maio 17, 2011

27. Manuscritos perdidos, e porque eles importam

Especialistas em línguas clássicas descobriram dezenas de novos manuscritos de Ovídio, como diz a reportagem abaixo. Dois esclarecimentos prévios para entender melhor a notícia.

Primeiro, quem foi Ovídio: um poeta romano que estava ativo durante o reinado de Augusto, primeiro imperador romano (reinou de 27ac - 14 dc). Suas duas obras mais conhecidas são As metamorfoses, uma série de poemas que tratam de histórias mitológicas em que alguém passava por uma mudança de forma. Menos épico, mas talvez mais fácil de encontrar nas livrarias de hoje, é um pequeno tratado sobre A arte de amar. Pouca semelhança com um Kama Sutra, sendo em sua maior parte apenas um guia de como encontrar e conquistar mulheres na Roma antiga. Seus comentários, às vezes, soam bastante familiares, como ao dizer que os parques públicos estão cheios de mulheres que passeiam arrumadas mais para serem vistas do que para ver. Outras passagens fazem os antigos romanos parecerem quase alienígenas, como sua sugestão de escrever mensagens secretas nas costas de escravas, ou o conselho pitoresco de como esquecer uma mulher pela qual se apaixonou: o remédio é esconder-se para vê-la fazendo suas... necessidades fisiológicas. Talvez tenha funcionado para o próprio Ovídio...

Segundo, que diferença fazem os novos manuscritos: como praticamente para todos os textos escritos antes do surgimento da imprensa, não temos os originais de Ovídio. O que temos são cópias, cópias de cópias, cópias de cópias de cópias, nas quais os erros vão se acumulando. Ao copiar textos longos, nada menos surpreendente do que cometer falhas - talvez o copista não tenha entendido uma palavra aqui e colocado outra mais familiar, talvez seu antecessor tivesse uma letra difícil e ele entendeu mal alguma passagem, talvez ele estivesse cansado de forçar a visão à luz de velas e deixou de se concentrar. Ou talvez ele tenha acrescentado seus próprios comentários no corpo do texto, ou feito censuras ao que desaprovava. De uma forma ou de outra, praticamente todos os textos antigos que ainda temos estão cheios de pequenas e grandes variações. Para isso servem os manuscritos extras: com a comparação, pode ser possível chegar mais perto daquilo que o autor quis dizer originalmente.

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Localizan 71 nuevos manuscritos de Ovidio repartidos por el mundo

Varios expertos en lenguas clásicas han logrado recuperar casi todos los manuscritos y ediciones críticas que existen de Ovidio, especialmente de las Metamorfosis, y que se conservan en bibliotecas de todo el mundo. A los ya conocidos, se han podido añadir más de 71 nuevos códices o fragmentos "cuya existencia no se conocía”, entre los que se puede mencionar el Dertusensis 134, “el más antiguo manuscrito de los españoles que data de finales del siglo XII".

La recopilación de los textos de Ovidio (43 a. C. - 17 a. C.) ha sido el resultado de la investigación del grupo Nicolaus Heinsius de la Universidad de Huelva (UHU). Los miembros del equipo emprenden ahora el comentario crítico textual de Las Metamorfosis del escritor latino en el seno del proyecto de excelencia Edición crítica de las Metamorfosis y Opera minora de Ovidio, financiado por la Consejería de Economía, Innovación y Ciencia con casi 158.000 euros, cuyos trabajos estarán culminados para 2013.

"Se trata de un objetivo ambicioso por la pretensión de incluir en ella los comentarios, incidencias y variantes de Las Metamorfosis desde sus orígenes hasta la actualidad", argumenta Luis Rivero, investigador en la UHU. El objetivo último, por tanto, es dar a la luz la edición crítica de Las Metamorfosis más completa e informada de cuantas se han realizado hasta el momento.

El poema ovidiano, que reúne en 15 libros una colección de relatos sobre mitología clásica, se ha convertido en una de las creaciones más populares de la literatura romana. Muy conocida por los escritores medievales y humanistas, sigue teniendo influencia en la literatura contemporánea, según se desprende de los diferentes estudios sobre Publio Ovidio Nasón. Una de las ediciones más antiguas fue la realizada en 1471 en Roma por John Andreas.

Una herramienta on line para estudiosos del poeta
"Sin embargo, a día de hoy apenas se ha leído un centenar de manuscritos", indica el investigador. "En el reciente comentario de la profesora S. Myers, al libro XIV de Las Metamorfosis, en el año 2009, se domina a la perfección toda la bibliografía de los últimos 50 años pero no se ha leído ni un solo manuscrito y ni uno solo de los comentarios anteriores a 1950", indica Antonio Ramírez de Verger, otro de los investigadores del grupo Nicolaus Heinsius.

Para el estudio pormenorizado de los 15 libros que constituyen la obra Las Metamorfosis "se ha organizado el trabajo de manera que cada investigador se encargará de estudiar uno de ellos, con sus respectivas ediciones a lo largo de los siglos", explica el Ramírez de Verger. Es un examen riguroso de un total de 12.000 versos en más de 500 versiones que se corresponden con cada uno de los manuscritos y ediciones críticas confeccionados desde la Antigüedad hasta la edad contemporánea.

Asimismo, los investigadores Ramírez de Verger y Rivero prevén editar también los Opera minora de Ovidio, es decir, las obras menores del poeta latino o a él atribuidas: Ibis, Consolatio ad Liuiam, Nux, Halieutica; para lo cual ya han firmado un contrato con la editorial W. de Gruyter (Berlín-Nueva York), de forma que el libro se publicará en la Bibliotheca Teubneriana, colección de referencia mundial en textos clásicos. A este volumen se añadirá otro, a cargo del profesor Estévez Sola, con los Scholia in Ibim, también en la Bibliotheca Teubneriana.

Este equipo de investigadores de la Onubense comparte tarea con expertos de las Universidades Pablo de Olavide, Sevilla, Granada, Málaga, Extremadura y las Universidades Johns Hopkins (Baltimore, Estados Unidos) y Burdeos (Francia).

Las copias de los manuscritos se encuentran ya digitalizadas en CD,s y volcadas en memorias externas disponibles en cada uno de los centros de trabajo. Asimismo, cualquier investigador en el mundo puede acceder a muy valiosa información sobre la transmisión del texto de Ovidio a través de la página web del proyecto. Los científicos no solo pretenden divulgar sus trabajos a través de ella sino convertir la plataforma en una herramienta de trabajo para investigadores e interesados en la obra del poeta latino de todo el mundo.
Estos nuevos códices, junto con los 467 ya conocidos, amplían el catálogo hasta los 538. "Ahora somos una referencia para los investigadores de todo el mundo en el texto de Ovidio", asegura el Catedrático de Filología Latina de la UHU.

maio 15, 2011

26. Israel, Israel...

Para que serve a história, afinal de contas? Este blog iniciou com uma tentativa de responder a essa pergunta. O que acontece hoje nas fronteiras israelenses é um triste exemplo de "pessoas legitimando seus comportamentos e suas identidades apelando ao passado", como tudo o mais que acontece por ali. As guerras desde 1948, os séculos de ocupação palestina da região, a ocupação judaica anterior aos palestinos, tudo são acontecimentos lembrados e mobilizados pelos dois lados para justificar posturas atuais. Reportagem do Globo:

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Violência em fronteiras de Israel deixa palestinos mortos


BEIRUTE - A violência irrompeu nas fronteiras de Israel com a Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia, deixando ao menos 13 pessoas mortas e dezenas feridos neste domingo, dia em que os palestinos relembram o que chamam de "Nakba" , ou "catástrofe" da fundação de Israel, em 1948. Tropas israelenses mataram manifestantes em três diferentes localidades para prevenir que atravessassem as fronteiras israelenses.
Ao menos dez palestinos foram mortos na fronteira libanesa depois que forças israelenses atiraram contra manifestantes que jogavam pedras neles. As fontes dizem que mais de 100 ficaram feridos na cidade de Maroun al-Ras, no Líbano.


A imprensa da Síria afirmou que duas pessoas foram mortas após dezenas de refugiados palestinos terem se infiltrado nas Colinas de Golan da Síria, sob o controle de Israel.
- O que estamos vendo aqui é uma provocação iraniana, nas fronteiras da Síria e do Líbano, para tentar explorar as comemorações do dia da Nakba - disse o porta-voz do Exército, Yoav Mordechai.
A Síria abriga cerca de 470 mil palestinos refugiados e seu governo, que enfrenta revoltas internas, impediu nos anos anteriores que os manifestantes chegassem perto da fronteira.
- Isso parece ser um ato cínico das lideranças sírias para criar deliberadamente uma crise na fronteira a fim de distrair a atenção dos problemas reais que o regime está enfrentando dentro de casa - disse uma autoridade israelense.

Na Faixa de Gaza, disparos das forças israelenses feriram mais de 82 palestinos quando manifestantes se aproximaram do muro que divide a região. Em um evento em separado, forças israelenses mataram um homem, que segundo relatos, estava tentando colocar uma bomba na região próxima à fronteira.
Em Tel Aviv, um caminhão dirigido por um árabe-israelense bateu em veículos e pedestres, matando um homem e ferindo 17 pessoas. A polícia ainda tenta determinar se foi um incidente ou um ataque.

ONU pede calma na fronteira entre Líbano e Israel
Forças de paz das Nações Unidas no sul do Líbano pediram que as partes envolvidas no confronto deste domingo na fronteira Líbano-Israel imponham restrição máxima para evitar novas mortes.
Uma porta-voz das forças de paz da ONU no local estava em contato com o exército do Líbano e com os militares de Israel.

maio 05, 2011

25. Um olhar sobre a velha Rússia

O site já está no ar há bastante tempo, e alguns leitores devem tê-lo visitado antes. Que importa? Algumas coisas na vida são dignas de serem vistas e revistas novamente.
Estou falando de uma exibição, organizada pela Biblioteca do Congresso americano, das fotos de Sergei Prokudin-Gorskii. Sergei foi um dos mestres da fotografia do início do século passado, contribuindo também para seu avanço técnico, bolando inclusive técnicas de fotografar com cores, como no caso das fotos ali expostas.



Nicolau II, o último dos czares, incumbiu Prokudin-Gorskii de viajar por seu império e registrar por imagens como estava a Rússia. O fotógrafo saiu assim a explorar todas as belezas e contrastes de um império que em nada perdia para o Brasil atual em termos de diversidade: fábricas e cameleiros, ferrovias e bazares, ortodoxos, judeus e muçulmanos, citadinos, agricultores e nômades... Mesmo que as autoridades russas estivessem envolvidas num processo de russificar a população por várias décadas, fica visível o sucesso muito limitado desses esforços.


O projeto de fotografar a Rússia ocupou quase uma década e foi interrompido pela revolução de 1917, mas as fotos já feitas sobreviveram e contam um pouco da história de um mundo que deixava de existir naquele momento.
O site indicado acima mostra algumas imagens organizadas por categoria e comentadas - para os não-anglófonos: introdução, arquitetura, etnias, transporte e trabalho. Mas a verdadeira preciosidade está na opção de ver a coleção completa, com centenas de fotografias que não foram incluídas nas categorias acima.

abril 27, 2011

24. Uma pérola legislativa

Quando o mundo parece um lugar sombrio e sem esperança, nada mais divertido (sob uma ótica, confesso, um tanto cínica) do que ver o que nossos queridos representantes estão fazendo com os mandatos que lhes demos. Ao invés de resolver problemas, grandes ou pequenos, tomam medidas totalmente inócuas como esta, aprovada recentemente pela Assembleia Legislativa do RS:

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Projeto de Lei nº 156 /2009
Deputado(a) Raul Carrion
Institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou
palavras estrangeiras para a língua portuguesa, sempre que
houver em nosso idioma palavra ou expressão equivalente, no
âmbito do Estado do Rio Grande do Sul e dá outras
providências.
Art. 1º Institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua
portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação
através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul, sempre que houver em nosso idioma
palavra ou expressão equivalente.
§ 1º – Nos casos excepcionais, em que não houver na língua portuguesa palavra ou expressão
equivalente, o significado ou tradução da palavra ou expressão estrangeira deverá estar escrito, com o
mesmo destaque, subseqüentemente a sua utilização no texto.
§ 2º - A tradução a que se refere o caput deste artigo deve ser do mesmo tamanho que as palavras
em outro idioma expostas no documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de
comunicação em questão.
Art. 2o Todos os órgãos, instituições, empresas e fundações públicas deverão priorizar na redação
de seus documentos oficiais, sítios virtuais, materiais de propaganda e publicidade, ou qualquer outra forma
de relação institucional através da palavra escrita, a utilização da língua portuguesa, nos termos desta lei.
Art. 3º Esta Lei poderá ser regulamentada para garantir sua execução e fiscalização e para definir
as sanções administrativas a serem aplicadas àquele, pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que
descumprir qualquer disposição desta lei
Art. 4o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Porto Alegre, 03 de agosto de 2009.
Deputado(a) Raul Carrion

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Pode parecer que essa patriotice não tem nada a ver com a história, e realmente não tem mesmo muito a ver. O que houve aqui é mais um esquecimento dela. Esquecimento de que o português não existe pronto e puro no mundo platônico das ideias, tendo se desenvolvido a partir do latim vulgar (a língua que o povão falava no império romano, muito diferente do latim literário que só a elite usava) com empréstimos imensos do árabe, depois de outras línguas europeias e, no caso da variante brasileira, tantos outros empréstimos de línguas africanas e indígenas.
Existe algum motivo convincente para querer limitar os empréstimos a partir de agora e não limitar os já feitos antes? Algum motivo para se preocupar com "parking" (um dos estrangeirismos que o autor do projeto menciona neste texto de justificativa) mas não com "futebol", que também veio do inglês (droga de ingleses imperialistas, corrompendo nosso idioma há cem anos atrás!)? Ou podemos voltar mais e considerar um estrangeirismo a palavra "arroz", que pegamos do árabe como milhares de outras (droga de árabes imperialistas, corrompendo nosso idioma há mil anos atrás!)? Pensando bem, se o verdadeiro objetivo é condenar o imperialismo, falar português no Brasil é meio descabido, já que a) os portugueses só falavam uma língua latina graças à conquista romana da Península Ibérica, imperialismo puro e desavergonhado, e b) só falamos português aqui porque os portugueses invadiram uma terra que não era deles, mataram e escravizaram a maior parte dos ocupantes anteriores...

Exageros à parte, um fato simples permanece: o Brasil tem origem colonial. Falamos a língua do colonizador. Foram derramados rios de sangue para que os portugueses se impusessem como donos do lugar e estabelecessem seus costumes, leis, língua, etc. Então como o português poderia ser "patrimônio cultural da nação e expressão da existência soberana do nosso povo"? E, se os deputados realmente acreditam nisso, por que não deixar o português nas mãos daqueles que mais entendem dele: nós, seus usuários de todos os dias?

É interessante, no mínimo, ver como os combates aos estrangeirismos/imperialismos de hoje implicam na aceitação dos estrangeirismos e imperialismos de ontem. Daqui a algumas décadas, essas palavras que os puristas de hoje perseguem já vão estar incorporadas na língua, e defendidas pelos puristas do futuro contra os estrangeirismos que virão - chineses, talvez...

abril 24, 2011

23. História do Oriente Médio e improvisações

Reportagem do Estado de S. Paulo sobre as iniciativas na rede de ensino paulista para que os alunos entendam o que está acontecendo atualmente no Oriente Médio. A intenção é louvável, mas se a história da região fosse decentemente ensinada, para começo de conversa, não seria preciso fazer esse tipo de improvisação a cada vez que a área chama a atenção do mundo (leia-se: muito frequentemente). Nada dessa bobagem de "a região já não cabe apenas nas aulas de história", uma vez que nunca esteve ali. No máximo, algumas pinceladas sobre o surgimento do Islã e sobre as consequências do imperialismo europeu, como se nada interessante tivesse acontecido por ali entre os séculos 7 e 19.

Testemunhei uma versão anterior do mesmo fenômeno em 2001, quando estava terminando o ensino médio, e os professores se desdobravam para tentar explicar o terrorismo, o 11 de setembro, como o Afeganistão se encaixava aí, etc. Digo tentar simplesmente porque, em geral, eles também não tinham ideia - a tendência do nosso sistema educacional de ignorar o mundo a leste da Europa ocidental é sistemática, indo do ensino básico ao vestibular e à universidade, de onde saem os pesquisadores e professores da geração seguinte. Uma máquina de deformação da história em perpétuo movimento...

Por último, qual o motivo para a reportagem repetir o termo "oriente" quando quer claramente dizer "Oriente Médio"? Devo admitir que detesto esse uso indiscriminado da palavra para significar, de forma genérica, "qualquer civilização/cultura que não a nossa", como se chamar árabes, curdos, turcos, iranianos, indianos, chineses, coreanos, afegãos, tailandeses, vietnamitas, etc etc etc, de "orientais" indicasse alguma característica comum entre eles.


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Oriente vira a nova ‘disciplina’ escolar

Conflitos internacionais têm feito a região sair da aula de história e ganhar destaque na grade escolar

A região do Oriente já não cabe apenas nas aulas de história. Com as recentes revoluções populares no local, que começaram no Egito e provocaram uma reação em cadeia em várias nações árabes, ganhando a atenção do mundo todo, os colégios da capital passaram a investir em atividades focadas diretamente sobre esse tema para aproximá-lo dos alunos.
No São Domingos, alunos montaram uma grande gincana para discutir os conflitos no Oriente
No início do mês, o Tucarena foi palco de um debate sobre revoluções, guerras, religiões, preconceito e democracia. A plateia lotada, que não hesitava em expressar a grande diversidade de opiniões, era formada por alunos do ensino médio. O evento foi idealizado pelos professores de História, Geografia e Filosofia do Colégio São Domingos, em Perdizes, a partir da demanda crescente dos alunos por discussões sobre os países do Oriente.
O professor Flávio Trovão, de História, explica que tudo foi feito para que os alunos compreendessem melhor o que está ocorrendo no mundo. “Além da questão do vestibular e do Enem - não tenho dúvidas de que é uma temática que vai ser abordada nos grandes exames desse ano - queremos que esses garotos vejam que somos um mundo em transformação constante”, afirma.
Também o ensino médio do Colégio Dante Alighieri, do Jardim Paulista, participou de um módulo de palestras especialmente desenvolvido para discutir as questões orientais. “Começamos a fazer isso antes da queda do Mubarack (ditador egípcio). Tivemos debates semanais para atualizar o rumo que as revoluções tinham tomado. O último já abarcava as questões da Líbia”, conta o professor Roberto Diago, coordenador do Departamento de História, Sociologia e Filosofia. “Recebi um e-mail de um pai de aluno nos agradecendo por ele finalmente ter entendido os conflitos. Foi porque seu filho tinha explicado tudo”, conta.

Redes sociais. Na opinião da professora Elisabeth Victoria Popp, das disciplinas de Geografia, Sociologia e Ética do Colégio Paulista (Copi), na Lapa, um dos fatores que mais despertou a atenção dos jovens para os movimentos populares orientais foi a ferramenta usada pelas nações daquela região para propagar a revolução: as redes sociais.
O colégio agendou até uma palestra especial sobre o assunto, em maio, com o jornalista Herbert Moraes, correspondente da Record no Oriente Médio, que acaba de voltar ao Brasil. O tema também entrou na disciplina de Geografia do 9º ano, na qual os alunos aprendem sobre globalização. Já no ensino médio, os conflitos foram estudados em Atualidades e em Ética. “Percebemos que na medida em que os jovens trazem para a escola informações sobre o que está acontecendo na sociedade, a escola consegue se abrir para isso e discutir essas questões com eles”, diz a professora.
Já no Colégio Santo Américo, localizado no Butantã, a revolução do Egito foi tema do primeiro simulado do ano para os alunos do ensino médio. “É uma nova ordem que está se estabelecendo no Oriente e o aluno tem de estar antenado. Provavelmente, o assunto será tema de vários vestibulares”, acredita o professor de Geografia Rui Calaresi.
De acordo com o educador, tem havido uma retomada por parte dos adolescentes no interesse a respeito das questões políticas e econômicas que se destacam na atualidade.

Evento multimídia torna a discussão mais atraente

Os alunos participaram de grande parte da organização do evento promovido pelo Colégio São Domingos no Tucarena: enquanto uma bancada coletava notícias dos jornais e da internet a respeito dos conflitos no Oriente, uma aluna postava no twitter atualizações sobre o evento. Outro estudante fazia desenhos ligados ao tema, que eram projetados no telão ao final de cada bloco de discussão e um colega grafitava em um painel o nome da atividade: ‘Oriente-se’.
Além de compreender melhor as revoluções populares dos países árabes, os estudantes receberam um aula de debate. Ao mesmo tempo em que eram estimulados a expressar suas opiniões, eram orientados a fundamentá-las com argumentos sólidos. "Estamos discutindo se a revolução no Egito e na Líbia vai resultar na formação de uma democracia. Mas no Brasil a gente também não vive em uma democracia", disse um dos alunos. "Mas o que é a democracia para você?", replicou um dos professores. Pouco a pouco, as ideias começaram a surgir mais fundamentadas, com direito a paralelos com outros eventos históricos, como a 2ª Guerra Mundial, citações de entrevistas lidas no jornal e de documentários da TV.
“Espero que eles olhem os conflitos e saibam que existe pessoas lutando e que eles fiquem mais conscientes de que a gente não pode ficar esperando as coisas acontecerem", diz o professor Flávio Trovão, de História.
Ele explica que o evento tem como mérito o grande empenho em pesquisa exigido dos estudantes. “Alguns entrevistaram por e-mail uma repórter da agência Reuters, no Egito”, conta.
De caráter multimídia, o evento contou ainda com a apresentação de vídeos editados pelos próprios estudantes com imagens de arquivo colhidas no Youtube. Houve também algumas apresentações musicais.

FRASES


"Recebi um e-mail de um pai de aluno nos agradecendo por ele finalmente ter entendido os conflitos no Oriente. Foi porque seu filho tinha explicado tudo"ROBERTO DIAGO
COORDENADOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA, SOCIOLOGIA E FILOSOFIA DO COLÉGIO DANTE ALIGHIERI



"É uma nova ordem que está se estabelecendo no Oriente e o aluno tem de estar antenado. Provavelmente, esse assunto será tema de vários vestibulares"
RUI CALARESI
PROFESSOR DE GEOGRAFIA DO COLÉGIO SANTO AMÉRICO

abril 15, 2011

22. Origem dos idiomas?

No final da semana, boa parte das notícias científicas da mídia são uma divulgação das novidades em duas das principais revistas americanas da área, a Science e a Nature. Hoje, um artigo interessante da Science, em sua vulgata feita pela Folha.
Comentários após o fim da reportagem.
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15/04/2011 - 11h01

Linguagem humana tem origem na África, afirma pesquisa


REINALDO JOSÉ LOPES
GIULIANA MIRANDA
DE SÃO PAULO
O continente africano, além de berço da espécie humana, também teria sido o local em que um idioma de verdade, com gramática e vocabulário complexos, foi falado pela primeira vez na história.
A ideia está sendo defendida em um novo estudo, que analisou mais de 500 línguas de todas as partes do mundo em busca do caminho que a ªinvençãoº da linguagem teria seguido planeta afora.
Segundo o trabalho, publicado nesta semana na revista americana "Science", a variedade de fonemas ±a menor unidade sonora, que permite a diferenciação entre as palavras± altera-se conforme a localização geográfica.
A maior quantidade de fonemas se concentra no seria o "marco zero" das línguas, o centro-sul da África.
Conforme os idiomas vão se afastando dessa aparente fonte comum, eles vão ficando empobrecidos em fonemas ±com menos tipos de vogais, consoantes e tons (variantes "musicais" das sílabas, comuns em línguas como o chinês, por exemplo).

Editoria de Arte/Folhapress
COISA VIVA
O autor da pesquisa, Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), aparentemente está construindo a carreira com base na ideia de que línguas podem funcionar de forma idêntica a coisas vivas.
Na década passada, ele usou métodos normalmente utilizados para estudar o parentesco evolutivo entre seres vivos para propor uma data para a origem das línguas indo-europeias -- basicamente quase todas as línguas da Europa mais as de regiões como Índia, Paquistão e Irã.
Nesse estudo, ele estimou que esse tronco de línguas "brotou" pela primeira vez há 9.000 anos. Isso poderia ligá-las à expansão de agricultores da atual Turquia rumo à Europa, substituindo os antigos habitantes da região.
"É muito interessante, entre outras coisas porque muitos linguistas históricos aqui no Brasil, que estudam línguas indígenas, ainda não aplicam essas ideias à expansão de povos no passado", diz o geneticista Fabrício Rodrigues dos Santos, da UFMG.
Segundo Atkinson, uma coisa já sabida é que, quanto maior a população que fala uma língua, maior o número de fonemas de dita cuja.
Mas isso não significa que o chinês seja automaticamente a língua mais rica em fonemas do planeta. Faz muita diferença também o tempo que uma população grande fala certo idioma ±e nesse quesito a África parece ser imbatível, já que seres humanos modernos habitam o continente há bem mais tempo.
O padrão, além do mais, bate com o da genética -- os africanos também são geneticamente mais diversificados que o resto da humanidade.
"E, de fato, eles possuem fonemas como os que envolvem cliques [estalos], aparentemente únicos", diz Santos.
Atkinson usa os dados para propor um único "eureca" linguístico há uns 70 mil anos na África, que teria, inclusive, uma associação com os primeiros indícios de arte e adornos corporais, também datados dessa época.
Segundo essa visão, a linguagem complexa teria sido uma das ferramentas centrais para que a humanidade moderna avançassem pelos continentes e acabasse suplantando, de algum modo, hominídeos como os neandertais da atual Europa.

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A pesquisa de Atkinson está longe de ser definitiva, e os críticos já estão questionando a validade de estudos linguísticos que tentem retroceder tanto no tempo - em geral, pesquisas na área não passam dos últimos 10 mil anos. Pelos próximos anos os especialistas vão se posicionar, soltar críticas e contracríticas, e depois de algum tempo, quando o assunto já tiver sido esquecido pelo resto do mundo, talvez cheguem a um consenso.

Até lá, provavelmente os únicos pontos de que ninguém discorda são:
a) nosso último ancestral em comum com os chimpanzés e bonobos, que viveu há 5-7 milhões de anos, não falava, e
b) há 40 ou 50 mil anos atrás, quando temos evidências incontestáveis de comportamento simbólico humano (arte rupestre, por exemplo), é praticamente certo que os humanos falassem.

A data correta então está em algum ponto entre as datas A e B, a menos que, como é perfeitamente possível, a linguagem não tenha surgido de um lampejo súbito de criatividade, mas de um processo gradual em que cada espécie tinha capacidade de comunicação mais complexa que a anterior, e o ponto em que podemos dizer que havia linguagem torna-se mais uma disputa em torno de definições do que é linguagem do que a procura por uma data-chave.

(Usei o termo "espécie" bem despreocupadamente, quando na verdade ele é uma dor de cabeça para os biólogos e paleontólogos. Resumindo, eis o problema: uma espécie é, em termos gerais, o conjunto de seres capazes de cruzar e ter descendentes férteis. Para os seres que estão vivos no mesmo momento, é fácil dizer quem pertence a qual espécie. A dificuldade é quando adicionamos o fator tempo. Pegando um exemplo de Dawkins, se tivéssemos uma máquina do tempo e voltássemos para mil anos atrás, uma pessoa do ano 2011 poderia ter filhos com uma do ano 1011. Se colocássemos uma pessoa do ano 1011 na máquina e a deixássemos mil anos antes disso, no ano 11, ela também poderia ter filhos com as pessoas de então. Uma pessoa do ano 11 também poderia ter filhos com as pessoas que viveram mil anos antes dela, e assim vai.
O mesmo valeria não importa quantas vezes voltássemos no tempo: mil anos são um prazo pequeno o suficiente para garantir que não haveria grandes mudanças genéticas e as pessoas separadas por esse período continuariam sempre sendo "da mesma espécie". Mas, à medida que, de milênio em milênio, voltamos 50, 100, 500 mil anos, mesmo que cada grupo humano que encontremos seja parecido com os de mil anos antes e depois, chegaria um ponto em que eles seriam diferentes o suficiente de nós para que nós e eles não pudéssemos nos reproduzir. Espécies diferentes, portanto, apesar de ser um processo gradual: não existe um determinado ponto em que um casal de Homo erectus tem um filho Homo sapiens. Naturalmente, o outro problema é que não temos essa máquina do tempo e, a cada novo fóssil, precisamos debater a que distância ele se encontra do resto da nossa árvore.)

Enfim, os debates continuam. Resta esperar e ver...