abril 27, 2011

24. Uma pérola legislativa

Quando o mundo parece um lugar sombrio e sem esperança, nada mais divertido (sob uma ótica, confesso, um tanto cínica) do que ver o que nossos queridos representantes estão fazendo com os mandatos que lhes demos. Ao invés de resolver problemas, grandes ou pequenos, tomam medidas totalmente inócuas como esta, aprovada recentemente pela Assembleia Legislativa do RS:

___________________________________________________________________________

Projeto de Lei nº 156 /2009
Deputado(a) Raul Carrion
Institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou
palavras estrangeiras para a língua portuguesa, sempre que
houver em nosso idioma palavra ou expressão equivalente, no
âmbito do Estado do Rio Grande do Sul e dá outras
providências.
Art. 1º Institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua
portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação
através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul, sempre que houver em nosso idioma
palavra ou expressão equivalente.
§ 1º – Nos casos excepcionais, em que não houver na língua portuguesa palavra ou expressão
equivalente, o significado ou tradução da palavra ou expressão estrangeira deverá estar escrito, com o
mesmo destaque, subseqüentemente a sua utilização no texto.
§ 2º - A tradução a que se refere o caput deste artigo deve ser do mesmo tamanho que as palavras
em outro idioma expostas no documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de
comunicação em questão.
Art. 2o Todos os órgãos, instituições, empresas e fundações públicas deverão priorizar na redação
de seus documentos oficiais, sítios virtuais, materiais de propaganda e publicidade, ou qualquer outra forma
de relação institucional através da palavra escrita, a utilização da língua portuguesa, nos termos desta lei.
Art. 3º Esta Lei poderá ser regulamentada para garantir sua execução e fiscalização e para definir
as sanções administrativas a serem aplicadas àquele, pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que
descumprir qualquer disposição desta lei
Art. 4o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Porto Alegre, 03 de agosto de 2009.
Deputado(a) Raul Carrion

___________________________________________________________________


Pode parecer que essa patriotice não tem nada a ver com a história, e realmente não tem mesmo muito a ver. O que houve aqui é mais um esquecimento dela. Esquecimento de que o português não existe pronto e puro no mundo platônico das ideias, tendo se desenvolvido a partir do latim vulgar (a língua que o povão falava no império romano, muito diferente do latim literário que só a elite usava) com empréstimos imensos do árabe, depois de outras línguas europeias e, no caso da variante brasileira, tantos outros empréstimos de línguas africanas e indígenas.
Existe algum motivo convincente para querer limitar os empréstimos a partir de agora e não limitar os já feitos antes? Algum motivo para se preocupar com "parking" (um dos estrangeirismos que o autor do projeto menciona neste texto de justificativa) mas não com "futebol", que também veio do inglês (droga de ingleses imperialistas, corrompendo nosso idioma há cem anos atrás!)? Ou podemos voltar mais e considerar um estrangeirismo a palavra "arroz", que pegamos do árabe como milhares de outras (droga de árabes imperialistas, corrompendo nosso idioma há mil anos atrás!)? Pensando bem, se o verdadeiro objetivo é condenar o imperialismo, falar português no Brasil é meio descabido, já que a) os portugueses só falavam uma língua latina graças à conquista romana da Península Ibérica, imperialismo puro e desavergonhado, e b) só falamos português aqui porque os portugueses invadiram uma terra que não era deles, mataram e escravizaram a maior parte dos ocupantes anteriores...

Exageros à parte, um fato simples permanece: o Brasil tem origem colonial. Falamos a língua do colonizador. Foram derramados rios de sangue para que os portugueses se impusessem como donos do lugar e estabelecessem seus costumes, leis, língua, etc. Então como o português poderia ser "patrimônio cultural da nação e expressão da existência soberana do nosso povo"? E, se os deputados realmente acreditam nisso, por que não deixar o português nas mãos daqueles que mais entendem dele: nós, seus usuários de todos os dias?

É interessante, no mínimo, ver como os combates aos estrangeirismos/imperialismos de hoje implicam na aceitação dos estrangeirismos e imperialismos de ontem. Daqui a algumas décadas, essas palavras que os puristas de hoje perseguem já vão estar incorporadas na língua, e defendidas pelos puristas do futuro contra os estrangeirismos que virão - chineses, talvez...

abril 24, 2011

23. História do Oriente Médio e improvisações

Reportagem do Estado de S. Paulo sobre as iniciativas na rede de ensino paulista para que os alunos entendam o que está acontecendo atualmente no Oriente Médio. A intenção é louvável, mas se a história da região fosse decentemente ensinada, para começo de conversa, não seria preciso fazer esse tipo de improvisação a cada vez que a área chama a atenção do mundo (leia-se: muito frequentemente). Nada dessa bobagem de "a região já não cabe apenas nas aulas de história", uma vez que nunca esteve ali. No máximo, algumas pinceladas sobre o surgimento do Islã e sobre as consequências do imperialismo europeu, como se nada interessante tivesse acontecido por ali entre os séculos 7 e 19.

Testemunhei uma versão anterior do mesmo fenômeno em 2001, quando estava terminando o ensino médio, e os professores se desdobravam para tentar explicar o terrorismo, o 11 de setembro, como o Afeganistão se encaixava aí, etc. Digo tentar simplesmente porque, em geral, eles também não tinham ideia - a tendência do nosso sistema educacional de ignorar o mundo a leste da Europa ocidental é sistemática, indo do ensino básico ao vestibular e à universidade, de onde saem os pesquisadores e professores da geração seguinte. Uma máquina de deformação da história em perpétuo movimento...

Por último, qual o motivo para a reportagem repetir o termo "oriente" quando quer claramente dizer "Oriente Médio"? Devo admitir que detesto esse uso indiscriminado da palavra para significar, de forma genérica, "qualquer civilização/cultura que não a nossa", como se chamar árabes, curdos, turcos, iranianos, indianos, chineses, coreanos, afegãos, tailandeses, vietnamitas, etc etc etc, de "orientais" indicasse alguma característica comum entre eles.


________________________________________________________________________


Oriente vira a nova ‘disciplina’ escolar

Conflitos internacionais têm feito a região sair da aula de história e ganhar destaque na grade escolar

A região do Oriente já não cabe apenas nas aulas de história. Com as recentes revoluções populares no local, que começaram no Egito e provocaram uma reação em cadeia em várias nações árabes, ganhando a atenção do mundo todo, os colégios da capital passaram a investir em atividades focadas diretamente sobre esse tema para aproximá-lo dos alunos.
No São Domingos, alunos montaram uma grande gincana para discutir os conflitos no Oriente
No início do mês, o Tucarena foi palco de um debate sobre revoluções, guerras, religiões, preconceito e democracia. A plateia lotada, que não hesitava em expressar a grande diversidade de opiniões, era formada por alunos do ensino médio. O evento foi idealizado pelos professores de História, Geografia e Filosofia do Colégio São Domingos, em Perdizes, a partir da demanda crescente dos alunos por discussões sobre os países do Oriente.
O professor Flávio Trovão, de História, explica que tudo foi feito para que os alunos compreendessem melhor o que está ocorrendo no mundo. “Além da questão do vestibular e do Enem - não tenho dúvidas de que é uma temática que vai ser abordada nos grandes exames desse ano - queremos que esses garotos vejam que somos um mundo em transformação constante”, afirma.
Também o ensino médio do Colégio Dante Alighieri, do Jardim Paulista, participou de um módulo de palestras especialmente desenvolvido para discutir as questões orientais. “Começamos a fazer isso antes da queda do Mubarack (ditador egípcio). Tivemos debates semanais para atualizar o rumo que as revoluções tinham tomado. O último já abarcava as questões da Líbia”, conta o professor Roberto Diago, coordenador do Departamento de História, Sociologia e Filosofia. “Recebi um e-mail de um pai de aluno nos agradecendo por ele finalmente ter entendido os conflitos. Foi porque seu filho tinha explicado tudo”, conta.

Redes sociais. Na opinião da professora Elisabeth Victoria Popp, das disciplinas de Geografia, Sociologia e Ética do Colégio Paulista (Copi), na Lapa, um dos fatores que mais despertou a atenção dos jovens para os movimentos populares orientais foi a ferramenta usada pelas nações daquela região para propagar a revolução: as redes sociais.
O colégio agendou até uma palestra especial sobre o assunto, em maio, com o jornalista Herbert Moraes, correspondente da Record no Oriente Médio, que acaba de voltar ao Brasil. O tema também entrou na disciplina de Geografia do 9º ano, na qual os alunos aprendem sobre globalização. Já no ensino médio, os conflitos foram estudados em Atualidades e em Ética. “Percebemos que na medida em que os jovens trazem para a escola informações sobre o que está acontecendo na sociedade, a escola consegue se abrir para isso e discutir essas questões com eles”, diz a professora.
Já no Colégio Santo Américo, localizado no Butantã, a revolução do Egito foi tema do primeiro simulado do ano para os alunos do ensino médio. “É uma nova ordem que está se estabelecendo no Oriente e o aluno tem de estar antenado. Provavelmente, o assunto será tema de vários vestibulares”, acredita o professor de Geografia Rui Calaresi.
De acordo com o educador, tem havido uma retomada por parte dos adolescentes no interesse a respeito das questões políticas e econômicas que se destacam na atualidade.

Evento multimídia torna a discussão mais atraente

Os alunos participaram de grande parte da organização do evento promovido pelo Colégio São Domingos no Tucarena: enquanto uma bancada coletava notícias dos jornais e da internet a respeito dos conflitos no Oriente, uma aluna postava no twitter atualizações sobre o evento. Outro estudante fazia desenhos ligados ao tema, que eram projetados no telão ao final de cada bloco de discussão e um colega grafitava em um painel o nome da atividade: ‘Oriente-se’.
Além de compreender melhor as revoluções populares dos países árabes, os estudantes receberam um aula de debate. Ao mesmo tempo em que eram estimulados a expressar suas opiniões, eram orientados a fundamentá-las com argumentos sólidos. "Estamos discutindo se a revolução no Egito e na Líbia vai resultar na formação de uma democracia. Mas no Brasil a gente também não vive em uma democracia", disse um dos alunos. "Mas o que é a democracia para você?", replicou um dos professores. Pouco a pouco, as ideias começaram a surgir mais fundamentadas, com direito a paralelos com outros eventos históricos, como a 2ª Guerra Mundial, citações de entrevistas lidas no jornal e de documentários da TV.
“Espero que eles olhem os conflitos e saibam que existe pessoas lutando e que eles fiquem mais conscientes de que a gente não pode ficar esperando as coisas acontecerem", diz o professor Flávio Trovão, de História.
Ele explica que o evento tem como mérito o grande empenho em pesquisa exigido dos estudantes. “Alguns entrevistaram por e-mail uma repórter da agência Reuters, no Egito”, conta.
De caráter multimídia, o evento contou ainda com a apresentação de vídeos editados pelos próprios estudantes com imagens de arquivo colhidas no Youtube. Houve também algumas apresentações musicais.

FRASES


"Recebi um e-mail de um pai de aluno nos agradecendo por ele finalmente ter entendido os conflitos no Oriente. Foi porque seu filho tinha explicado tudo"ROBERTO DIAGO
COORDENADOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA, SOCIOLOGIA E FILOSOFIA DO COLÉGIO DANTE ALIGHIERI



"É uma nova ordem que está se estabelecendo no Oriente e o aluno tem de estar antenado. Provavelmente, esse assunto será tema de vários vestibulares"
RUI CALARESI
PROFESSOR DE GEOGRAFIA DO COLÉGIO SANTO AMÉRICO

abril 15, 2011

22. Origem dos idiomas?

No final da semana, boa parte das notícias científicas da mídia são uma divulgação das novidades em duas das principais revistas americanas da área, a Science e a Nature. Hoje, um artigo interessante da Science, em sua vulgata feita pela Folha.
Comentários após o fim da reportagem.
____________________________________________________________________________

15/04/2011 - 11h01

Linguagem humana tem origem na África, afirma pesquisa


REINALDO JOSÉ LOPES
GIULIANA MIRANDA
DE SÃO PAULO
O continente africano, além de berço da espécie humana, também teria sido o local em que um idioma de verdade, com gramática e vocabulário complexos, foi falado pela primeira vez na história.
A ideia está sendo defendida em um novo estudo, que analisou mais de 500 línguas de todas as partes do mundo em busca do caminho que a ªinvençãoº da linguagem teria seguido planeta afora.
Segundo o trabalho, publicado nesta semana na revista americana "Science", a variedade de fonemas ±a menor unidade sonora, que permite a diferenciação entre as palavras± altera-se conforme a localização geográfica.
A maior quantidade de fonemas se concentra no seria o "marco zero" das línguas, o centro-sul da África.
Conforme os idiomas vão se afastando dessa aparente fonte comum, eles vão ficando empobrecidos em fonemas ±com menos tipos de vogais, consoantes e tons (variantes "musicais" das sílabas, comuns em línguas como o chinês, por exemplo).

Editoria de Arte/Folhapress
COISA VIVA
O autor da pesquisa, Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), aparentemente está construindo a carreira com base na ideia de que línguas podem funcionar de forma idêntica a coisas vivas.
Na década passada, ele usou métodos normalmente utilizados para estudar o parentesco evolutivo entre seres vivos para propor uma data para a origem das línguas indo-europeias -- basicamente quase todas as línguas da Europa mais as de regiões como Índia, Paquistão e Irã.
Nesse estudo, ele estimou que esse tronco de línguas "brotou" pela primeira vez há 9.000 anos. Isso poderia ligá-las à expansão de agricultores da atual Turquia rumo à Europa, substituindo os antigos habitantes da região.
"É muito interessante, entre outras coisas porque muitos linguistas históricos aqui no Brasil, que estudam línguas indígenas, ainda não aplicam essas ideias à expansão de povos no passado", diz o geneticista Fabrício Rodrigues dos Santos, da UFMG.
Segundo Atkinson, uma coisa já sabida é que, quanto maior a população que fala uma língua, maior o número de fonemas de dita cuja.
Mas isso não significa que o chinês seja automaticamente a língua mais rica em fonemas do planeta. Faz muita diferença também o tempo que uma população grande fala certo idioma ±e nesse quesito a África parece ser imbatível, já que seres humanos modernos habitam o continente há bem mais tempo.
O padrão, além do mais, bate com o da genética -- os africanos também são geneticamente mais diversificados que o resto da humanidade.
"E, de fato, eles possuem fonemas como os que envolvem cliques [estalos], aparentemente únicos", diz Santos.
Atkinson usa os dados para propor um único "eureca" linguístico há uns 70 mil anos na África, que teria, inclusive, uma associação com os primeiros indícios de arte e adornos corporais, também datados dessa época.
Segundo essa visão, a linguagem complexa teria sido uma das ferramentas centrais para que a humanidade moderna avançassem pelos continentes e acabasse suplantando, de algum modo, hominídeos como os neandertais da atual Europa.

________________________________________________________________________


A pesquisa de Atkinson está longe de ser definitiva, e os críticos já estão questionando a validade de estudos linguísticos que tentem retroceder tanto no tempo - em geral, pesquisas na área não passam dos últimos 10 mil anos. Pelos próximos anos os especialistas vão se posicionar, soltar críticas e contracríticas, e depois de algum tempo, quando o assunto já tiver sido esquecido pelo resto do mundo, talvez cheguem a um consenso.

Até lá, provavelmente os únicos pontos de que ninguém discorda são:
a) nosso último ancestral em comum com os chimpanzés e bonobos, que viveu há 5-7 milhões de anos, não falava, e
b) há 40 ou 50 mil anos atrás, quando temos evidências incontestáveis de comportamento simbólico humano (arte rupestre, por exemplo), é praticamente certo que os humanos falassem.

A data correta então está em algum ponto entre as datas A e B, a menos que, como é perfeitamente possível, a linguagem não tenha surgido de um lampejo súbito de criatividade, mas de um processo gradual em que cada espécie tinha capacidade de comunicação mais complexa que a anterior, e o ponto em que podemos dizer que havia linguagem torna-se mais uma disputa em torno de definições do que é linguagem do que a procura por uma data-chave.

(Usei o termo "espécie" bem despreocupadamente, quando na verdade ele é uma dor de cabeça para os biólogos e paleontólogos. Resumindo, eis o problema: uma espécie é, em termos gerais, o conjunto de seres capazes de cruzar e ter descendentes férteis. Para os seres que estão vivos no mesmo momento, é fácil dizer quem pertence a qual espécie. A dificuldade é quando adicionamos o fator tempo. Pegando um exemplo de Dawkins, se tivéssemos uma máquina do tempo e voltássemos para mil anos atrás, uma pessoa do ano 2011 poderia ter filhos com uma do ano 1011. Se colocássemos uma pessoa do ano 1011 na máquina e a deixássemos mil anos antes disso, no ano 11, ela também poderia ter filhos com as pessoas de então. Uma pessoa do ano 11 também poderia ter filhos com as pessoas que viveram mil anos antes dela, e assim vai.
O mesmo valeria não importa quantas vezes voltássemos no tempo: mil anos são um prazo pequeno o suficiente para garantir que não haveria grandes mudanças genéticas e as pessoas separadas por esse período continuariam sempre sendo "da mesma espécie". Mas, à medida que, de milênio em milênio, voltamos 50, 100, 500 mil anos, mesmo que cada grupo humano que encontremos seja parecido com os de mil anos antes e depois, chegaria um ponto em que eles seriam diferentes o suficiente de nós para que nós e eles não pudéssemos nos reproduzir. Espécies diferentes, portanto, apesar de ser um processo gradual: não existe um determinado ponto em que um casal de Homo erectus tem um filho Homo sapiens. Naturalmente, o outro problema é que não temos essa máquina do tempo e, a cada novo fóssil, precisamos debater a que distância ele se encontra do resto da nossa árvore.)

Enfim, os debates continuam. Resta esperar e ver...

março 27, 2011

21. Situação linguística do Brasil

No post 19, falei sobre a morte iminente de uma língua indígena mexicana, o ayapaneco, e sugeri que a situação no Brasil não era muito diferente daquela no México: descaso por qualquer coisa muito diferente da língua dominante.

Infelizmente, parece que meu palpite baseado no senso comum estava bastante próximo da realidade, segundo o que vi a respeito desde então.

Evidência número um, um artigo de Aryon Rodrigues, um dos principais linguistas brasileiros, sobre a situação dos nossos idiomas indígenas. O texto é de leitura fácil, mas como o objetivo aqui é informar, seguem os dados principais para os leitores mais preguiçosos:
- número de línguas faladas no atual território brasileiro em 1500: cerca de 1200;
- quantidade de línguas indígenas remanescentes no Brasil em 2005: cerca de 181;
- dessas 181 línguas, 76% são faladas por menos de mil pessoas cada;
- o trabalho de documentação dessas línguas antes que sejam extintas não está sendo feito como deveria. O motivo principal? Faltam pesquisadores. Nossos cursos de letras são voltados para a formação de professores escolares, produzindo apenas um punhado de linguistas capazes de fazer a coleta necessária. A falta de recursos também não ajuda muito.

Evidência número dois, um artigo sobre a concepção equivocada de que no Brasil só se fala português e de que haveria uma correlação entre ser brasileiro e falar português. Evidência de que essa visão é errada? Aqui vai:

Para compreendermos a questão é preciso trazer alguns dados: no Brasil de hoje
são falados por volta de 200 idiomas. As nações indígenas do país falam cerca de 170
línguas (chamadas de autóctones), e as comunidades de descendentes de imigrantes
outras 30 línguas (chamadas de línguas alóctones). Somos, portanto, como a maioria
dos países do mundo - em 94% dos países do mundo são faladas mais de uma língua -
um país de muitas línguas, plurilíngüe.


Tampouco o "mito do monolinguismo" é inofensivo, por ter sido promovido ativamente ao longo do tempo, justificando repressões de toda ordem. O Estado, seja o português no período colonial ou o brasileiro desde a independência, não se marcou historicamente por uma grande tolerância pela diversidade de falas. Além da questão dos índios, temos a dos imigrantes italianos e alemães durante a era Vargas:

Durante o Estado Novo, mas sobretudo entre 1941 e 1945, o governo ocupou as
escolas comunitárias e as desapropriou, fechou gráficas de jornais em alemão e
italiano, perseguiu, prendeu e torturou pessoas simplesmente por falarem suas línguas
maternas em público ou mesmo privadamente, dentro de suas casas, instaurando uma
atmosfera de terror e vergonha que inviabilizou em grande parte a reprodução dessas
línguas, que pelo número de falantes eram bastante mais importantes que as línguas
indígenas na mesma época: 644.458 pessoas, em sua maioria absoluta cidadãos
brasileiros, nascidos aqui, falavam alemão cotidianamente no lar, numa população
nacional total estimada em 50 milhões de habitantes, e 458.054 falavam italiano, dados
do censo do IBGE de 1940 (Mortara, 1950). Essas línguas perderam sua forma
escrita e seu lugar nas cidades, passando seus falantes a usá-las apenas oralmente e cada
vez mais na zona rural, em âmbitos comunicacionais cada vez menos extensos.


Se a maior parte da população brasileira de hoje é monoglota em português e falar português é considerado um fator de identidade nacional, isso é a soma de um passado em que outras línguas foram ou ignoradas ou ativamente discriminadas. Os paralelos com outras áreas - sexualidade, religiosidade, etnicidade - estão aí para quem quiser fazer as comparações. A grande questão é se queremos continuar seguindo por esse caminho.

20. Novo artigo

Mais feliz era Heródoto, que viveu antes das universidades: bastou um livro para assegurar a sua imortalidade. Hoje em dia, qualquer um que se envolva no meio acadêmico precisa produzir um fluxo constante de publicações, apresentações, qualquer coisa que possa acrescentar algumas linhas ao currículo; um CV volumoso aumenta as chances de entrar na pós-graduação, ser contratado, enfim, todas as coisas boas.

Não que a simples quantidade baste: onde se é publicado também é importante. O índice Qualis, uma das obsessões dos pesquisadores, mede a qualidade dos periódicos, não dos textos. As revistas recebem uma avaliação de 0 a 7 (expressa em letras; em ordem crescente, temos: C, B5, B4, B3, B2, B1, A2 e A1) de acordo com uma série de critérios, e os pesquisadores têm sua produção avaliada de acordo com as revistas em que publicaram. Colocando em termos práticos, se Einstein fosse brasileiro e tivesse publicado a teoria da relatividade especial em uma revista de Qualis baixo, isso beneficiaria menos a carreira dele do que publicar artigos medíocres em revistas conceituadas. Provavelmente precisamos de alguma espécie de critério objetivo para saber quem é mais ou menos relevante em sua área, mas se até eu vejo os problemas do sistema atual em dois minutos, é porque realmente temos problemas.

Depois desse preâmbulo para explicar porque é do meu interesse ter publicações, informo aos interessados que acabo de ter um artigo publicado na nova edição da revista Semina, que trata de como era visto o trabalho feminino nos anos 20 do século passado. Para não estragar a surpresa, apenas vou adiantar que era complicado, porque havia valores conflitantes em jogo.

Confiram a revista, deem uma chance aos artigos, divulguem...

março 22, 2011

19. O triste fim do ayapaneco

Passaram quinhentos anos e a conquista da América continua, agora de formas mais sutis...

É o caso da situação de morte iminente de uma língua indígena mexicana, o ayapaneco, só falado por dois idosos que, por alguma desavença, não se falam há anos. Pensando bem, isso quer dizer que o ayapaneco já está, para todos os efeitos práticos, morto.

Eis a notícia, extraída do Clarín. Meus comentários seguem abaixo.


______________________________________________________________________________



Una lengua morirá por la pelea de sus dos hablantes

21/03/11



El ayapaneco, una de las 364 variantes lingüísticas que existen en México, está condenado a muerte debido a que en el mundo quedan únicamente dos hablantes ancianos que, por enemistades, llevan ya varios años sin comunicarse entre ellos.
Manuel Segovia, de 75 años, e Isidro Velázquez, de 69, son el único testimonio vivo de esta lengua indígena que tiene sus orígenes en el municipio de Jalapa de Méndez, en el sureño estado mexicano de Tabasco.
Ambos viven en la pequeña comunidad de Ayapan y, aunque sus casas están separadas tan sólo por 500 metros , no mantienen relación alguna desde hace años por un desencuentro del que se desconoce el origen.
Según el Instituto Nacional de Lenguas Indígenas (INALI), Segovia les explicó en su momento de que a mediados del siglo XX había casi 8.000 familias ayapanecas, y que a partir de la construcción de la carretera Villahermosa-Comacalco comenzó la migración de estos pobladores y, con ello, la paulatina extinción de su lengua.
“El tiempo y el progreso transformaron el pueblo, la gente se iba a trabajar a los pueblos más grandes y ahí empezaron a ver y a traer otras costumbres”, afirmó Segovia. “Cuando muramos los dos se acabó, la lengua morirá”, sentenció.
No obstante, la riqueza de esta lengua se conservará escrita gracias a que dos lingüistas estadounidenses de la Universidad de Standford grabaron durante dos años a Manuel Segovia pronunciando frente a un micrófono las miles de palabras que conocía . Con las grabaciones hicieron un diccionario que, según Segovia, se vende en Estados Unidos.
En una situación menos grave, pero no por ello menos preocupante, se encuentran en peligro al menos 36 variantes más de lenguas indígenas de México. Según expertos, podrían seguir el camino de las 141 variantes lingüísticas que desde tiempos de la colonia hasta nuestros días ya han desaparecido.

____________________________________________________________________

Apesar do título sensacionalista escolhido pelo Clarín, a notícia mostra que a briga de Manuel e Isidro fez pouca diferença para o ayapaneco, sendo apenas a gota da água. O que matou esse idioma foram dois fenômenos mais profundos: a pobreza da população indígena do interior, que busca melhores oportunidades nas cidades, e o descaso da sociedade - a população urbana, o governo mexicano e, provavelmente, os próprios indígenas aculturados nas cidades - por idiomas que não o espanhol, o que torna a geração seguinte ao êxodo rural monoglota em espanhol.

Para deixar clara minha posição, não tenho nada contra as pessoas buscarem uma vida melhor ou aprenderem novos idiomas para isso, seja o espanhol no México, o português no Brasil ou o que for. Mas não é preciso esquecer uma língua para aprender outra - se não acredita em mim, pergunte a qualquer belga ou suíço. A opção não era manter o ayapaneco ou usar o espanhol. O que gostaria é que os ex-moradores de Ayapan estivessem num contexto em que o ayapaneco tivesse sido valorizado como uma herança cultural insubstituível e transmitido para as gerações seguintes. Mas quem sou eu para ter a pretensão de reverter séculos em que tudo que os índios americanos fazem é visto como "coisa de índio" e sua cultura é considerada um obstáculo à integração?

Alguém poderia perguntar, sentimentalismos à parte, que falta nos fará o ayapaneco. Sentimentalismos à parte, cada idioma é uma parte do nosso legado cultural comum enquanto seres humanos. Para começo de conversa, um idioma carrega consigo a história dos seus falantes. Vamos supor por um momento que se perdesse qualquer vestígio da existência do português brasileiro: perderíamos um registro da história da colonização portuguesa, com seus contatos e empréstimos de populações indígenas e africanas, e da história posterior do Brasil como país independente e sua considerável abertura a/dependência de influências da Europa e, depois, dos Estados Unidos, como mostrado pela incorporação de inúmeras palavras francesas e inglesas desde o século 19 - sim, esses empréstimos fazem parte da nossa história, desde os já digeridos há tempo, como garage e abat-jour (sim, roubamos garagem e abajur dos franceses) aos mais recentes, como internet e mouse. O que deveria ser feito dessas palavras é outra questão - hoje, estou falando da língua como registro histórico, não de patriotismo barato. Falando em patriotismo barato, não mencionei o curioso fenômeno do inglês made in Brazil, como outdoor ou baby look - quem se opõe a isso por motivos nacionalistas deveria considerar que, presumivelmente, adaptar o idioma imperial às nossas próprias necessidades, de uma forma que nenhum americano ou inglês reconheceria  (o que é um hóti dógui, perguntaria ele?), é uma forma de resistência. Ou não?

Segundo, e não menos importante, cada idioma tem suas peculiaridades, desde formas gramaticais únicas até as pequenas excentricidades sem as quais a capacidade de expressão humana - ou nossa compreensão do potencial dessa capacidade - se limita um pouco. Sem ser linguista, só posso dar exemplos que considero interessantes dentro do meu repertório limitado: os japoneses se expressam muito bem sem precisar de conjugações por gênero e número; em contrapartida, os adjetivos japoneses têm conjugações para o presente e passado e para afirmação ou negação. Por exemplo, akai significa vermelho; akakunai, não-vermelho; akakunakatta, não-era-vermelho. Ou vermelha, vermelhos...
O inglês tem três gêneros - masculino, feminino e neutro - que não são muito importantes, já que só mudam os pronomes; via de regra, objetos inanimados são neutros, com algumas exceções pitorescas. É o caso dos navios, que recebem poeticamente o pronome feminino she, como uma forma de apego dos marinheiros às suas embarcações. Como um marinheiro brasileiro expressaria o mesmo sentimento, ou como poderíamos traduzi-lo? "Minha nau"?? E, como Borges dizia, o inglês tem uma flexibilidade para compor palavras que está ausente no espanhol - ou no português. Wordsmith soa razoavelmente natural, ferreiro de palavras é mais canhestro.
Falando no espanhol, eis um idioma que esconde algumas curiosidades em meio às semelhanças com o português. Coisas pequenas mas interessantes, como o numeral dos que não se conjuga no feminino, como o nosso dois/duas, ou sueño, ao mesmo tempo sono e sonho, como se fosse natural termos uma palavra para cada uma dessas coisas; na mesma linha, o japonês ashi é perna ou pé, e o inglês ship pode ser um navio ou uma espaçonave.
E para nós, que pensamos no sol masculino e na lua feminina, é curioso defrontar-se com o alemão, em que é justamente o contrário.
Enfim, fosse eu um linguista, daria uma resposta competente e fundamentada, com exemplos gramaticais e lexicais realmente raros (talvez as línguas africanas que usam estalos), e não uma lista de pequenas anedotas. O realmente importante aqui, e qualquer poliglota vai entender o que estou dizendo, é o seguinte: não existem idiomas equivalentes. Cada um tem suas palavras difíceis de traduzir, suas rimas e trocadilhos próprios (justamente o que torna a poesia quase intraduzível), suas formas de expressão raras e pensamentos que são mais fáceis de expressar nesse idioma do que em qualquer outro, seja por maior ou menor precisão, pela variação de significado de uma palavra ou mais palavras, ou o que for. Quando um idioma se perde, perdemos também uma forma de expressão. Vamos perder algo com o ayapaneco, é só dois velhinhos mexicanos e dois linguistas americanos sabem o quê.