntava pistas - os vestígios que o passado deixou (relatos das testemunhas, pegadas, a arma do crime...) - e com elas formulava teorias para responder a questão que estava investigando. Como Sherlock era um gênio com uma capacidade de observação impressionante, e ainda por cima tinha a vantagem injusta de ser o protagonista, quase sempre chegava à conclusão certa e descobria quem estava quebrando bustos de Napoleão, quem roubou o cavalo Estrela de Prata ou o que significava o ritual Musgrave.
O método do historiador é mais ou menos o mesmo: fazer uma pergunta, juntar as evidências, interpretá-las de uma forma que faça sentido. Infelizmente, enquanto Sherlock podia provar definitivamente que estava certo encontrando o cavalo desaparecido, ou capturando o assassino e ouvindo sua confissão, nem toda pergunta histórica tem uma prova tão conclusiva - é raro alguém encontrar o equivalente a um diário de Nero contando todas as suas preparações para incendiar a capital. Na falta de uma solução definitiva, os historiadores passam boa parte do tempo discutindo interpretações, se tal evidência é confiável ou não, qual de dois depoimentos contraditórios está correto - algo como os desembargadores em um tribunal.
(Apenas para constar, as comparações com Sherlock Holmes ou com juízes não são inéditas. São da autoria de Carlo Ginzburg, um dos maiores historiadores vivos.)
Então, quais são as pistas que temos sobre Nero? Não muitas; moedas do seu reinado, ou os vestígios do seu palácio, podem ajudar a compreender a situação de Roma sob seu governo, mas não nos dizem muito sobre o indivíduo. Para compreendê-lo, precisamos nos voltar para os textos, e esses também são poucos. A maior parte do que se escreveu na época, como em qualquer período antes da imprensa, está perdido - como todos os livros da época eram manuscritos, a sobrevivência de um livro qualquer através das gerações dependia de pelo menos uma das poucas cópias parar nas mãos de alguém disposto a preservar seu manuscrito e fazer uma nova cópia se necessário. A surpresa, nessas condições, não é que tenhamos perdido quase tudo, mas que alguns textos tenham sido preservados.
Infelizmente, não temos muito acesso ao que os contemporâneos de Nero pensavam dele. Algumas menções passageiras sobreviveram, mas nenhum relato detalhado. Para encontrar os primeiros relatos, precisamos avançar no tempo até várias décadas após a morte do imperador, quando surgem as principais fontes do que podemos saber sobre ele: as Vidas dos doze césares, de Suetônio, e os Anais e Histórias de Tácito, escritos no começo do século 2.
Em tese, encontramos nossas pistas, e bastaria juntar o que dizem para podermos saber que tipo de pessoa foi Nero. Uma leitura rápida das fontes mostra que concordam no básico: o governo de Nero começou bem mas logo tornou-se tirânico, com direito a montes de execuções, Roma pegou fogo, ele começou a perseguir os cristãos, e eventualmente se tornou tão odiado que alguns dos principais generais resolveram derrubá-lo e, para escapar à captura, Nero cometeu suicídio. Apenas para complicar os pobres romanos, cada general agiu separadamente em busca do poder, causando uma guerra civil após a morte de Nero, e ainda hoje 69 é conhecido como o Ano dos Quatro Imperadores, em referência aos breves reinados de Galba, Oto, Vitélio e o início do reinado de Vespasiano.
Mas o diabo está nos detalhes. Primeiro problema: é discutível até que ponto podemos confiar nas fontes. Ambos escreveram quase cinquenta anos depois da morte de Nero, quando a coleta de informações era mais difícil. As Vidas de Suetônio são especialmente problemáticas: ele gostava de falar das intrigas familiares, das anedotas picantes e de fatos sensacionalistas que tornam seu livro o equivalente antigo a um tabloide - foi ele, por exemplo, quem disse que Calígula planejava tornar seu cavalo cônsul. Tácito é considerado um historiador mais confiável, mas parte de seu relato sobre Nero está perdido. Ainda por cima, os dois, mas principalmente Tácito, não eram grandes fãs do regime imperial, preferindo a tradição republicana associada aos senadores.
Até agora, temos relatos escritos mais tarde do que o desejado, e por autores que tinham seus motivos para, na dúvida, falar mal de um imperador. Outro problema, agora mais sério: eles não concordam em tudo. Suetônio diz que Nero foi o responsável pelo incêndio de Roma, e enquanto assistia a destruição do alto de uma torre cantou uma música sobre o saque de Troia (Vida de Nero, c. 38). Mas Tácito conta uma história completamente diferente: Nero nem estava em Roma quando começou o incêndio, e ao voltar construiu abrigos para os sem-teto, inclusive em suas próprias terras, e trouxe suprimentos de comida a preços baixos - medidas de relações públicas que teriam fracassado graças ao rumor de que, durante o incêndio, ele teria cantado sobre a destruição de Troia em um palco particular (Anais, 15, 39). Não é preciso muito esforço mental para deduzir que pelo menos uma dessas narrativas está errada. Apesar de o Nero piromaníaco de Suetônio ser o preferido no imaginário das pessoas, a versão de Tácito tem um ponto forte a seu favor: Tácito detestava Nero, e faz longas listas das barbaridades que ele cometeu. Se Tácito pudesse ter atribuído o incêndio de Roma a Nero com alguma credibilidade, provavelmente teria feito exatamente isso.
Outras questões também são difíceis de resolver. Suetônio e Tácito concordam que Nero perseguiu os cristãos - Suetônio fala deles como "adeptos de uma superstição nova e maléfica", e Tácito diz que serviram como bodes expiatórios pelo incêndio de Roma, para que Nero pudesse recuperar sua credibilidade. Nenhuma menção a cristãos específicos, como Pedro e Paulo, e a Bíblia também não nos diz nada sobre seus supostos martírios em Roma. Os martírios só são mencionados em documentos ainda posteriores, como a História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, do início do século 4:
"Foi também ele [Nero], o primeiro de todos os figadais inimigos de Deus, que teve a presunção de matar os apóstolos. Com efeito, conta-se que sob seu reinado Paulo foi decapitado em Roma. E ali igualmente Pedro foi crucificado. Confirmam tal asserção os nomes de Pedro e de Paulo, até hoje atribuídos aos cemitérios da cidade" (História Eclesiástica, livro 2, 25, 5).
Podemos afirmar confiantemente que Nero perseguiu cristãos, mas como ter certeza desses dois em particular? Eusébio e outros autores cristãos estariam relatando uma tradição autêntica, ou os cristãos de Roma teriam associado a sua cidade a dois dos maiores líderes cristãos, com todo o prestígio que essa associação traz ainda hoje, sem grandes evidências?
Finalmente, é discutível se Nero era mesmo universalmente odiado. Suetônio termina sua Vida dizendo que algumas pessoas colocavam flores em seu túmulo, e havia mesmo pessoas que se faziam passar por Nero, com algum sucesso. Tácito diz que a "porção respeitável" da sociedade alegrou-se com sua morte, mas não a "população degradada" (Histórias, 1, 4). Vindo de um romano da elite, isso não leva a crer que o imperador era detestado pela elite, mas não pela população em geral?
É por incertezas assim que questões como "o verdadeiro Nero" são discutidas há tempo e continuarão sendo: infelizmente, nosso conhecimento tem limites e em alguns casos só podemos dizer o que é mais ou menos provável. O que exatamente ele fez, ou como conciliar toda sua violência com o respeito que os pobres aparentemente tinham por ele, são quebra-cabeças com várias peças faltando.
Mas continuo achando que ele não teve nada a ver com o incêndio.
1 - ele era maaaaau e bandido;
2 - de tão mau, colocou fogo em Roma. De tão bandido, tocou lira e cantou durante o incêndio;
3 - de tão mau, perseguiu cristãos. De tão bandido, matou os apóstolos Pedro e Paulo.
Existem outros fatozinhos mais ou menos conhecidos - ele matou também a própria mãe, se considerava um artista, a população celebrou a sua morte - e todos contribuem para formar a imagem de um vilão insano, digno de filmes de James Bond.
Em outras palavras, Nero se tornou praticamente um símbolo perfeito de uma das concepções que as pessoas fazem de Roma: a de um império moralmente corrompido, entregue a orgias, com uma sucessão de tiranos homicidas no governo, que passavam seus dias entre as festas e atirar os cristãos aos leões. De alguma maneira difícil de entender, essa visão consegue coexistir com a de Roma como império iluminado, o maior do mundo, fonte de leis e cultura, de altas realizações na engenharia, e que vivia se protegendo dos bárbaros que, esses sim, eram realmente maus.
Resolver essa esquizofrenia cultural seria assunto para mais de um livro, especialmente porque as duas visões vêm da própria época romana: como hoje existem pessoas que acham que o Brasil está se tornando uma potência e as que pensam que ele está perdido, que a geração de hoje não tem moralidade, a família tradicional está desaparecendo e há bandidos em cada canto (etc etc etc), alguns romanos achavam que estava tudo bem com o império enquanto outros viam problemas por todos os lados e louvavam os bons velhos tempos em que Roma supostamente era simples e virtuosa.
Mas voltemos a Nero. Como é que sabemos que ele era desse ou daquele jeito, que fez essas ou aquelas coisas? Como podemos saber qualquer coisa a respeito dele? Eis o problema básico da atividade de historiador.
Via de regra, não usamos laboratórios (os arqueólogos podem usar laboratórios para datar materiais, mas essa é praticamente a única exceção). Não temos como fazer experimentos que recriem o passado, colocando algumas pessoas dentro da reconstrução de uma casa romana e fazendo um reality show a respeito (seria uma experiência exótica e talvez desse audiência, mas não aprenderíamos nada sobre a vida romana). Não temos como entrevistar Nero, seus amigos, subordinados, inimigos, nem ninguém que tenha vivido na metade do século 1, a menos que algum médium prestativo se disponha a fazer uma contribuição à ciência.
O que fazemos é agir um pouco como Sherlock Holmes: ele também não podia reconstruir o passado para fazer suas investigações. Ao invés disso, ele juntava pistas - os vestígios que o passado deixou (relatos das testemunhas, pegadas, a arma do crime...) - e com elas formulava teorias para responder a questão que estava investigando. Como Sherlock era um gênio com uma capacidade de observação impressionante, e ainda por cima tinha a vantagem injusta de ser o protagonista, quase sempre chegava à conclusão certa e descobria quem estava quebrando bustos de Napoleão, quem roubou o cavalo Estrela de Prata ou o que significava o ritual Musgrave.
O método do historiador é mais ou menos o mesmo: fazer uma pergunta, juntar as evidências, interpretá-las de uma forma que faça sentido. Infelizmente, enquanto Sherlock podia provar definitivamente que estava certo encontrando o cavalo desaparecido, ou capturando o assassino e ouvindo sua confissão, nem toda pergunta histórica tem uma prova tão conclusiva - é raro alguém encontrar o equivalente a um diário de Nero contando todas as suas preparações para incendiar a capital. Na falta de uma solução definitiva, os historiadores passam boa parte do tempo discutindo interpretações, se tal evidência é confiável ou não, qual de dois depoimentos contraditórios está correto - algo como os desembargadores em um tribunal.
(Apenas para constar, as comparações com Sherlock Holmes ou com juízes não são inéditas. São da autoria de Carlo Ginzburg, um dos maiores historiadores vivos.)
Então, quais são as pistas que temos sobre Nero? Não muitas; moedas do seu reinado, ou os vestígios do seu palácio, podem ajudar a compreender a situação de Roma sob seu governo, mas não nos dizem muito sobre o indivíduo. Para compreendê-lo, precisamos nos voltar para os textos, e esses também são poucos. A maior parte do que se escreveu na época, como em qualquer período antes da imprensa, está perdido - como todos os livros da época eram manuscritos, a sobrevivência de um livro qualquer através das gerações dependia de pelo menos uma das poucas cópias parar nas mãos de alguém disposto a preservar seu manuscrito e fazer uma nova cópia se necessário. A surpresa, nessas condições, não é que tenhamos perdido quase tudo, mas que alguns textos tenham sido preservados.
Infelizmente, não temos muito acesso ao que os contemporâneos de Nero pensavam dele. Algumas menções passageiras sobreviveram, mas nenhum relato detalhado. Para encontrar os primeiros relatos, precisamos avançar no tempo até várias décadas após a morte do imperador, quando surgem as principais fontes do que podemos saber sobre ele: as Vidas dos doze césares, de Suetônio, e os Anais e Histórias de Tácito, escritos no começo do século 2.
Em tese, encontramos nossas pistas, e bastaria juntar o que dizem para podermos saber que tipo de pessoa foi Nero. Uma leitura rápida das fontes mostra que concordam no básico: o governo de Nero começou bem mas logo tornou-se tirânico, com direito a montes de execuções, Roma pegou fogo, ele começou a perseguir os cristãos, e eventualmente se tornou tão odiado que alguns dos principais generais resolveram derrubá-lo e, para escapar à captura, Nero cometeu suicídio. Apenas para complicar os pobres romanos, cada general agiu separadamente em busca do poder, causando uma guerra civil após a morte de Nero, e ainda hoje 69 é conhecido como o Ano dos Quatro Imperadores, em referência aos breves reinados de Galba, Oto, Vitélio e o início do reinado de Vespasiano.
Mas o diabo está nos detalhes. Primeiro problema: é discutível até que ponto podemos confiar nas fontes. Ambos escreveram quase cinquenta anos depois da morte de Nero, quando a coleta de informações era mais difícil. As Vidas de Suetônio são especialmente problemáticas: ele gostava de falar das intrigas familiares, das anedotas picantes e de fatos sensacionalistas que tornam seu livro o equivalente antigo a um tabloide - foi ele, por exemplo, quem disse que Calígula planejava tornar seu cavalo cônsul. Tácito é considerado um historiador mais confiável, mas parte de seu relato sobre Nero está perdido. Ainda por cima, os dois, mas principalmente Tácito, não eram grandes fãs do regime imperial, preferindo a tradição republicana associada aos senadores.
Até agora, temos relatos escritos mais tarde do que o desejado, e por autores que tinham seus motivos para, na dúvida, falar mal de um imperador. Outro problema, agora mais sério: eles não concordam em tudo. Suetônio diz que Nero foi o responsável pelo incêndio de Roma, e enquanto assistia a destruição do alto de uma torre cantou uma música sobre o saque de Troia (Vida de Nero, c. 38). Mas Tácito conta uma história completamente diferente: Nero nem estava em Roma quando começou o incêndio, e ao voltar construiu abrigos para os sem-teto, inclusive em suas próprias terras, e trouxe suprimentos de comida a preços baixos - medidas de relações públicas que teriam fracassado graças ao rumor de que, durante o incêndio, ele teria cantado sobre a destruição de Troia em um palco particular (Anais, 15, 39). Não é preciso muito esforço mental para deduzir que pelo menos uma dessas narrativas está errada. Apesar de o Nero piromaníaco de Suetônio ser o preferido no imaginário das pessoas, a versão de Tácito tem um ponto forte a seu favor: Tácito detestava Nero, e faz longas listas das barbaridades que ele cometeu. Se Tácito pudesse ter atribuído o incêndio de Roma a Nero com alguma credibilidade, provavelmente teria feito exatamente isso.
Outras questões também são difíceis de resolver. Suetônio e Tácito concordam que Nero perseguiu os cristãos - Suetônio fala deles como "adeptos de uma superstição nova e maléfica", e Tácito diz que serviram como bodes expiatórios pelo incêndio de Roma, para que Nero pudesse recuperar sua credibilidade. Nenhuma menção a cristãos específicos, como Pedro e Paulo, e a Bíblia também não nos diz nada sobre seus supostos martírios em Roma. Os martírios só são mencionados em documentos ainda posteriores, como a História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, do início do século 4:
"Foi também ele [Nero], o primeiro de todos os figadais inimigos de Deus, que teve a presunção de matar os apóstolos. Com efeito, conta-se que sob seu reinado Paulo foi decapitado em Roma. E ali igualmente Pedro foi crucificado. Confirmam tal asserção os nomes de Pedro e de Paulo, até hoje atribuídos aos cemitérios da cidade" (História Eclesiástica, livro 2, 25, 5).
Podemos afirmar confiantemente que Nero perseguiu cristãos, mas como ter certeza desses dois em particular? Eusébio e outros autores cristãos estariam relatando uma tradição autêntica, ou os cristãos de Roma teriam associado a sua cidade a dois dos maiores líderes cristãos, com todo o prestígio que essa associação traz ainda hoje, sem grandes evidências?
Finalmente, é discutível se Nero era mesmo universalmente odiado. Suetônio termina sua Vida dizendo que algumas pessoas colocavam flores em seu túmulo, e havia mesmo pessoas que se faziam passar por Nero, com algum sucesso. Tácito diz que a "porção respeitável" da sociedade alegrou-se com sua morte, mas não a "população degradada" (Histórias, 1, 4). Vindo de um romano da elite, isso não leva a crer que o imperador era detestado pela elite, mas não pela população em geral?
É por incertezas assim que questões como "o verdadeiro Nero" são discutidas há tempo e continuarão sendo: infelizmente, nosso conhecimento tem limites e em alguns casos só podemos dizer o que é mais ou menos provável. O que exatamente ele fez, ou como conciliar toda sua violência com o respeito que os pobres aparentemente tinham por ele, são quebra-cabeças com várias peças faltando.
Mas continuo achando que ele não teve nada a ver com o incêndio.
novembro 28, 2010
2. O mito da Terra plana
Os historiadores têm um grave problema: pesquisam, discutem e reinterpretam tudo, mas não conseguem fazer os resultados disso circular pela sociedade. As últimas descobertas médicas, pelo menos as de aplicação prática, circulam sem controle, tanto que as pessoas já perceberam que a medicina, como qualquer ciência, só chega a conclusões provisórias, que podem ser rediscutidas quando surgem novas evidências - é o caso da eterna questão de saber se o café ou o chocolate fazem bem ou mal. As descobertas das ciências exatas, embora seus conteúdos não sejam tão divulgados por serem quase incompreensíveis aos leigos, têm consequências visíveis na forma de novas tecnologias.
Mas o nosso departamento de divulgação é um fracasso completo. As pessoas são bombardeadas com anos de aulas de história nos colégios, veem filmes, programas de tv, revistas, romances históricos, enfim, são expostas ao assunto o tempo todo... e praticamente tudo que acham que aprenderam a respeito está obsoleto.
Quem mais sofre com isso são os medievalistas. Por todo o século passado, eles destruíram a visão da Idade Média como um milênio de trevas, ignorância, tirania papal e tudo o mais. Criaram uma nova imagem, de um período que teve seus problemas, como qualquer outro, mas não foi especialmente ruim. É uma pena que tenham esquecido de avisar o resto do mundo.
Um dos mitos persistentes sobre a Europa medieval é o da Terra plana. Todos já ouviram falar que as pessoas, nessa época, pensavam que o planeta era achatado, que era possível cair da beira do mundo, e que esse era um dos medos que os marinheiros tinham durante as grandes navegações. Alguns também devem ter ouvido falar que Cristóvão Colombo era um dos poucos seres pensantes que perceberam que o mundo era redondo, e para conseguir financiamento para suas viagens precisou debater com os doutores da universidade de Salamanca, que não ficaram muito convencidos dessas heresias.
Não é uma história bonitinha? O herói solitário, armado apenas com a verdade, lutando contra os dogmas da ignorância... seria bonitinho mesmo, se tivesse acontecido. O problema é que nunca aconteceu.
Colombo realmente enfrentou os doutores de Salamanca em discussões, mas todos os envolvidos, como todo mundo na Europa do final do século 15, sabiam que a Terra era redonda. O debate era em torno do seu tamanho: Colombo pensava que a Terra era bem menor do que na realidade, e por isso seria possível chegar à Ásia através do Atlântico. Os doutores sabiam do tamanho aproximado da Terra, e por isso achavam que a expedição de Colombo era suicida. E eles estariam certos, se não fosse um pequeno detalhe que os dois lados desconheciam: a América.
Desde que Aristóteles, no século 4 a.C., demonstrou que o mundo é esférico, as pessoas não esqueceram disso. Os medievalistas devem poder apontar pilhas de documentos que mostram como o conhecimento se manteve; eu sei de pelo menos dois.
No começo do século 14 (ou seja, quase 200 anos antes de Colombo), Dante já sabia o formato do mundo. Na Divina Comédia, ele colocou seu inferno no interior da Terra, de tal forma que ele entra por um lugar e sai no extremo oposto do mundo, depois de ter passado pelo seu centro, onde o próprio Satã punia os traidores - os três maiores deles, na verdade: Judas (o que não surpreende ninguém) e Brutus e Cássio, os assassinos de César, o que pode ser uma surpresa para quem pensa que o conhecimento da antiguidade se perdeu na Idade Média.
E antes de Dante, na metade do século 13, Tomás de Aquino, como bom aristotélico que era, escreveu em sua Suma Teológica (parte I, questão 1, artigo 1):
As ciências são diferenciadas pelos diversos meios através dos quais o conhecimento é obtido. Pois o astrônomo e o filósofo natural [físico] podem ambos demonstrar a mesma conclusão: por exemplo, que a Terra é redonda, o astrônomo por meios matemáticos (abstraindo da matéria) e o filósofo natural através da própria matéria.
Vejam que ele toma isso como tão evidente que não se sente na obrigação de dizer quais os argumentos do astrônomo e do físico - por que fazer isso, se ele só dizia o que todos já sabiam?
Para quem quiser uma discussão mais aprofundada, inclusive sobre a questão de Colombo, fica uma sugestão de leitura: Os sete mitos da conquista espanhola, de Matthew Restall, que trata dessa e outras invencionices que deveriam sair do nosso imaginário.
Mas o nosso departamento de divulgação é um fracasso completo. As pessoas são bombardeadas com anos de aulas de história nos colégios, veem filmes, programas de tv, revistas, romances históricos, enfim, são expostas ao assunto o tempo todo... e praticamente tudo que acham que aprenderam a respeito está obsoleto.
Quem mais sofre com isso são os medievalistas. Por todo o século passado, eles destruíram a visão da Idade Média como um milênio de trevas, ignorância, tirania papal e tudo o mais. Criaram uma nova imagem, de um período que teve seus problemas, como qualquer outro, mas não foi especialmente ruim. É uma pena que tenham esquecido de avisar o resto do mundo.
Um dos mitos persistentes sobre a Europa medieval é o da Terra plana. Todos já ouviram falar que as pessoas, nessa época, pensavam que o planeta era achatado, que era possível cair da beira do mundo, e que esse era um dos medos que os marinheiros tinham durante as grandes navegações. Alguns também devem ter ouvido falar que Cristóvão Colombo era um dos poucos seres pensantes que perceberam que o mundo era redondo, e para conseguir financiamento para suas viagens precisou debater com os doutores da universidade de Salamanca, que não ficaram muito convencidos dessas heresias.
Não é uma história bonitinha? O herói solitário, armado apenas com a verdade, lutando contra os dogmas da ignorância... seria bonitinho mesmo, se tivesse acontecido. O problema é que nunca aconteceu.
Colombo realmente enfrentou os doutores de Salamanca em discussões, mas todos os envolvidos, como todo mundo na Europa do final do século 15, sabiam que a Terra era redonda. O debate era em torno do seu tamanho: Colombo pensava que a Terra era bem menor do que na realidade, e por isso seria possível chegar à Ásia através do Atlântico. Os doutores sabiam do tamanho aproximado da Terra, e por isso achavam que a expedição de Colombo era suicida. E eles estariam certos, se não fosse um pequeno detalhe que os dois lados desconheciam: a América.
Desde que Aristóteles, no século 4 a.C., demonstrou que o mundo é esférico, as pessoas não esqueceram disso. Os medievalistas devem poder apontar pilhas de documentos que mostram como o conhecimento se manteve; eu sei de pelo menos dois.
No começo do século 14 (ou seja, quase 200 anos antes de Colombo), Dante já sabia o formato do mundo. Na Divina Comédia, ele colocou seu inferno no interior da Terra, de tal forma que ele entra por um lugar e sai no extremo oposto do mundo, depois de ter passado pelo seu centro, onde o próprio Satã punia os traidores - os três maiores deles, na verdade: Judas (o que não surpreende ninguém) e Brutus e Cássio, os assassinos de César, o que pode ser uma surpresa para quem pensa que o conhecimento da antiguidade se perdeu na Idade Média.
E antes de Dante, na metade do século 13, Tomás de Aquino, como bom aristotélico que era, escreveu em sua Suma Teológica (parte I, questão 1, artigo 1):
As ciências são diferenciadas pelos diversos meios através dos quais o conhecimento é obtido. Pois o astrônomo e o filósofo natural [físico] podem ambos demonstrar a mesma conclusão: por exemplo, que a Terra é redonda, o astrônomo por meios matemáticos (abstraindo da matéria) e o filósofo natural através da própria matéria.
Vejam que ele toma isso como tão evidente que não se sente na obrigação de dizer quais os argumentos do astrônomo e do físico - por que fazer isso, se ele só dizia o que todos já sabiam?
Para quem quiser uma discussão mais aprofundada, inclusive sobre a questão de Colombo, fica uma sugestão de leitura: Os sete mitos da conquista espanhola, de Matthew Restall, que trata dessa e outras invencionices que deveriam sair do nosso imaginário.
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