O blog Orientalismo, de André Bueno, está com uma ótima novidade: uma tradução em andamento das obras de Confúcio. A primeira parte está disponível neste link. A iniciativa é mais importante do que parece porque, mesmo Confúcio sendo um pilar da filosofia chinesa, as traduções são raras e normalmente de segunda mão - meu exemplar dos Analectos, da L&PM, foi retraduzido do francês.
Para que os interessados possam tirar melhor proveito do texto, pensei que valeria a pena contextualizar Confúcio, que quase todo mundo só conhece de nome. Não sou sinólogo, então vou ficar no básico, mas isso já pode ser um avanço em comparação com o silêncio que reina aqui em torno do pensamento chinês.
Melhor dizendo, Confúcio não é conhecido aqui nem de nome. Confúcio não se chamava assim. Esse nome é um aportuguesamento do latim Confucius, que foi como os jesuítas - primeiros ocidentais a manterem um contato regular e intenso com a China e a se interessarem por suas tradições cuturais - adaptaram a forma como o pensador é conhecido entre os chineses: Kongzi, ou, literalmente, Mestre Kong. Sim, ele se chamava Kong. Mas como algumas tradições são difíceis de mudar, vou continuar a chamá-lo de Confúcio aqui, e todos vão saber na hora de quem estou falando.
Confúcio viveu de -551 a -479, o chamado Período da Primavera e Outono, em que a China, até então governada pela dinastia Zhou (-1046 - -256), fragmentou-se em vários pequenos reinos, com os Zhou tendo poder apenas nominal sobre seus "vassalos". Aos que pensam que a China é milenar e imutável, é bom ver o que exatamente era a China de então:
No mapa maior, os principais reinos da época de Confúcio, com destaque para o reino ocidental de Qin, que mais tarde unificou toda a região. No mapa menor acima à esquerda, a comparação entre a área ocupada por esses reinos e a China atual, imensamente maior, fruto de muitas migrações e conquistas ao longo dos séculos. Mas essas são outras histórias.
Confúcio nasceu no reino de Lu em uma família empobrecida, subindo na vida até se tornar ministro da Justiça de Lu. Infelizmente para ele, o duque de Lu estava preocupado apenas com os próprios prazeres, e os projetos confucianos de reformar o governo fracassaram por falta de apoio. Decepcionado, ele abandonou o cargo e, depois de outras derrotas na vida pública tentando expor suas ideias em outros reinos, passou os últimos anos de vida como professor - pense não em um professor moderno em sua sala de aula, mas em alguém como Sócrates, com um grupo de discípulos interessados no pensamento do mestre.
Embora se atribuam vários clássicos chineses a Confúcio, muito possivelmente ele não escreveu nenhum deles. Mesmo a sua obra principal, os Analectos (=aforismos, fragmentos literários), não foi escrita por ele, mas compilada postumamente por seus discípulos, que reuniram o que lembravam dos ditos e feitos do mestre.
O pensamento confuciano, negligenciado durante a vida de seu autor, acabou triunfando mais tarde, e ele se tornou o equivalente chinês do que Platão ou Aristóteles foram no Ocidente: pontos de referência inevitáveis para qualquer um que se pretendesse culto, mesmo que não concordasse com seu pensamento. Países próximos à China, como a Coreia e o Japão, importaram o confucionismo, e as ideias de Confúcio foram interpretadas, reinterpretadas e transformadas por séculos a fio.
Confúcio nunca expôs um sistema filosófico rígido, mas o seu pensamento tinha alguns pontos centrais. Para começar, ele não se considerava um inovador, e sim um divulgador das boas ideias antigas.
O Mestre disse: eu repasso, não invento. Confio no passado, e o amo.
Sem ser exatamente um ateu, seria possível dizer que Confúcio era arreligioso, que os assuntos religiosos não o interessavam. O que ele jamais negou foi o conceito chinês de Céu, que não seria uma entidade, mas algo como "a ordem natural do mundo", "a natureza das coisas".
Fanchi perguntou o que é sabedoria. O Mestre disse: cuide do povo,
respeite os deuses e espíritos - mas sem se envolver com eles. Isso é
sabedoria. Fanchi perguntou o que era bondade. O Mestre disse: tente ser
bom, isso é bondade.
Wangsunjia perguntou: ‘homenageie o deus da cozinha mais do que o deus
da casa’, o que significa? O Mestre disse: bobagem! Se você ofender o
Céu, qualquer prece é inútil.
Zilu perguntou: como se serve os espíritos e os deuses? O Mestre disse:
aprenda a servir às pessoas, depois pense em servir aos deuses. Zilu
perguntou sobre a morte. O Mestre disse: aprenda antes a viver, depois
aprenda sobre a morte. [ou: aprenda sobre a vida, você conhecerá a
morte]
Na visão confucionista, no centro estava o homem. Seu ideal humano era o junzi, cavalheiro ou, como André Bueno preferiu traduzir, educado: amigo do conhecimento e sempre disposto a aprender mais e, ao mesmo tempo, plenamente inserido em sua sociedade, consciente de seus deveres. interagindo com as pessoas de forma bondosa e contribuindo para a melhoria social através do emprego de seu saber e virtudes. O cultivo de si mesmo era a sua grande preocupação, não a acumulação de bens materiais.
Perguntaram pra Confúcio; por que você não está no governo? O Mestre
disse: no Tratado dos Livros está escrito; ‘pratique a piedade filial
com a família e o altruísmo com as pessoas e você está contribuindo para
o governo’. Isso também é contribuir com a sociedade, não é preciso
estar no governo.
O Mestre disse: riqueza e posição todo mundo quer, mas se o caminho for
errado, desista. Pobreza e esquecimento todo mundo detesta, mas se o
caminho for correto, continue. O Educado nunca abandona o humanismo,
mesmo que o desprezem. Mesmo nas provações a problemas, ele continua com
o humanismo.
O Mestre disse: o educado busca virtude, o ignorante busca terra. O educado quer busca justiça, o ignorante busca vantagem.
O Mestre disse: um Educado procura o caminho, não um meio de
sobrevivência. Plante pra comer, e mesmo assim você terá fome. Aprenda, e
com certeza você terá um emprego. Mas o Educado se preocupa em
encontrar o caminho, e não se vai continuar pobre.
Ranyong perguntou sobre o Humanismo. O Mestre disse: fora de casa, aja
como se todos fossem convidados importantes. Cuide do povo como se fosse
um evento importante. Não imponha a ninguém o que não gosta pra si
mesmo. Não deixe o ressentimento pessoal se intrometer nas coisas
públicas ou nos assuntos particulares. Ranyong disse: não sou muito
inteligente, mas tentarei fazer o que o mestre recomendou.
O Mestre disse: o educado come sem exagero, mora em lugar simples, se
dedica no trabalho, fala com cuidado e busca boas companhias. Uma pessoa
assim gosta mesmo de aprender.
O bom governante, para Confúcio, governava através do exemplo e dependia, antes de tudo, da confiança do povo:
Zigong perguntou sobre o governo. O Mestre disse: fartura, segurança e
confiança do povo. Zigong perguntou: e se tirarmos uma? O Mestre disse:
tire a segurança. Zigong perguntou: e se tirarmos duas? O Mestre disse:
fartura. Todos morrem um dia. Se um governo tem a confiança do povo, ele
pode tudo. Mas sem essa confiança, ele não se mantém mesmo com
segurança ou fartura.
O Mestre disse: quem governa pela virtude é como a ursa polar; mesmo parada, as outras estrelas giram ao seu redor.
O Mestre disse: o povo fica desonesto e manhoso se é governado por
artimanhas e castigos. O povo fica envergonhado e dedicado quando é
governado pela virtude e pelos costumes.
Não parecem ideias sábias, que merecem a nossa consideração?
Sugiro a todos que continuem as leituras confucianas no link inicial, e termino com um dos grandes ditos de Confúcio, que lembra um certo pensador que viveu alguns séculos mais tarde:
Zigong perguntou: existe uma única palavra que possa guiar nossa vida? O
Mestre disse: reciprocidade. O que não deseja pra si, não faça aos
outros.
Onde o ontem vive no hoje. Notas sobre a história, a ciência histórica e a vida acadêmica para leitores curiosos.
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abril 04, 2012
janeiro 30, 2011
14.Alexandre, o Grande... mistério
Falei anteriormente sobre a historiografia problemática que existe em torno do imperador romano Nero e a dificuldade de que as fontes mais completas que temos sobre ele foram escritas apenas uma ou duas gerações mais tarde, e sua confiabilidade em muitos pontos é duvidosa. A vida dos historiadores seria mais fácil se Nero fosse a única pessoa "importante" sujeita a esse tipo de dificuldade.
Obviamente, as coisas não são tão simples. Existem pessoas que, de uma ou outra maneira, exerceram muito mais influência que Nero e são ainda mais difíceis de investigar. Encabeçando a lista, temos Jesus: não temos nenhum documento produzido por ele ou por alguém que o conhecesse. A atribuição dos evangelhos aos apóstolos, ou a conhecidos deles, é puramente tradicional; os textos cristãos mais antigos, as epístolas de são Paulo, não são de grande ajuda para decifrar o enigma do Jesus histórico, uma vez que, salvo em visões, Paulo nunca viu Jesus. O próprio Paulo é outro mistério, e as teorias sobre ele abundam: desenvolveu o cristianismo ou distorceu-o? Pró ou anti-imperial? Gnóstico ou antignóstico? Quais das epístolas paulinas foram realmente escritas por ele? Até que ponto a narrativa de sua vida no livro dos Atos mostra a verdadeira personalidade do autor das epístolas?
Os espinheiros teológicos ficam para uma outra vez. Por hoje, podemos nos contentar com uma pessoa que, atualmente, não causa grandes controvérsias fora dos Bálcãs: Alexandre III da Macedônia, mais conhecido como Alexandre, o Grande.
(Só para garantir que estamos todos na mesma página: ele também é chamado de Alexandre Magno. Magno significa grande, e certamente não era o sobrenome de Alexandre - e ele não era parente de Carlos Magno.)
Eis a estrutura básica de sua vida: nascido em -356 no reino helenizado da Macedônia, e educado pelo filósofo Aristóteles, Alexandre era filho do rei Filipe II, que ampliou o reino com a conquista de praticamente todas as cidades-estado gregas. Em -336, Filipe foi assassinado por um de seus guardas e Alexandre herdou o trono. Nos anos seguintes, conquistou o império persa e fez uma expedição pela Índia, parando em -326 quando suas tropas recusaram-se a seguir em frente, depois de não voltarem a seus lares por anos. Alexandre então voltou para Babilônia para administrar suas conquistas e planejar novas campanhas que nunca se realizaram, morrendo em junho de -323 de causas misteriosas. Depois de sua morte, seus generais dividiram o império entre si, disseminando a cultura grega pelas regiões conquistadas (não a ponto de apagar as culturas anteriores, mas essa já é outra história).
Muito bem, como sabemos desses fatos sobre Alexandre, e o que mais podemos saber a respeito dele? Aqui começa o problema. Vários contemporâneos de Alexandre escreveram a seu respeito, como seu "historiador oficial" Calístenes ou seu general Ptolomeu, que depois tornou-se rei do Egito (alguém lembra do péssimo filme Alexandre, de Oliver Stone? Ptolomeu era o narrador, interpretado por Anthony Hopkins). Contudo, nenhum desses relatos chegou até nós; o que temos são trechos deles citados por historiadores gregos e romanos posteriores, o primeiro dos quais, Diodoro Sículo, viveu muito depois, na metade do século -1. Ou seja, a fonte mais antiga disponível sobre Alexandre surgiu mais de 150 anos depois de sua morte, quando ele já tinha uma reputação mítica, e baseia-se em textos que não merecem confiança cega (será que Ptolomeu, envolvido em guerras com os outros generais sucessores de Alexandre, não tentou destacar sua própria atuação o máximo possível, por exemplo?).
Não quer dizer que não sabemos nada ao certo sobre ele, já que os diversos relatos concordam em vários pontos, permitindo formar uma biografia de Alexandre bem mais detalhada que o esboço que fiz acima. Por outro lado, muitas perguntas ficam sem resposta, ou apenas com respostas muito incertas, seja porque as fontes discordam entre si, seja porque os historiadores antigos não se interessavam por todas as questões que fazemos hoje. Por exemplo, sabemos que Alexandre tentou integrar seu império heterogêneo, promovendo casamentos entre a aristocracia da Macedônia e da Pérsia. Mas nunca saberemos ao certo em que medida isso foi bom senso político ou um desejo pessoal de unificar "gregos" e "bárbaros". Sabemos que, após as conquistas, ele passou a exigir que seus súditos se prostrassem diante dele, o que era habitual na Pérsia, mas chocou os macedônios. Novamente, a intenção é um enigma para nós: a arrogância de um conquistador praticamente invencível ou a vontade de tomar a monarquia persa como modelo para a integração de um império em grande parte persa? O que causou o assassinato de Filipe II, e Alexandre teve algum envolvimento nisso? Só podemos especular, uma vez que o assassino, Pausânias, logo foi capturado e morto, como que prefigurando a morte de JFK. Qual a sexualidade de Alexandre? Do que ele morreu? Que regiões ele poderia ter conquistado se vivesse por mais tempo? Como vamos ter certeza?
Curiosamente, temos uma fonte importante contemporânea a Alexandre, escrita pelos perdedores: os diários astronômicos da Babilônia, que descrevem eventos celestes e acontecimentos terrestres. Essas crônicas só foram descobertas no século 20, e ainda temos apenas fragmentos delas, mas é o suficiente para oferecer uma outra versão dos fatos. Um exemplo: segundo a versão greco-romana tradicional, a batalha de Gaugamela, o grande confronto entre os macedônios de Alexandre e os persas de Dario III, foi um combate épico em que Alexandre, em desvantagem numérica, conseguiu a vantagem através de táticas superiores, até o ponto em que Dario, tomado de medo, fugiu da batalha, abandonando e desmoralizando seus soldados. A versão babilônica é diferente: pouco antes da batalha, um eclipse lunar foi interpretado por persas e babilônios como um sinal da queda de Dario, desmoralizando as tropas. Na batalha em si, os soldados desertaram, tornando Gaugamela mais uma caçada aos fugitivos do que um grande combate.
Sem ser nenhum especialista em Alexandre, me pergunto quanto tempo levará para que essa "visão dos vencidos" seja levada em conta e pesada juntamente com os outros relatos. Provavelmente, muito tempo, se julgarmos pela situação em que está a cultura popular: no filme Alexandre, a batalha de Gaugamela (o grande combate do filme, ocorrido no deserto, e no qual Dario parecia um guarda de trânsito comandando suas tropas com gestos) seguiu totalmente a narrativa greco-romana.
Aos interessados em saber mais:
- Em francês, um artigo interessante, mas acadêmico, sobre as crônicas babilônias e sua contribuição para a história de Alexandre;
- Em inglês, uma discussão sobre Alexandre e as fontes sobre sua vida;
- Também em inglês, uma série de conversas entre os historiadores James Romm e Paul Cartledge a respeito de Alexandre, sua vida, seu legado e suas controvérsias;
- Para os exclusivamente lusófonos, as opções se restringem - a única fonte amplamente disponível sobre Alexandre em português é sua biografia escrita por Plutarco no século 2. Existe uma versão online aqui, com a grande desvantagem de ser uma tradução em segunda mão (grego-francês-português)
Obviamente, as coisas não são tão simples. Existem pessoas que, de uma ou outra maneira, exerceram muito mais influência que Nero e são ainda mais difíceis de investigar. Encabeçando a lista, temos Jesus: não temos nenhum documento produzido por ele ou por alguém que o conhecesse. A atribuição dos evangelhos aos apóstolos, ou a conhecidos deles, é puramente tradicional; os textos cristãos mais antigos, as epístolas de são Paulo, não são de grande ajuda para decifrar o enigma do Jesus histórico, uma vez que, salvo em visões, Paulo nunca viu Jesus. O próprio Paulo é outro mistério, e as teorias sobre ele abundam: desenvolveu o cristianismo ou distorceu-o? Pró ou anti-imperial? Gnóstico ou antignóstico? Quais das epístolas paulinas foram realmente escritas por ele? Até que ponto a narrativa de sua vida no livro dos Atos mostra a verdadeira personalidade do autor das epístolas?
Os espinheiros teológicos ficam para uma outra vez. Por hoje, podemos nos contentar com uma pessoa que, atualmente, não causa grandes controvérsias fora dos Bálcãs: Alexandre III da Macedônia, mais conhecido como Alexandre, o Grande.
(Só para garantir que estamos todos na mesma página: ele também é chamado de Alexandre Magno. Magno significa grande, e certamente não era o sobrenome de Alexandre - e ele não era parente de Carlos Magno.)
Eis a estrutura básica de sua vida: nascido em -356 no reino helenizado da Macedônia, e educado pelo filósofo Aristóteles, Alexandre era filho do rei Filipe II, que ampliou o reino com a conquista de praticamente todas as cidades-estado gregas. Em -336, Filipe foi assassinado por um de seus guardas e Alexandre herdou o trono. Nos anos seguintes, conquistou o império persa e fez uma expedição pela Índia, parando em -326 quando suas tropas recusaram-se a seguir em frente, depois de não voltarem a seus lares por anos. Alexandre então voltou para Babilônia para administrar suas conquistas e planejar novas campanhas que nunca se realizaram, morrendo em junho de -323 de causas misteriosas. Depois de sua morte, seus generais dividiram o império entre si, disseminando a cultura grega pelas regiões conquistadas (não a ponto de apagar as culturas anteriores, mas essa já é outra história).
| O império de Alexandre II em sua extensão máxima, cortesia da Wikimedia Commons. |
Muito bem, como sabemos desses fatos sobre Alexandre, e o que mais podemos saber a respeito dele? Aqui começa o problema. Vários contemporâneos de Alexandre escreveram a seu respeito, como seu "historiador oficial" Calístenes ou seu general Ptolomeu, que depois tornou-se rei do Egito (alguém lembra do péssimo filme Alexandre, de Oliver Stone? Ptolomeu era o narrador, interpretado por Anthony Hopkins). Contudo, nenhum desses relatos chegou até nós; o que temos são trechos deles citados por historiadores gregos e romanos posteriores, o primeiro dos quais, Diodoro Sículo, viveu muito depois, na metade do século -1. Ou seja, a fonte mais antiga disponível sobre Alexandre surgiu mais de 150 anos depois de sua morte, quando ele já tinha uma reputação mítica, e baseia-se em textos que não merecem confiança cega (será que Ptolomeu, envolvido em guerras com os outros generais sucessores de Alexandre, não tentou destacar sua própria atuação o máximo possível, por exemplo?).
Não quer dizer que não sabemos nada ao certo sobre ele, já que os diversos relatos concordam em vários pontos, permitindo formar uma biografia de Alexandre bem mais detalhada que o esboço que fiz acima. Por outro lado, muitas perguntas ficam sem resposta, ou apenas com respostas muito incertas, seja porque as fontes discordam entre si, seja porque os historiadores antigos não se interessavam por todas as questões que fazemos hoje. Por exemplo, sabemos que Alexandre tentou integrar seu império heterogêneo, promovendo casamentos entre a aristocracia da Macedônia e da Pérsia. Mas nunca saberemos ao certo em que medida isso foi bom senso político ou um desejo pessoal de unificar "gregos" e "bárbaros". Sabemos que, após as conquistas, ele passou a exigir que seus súditos se prostrassem diante dele, o que era habitual na Pérsia, mas chocou os macedônios. Novamente, a intenção é um enigma para nós: a arrogância de um conquistador praticamente invencível ou a vontade de tomar a monarquia persa como modelo para a integração de um império em grande parte persa? O que causou o assassinato de Filipe II, e Alexandre teve algum envolvimento nisso? Só podemos especular, uma vez que o assassino, Pausânias, logo foi capturado e morto, como que prefigurando a morte de JFK. Qual a sexualidade de Alexandre? Do que ele morreu? Que regiões ele poderia ter conquistado se vivesse por mais tempo? Como vamos ter certeza?
Curiosamente, temos uma fonte importante contemporânea a Alexandre, escrita pelos perdedores: os diários astronômicos da Babilônia, que descrevem eventos celestes e acontecimentos terrestres. Essas crônicas só foram descobertas no século 20, e ainda temos apenas fragmentos delas, mas é o suficiente para oferecer uma outra versão dos fatos. Um exemplo: segundo a versão greco-romana tradicional, a batalha de Gaugamela, o grande confronto entre os macedônios de Alexandre e os persas de Dario III, foi um combate épico em que Alexandre, em desvantagem numérica, conseguiu a vantagem através de táticas superiores, até o ponto em que Dario, tomado de medo, fugiu da batalha, abandonando e desmoralizando seus soldados. A versão babilônica é diferente: pouco antes da batalha, um eclipse lunar foi interpretado por persas e babilônios como um sinal da queda de Dario, desmoralizando as tropas. Na batalha em si, os soldados desertaram, tornando Gaugamela mais uma caçada aos fugitivos do que um grande combate.
Sem ser nenhum especialista em Alexandre, me pergunto quanto tempo levará para que essa "visão dos vencidos" seja levada em conta e pesada juntamente com os outros relatos. Provavelmente, muito tempo, se julgarmos pela situação em que está a cultura popular: no filme Alexandre, a batalha de Gaugamela (o grande combate do filme, ocorrido no deserto, e no qual Dario parecia um guarda de trânsito comandando suas tropas com gestos) seguiu totalmente a narrativa greco-romana.
Aos interessados em saber mais:
- Em francês, um artigo interessante, mas acadêmico, sobre as crônicas babilônias e sua contribuição para a história de Alexandre;
- Em inglês, uma discussão sobre Alexandre e as fontes sobre sua vida;
- Também em inglês, uma série de conversas entre os historiadores James Romm e Paul Cartledge a respeito de Alexandre, sua vida, seu legado e suas controvérsias;
- Para os exclusivamente lusófonos, as opções se restringem - a única fonte amplamente disponível sobre Alexandre em português é sua biografia escrita por Plutarco no século 2. Existe uma versão online aqui, com a grande desvantagem de ser uma tradução em segunda mão (grego-francês-português)
janeiro 17, 2011
12. Significância, insignificância (ou: a ascensão de Tutankhamon)
Em uma das minhas tirinhas preferidas de Hagar, o Horrível, ele e seu assistente Eddie Sortudo encontram um monumento à la Stonehenge. Eddie pergunta o que é aquilo, e Hagar explica que foi construído por um grande rei do passado, que mobilizou milhares de pessoas por anos para erguer o monumento e imortalizar seu nome. "Quem foi ele?", pergunta Eddie, e Hagar responde: "Ninguém sabe".
Não é uma boa explicação das origens de Stonehenge, da mesma maneira que Hagar não é uma boa representação de um legítimo viking, mas nem por isso é menos válida a reflexão sobre a transitoriedade das coisas humanas: quantas pessoas reais não foram como o rei de que Hagar fala, grandes e poderosos em vida e completamente esquecidos depois?
A resposta, claro, é: ninguém sabe.
Mas, o mundo sendo como é, às vezes também acontece o contrário: pessoas sem grandes realizações ou feitos memoráveis em vida atingem uma certa notoriedade tempos depois. Um dos exemplos mais conhecidos, para os historiadores, é o de Menocchio: um moleiro italiano do século 16 com crenças extremamente heréticas - Deus era o mais sábio dos anjos que criaram o mundo da mesma forma que os vermes criam um queijo, e por aí vai - e uma certa compulsão por anunciá-las para quem quisesse - ou não - ouvir, o que fez com que a Inquisição romana se interessasse por ele. Depois de ser solto com uma advertência em seu primeiro julgamento, Menocchio insistiu em continuar falando publicamente sobre suas crenças, e da segunda vez os inquisidores não foram tão bonzinhos.
Em vida, Menocchio não foi um personagem de grande destaque, mas tornou-se conhecido mundialmente quando o historiador italiano Carlo Ginzburg estudou os registros inquisitoriais do seu caso e fez uma análise de como um moleiro do interior da Itália poderia ter desenvolvido as crenças peculiares de Menocchio, análise que consta em seu livro O queijo e os vermes. Fica a sugestão para quem quiser conhecer um pouco da cultura daquela época, desde as leituras a que Menocchio teve acesso até o que significava cair nas mãos dos inquisidores (o fato de ele só ter sido morto ao reincidir na heresia, por exemplo, deveria ajudar a mostrar que a Inquisição não causou os banhos de sangue que as pessoas costumam imaginar).
Um segundo exemplo pode parecer mais estranho à primeira vista: o faraó Tutankhamon, governante do Egito por dez anos, no final do século 14 a.C. (aproximadamente de -1333 a -1323 - as datas do Egito antigo e outras civilizações contemporâneas estão sujeitas a uma certa incerteza, que aumenta quanto mais retrocedemos no tempo). Alguém poderia perguntar como um faraó poderia ter sido insignificante - governar um país já não é um atestado de relevância? Não nesse caso. Esqueça por um momento a popularidade imensa de Tutankhamon hoje em dia e considere o seguinte: ele subiu ao trono com nove anos. Reinou por mais dez, ou seja, morreu aos dezenove. O Egito estava em crise desde o reinado anterior, do reformador religioso Akhenaton, que costuma ser lembrado por seu monoteísmo, cuja extensão é discutida ainda hoje, e não por ter negligenciado outros aspectos do governo, como a diplomacia ou a economia. Então, ninguém esperava que coubesse a um faraó adolescente a responsabilidade de tirar o país da crise, e o verdadeiro poder estava nas mãos de seus conselheiros, como o general Horemheb, seu sucessor no trono.
Por critérios objetivos, Tutankhamon não teve tempo de se mostrar como um governante bom ou ruim, e seu nome tinha tudo para ficar esquecido nas listas de faraós entre as reformas religiosas malogradas de Akhenaton e o esplendor imperial do governo de Ramsés II, algumas décadas mais tarde. Por muito tempo, realmente foi mais ou menos isso que aconteceu. O ano da virada de Tutankhamon foi até bem recente: 1922, quando o arqueólogo Howard Carter teve a sorte imensa de encontrar uma tumba no Vale dos Reis que, ao contrário de todas as outras já achadas, estava praticamente intacta, com a maior parte de seus tesouros tendo escapado aos saques que já se faziam nos túmulos egípcios desde a antiguidade. O ocupante da tumba e seus tesouros tornaram-se mundialmente conhecidos com a descoberta de Carter, e sua máscara mortuária hoje é tão associada com o antigo Egito quanto as pirâmides ou a Esfinge.
Uma tumba bem escondida e cheia de tesouros: eis o segredo da imortalidade de Tutankhamon.
Não é uma boa explicação das origens de Stonehenge, da mesma maneira que Hagar não é uma boa representação de um legítimo viking, mas nem por isso é menos válida a reflexão sobre a transitoriedade das coisas humanas: quantas pessoas reais não foram como o rei de que Hagar fala, grandes e poderosos em vida e completamente esquecidos depois?
A resposta, claro, é: ninguém sabe.
Mas, o mundo sendo como é, às vezes também acontece o contrário: pessoas sem grandes realizações ou feitos memoráveis em vida atingem uma certa notoriedade tempos depois. Um dos exemplos mais conhecidos, para os historiadores, é o de Menocchio: um moleiro italiano do século 16 com crenças extremamente heréticas - Deus era o mais sábio dos anjos que criaram o mundo da mesma forma que os vermes criam um queijo, e por aí vai - e uma certa compulsão por anunciá-las para quem quisesse - ou não - ouvir, o que fez com que a Inquisição romana se interessasse por ele. Depois de ser solto com uma advertência em seu primeiro julgamento, Menocchio insistiu em continuar falando publicamente sobre suas crenças, e da segunda vez os inquisidores não foram tão bonzinhos.
Em vida, Menocchio não foi um personagem de grande destaque, mas tornou-se conhecido mundialmente quando o historiador italiano Carlo Ginzburg estudou os registros inquisitoriais do seu caso e fez uma análise de como um moleiro do interior da Itália poderia ter desenvolvido as crenças peculiares de Menocchio, análise que consta em seu livro O queijo e os vermes. Fica a sugestão para quem quiser conhecer um pouco da cultura daquela época, desde as leituras a que Menocchio teve acesso até o que significava cair nas mãos dos inquisidores (o fato de ele só ter sido morto ao reincidir na heresia, por exemplo, deveria ajudar a mostrar que a Inquisição não causou os banhos de sangue que as pessoas costumam imaginar).
Um segundo exemplo pode parecer mais estranho à primeira vista: o faraó Tutankhamon, governante do Egito por dez anos, no final do século 14 a.C. (aproximadamente de -1333 a -1323 - as datas do Egito antigo e outras civilizações contemporâneas estão sujeitas a uma certa incerteza, que aumenta quanto mais retrocedemos no tempo). Alguém poderia perguntar como um faraó poderia ter sido insignificante - governar um país já não é um atestado de relevância? Não nesse caso. Esqueça por um momento a popularidade imensa de Tutankhamon hoje em dia e considere o seguinte: ele subiu ao trono com nove anos. Reinou por mais dez, ou seja, morreu aos dezenove. O Egito estava em crise desde o reinado anterior, do reformador religioso Akhenaton, que costuma ser lembrado por seu monoteísmo, cuja extensão é discutida ainda hoje, e não por ter negligenciado outros aspectos do governo, como a diplomacia ou a economia. Então, ninguém esperava que coubesse a um faraó adolescente a responsabilidade de tirar o país da crise, e o verdadeiro poder estava nas mãos de seus conselheiros, como o general Horemheb, seu sucessor no trono.
Por critérios objetivos, Tutankhamon não teve tempo de se mostrar como um governante bom ou ruim, e seu nome tinha tudo para ficar esquecido nas listas de faraós entre as reformas religiosas malogradas de Akhenaton e o esplendor imperial do governo de Ramsés II, algumas décadas mais tarde. Por muito tempo, realmente foi mais ou menos isso que aconteceu. O ano da virada de Tutankhamon foi até bem recente: 1922, quando o arqueólogo Howard Carter teve a sorte imensa de encontrar uma tumba no Vale dos Reis que, ao contrário de todas as outras já achadas, estava praticamente intacta, com a maior parte de seus tesouros tendo escapado aos saques que já se faziam nos túmulos egípcios desde a antiguidade. O ocupante da tumba e seus tesouros tornaram-se mundialmente conhecidos com a descoberta de Carter, e sua máscara mortuária hoje é tão associada com o antigo Egito quanto as pirâmides ou a Esfinge.
Uma tumba bem escondida e cheia de tesouros: eis o segredo da imortalidade de Tutankhamon.
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