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setembro 03, 2012

75. Momento Patrimônio

Foi recentemente lançado, e disponibilizado online, um livro da UPF sobre patrimônio histórico, educação patrimonial e assuntos afins. O livro está relacionado a uma série de programas de TV sobre o mesmo tema, e todos podem ser conferidos no seguinte link: http://historiaupf.blogspot.com.br/2012/09/coletanea-momento-patrimonio-disponivel.html

julho 01, 2012

72. Coliseu de Lego

Uma iniciativa original: para ajudar a atrair público para o museu da Universidade de Sydney, foi construído um Coliseu de Lego com mais de 200 mil peças e um metro de altura. Nossos museus, com acervos muitas vezes interessantes mas sofrendo de pouca divulgação, poderiam se inspirar...

Aqui, o link para a história original: http://www.smh.com.au/entertainment/art-and-design/i-came-i-saw-i-constructed-20120628-213dy.html. Mesmo para quem não lê inglês, as fotos merecem ser vistas.



junho 17, 2012

70. Patrimônio italiano ameaçado


Uma consequência da crise econômica italiana: o patrimônio artístico e histórico do país, que já não era preservado como deveria, está mais abandonado que de costume. Além dos problemas de Pompeia e do Coliseu, agora é a vez da Fontana di Trevi, uma das principais atrações de Roma, começar a deteriorar - pedaços da decoração já estão caindo por falta de manutenção.

Talvez seja hora de o governo italiano lembrar que a preservação de monumentos é, no mínimo dos mínimos, um investimento para atrair turistas, e que em 2011 a Itália, como quinto país mais procurado, ganhou 30.9 bilhões de euros com turismo (atrás apenas de Estados Unidos, Espanha, França e China). Isso para não falar em seu valor cultural ou como elemento de uma identidade nacional, que na Itália ainda está em construção - um país em crise pode cometer o erro de colocar a cultura em segundo plano, mas não o de esquecer suas fontes de receita.







Abaixo, a notícia do The Guardian:

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Rome's Trevi fountain crumbling 'for lack of maintenance'

City officials blame freak snowfall for damage, but critics decry 'dangerous' cuts to funding to protect Italian heritage


Ornate stucco reliefs have crumbled from the Trevi fountain, Rome's baroque masterpiece, making it the latest in a series of Italian monuments to suffer damage and reigniting a row over Italy's commitment to protect its heritage.
As hundreds of tourists lobbed pennies into the fountain's pool on Monday, workmen were erecting scaffolding around a section of the facade where fragments of a gargoyle's head and foliage crashed to the ground on Saturday night.
City officials played down the damage, blaming it on Rome's freak snowfall this winter, which caused water infiltration. But as the rest of the fountain was checked for crumbling stucco, Italy's Green party launched a campaign against what it described as dangerous cuts to the funding to maintain Rome's monuments.
"We are asking Romans to tip us off to sites which are not being taken care of," said the Green party president, Angelo Bonelli.
Bonelli cited the Colosseum, where stone fragments fell from a wall last year, and Nero's palace, the Domus Aurea, which has been closed to visitors since a roof collapsed. Archaeologists have also blamed the collapse of a number of walls at Italy's best known dig, Pompeii, on a lack of day-to-day maintenance.
The Trevi fountain, which centres on a statue of Neptune on a chariot and features a cascade of rocky waterfalls, last underwent major works in 1990.
Commissioned in 1732, it attained iconic status when Anita Ekberg waded into its 20-metre-wide pool in the 1960 film La Dolce Vita. In 2007, it ran out of water when the underground Roman aqueduct that still supplies it was blocked by workmen digging a garage.This year, masonry crumbled from the arches holding up two other, disused, Roman aqueducts in the Italian capital, the Acqua Claudia and the Acqua Felix.
"That damage, just like the damage at the Trevi, was due to the heavy snow and rain this winter," said Umberto Broccoli, Rome's cultural heritage superintendent. "Rome is not Glasgow, and buildings were built accordingly," he added.
Broccoli said that previous restoration efforts were also to blame for this weekend's damage at the Trevi fountain. "I climbed up yesterday and saw that lead struts inserted to protect the facade had split."
But he agreed that regular maintenance was key to keeping monuments from falling over. "You need more teams of masons patrolling sites," he said. "The problem is we have so many monuments. The UK has Hadrian's wall, while we have walls around every town to protect."
Sections of the Aurelian walls surrounding the city of Rome, which were built in the third century, have collapsed in recent years, but Broccoli said the walls' builders were partly to blame. "They built in a hurry, right across amphitheatres, tombs and aqueducts, and it already needed restoration by the 4th century," he said.
Obtaining the €75m (£60m) needed to restore the walls would be impossible, he added, unless Rome was allowed to cover the scaffolding with adverts, a solution that provoked fierce controversy in Venice when a huge Coca-Cola billboard blocked views of the Bridge of Sighs.

setembro 13, 2011

41. A casa de Hitler nas montanhas - tombar ou destruir?

Para quem acha que o passado está morto, vai um exemplo de como ele segue vivo.

Apenas duas observações rápidas:

- Particularmente, sou a favor de manter o lugar. A monstruosidade do nazismo é importante demais para ser esquecida e, de certa forma, um lugar aparentemente tão inocente quanto Berghof faz parte do Terceiro Reich tanto quanto os campos de concentração. Afinal, parte da lição do nazismo é precisamente essa: Hitler não era um sujeito obviamente mau como o imperador Palpatine de Star Wars, que qualquer um percebe que não quer boa coisa. Ele podia parecer uma pessoa normal, um cara que gostava de sua dieta vegetariana, de cachorros, de passar uns dias na serra... e de ordenar a morte de milhões de pessoas. Os ditadores genocidas têm mais chance de ter a cara de Hitler que a de Palpatine, e não podemos esquecer isso de jeito nenhum. Então, se Berghof puder servir de lembrete, que fique lá.

- Quem seguir o link para a matéria original no Yahoo encontrará entre os comentários vários que defendem Hitler e o nazismo. Alguns poderiam dizer que é um horror deixar esses malucos pregando uma ideologia tão nociva - de fato, fazer defesa do nazismo é contra as leis brasileiras. Acho que aqui a lei erra, pois ver os neonazistas falando é a melhor garantia que temos de que o nazismo não volte: a cada frase que soltam, suas ideias parecem mais e mais absurdas e incoerentes...



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Uma montanha bávara à sombra de Adolf Hitler



Sessenta e seis anos após sua morte, a alma de Adolf Hitler assombra ainda hoje uma montanha da Baviera - os alemães não sabem o que fazer dos vestígios de sua casa; e alguns não a querem como curiosidade turística, nem como memorial.


A antiga residência de Hitler nos Alpes.

Bombardeada, dinamitada, desimpedida com máquinas, não resta muito de "Berghof", a residência favorita do Führer nos Alpes, que frequentava regularmente durante mais de dez anos antes da morte, num bunker em Berlim, em 1945.
As autoridades evitam indicar o caminho, e é só quando se está no local que se descobre, num desvio da pista de cascalhos, no meio de uma floresta de pinheiros, um pedaço cinzento de muro, meio perdido na montanha, acompanhado de um quadro explicativo.
É o único vestígio que leva à casa que conhecemos, principalmente, através de filmes amadores, que mostravam um Hitler sorridente no terraço, ao lado de Eva Braun, tendo ao fundo a paisagem idílica.
Situada a meio caminho de Oberzalsberg, a montanha que domina a aldeia de Berchtesgaden, na fronteira germano-austríaca, o lugar serviu de estada para os soldados americanos de infantaria, GI's, antes de sua partida, em 1995.


Fachada de 'Berghof', na montanha de Berchtesgaden

"Quando os americanos estavam lá, não havia problemas," afirma Ingrid Scharfenberg, 80 anos, que dirige desde o final da guerra a pequena pensão "Zum Türken" bem ao lado de Berghof, e que, hoje, está mal acomodada, em relação à notoriedade da vizinhança.
"As pessoas dizem que esta é a montanha nazista e que todos em Berchtesgaden são nazistas. Mas não se pode detestar dez gerações simplesmente porque (Hitler) viveu aqui", comenta ela.
"Não há peregrinações neonazistas aqui", assegura por sua vez o diretor da agência de turismo, Michael Griesser.
"Os neonazistas são raros", afirma Axel Drecoll, 36 anos, historiador do Centro de Documentação de Obersalzberg, que apresenta uma exposição sobre Hitler e a ditadura nazista.
Acontece que, junto da casa, "um pequeno número de pessoas acendem, em segredo, velas e depositam flores, por ocasião do aniversário, ou para lembrar a morte" do ditador, acrescenta ele. Mas tudo é recolhido e jogado fora pelo porteiro do Centro, que fica próximo.
Se o caminho em direção à residência de Berghof permanece quase confidencial, não acontece o mesmo com a estrada que leva ao "Ninho da Águia", um chalé construído pelos nazistas no pico de uma montanha vizinha, oferecido de presente a Hitler pelo seu aniversário de 50 anos.
Às dezenas de milhares, os turistas pegam uma rota vertiginosa para beber aí uma cerveja e admirar a paisagem espetacular.
Para alguns, a aura do ditador envenena menos o Ninho da Águia do que a casa de Berghof, porque Hitler sentia vertigens, e ia pouco lá.
Para evitar qualquer curiosidade doentia, o Estado da Baviera retirou de helicóptero, do Ninho da Águia, alguns móveis de época que ainda estavam no local.
Numerosos historiadores, entre eles Egon Johannes Greipl, chefe do Departamento bávaro de Monumentos Históricos, gostariam de ver tombados todos os sítios nazistas da região.
"Ninguém pensaria em demolir as ruínas de Olímpia (na Grécia) a pretexto de que tudo ficaria mais bem apresentado num Centro de documentação", afirma Greipl. "São testemunhas in loco da História", que falam de um período crucial e de um fato, os crimes nazistas".
Greipl considera incoerente que a Baviera tenha incluído, secretamente, durante décadas, esses locais numa lista de sítios históricos protegidos, antes de decidir "por motivos políticos" varrê-los do mapa.
"Atribuir um estatuto cultural particular à casa Berghof" e a outras ruínas nazistas, entre elas 12 quilômetros de bunkers e de túneis sob a montanha, "serviria apenas para encorajar a construção de uma espécie de trilha do nacional-socialismo", replica Walter Schön, funcionário local encarregado do patrimônio e número dois do ministério da Justiça da Baviera.
Charlotte Knobloch, dirigente da comunidade judaica de Munique, lamenta igualmente qualquer ideia de tombamento.
"De qualquer forma, não resta nada" de Berghof e é preciso evitar fazer da casa um alvo de peregrinação neonazista, segundo ela.
Drecoll, por sua vez, tem menos medo de atrair grupos de extrema-direita do que ver os locais desvirtuados numa espécie de "Disneilândia do nazismo", fora do contexto histórico.
"Claro, é preciso satisfazer a curiosidade dos turistas, mas sem cair no sensacionalismo", diz ele. A grande dificuldade é evitar que "a pesquisa histórica ceda lugar ao kitsch comercial".

maio 17, 2011

27. Manuscritos perdidos, e porque eles importam

Especialistas em línguas clássicas descobriram dezenas de novos manuscritos de Ovídio, como diz a reportagem abaixo. Dois esclarecimentos prévios para entender melhor a notícia.

Primeiro, quem foi Ovídio: um poeta romano que estava ativo durante o reinado de Augusto, primeiro imperador romano (reinou de 27ac - 14 dc). Suas duas obras mais conhecidas são As metamorfoses, uma série de poemas que tratam de histórias mitológicas em que alguém passava por uma mudança de forma. Menos épico, mas talvez mais fácil de encontrar nas livrarias de hoje, é um pequeno tratado sobre A arte de amar. Pouca semelhança com um Kama Sutra, sendo em sua maior parte apenas um guia de como encontrar e conquistar mulheres na Roma antiga. Seus comentários, às vezes, soam bastante familiares, como ao dizer que os parques públicos estão cheios de mulheres que passeiam arrumadas mais para serem vistas do que para ver. Outras passagens fazem os antigos romanos parecerem quase alienígenas, como sua sugestão de escrever mensagens secretas nas costas de escravas, ou o conselho pitoresco de como esquecer uma mulher pela qual se apaixonou: o remédio é esconder-se para vê-la fazendo suas... necessidades fisiológicas. Talvez tenha funcionado para o próprio Ovídio...

Segundo, que diferença fazem os novos manuscritos: como praticamente para todos os textos escritos antes do surgimento da imprensa, não temos os originais de Ovídio. O que temos são cópias, cópias de cópias, cópias de cópias de cópias, nas quais os erros vão se acumulando. Ao copiar textos longos, nada menos surpreendente do que cometer falhas - talvez o copista não tenha entendido uma palavra aqui e colocado outra mais familiar, talvez seu antecessor tivesse uma letra difícil e ele entendeu mal alguma passagem, talvez ele estivesse cansado de forçar a visão à luz de velas e deixou de se concentrar. Ou talvez ele tenha acrescentado seus próprios comentários no corpo do texto, ou feito censuras ao que desaprovava. De uma forma ou de outra, praticamente todos os textos antigos que ainda temos estão cheios de pequenas e grandes variações. Para isso servem os manuscritos extras: com a comparação, pode ser possível chegar mais perto daquilo que o autor quis dizer originalmente.

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Localizan 71 nuevos manuscritos de Ovidio repartidos por el mundo

Varios expertos en lenguas clásicas han logrado recuperar casi todos los manuscritos y ediciones críticas que existen de Ovidio, especialmente de las Metamorfosis, y que se conservan en bibliotecas de todo el mundo. A los ya conocidos, se han podido añadir más de 71 nuevos códices o fragmentos "cuya existencia no se conocía”, entre los que se puede mencionar el Dertusensis 134, “el más antiguo manuscrito de los españoles que data de finales del siglo XII".

La recopilación de los textos de Ovidio (43 a. C. - 17 a. C.) ha sido el resultado de la investigación del grupo Nicolaus Heinsius de la Universidad de Huelva (UHU). Los miembros del equipo emprenden ahora el comentario crítico textual de Las Metamorfosis del escritor latino en el seno del proyecto de excelencia Edición crítica de las Metamorfosis y Opera minora de Ovidio, financiado por la Consejería de Economía, Innovación y Ciencia con casi 158.000 euros, cuyos trabajos estarán culminados para 2013.

"Se trata de un objetivo ambicioso por la pretensión de incluir en ella los comentarios, incidencias y variantes de Las Metamorfosis desde sus orígenes hasta la actualidad", argumenta Luis Rivero, investigador en la UHU. El objetivo último, por tanto, es dar a la luz la edición crítica de Las Metamorfosis más completa e informada de cuantas se han realizado hasta el momento.

El poema ovidiano, que reúne en 15 libros una colección de relatos sobre mitología clásica, se ha convertido en una de las creaciones más populares de la literatura romana. Muy conocida por los escritores medievales y humanistas, sigue teniendo influencia en la literatura contemporánea, según se desprende de los diferentes estudios sobre Publio Ovidio Nasón. Una de las ediciones más antiguas fue la realizada en 1471 en Roma por John Andreas.

Una herramienta on line para estudiosos del poeta
"Sin embargo, a día de hoy apenas se ha leído un centenar de manuscritos", indica el investigador. "En el reciente comentario de la profesora S. Myers, al libro XIV de Las Metamorfosis, en el año 2009, se domina a la perfección toda la bibliografía de los últimos 50 años pero no se ha leído ni un solo manuscrito y ni uno solo de los comentarios anteriores a 1950", indica Antonio Ramírez de Verger, otro de los investigadores del grupo Nicolaus Heinsius.

Para el estudio pormenorizado de los 15 libros que constituyen la obra Las Metamorfosis "se ha organizado el trabajo de manera que cada investigador se encargará de estudiar uno de ellos, con sus respectivas ediciones a lo largo de los siglos", explica el Ramírez de Verger. Es un examen riguroso de un total de 12.000 versos en más de 500 versiones que se corresponden con cada uno de los manuscritos y ediciones críticas confeccionados desde la Antigüedad hasta la edad contemporánea.

Asimismo, los investigadores Ramírez de Verger y Rivero prevén editar también los Opera minora de Ovidio, es decir, las obras menores del poeta latino o a él atribuidas: Ibis, Consolatio ad Liuiam, Nux, Halieutica; para lo cual ya han firmado un contrato con la editorial W. de Gruyter (Berlín-Nueva York), de forma que el libro se publicará en la Bibliotheca Teubneriana, colección de referencia mundial en textos clásicos. A este volumen se añadirá otro, a cargo del profesor Estévez Sola, con los Scholia in Ibim, también en la Bibliotheca Teubneriana.

Este equipo de investigadores de la Onubense comparte tarea con expertos de las Universidades Pablo de Olavide, Sevilla, Granada, Málaga, Extremadura y las Universidades Johns Hopkins (Baltimore, Estados Unidos) y Burdeos (Francia).

Las copias de los manuscritos se encuentran ya digitalizadas en CD,s y volcadas en memorias externas disponibles en cada uno de los centros de trabajo. Asimismo, cualquier investigador en el mundo puede acceder a muy valiosa información sobre la transmisión del texto de Ovidio a través de la página web del proyecto. Los científicos no solo pretenden divulgar sus trabajos a través de ella sino convertir la plataforma en una herramienta de trabajo para investigadores e interesados en la obra del poeta latino de todo el mundo.
Estos nuevos códices, junto con los 467 ya conocidos, amplían el catálogo hasta los 538. "Ahora somos una referencia para los investigadores de todo el mundo en el texto de Ovidio", asegura el Catedrático de Filología Latina de la UHU.

janeiro 17, 2011

12. Significância, insignificância (ou: a ascensão de Tutankhamon)

Em uma das minhas tirinhas preferidas de Hagar, o Horrível, ele e seu assistente Eddie Sortudo encontram um monumento à la Stonehenge. Eddie pergunta o que é aquilo, e Hagar explica que foi construído por um grande rei do passado, que mobilizou milhares de pessoas por anos para erguer o monumento e imortalizar seu nome. "Quem foi ele?", pergunta Eddie, e Hagar responde: "Ninguém sabe".

Não é uma boa explicação das origens de Stonehenge, da mesma maneira que Hagar não é uma boa representação de um legítimo viking, mas nem por isso é menos válida a reflexão sobre a transitoriedade das coisas humanas: quantas pessoas reais não foram como o rei de que Hagar fala, grandes e poderosos em vida e completamente esquecidos depois?

A resposta, claro, é: ninguém sabe.

Mas, o mundo sendo como é, às vezes também acontece o contrário: pessoas sem grandes realizações ou feitos memoráveis em vida atingem uma certa notoriedade tempos depois. Um dos exemplos mais conhecidos, para os historiadores, é o de Menocchio: um moleiro italiano do século 16 com crenças extremamente heréticas - Deus era o mais sábio dos anjos que criaram o mundo da mesma forma que os vermes criam um queijo, e por aí vai - e uma certa compulsão por anunciá-las para quem quisesse - ou não - ouvir, o que fez com que a Inquisição romana se interessasse por ele. Depois de ser solto com uma advertência em seu primeiro julgamento, Menocchio insistiu em continuar falando publicamente sobre suas crenças, e da segunda vez os inquisidores não foram tão bonzinhos.

Em vida, Menocchio não foi um personagem de grande destaque, mas tornou-se conhecido mundialmente quando o historiador italiano Carlo Ginzburg estudou os registros inquisitoriais do seu caso e fez uma análise de como um moleiro do interior da Itália poderia ter desenvolvido as crenças peculiares de Menocchio, análise que consta em seu livro O queijo e os vermes. Fica a sugestão para quem quiser conhecer um pouco da cultura daquela época, desde as leituras a que Menocchio teve acesso até o que significava cair nas mãos dos inquisidores (o fato de ele só ter sido morto ao reincidir na heresia, por exemplo, deveria ajudar a mostrar que a Inquisição não causou os banhos de sangue que as pessoas costumam imaginar).

Um segundo exemplo pode parecer mais estranho à primeira vista: o faraó Tutankhamon, governante do Egito por dez anos, no final do século 14 a.C. (aproximadamente de -1333 a -1323 - as datas do Egito antigo e outras civilizações contemporâneas estão sujeitas a uma certa incerteza, que aumenta quanto mais retrocedemos no tempo). Alguém poderia perguntar como um faraó poderia ter sido insignificante - governar um país já não é um atestado de relevância? Não nesse caso. Esqueça por um momento a popularidade imensa de Tutankhamon hoje em dia e considere o seguinte: ele subiu ao trono com nove anos. Reinou por mais dez, ou seja, morreu aos dezenove. O Egito estava em crise desde o reinado anterior, do reformador religioso Akhenaton, que costuma ser lembrado por seu monoteísmo, cuja extensão é discutida ainda hoje, e não por ter negligenciado outros aspectos do governo, como a diplomacia ou a economia. Então, ninguém esperava que coubesse a um faraó adolescente a responsabilidade de tirar o país da crise, e o verdadeiro poder estava nas mãos de seus conselheiros, como o general Horemheb, seu sucessor no trono.

Por critérios objetivos, Tutankhamon não teve tempo de se mostrar como um governante bom ou ruim, e seu nome tinha tudo para ficar esquecido nas listas de faraós entre as reformas religiosas malogradas de Akhenaton e o esplendor imperial do governo de Ramsés II, algumas décadas mais tarde. Por muito tempo, realmente foi mais ou menos isso que aconteceu. O ano da virada de Tutankhamon foi até bem recente: 1922, quando o arqueólogo Howard Carter teve a sorte imensa de encontrar uma tumba no Vale dos Reis que, ao contrário de todas as outras já achadas, estava praticamente intacta, com a maior parte de seus tesouros tendo escapado aos saques que já se faziam nos túmulos egípcios desde a antiguidade. O ocupante da tumba e seus tesouros tornaram-se mundialmente conhecidos com a descoberta de Carter, e sua máscara mortuária hoje é tão associada com o antigo Egito quanto as pirâmides ou a Esfinge.

Uma tumba bem escondida e cheia de tesouros: eis o segredo da imortalidade de Tutankhamon.