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abril 04, 2012

62. Introdução a Confúcio

O blog Orientalismo, de André Bueno, está com uma ótima novidade: uma tradução em andamento das obras de Confúcio. A primeira parte está disponível neste link. A iniciativa é mais importante do que parece porque, mesmo Confúcio sendo um pilar da filosofia chinesa, as traduções são raras e normalmente de segunda mão - meu exemplar dos Analectos, da L&PM, foi retraduzido do francês.

Para que os interessados possam tirar melhor proveito do texto, pensei que valeria a pena contextualizar Confúcio, que quase todo mundo só conhece de nome. Não sou sinólogo, então vou ficar no básico, mas isso já pode ser um avanço em comparação com o silêncio que reina aqui em torno do pensamento chinês.

Melhor dizendo, Confúcio não é conhecido aqui nem de nome. Confúcio não se chamava assim. Esse nome é um aportuguesamento do latim Confucius, que foi como os jesuítas - primeiros ocidentais a manterem um contato regular e intenso com a China e a se interessarem por suas tradições cuturais - adaptaram a forma como o pensador é conhecido entre os chineses: Kongzi, ou, literalmente, Mestre Kong. Sim, ele se chamava Kong. Mas como algumas tradições são difíceis de mudar, vou continuar a chamá-lo de Confúcio aqui, e todos vão saber na hora de quem estou falando.

Confúcio viveu de -551 a -479, o chamado Período da Primavera e Outono, em que a China, até então governada pela dinastia Zhou (-1046 - -256), fragmentou-se em vários pequenos reinos, com os Zhou tendo poder apenas nominal sobre seus "vassalos". Aos que pensam que a China é milenar e imutável, é bom ver o que exatamente era a China de então:


No mapa maior, os principais reinos da época de Confúcio, com destaque para o reino ocidental de Qin, que mais tarde unificou toda a região. No mapa menor acima à esquerda, a comparação entre a área ocupada por esses reinos e a China atual, imensamente maior, fruto de muitas migrações e conquistas ao longo dos séculos. Mas essas são outras histórias.

Confúcio nasceu no reino de Lu em uma família empobrecida, subindo na vida até se tornar ministro da Justiça de Lu. Infelizmente para ele, o duque de Lu estava preocupado apenas com os próprios prazeres, e os projetos confucianos de reformar o governo fracassaram por falta de apoio. Decepcionado, ele abandonou o cargo e, depois de outras derrotas na vida pública tentando expor suas ideias em outros reinos, passou os últimos anos de vida como professor - pense não em um professor moderno em sua sala de aula, mas em alguém como Sócrates, com um grupo de discípulos interessados no pensamento do mestre.

Embora se atribuam vários clássicos chineses a Confúcio, muito possivelmente ele não escreveu nenhum deles. Mesmo a sua obra principal, os Analectos (=aforismos, fragmentos literários), não foi escrita por ele, mas compilada postumamente por seus discípulos, que reuniram o que lembravam dos ditos e feitos do mestre.

O pensamento confuciano, negligenciado durante a vida de seu autor, acabou triunfando mais tarde, e ele se tornou o equivalente chinês do que Platão ou Aristóteles foram no Ocidente: pontos de referência inevitáveis para qualquer um que se pretendesse culto, mesmo que não concordasse com seu pensamento. Países próximos à China, como a Coreia e o Japão, importaram o confucionismo, e as ideias de Confúcio foram interpretadas, reinterpretadas e transformadas por séculos a fio.

Confúcio nunca expôs um sistema filosófico rígido, mas o seu pensamento tinha alguns pontos centrais. Para começar, ele não se considerava um inovador, e sim um divulgador das boas ideias antigas.

O Mestre disse: eu repasso, não invento. Confio no passado, e o amo.

Sem ser exatamente um ateu, seria possível dizer que Confúcio era arreligioso, que os assuntos religiosos não o interessavam. O que ele jamais negou foi o conceito chinês de Céu, que não seria uma entidade, mas algo como "a ordem natural do mundo", "a natureza das coisas".

Fanchi perguntou o que é sabedoria. O Mestre disse: cuide do povo, respeite os deuses e espíritos - mas sem se envolver com eles. Isso é sabedoria. Fanchi perguntou o que era bondade. O Mestre disse: tente ser bom, isso é bondade. 

Wangsunjia perguntou: ‘homenageie o deus da cozinha mais do que o deus da casa’, o que significa? O Mestre disse: bobagem! Se você ofender o Céu, qualquer prece é inútil. 

Zilu perguntou: como se serve os espíritos e os deuses? O Mestre disse: aprenda a servir às pessoas, depois pense em servir aos deuses. Zilu perguntou sobre a morte. O Mestre disse: aprenda antes a viver, depois aprenda sobre a morte. [ou: aprenda sobre a vida, você conhecerá a morte]

Na visão confucionista, no centro estava o homem. Seu ideal humano era o junzi, cavalheiro ou, como André Bueno preferiu traduzir, educado: amigo do conhecimento e sempre disposto a aprender mais e, ao mesmo tempo, plenamente inserido em sua sociedade, consciente de seus deveres. interagindo com as pessoas de forma bondosa e contribuindo para a melhoria social através do emprego de seu saber e virtudes. O cultivo de si mesmo era a sua grande preocupação, não a acumulação de bens materiais.

Perguntaram pra Confúcio; por que você não está no governo? O Mestre disse: no Tratado dos Livros está escrito; ‘pratique a piedade filial com a família e o altruísmo com as pessoas e você está contribuindo para o governo’. Isso também é contribuir com a sociedade, não é preciso estar no governo.

O Mestre disse: riqueza e posição todo mundo quer, mas se o caminho for errado, desista. Pobreza e esquecimento todo mundo detesta, mas se o caminho for correto, continue. O Educado nunca abandona o humanismo, mesmo que o desprezem. Mesmo nas provações a problemas, ele continua com o humanismo. 

O Mestre disse: o educado busca virtude, o ignorante busca terra. O educado quer busca justiça, o ignorante busca vantagem.

O Mestre disse: um Educado procura o caminho, não um meio de sobrevivência. Plante pra comer, e mesmo assim você terá fome. Aprenda, e com certeza você terá um emprego. Mas o Educado se preocupa em encontrar o caminho, e não se vai continuar pobre.

Ranyong perguntou sobre o Humanismo. O Mestre disse: fora de casa, aja como se todos fossem convidados importantes. Cuide do povo como se fosse um evento importante. Não imponha a ninguém o que não gosta pra si mesmo. Não deixe o ressentimento pessoal se intrometer nas coisas públicas ou nos assuntos particulares. Ranyong disse: não sou muito inteligente, mas tentarei fazer o que o mestre recomendou.

O Mestre disse: o educado come sem exagero, mora em lugar simples, se dedica no trabalho, fala com cuidado e busca boas companhias. Uma pessoa assim gosta mesmo de aprender.

O bom governante, para Confúcio, governava através do exemplo e dependia, antes de tudo, da confiança do povo:

Zigong perguntou sobre o governo. O Mestre disse: fartura, segurança e confiança do povo. Zigong perguntou: e se tirarmos uma? O Mestre disse: tire a segurança. Zigong perguntou: e se tirarmos duas? O Mestre disse: fartura. Todos morrem um dia. Se um governo tem a confiança do povo, ele pode tudo. Mas sem essa confiança, ele não se mantém mesmo com segurança ou fartura.

O Mestre disse: quem governa pela virtude é como a ursa polar; mesmo parada, as outras estrelas giram ao seu redor.

O Mestre disse: o povo fica desonesto e manhoso se é governado por artimanhas e castigos. O povo fica envergonhado e dedicado quando é governado pela virtude e pelos costumes.

Não parecem ideias sábias, que merecem a nossa consideração?
Sugiro a todos que continuem as leituras confucianas no link inicial, e termino com um dos grandes ditos de Confúcio, que lembra um certo pensador que viveu alguns séculos mais tarde:

Zigong perguntou: existe uma única palavra que possa guiar nossa vida? O Mestre disse: reciprocidade. O que não deseja pra si, não faça aos outros.

junho 03, 2011

30. Jefferson e o espírito de resistência

Olhando por acaso as cartas de Thomas Jefferson*, encontrei uma passagem que tem um pouco em comum com o post anterior.

Trata-se do trecho de uma carta escrita em fevereiro de 1787 para Abigail Adams (esposa de John Adams, primeiro vice-presidente e segundo presidente dos EUA), em que Jefferson faz um comentário sobre o fim da revolta de Shays, um movimento de pequenos fazendeiros de Massachusetts descontentes com a situação da jovem república pós-independência**:

Espero que eles tenham sido perdoados. O espírito de resistência ao governo é tão valioso em certas ocasiões que espero que seja sempre mantido vivo. Ele será muitas vezes exercido erroneamente, mas é melhor isso do que ele não ser exercido. Gosto de uma pequena revolta de vez em quando. É como uma tempestade na atmosfera.

O texto original pode ser encontrado neste link. Uma tempestade na atmosfera...


* Thomas Jefferson: advogado/dono de terras/político da Virgínia, principal autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos, terceiro presidente americano, de 1800 a 1807.
** Apesar de raramente se ouvir falar dessa revolta por aqui, e de sua pequena escala, ela gerou um clamor em favor de um governo central mais forte que pudesse impedir esse tipo de movimento. A Constituição americana, no mesmo ano, criou justamente um governo central assim. A revolta de Shays não foi a única causa do fortalecimento do governo federal, mas foi uma causa. O nome da revolta vem de seu líder Daniel Shays, veterano da guerra de independência.

maio 15, 2011

26. Israel, Israel...

Para que serve a história, afinal de contas? Este blog iniciou com uma tentativa de responder a essa pergunta. O que acontece hoje nas fronteiras israelenses é um triste exemplo de "pessoas legitimando seus comportamentos e suas identidades apelando ao passado", como tudo o mais que acontece por ali. As guerras desde 1948, os séculos de ocupação palestina da região, a ocupação judaica anterior aos palestinos, tudo são acontecimentos lembrados e mobilizados pelos dois lados para justificar posturas atuais. Reportagem do Globo:

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Violência em fronteiras de Israel deixa palestinos mortos


BEIRUTE - A violência irrompeu nas fronteiras de Israel com a Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia, deixando ao menos 13 pessoas mortas e dezenas feridos neste domingo, dia em que os palestinos relembram o que chamam de "Nakba" , ou "catástrofe" da fundação de Israel, em 1948. Tropas israelenses mataram manifestantes em três diferentes localidades para prevenir que atravessassem as fronteiras israelenses.
Ao menos dez palestinos foram mortos na fronteira libanesa depois que forças israelenses atiraram contra manifestantes que jogavam pedras neles. As fontes dizem que mais de 100 ficaram feridos na cidade de Maroun al-Ras, no Líbano.


A imprensa da Síria afirmou que duas pessoas foram mortas após dezenas de refugiados palestinos terem se infiltrado nas Colinas de Golan da Síria, sob o controle de Israel.
- O que estamos vendo aqui é uma provocação iraniana, nas fronteiras da Síria e do Líbano, para tentar explorar as comemorações do dia da Nakba - disse o porta-voz do Exército, Yoav Mordechai.
A Síria abriga cerca de 470 mil palestinos refugiados e seu governo, que enfrenta revoltas internas, impediu nos anos anteriores que os manifestantes chegassem perto da fronteira.
- Isso parece ser um ato cínico das lideranças sírias para criar deliberadamente uma crise na fronteira a fim de distrair a atenção dos problemas reais que o regime está enfrentando dentro de casa - disse uma autoridade israelense.

Na Faixa de Gaza, disparos das forças israelenses feriram mais de 82 palestinos quando manifestantes se aproximaram do muro que divide a região. Em um evento em separado, forças israelenses mataram um homem, que segundo relatos, estava tentando colocar uma bomba na região próxima à fronteira.
Em Tel Aviv, um caminhão dirigido por um árabe-israelense bateu em veículos e pedestres, matando um homem e ferindo 17 pessoas. A polícia ainda tenta determinar se foi um incidente ou um ataque.

ONU pede calma na fronteira entre Líbano e Israel
Forças de paz das Nações Unidas no sul do Líbano pediram que as partes envolvidas no confronto deste domingo na fronteira Líbano-Israel imponham restrição máxima para evitar novas mortes.
Uma porta-voz das forças de paz da ONU no local estava em contato com o exército do Líbano e com os militares de Israel.

novembro 27, 2010

1. Introdução

Levei algum tempo até decidir o que fazer no primeiro post. Uma apresentação pessoal? Um manifesto proclamando os objetivos deste blog? No final, achei que seria interessante começar com uma justificativa do que faço. Por sorte, tinha um texto engavetado tratando justamente disso. Aos eventuais leitores, aqui vai:


Em defesa da história


Circula pela Câmara dos Deputados um projeto de lei (no 3759/2004) buscando regular a profissão de historiador. Não é o primeiro projeto nesse sentido e, como ele está indo de uma gaveta a outra desde 2004, é de se pensar que os historiadores talvez não sejam uma prioridade para os representantes do povo. Isso poderia ser explicado pela falta de um lobby forte, mas existem outras profissões, já regulamentadas, que também não têm grande força política, como massagistas, instrutores de trânsito, repentistas e enólogos, entre outros. O mais provável é que, enquanto todos sabem a importância de um instrutor de trânsito, ninguém esteja muito seguro de por que, exatamente, termos historiadores à solta. Sem entrar no mérito do projeto mencionado, gostaria de tentar justificar nossa existência ao público.
O que fazem os historiadores, além de atormentar os alunos de colégio (ou, com uma frequência preocupante, de ser atormentados por eles)? Simplesmente o óbvio: aprofundar nosso conhecimento e compreensão da história e divulgá-lo. Mas de que adianta isso? Para que serve a história? Apesar de isso nem sempre ser dito aos alunos que tentam apenas decorar o conteúdo para passar no vestibular, ela serve para algumas coisas. Em primeiro lugar, ajuda a explicar o presente, fornecendo um contexto para as pequenas e grandes situações que vivemos. Por que o Brasil é um só país, enquanto a América espanhola se fragmentou em tantos pedaços? Por que os Estados Unidos se tornaram a principal potência mundial, enquanto o Brasil nunca conseguiu emplacar? Por que a maior parte dos brasileiros concilia um catolicismo nominal com crenças afrobrasileiras e espíritas que deixariam o papa de cabelo em pé? Por que você está lendo um texto escrito em letras derivadas dos fenícios, em um idioma derivado do latim que, ao longo do tempo, sofreu influências árabes e indígenas, entre outras? Eis uma função da história: dizer porque acabamos vivendo de uma certa maneira, e não de outra qualquer.
Apesar de isso ser importante, a história seria pouco mais do que umbigologia se não fosse além desse ponto, o que leva a uma segunda função: mostrar as outras maneiras de viver que foram adotadas ao longo do tempo, seja por nossos ancestrais ou por outros povos, e mostrar que essas variações da arte da vida possuem motivos para existir. Em outras palavras, explicar que não tem cabimento pensar que os povos do passado eram apenas estágios incompletos do desenvolvimento do que viriam a ser os brasileiros do século 21, mas que eram pessoas com valores próprios, vivendo em situações próprias e lidando com seus próprios problemas, assim como nós. Por exemplo, até poucas décadas atrás, a humanidade resolvia suas necessidades de comunicação sem internet e celulares, sem sentir falta desses recursos inexistentes. Se isso parece óbvio aos que viveram essa época, é algo que precisará ser explicado à próxima geração, que não conheceu nada diferente. É preciso explicar, da mesma forma, que nem todos os povos atuais vivem como os brasileiros, e que eles têm suas razões para agir como agem. Existem causas pelas quais os japoneses mantêm o sistema de escrita mais complexo do mundo, ao invés de se converterem ao nosso alfabeto; causas pelas quais os chineses mantêm um sistema político muito diferente da nossa democracia de “um voto a cada quatro anos”; causas pelas quais os muçulmanos não veem problemas em um homem ter várias mulheres, enquanto nós preferimos manter apenas uma pessoa por vez, ao menos oficialmente. Não que a nossa cultura seja a única com falhas e todas as demais sejam perfeitas. Mas, antes de querer mudar os outros, faz sentido perguntar-se: “afinal, o que os tornou diferentes?”. Um pouco de choque cultural às vezes faz bem.
Existe pelo menos mais uma função para a história e os historiadores, provavelmente a menos popular de todas, por ofender muitas sensibilidades: a de questionar mitos e certezas. O tempo todo, as pessoas legitimam seus comportamentos e suas identidades apelando ao passado: CTGs que preservam o “verdadeiro gaúcho”, políticos que fazem o que “nunca antes na história deste país” se viu, religiosos que baseiam sua visão de mundo e moralidade no que aconteceu na Palestina há dois mil anos atrás, e por aí vai. Os historiadores têm muito o que dizer sobre esses e outros usos do passado, do mesmo modo que os médicos deveriam ser consultados sobre supostos remédios milagrosos. E, se às vezes os remédios são realmente bons, no mais das vezes o seu único efeito é o placebo. As apropriações da história não são muito diferentes. Não que os historiadores queiram se comparar aos médicos, mas talvez o leitor venha a concordar que eles são, pelo menos, tão importantes quanto os repentistas.