A reportagem abaixo, vinda da
Carta Capital, merece uma indagação: quem é pior, os espiões estrangeiros que usam técnicas amadoras e chegam sem nenhum conhecimento do lugar que querem espionar, ou os nossos ignorantes locais que caíram nessa? Se o nosso alto escalão entrega informações secretas por qualquer rostinho bonito, não seria melhor que as informações fossem públicas de uma vez?
E, mesmo sem ser simpatizante da ideologia costumeira da revista, não deixa de ser interessante a provocação no fim do texto:
Oficialmente, o governo sempre negou a existência de atividades
terroristas no Brasil – e continua negando, mesmo depois das revelações
do Wikileaks.
Já os militares brasileiros parecem ficar bem mas à vontade quando
falam do assunto com americanos – sejam eles diplomatas, militares, ou
arapongas como os da Stratfor.
Sim, nosso governo e militares - todos, em última análise,
nossos funcionários, pagos com
nosso dinheiro - confiam mais nos americanos do que em nós quando se trata de dizer o que realmente está acontecendo...
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Alunos de Clouseau
“Foi uma honra e um privilégio tomar parte em uma conversa tão estimulante na sala de situação e ser levada em um
tour guiado
pelo palácio presidencial.” Era janeiro de 2011 e a Stratfor era apenas
uma agência curiosamente bem colocada no mundo das informações de
inteligência e geopolítica internacional, quando sua diretora de
análise, Reva Bhalla, escreveu um
e-mail mais
que agradecido ao secretário-adjunto do Gabinete de Segurança
Institucional do Planalto, José Antônio de Macedo Soares, por tê-la
apresentado ao local reservado onde militares e agentes se reúnem em
tempos de crise de segurança.
Bhalla queria ainda reaver um mapa do Brasil presenteado por Soares e
roubado no aeroporto. “Fiquei com o coração partido. Eu realmente amei o
mapa e estava tão honrada em tê-lo.” Um mês depois, Soares lhe
escreveu: tinha em mãos a cópia do mapa, feito para a Marinha. “Para
qual endereço devo mandar esse tubo de aparência tão suspeita com o
mapa?” Bhalla respondeu agradecida, emocionada, difícil de conter. “Eu
estava num bar com amigos ontem e um cara perto de mim viu o imenso
sorriso que surgiu em meu
rosto quando
eu vi sua mensagem, virou pra mim e disse: ‘uau, queria saber o que faz
uma garota sorrir assim’. Acho que ele nunca adivinharia que tinha a
ver com um mapa múndi com o Brasil no centro”. Deu ainda o endereço para
postagem. E pediu o dele, “caso haja algo que eu queira mandar como
agradecimento por toda a simpatia e hospitalidade que você mostrou
durante minha visita ao seu belo país.”
Geralmente discreta em público, a executiva americana de origem
indiana ficou conhecida mundo afora depois que a comunicação da
Stratfor, hackeada em dezembro do ano passado, passou a ser publicada
pelo
WikiLeaks. Em um dos emails
mais polêmicos, Bhalla é instruída pelo seu chefe, o autor de
best sellers sobre
estratégia militar e CEO da Stratfor, George Fridman, sobre como lidar
com suas “fontes”, homens ligados a empresas e governos detentores de
informações de interesse. “Se você considera a fonte valiosa, tem de
assumir o controle sobre ela. Controle significa controle financeiro,
sexual ou psicológico”, ensina o mestre,
Até agora pouco se sabia sobre como a Stratfor agia no Brasil. Mas documentos aos quais a Agência Pública e a
Carta Capital tiveram
acesso descortinam um modus operanti tragicômico, no centro do qual
figura Reva Bhalla. Ela esteve no País por dois meses, em uma temporada
de
encontros nos
quais abusou do seu charme e foi recebida de braços abertos até por
funcionários de carreira do GSI, órgão responsável por garantir a
segurança da presidência e que lhe confiou informações sensíveis às
quais poucos brasileiros têm acesso. Em um dos e-mails, Bhalla relata
aos colegas da Stratfor que naquela visita ao GSI chegou a se reunir com
o ministro-chefe, o general José Elito Siqueira. Foi até convidada a
visitar um posto militar na Amazônia. E durante a longa conversa com
Macedo Soares, diz ter ouvido que a Abin capturara “terroristas” em São
Paulo, incluindo pessoas ligadas aos ataques de 11 de setembro. O GSI
confirmou a visita de Bhalla.
Clique aqui para ler o relato sobre o encontro de Bhalla com a cúpula do GSI
Batizado de “Arquivos de Inteligencia Global”,
o novo vazamento do Wikileaks trouxe
luz a um ramo pouco conhecido da inteligência privada, exatamente por
situar-se na fronteira entre a análise e produção de boletins
geopolíticos de baixa qualidade e a simples arapongagem. Abreviação de
“Straregic Forecasting Inc”, algo como “previsão estratégica”, a
Stratfor mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem
para vender a seus clientes “previsões” sobre o que vai acontecer em
diversos países do mundo. Além de
oferecer um
boletim com análises geopolíticas e militares, faz relatórios por
encomenda e fornece “briefings” por teleconferência. Por trás de tudo o
que leva a marca Stratfor está George Friedman.
Dos arapongas à bola de cristal
Filho de judeus fugido do holocausto húngaro que dedicou sua vida a
lecionar sobre a arte da guerra nos Estados Unidos, Friedman é dono de
uma biografia cara ao modelo americano de s
elf made man.
Cresceu no Bronx novaiorquino e doutorou-se em ciência política pela
prestigiada universidade Cornell, antes de se tornar consultor para o
Pentágono, o Army War College e a National Defense University. Por duas
décadas entremeou pesquisas acadêmicas com a publicação de livros sobre
os mesmas temas e com títulos bombásticos, como America’s Secret War,
The Intelligence Edge, The Coming War With Japan, The Future of War e
dois best sellers da lista do Times (The Next 100 Years e The Next
Decade, exatamente os dois nos quais prevê o futuro da humanidade sob o
ponto de vista da geopolítica e da guerra).
Foi essa figura, então então professor da Universidade Estadual da
Louisiana, quem fundou em Austin, Texas, em 1996, uma empresa nova no
ramo. Ele juntou com 15 jovens alunos e os levou para o Texas, onde os
transformou em analistas de inteligência. Nascia a Stratfor – que, em
1999, já chamava a atenção ao “prever” os desenvolvimentos do conflito
nos Balcãs. Um Centro de Crise para Kosovo foi colocado online e passou a
ser seguido e mesmo citado por jornalões como o New York Times.
A fórmula de Friedman era simples e eficiente: juntar, sob sua
influência, antigos espiões soviéticos com know-how sobre países da
antiga influência comunista, militares aposentados americanos, adidos e
jornalistas mundo afora interessados em “colaborar” para ganhar dinheiro
com sua grande paixão, a geopolítica. Tanto que a correspondência da
empresa, obtidas pelo WikiLeaks, inclui dezenas de documentos internos
do FBI e das forças de segurança americanas, tendo revelado por exemplo
que o Departamento de Segurança Pública do Texas tem um agente encoberto
no Occupy Austin. Embora esteja longe de ser uma das maiores no mercado
de “análise de risco”, a Stratfor conta ente seus clientes com empresas
como a Lockheed Martin, Morthrop Grumman, Raytheon, Coca-Cola e Dow
Chemical. A pedido das duas últimas, monitorava as atividades de
ativistas de direitos humanos e ambientais que pudessem lhes causar
problemas. Além disso, faturou um contrato do comando da Marinha
americana para fazer uma previsão estratégica para os próximos anos.
Apesar do delicado perfil ético e da proximidade de suas fontes com o
poder, a verdade é que grande parte dos documentos revelados até agora
mostram como a Stratfor agia com um amadorismo risível, marcada por
informação de má qualidade. Nada de Sherlock Holmes ou James Bond; algo
mais próximo do inspetor Clouseau, magistralmente interpretado por Peter
Sellers. Nada de investigação de ponta, o que fica claro por outro
documento publicado pelo Wikileaks, uma espécie de “glossário” com
máximas de uso interno da empresa. “O fluxo de material passivo reduz o
custo da inteligência e aumenta o tempo de análise. O poder da Stratfor é
reunir com eficiência a análise passiva, descobrir padrões rapidamente,
e análise fabulosa. Ou é isso que dizemos aos clientes. É melhor ter
algumas fontes no bolso também.” É com essa visão “geoestratégica”,
crivada por um discurso militarista de direita, que a empresa consegue
enorme simpatia dentre os “aficionados por inteligência”, como descreve o
mesmo glossário: um cliente com apetite de CIA e orçamento de Botswana
“define a maioria dos clientes da Stratfor”.
No Brasil, a clientela da Strafor inclui o Brazilian Army Comission,
comissão do exército sediada em Washington, com uma assinatura anual do
boletim no valor de US$ 1.825; o Ministério da Defesa, com três
assinaturas num valor total de US$ 9.702; e a ABIN, com uma assinatura
anual de US$ 3.450. Por incrível que pareça, assinar os boletins da
empresa é praxe, por exemplo, entre os cursos de relações internacionais
do Brasil, segundo Reginaldo Mattar Nasser, professor de relações
internacionais da PUC-SP. “A questão é que nesse ‘pacote’ de informações
objetivas, que não é assinado por ninguém, aparecem avaliações
políticas que entram como se fossem informações corretas,
incontestáveis”. Nasser diz que os alunos gostam dos boletins porque
eles trazem informações gerais, como PIB e o histórico dos países. O
problema é que, no bolo, vêm análises conservadoras: segundo a Stratfor,
a Primavera Árabe geraria ambientes de anarquia, os palestinos seriam
os agressores unilaterais a Israel e os adeptos do Islã seriam todos
terroristas.
O tour de Reva Bhalla no Brasil
Foi para formular uma visão própria do Brasil e criar “fontes que se
mantém no bolso” que a analista Reva Bhalla esteve no País entre
dezembro de 2010 e janeiro de 2011. “Após passar tempo com cariocas no
Rio, o pessoal do Itamaraty em Brasília, os gaúchos no Rio Grande do Sul
e todo tipo de paulistas em SP, deixo seu belo país com uma melhor
compreensão da alma brasileira”, escreveu ela a Macedo Soares, do GSI.
Na verdade, Reva conseguiu pouca informação que não pudesse ser
encontrada com uma busca rápida do Google. A conversa com o alto escalão
do GSI é a notável exceção – e bastante preocupante, se contarmos que
se trata de funcionários públicos encarregados justamente de proteger
informações sensíveis à segurança nacional.
Além do GSI, Reva conversou com o diretor do Instituto Fernando
Henrique Cardoso. O cientista político Sérgio Fausto diz que de fato se
encontrou com Bhalla em seu escritório em São Paulo. “Nunca tinha ouvido
falar da Stratfor. Olhei o site deles e tal. Ela me encontrou aqui. Era
uma moça muito bonita, aliás, uma jovem de uns 30 anos bem vestida como
convém a executivas da área. Mas uma moça que não conhecia nada de
Brasil e estava tateando. Tinha uma preocupação específica sobre
segurança pública e sobre a atuação do Brasil na vizinhança, com a
Bolívia, a questão do narcotráfico. Questões que eu conhecia apenas de
ler jornal”.
Bhalla ainda solicitou contatos por e-mail, que Fausto passou sem
problemas. No fim do e-mail, porém, ele ironizava: “Como um dos nossos
melhores compositores, Antonio Carlos Jobim, costumava dizer: ‘Brasil
não é um país para principiantes’”. Assim como ironiza agora o trabalho
da empresa. “Se eu fosse um cliente interessado em informações de
mercado, não os contrataria. Eles não têm as conexões latino-americanas
nem a expertise no assunto.”
A principal fonte da Stratfor no Brasil é, na verdade, o jornalista Nelson During, editor-chefe do
Defesa Net,
site que “tem um pensamento como o da Stratfor”, nas palavras de
Bhalla. Pouco conhecido fora dos círculos dos aficionados por temas
militares e inteligência, o Defesa Net surgiu em 1999, quando During
começou a enviar boletins semanais por e-mail para órgãos
governamentais, empresas privadas e pessoas interessadas nas áreas.
Incomunicável em uma base militar nos Estados Unidos, segundo informou
sua assistente, ele não respondeu à reportagem. Em emails subsequentes
ao seu encontro com Bhalla em janeiro de 2011 – no qual discutou do
submarino nuclear à tríplice fronteira –uring é citado como “fonte de
inteligência”, e ganha o código BR 707, sendo interlocutor constante
sobre assuntos de relevância estratégica, como a presença britânica nas
Malvinas.
Durante os dois meses, Bhalla foi também ao Rio de Janeiro, onde
visitou o morro Dona Marta para conhecer as UPPS. “Não dá para não ficar
impressionado com este modelo”, escreveu. E esteve na Escola Superior
de Guerra, onde foi recebida por um major-general não identificado. Ali,
ouviu frases com potencial para se tornarem pérolas da literatura
Wikileakiana. Em email no dia 6 de janeiro, descreve as informações
sobre “futuras questões sobre a Defesa brasileira” dizendo que, segundo
sua fonte, a maior prioridade para os militares brasileiros agora é a
modernização. “Uma força militar é como um cachorro que você mantem no
quintal. Nosso cão tem envelhecido, está perdendo vários dentes, mesmo
ficando cego de um olho. Não precisamos de um Rottweiller per si, mas
sim de um bom cão de guarda, só para deixar claro que ‘estamos aqui’”,
filosofou a tal fonte.
Segundo os documentos, a relação entre a Stratfor e a ESG não
acabaram aí. Em novembro do ano passado, o atual analista da empresa
para o Brasil, Renato Whitaker, marcou um encontro com o diretor do
Centro de Estudos Estratégicos da escola e comandante da Artilharia
Divisionária da 6ª Divisão de Exército, o general-de-brigada João Cesar
Zambão da Silva, onde conseguiu “folhear o esboço do Livro Branco da
Defesa”, no dia 25 – antes, portanto, que o “documento chave da Política
Nacional” fosse publicado.
Clique aqui para ler o relato sobre o encontro de Bhalla com a cúpula do GSI
Zambão afirmou a Carta Capital: “ Conheço sim o Sr. Whitaker, que
trabalha para a Stratfor e que vem a ser filho de um embaixador que
serviu na ESG como assistente do Ministério das Relações Exteriores e,
por seu intermédio, informalmente, tomei conhecimento da atuação da
empresa no País. A ESG não tem qualquer interesse na Stratfor e o Centro
de Estudos Estratégicos não tem relações com a empresa. Inclusive, a
Escola não é assinante de qualquer produto da Stratfor.”
Zambão confirma ainda o encontro marcado para o dia 25 de novembro de
2011 na própria ESG. “Recebi o sr. Whitaker para uma conversa informal,
(como costumo fazer com qualquer pessoa, em situações similares) e,
sim, conversamos sobre o Livro Branco, principalmente sobre a sua
importância como veículo de divulgação de assuntos de defesa para a
sociedade.” Ainda assim, afirma não ter qualquer relação com a empresa.
“Gostaria de esclarecer que não ‘sou fonte da empresa’ e não tenho
qualquer espécie de vínculo com ela.”
Os ensinamentos da Stratfor: como cativar fontes
Renato Whitaker, um rapaz de apenas 23 anos, é formado pelo Ibmec em relações internacionais
. Ex-estagiário
da Santos Lab, fabricante de aeronaves não tripuladas para militares e
civis, aparece no Facebook com um cachimbo a la Sherlock Homes e um
bigode falso. Mas não é exatamente o currículo ou a imagem o que o
ajudou a adentrar o mundo da inteligência corporativa. Ser filho do
embaixador aposentado Christiano Whitaker, sim.
Em 12 de setembro de 2011, recém-contratado, Whitaker escreveu aos
chefes oferecendo uma lista de potenciais fontes de informação – entre
elas uma amiga que estudava medicina e poderia opinar sobre malária e
seu professor brasileiro de krav magá, luta israelense –, mas cuja
maioria dos contatos era “graças a meu pai”, “ex-diplomata, bem versado
nos assuntos internacionais do Brasil, grande mente e com boas
conexões”. Um certo major do Exército, ligado à ESG, seria amigo de seu
pai, assim como o chefe do GSI, “uma espécie de mini-Stratfor do
governo”. Um colega de treino trabalharia para a Petrobrás. “Não sei com
o que ele trabalha lá e se ainda trabalha, mas pode ser uma boa entrada
no setor de petróleo”.
A carta era uma resposta às orientações passadas a ele pela analista
para América do Sul, Allison Marie Fedirka. A jovem também passou dois
meses no Brasil levantando “fontes”. Americana, Fedirka nasceu em
Lombard, Illinois, e se formou em espanhol pela Washington University in
St. Louis, no Missouri – daí ser a “correspondente” da empresa para a
região. Fiel às regras da Stratfor, ela comenta que em 2009 chegou a
entrar em contato com um diplomata brasileiro sem se identificar como
funcionária da empresa de inteligência. “Eu não recebi autorização para
me declarar abertamente Stratfor até março ou abril de 2010”.
Em visita ao Paraguai naquele ano, Fedirka conseguiu cativar o adido
policial da embaixada brasileira, que a recebeu no seu escritório em
pleno sábado, em caráter excepcional. “Por mim não haveria problema em,
excepcionalmente, atendê-la no dia 03.07 às 10:00 hs porquanto,
inobstante as instalações da Adidância Policial serem parte integrante
da estrutura da Embaixada do Brasil, possuem entrada independente e
autônoma e como moro praticamente ao lado da Embaixada não me causaria
nenhum problema.”, escreveu o delegado Antonio Celso dos Santos em 21 de
junho de 2010. Em outubro, ele lamenta que ela não voltará a visitá-lo e
pede que ela mande notícias: “gosto muito de conversar com você”. Ao
que Fedirka comenta em email a outro analista da Stratfor, Paulo
Gregoire: “Que saco que eu não vou voltar mais. Me dar bem com um cara
da polícia federal parece algo que poderia ser muito útil”.
Os documentos mostram que todas as conversas de Fedirka com o
delegado foram repassadas para Gregoire, seu superior, de acordo com a
norma interna da Stratfor, elucidadas por George Friedman naquele
polêrmico email sobre como lidar com as fontes. “A decisão sobre como
estabelecer o seu contato virá do seu supervisor e não de você. (…) Cada
encontro seria planejado entre você e o seu supervisor e cada encontro
teria um objetivo específico que não seria discutir o assunto de
interesse, que seria escondido, mas analisar a personalidade (da fonte) e
caminhar para o controle”.
Em 2011, encarregada de introduzir Whitaker no mundo da alta
inteligência, Fedirka escreveu: “Parece que você já conheceu algumas
pessoas interessantes com quem pode construer relacionamentos e utilizar
como fontes mlitares. Lembre-se de, quando for só bater papo com eles,
enviar tudo através de
insights”. Ao pedir uma lista de pessoas
que ele conhece, ela escreve: “Eu o encorajaria a ver se há alguma
maneira de se envolver com o setor de petróleo no Rio. Você sabe que é
mais fácil dizer que fazer, mas você está no lugar certo para isso.
Podemos escolher um alvo particular ou dois e tentar arrumar uma
reunião. Isso é uma ambição de médio prazo – leva tempo para identificar
lugares, eventos e ou conseguir marcar reuniões”.
Stratfor e a mídia brasileira
No final do email a Whitaker, Fedirka manda uma lista de temas de
interesse da Stratfor que enviara ao jornal Folha de São Paulo,
incluindo a relação com a China, projetos financiados pelo BNDES,
projetos de infraestrutura e exercícios militares na fronteira. Afinal,
sua principal missão em 2011 fora entrar em contato com grandes veículos
de imprensa no Brasil para oferecer-lhes assinaturas dos boletins da
Stratfor em um acordo de cooperação que os tornaria parte do grupo de
“Confed Partners” – ou “Confed Fuck House”, o bordel dos confederados,
como Friedman e sua equipe chamavam entre quatro paredes os parceiros.
A Stratfor chegou a escrever acordos de “cooperação” para serem
fechados com a Agência Estado, o portal Terra, a revista Época e a Folha
de S Paulo. Os memorandos previam, invariavelmente, que ambas as partes
poderiam republicar informações do outro e que as duas empresas “se
apoiariam com informação de background e pesquisa, quando for pedido
pela outra parte”. Em um email em que explica os termos do acordo
proposto para a Folha de S Paulo, Fedirka descreve: “Nós esperamos que a
comunicação flua nos dois sentidos uma vez por semana, e mais se houver
uma crise. É apenas um diálogo informal via email”.
Procuradas pela reportagem, o editor-executivo da Agência Estado,
Roberto Lira, negou ter registro ou conhecimento de qualquer
relacionamento com a Stratfor. O site Terra confirmou através da sua
assessoria de imprensa que foi procurado pela Strafor, mas disse que o
acordo não foi assinado e “portanto nunca publicou conteúdo proveniente
da Stratfor em nenhum dos seus portais”. Hélio Gurowitz, diretor de
redação da Época, afirmou que “Desde que dirijo ÉPOCA, nunca assinamos
nenhum conteúdo da Stratfor nem firmamos nenhum tipo de acordo de
colaboração com eles. Apenas, eventualmente, nossos jornalistas da área
de internacional consultaram analistas ou relatórios da Stratfor como
uma entre várias fontes para algumas reportagens”.
A Folha de S Paulo foi o único jornal que chegou a assinar o acordo,
segundo as comunicações obtidas pelo Wikileaks. A reportagem apurou que
jornalistas da Folha foram apresentados e conversaram com analistas da
Stratfor sobre questões de background. Ana Estela de Sousa Pinto,
editora da Folha, nega que houvesse “acordo de troca de informações, no
sentido mercantil” entre seus jornalistas e a Stratfor. “Jornalista da
Folha não tem que falar algo para eles. Não há o que você chama de
parceria”, escreveu por email.
A mídia já foi mais afeita à Stratfor. Não apenas jornais como o New
York Times, mas agências como a AFP consultavam relatórios da empresa e
até entrevistavam seus analistas sempre que eclodia alguma nova guerra. O
próprio Times, curioso com a meteórica ascenção da empresa, encarregou
um repórter de entender como funcionava a bola de cristal de Fridman. Em
2003, a reportagem narra o encontro em um hotel de Austin, justamente
no dia em que a Guerra do Iraque começara. Qual um oráculo bem
informado, Friedman cravara a data e o horário do início da guerra.
Afinal, ele tinha suas fontes militares in loco, o que justificaria que
milhares de pessoas de Wall Street ao Oriente Médio pagassem por seus
boletins.
Desde a eclosão dos documentos do Wikileaks, a divulgação dos boletins tem sido gratuita. Mas a Stratfor
continua na ativa.
Como bem descreveu a reportagem do Times, “esse mundo de espionagem
privada parece a rotina de um adolescente de 16 anos: demanda passar
horas sentado num computador, mandando SMS para todo mundo que você
conhece”. Uma fórmula barata que rendia à Stratfor, segundo estimativas,
uma receita de cerca de doze milhões de dólares ao ano. Friedman não
desistiria assim fácil de talgalinha de ovos de ouro.
Reva Bhalla, da Stratfor, no GSI
Atual diretora de análise da Stratfor, a americana Reva Bhalla não
precisou gastar um tostão, grampear telefones ou pagar propinas para
conseguir fácil acesso ao alto escalão da inteligência brasileira.
Em 6 de janeiro de 2011, segundo documentos internos da empresa analisados pela Agência Pública e pela
Carta Capital,
Bhalla foi recebida com entusiasmo pelo gabinete do ministro-chefe do
GSI, o general José Elito Siqueira, menos de um mês depois de chegar ao
País para sua missão em nome da Stratfor.
Mais do que ser bem recebida, Bhalla obteve informações confidenciais
de funcionários do GSI que são negadas até mesmo aos brasileiros.
No seu relato, ela diz ter sido levada à chamada “sala de situação”,
local onde militares e agentes de inteligência se reunem com a
presidência em caso de crises de segurança nacional. “Eu tive a
impressão de que o Brasil não tem que lidar com esse tipo de questão com
muita freqüência. Eles disseram que durante o governo Lula eles se
reuniram 64 vezes. Havia mapas muito legais por todo o lugar. Eles me
deram de presente um lindo mapa do mundo com Brasilia ao centro (muito
ambicioso? Ahaha)”, escreve.
O contato, segundo ela, teria sido armado por um “amigo diplomata”
que estaria trabalhando no escritório da própria presidenta, diz ela,
sem identificar o nome. “Todos, inclusive o General Elito Sequeiro (sic)
- o chefe do GSI, o qual eu encontrei mais tarde no seu escritório,
conhecem e lêem os relatórios da Stratfor regularmente. Eles estavam,
literalmente, me dizendo sobre as notícias da Stratfor que haviam lido
nesta manhã, e que quase todos ali eram membros”.
Animada com o “tour completo” que recebeu do palácio presidencial,
Bhalla chegou à sala da presidenta Dilma Rousseff – mas ela estava numa
reunião. “Eu queria dizer ‘olá’ em nome da Stratfor”.
A analista relata ter conversado longamente com o secretario-adjunto
José Antônio Macedo Soares, cujo nome chegou a ser cotado pelo Palácio
do Planalto para assumir a direção da Abin. Segundo seu relato, ele lhe
explicou tranquilamente que o Brasil se esforça para não atrair atenção
para si mesmo como palco de ações ligadas ao terrorismo. “Como Macedo
Soares me disse, nós capturamos vários ‘terroristas’ em São Paulo –
pessoas da Al Qaeda, Hezbollah, e até pessoas ligadas aos ataques de 11
de setembro. Mas nós não queremos nos vangloriar por isso e não
queremos atenção. Isso não serve nossos interesses e não queremos que os
EUA nos empurre para esse assunto’”, escreve.
A informação, prontamente repassada para a rede de analistas da Stratfor, confirma
uma revelação feita pelo WikiLeaks em 2010,
nos primeiros documentos diplomáticos sobre o Brasil publicados pela
organização. Os despachos traziam o então embaixador dos Estados Unidos
em Brasília, Clifford Sobel, a dizer, ainda em 2008, que a Polícia
Federal “frequentemente prende pessoas ligadas ao terrorismo, mas os
acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para
evitar chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo”. O
mesmo telegrama de Sobel cita dois exemplos. Em 2007, a PF teria
capturado um potencial facilitador terrorista sunita que operava
primordialmente em Santa Catarina sob acusação de entrar no País sem
declarar fundos – e estaria trabalhando pela sua deportação. A operação
Byblos, que desmantelou uma quadrilha de falsifcação de documentos
brasileiros no Rio de Janeiro para libaneses também é citada como
exemplo de operação de contra-terrorismo.
Leia mais: alunos de Clouseau
Histórias sobre prisões de suspeitos de terrorismo no Brasil haviam
pipocado antes do vazamento dos documentos diplomáticos. Em maio de
2009, a PF prendeu um libanês acusado de propagar pela internet material
racista. À época, o colunista da Folha
Jânio de Freitas escreveu que para
preservar o sigilo a PF atribuiu a prisão, inclusive internamente, a
uma investigação sobre células de neonazistas, enquanto o libanês seria
na verdade suspeito de ligação com a Al Qaeda. Quase um mês depois, o
Gabinete da Segurança Institucional da Presidência criou um grupo de
prevenção e combate ao terrorismo, com a finalidade oficial de exercer o
“acompanhamento de assuntos pertinentes ao terrorismo internacional e
de ações” para “a sua prevenção e neutralização”.
Foi exatamente no GSI e com funcionários do órgão que Bhalla teve
reuniões pessoais que renderam relatórios de inteligência privada, para
alimentar os boletins a clientes no mundo todo.
Naquele encontro, ela teria perguntado ainda sobre a capacidade do
GSI em vigiar e capturar esses ‘terroristas’. “A resposta não me pareceu
tão confiante assim. Ele disse basicamente que isso é muito difícil.
São Paulo tem uma população estrangeira muito grande. Fronteiras são
difíceis de controlar: essa é a atitude brasileira em relação a isso”.
Segundo a analista, eles teriam reonhecido que há alvos de terrorismo no
Brasil. E teriam citado uma misteriosa “casa noturna israelense” em São
Paulo como um exemplo.
“Eu levantei a questão do terrorismo, já que Macedo Soares é
basicamente o único brasileiro que foi citado pelo Wikileaks. Eu
perguntei a ele se isso causou algum tipo de problemas e ele riu e disse
“só inveja”! Aparentemente vários oficiais brasileiros ficaram
seriamente com ciúmes de que ele tenha ficado com toda a fama, haha”,
relata Bhalla no seu email. Macedo Soares foi interlocutor do
ex-embaixador Sobel nos primeiros documentos diplomáticos vazados.
Amazônia e crack
A conversa não parou por aí. Bhalla chegou a ser convidada a visitar
um posto militar na Amazônia na sua próxima visita, “coisa que eu
definitivamente vou fazer”. Ouviu do alto escalão do GSI, que “a
corrupção nesses postos é mais concentrado na polícia do que nos
militares”.
“Um deles levantou um ponto interessante, dizendo que uma coisa que o
Brasil tem feito muito bem é controlar a qualidade dos precursores
químicos que entram no país. Então, a cocaína produzida na Bolívia, por
exemplo, não é ‘classe A’ que os compradores de NY querem. Ao invés
disso, são de baixa qualidade, crack, que é vendido em São Paulo. Então
essa é uma conseqüência não-intencional para eles: drogas mais baratas e
de baixo valor permeiam o mercado brasileiro”, descreveu.
No fim da mensagem, a analista diz ter desgostado da capital federal,
no mesmo tom informal que marca os demais emails da Stratfor publicados
pelo WikiLeaks. E envia uma foto sua diante da catedral de Brasília.
A correspondência com Macedo Soares não terminou aí, como mostra a
esfuziante mensagem sobre o mapa com o Brasil no centro, reenviado a
Bhalla dois meses depois da visita.
A reportagem procurou o GSI através da sua assessoria de imprensa,
mas recebeu como resposta que o ministro José Antônio de Macedo Soares
está de férias no exterior e se dispinibilizaria a esclarecer o assunto
depois do dia 3 de março.
A assessoria confirmou,
no entanto, que o ministro-chefe José Elito Siqueira “recebeu, em 06
Jan 11, a Sra Reva Bhalla para cumprimento protocolar durante a sua
visita ao GSI”.
Oficialmente, o governo sempre negou a existência de atividades
terroristas no Brasil – e continua negando, mesmo depois das revelações
do
Wikileaks.
Já os militares brasileiros parecem ficar bem mas à vontade quando
falam do assunto com americanos – sejam eles diplomatas, militares, ou
arapongas como os da Stratfor.
*Colaboraram Luiza Bodenmüller e Jessica Mota. Reportagem feita em parceria com a Agência Pública de jornalismo investigativo:
www.apublica.org