outubro 02, 2012

81. Primeiro livro, e um convite aos leitores

Dizem que existem três maneiras de deixar algo para a posteridade - ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Acabo de realizar a terceira, e fica aqui o convite para o lançamento:


outubro 01, 2012

80. Eric Hobsbawm (1917-2012)

Eric Hobsbawm, um dos grandes historiadores de nosso tempo, morreu hoje de pneumonia. O tamanho da perda intelectual que seu falecimento representa é bem conhecido por quem tiver lido um de seus livros sobre numerosos assuntos: marxismo, história do trabalho, história do jazz, o "longo século 19" de 1789-1914, o "curto século 20" de 1914-1991, globalização, invenção de tradições culturais e provavelmente outros assuntos ainda...

Qual livro dele mais me marcou? O primeiro que li, Era dos extremos. Foi uma das obras que me convenceram de que um historiador pode transmitir ideias inteligentes e ao mesmo tempo escrever de forma acessível aos leitores.

O que gostaria que ele tivesse vivido para fazer? Uma revisão de Era das revoluções, Era do capital e Era dos impérios. A "trilogia das eras" abarca todo o século 19 e continua importante ainda hoje, mas foi escrita há bastante tempo (o primeiro foi lançado em 1962) e teria ganho um surto extra de vitalidade com a revisão e atualização de detalhes em que a historiografia avançou desde então.


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Morre aos 95 anos em Londres o historiador Eric Hobsbawm

Intelectual é considerado um dos maiores historiadores do século XX.
Britânico escreveu 'A era dos extremos', 'A era do capital' e outras obras.

Do G1, com agências internacionais
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O historiador britânico Eric Hobsbawm morreu de pneumonia nesta segunda-feira (1º) aos 95 anos no hospital Royal Free de Londres, informou sua família.
O intelectual marxista é considerado um dos maiores historiadores do século XX e escreveu "A era das revoluções", "A era do capital", "A era dos impérios", "Era dos extremos", entre outras obras.
Ele também era um entusiasta e crítico do jazz, escrevendo resenhas para jornais sobre o gênero musical e publicando o livro "História social do jazz".
Sua filha, Julia Hobsbawm, disse: "Ele morreu de pneumonia nas primeiras horas da manhã em Londres. Ele fará falta não apenas para sua esposa há 50 anos, Marlene, e seus três filhos, sete netos e um bisneto, mas também por seus milhares de leitores e estudantes ao redor do mundo".
"Até o fim, ele estava se esforçando ao máximo, ele estava se atualizando, havia uma pilha de jornais em sua cama", completou a filha.
Na manhã desta segunda-feira, Julia escreveu em seu perfil no Twitter que se sentia "comovida" pela "gentileza e pelas condolências de amigos e desconhecidos hoje pelo meu amável e incomparável pai" (leia o tuíte, em inglês).
Trajetória
Eric John Ernest Hobsbawm nasceu de uma família judia em Alexandria, no Egito, em 9 de junho de 1917.
Seu pai era britânico, descendente de artesãos da Polônia e Rússia, e a família de sua mãe era da classe média austríaca.
Hobsbawn cresceu em Viena, capital da Áustria, e em Berlim, capital da Alemanha.
Ele aderiu ao Partido Comunista aos 14 anos, após a morte precoce de seus pais. Na ocasião, ele foi morar com seu tio.
Na escola, ele informou o diretor que ele era comunista e argumentou que o país precisava de uma revolução.
"Ele me fez umas perguntas e disse: 'Você claramente não faz ideia do que está falando. Faça o favor de ir à biblioteca e veja o que consegue descobrir'", disse em uma entrevista à BBC em 2012. "E então eu descobri o Manifesto Comunista [de Karl Marx] e foi isso", relatou, indicando o começo de sua formação marxista.
Em 1933, quando Hitler começava a subir no poder na Alemanha, Hobsbawm foi para Londres, na Inglaterra, onde obteve cidadania britânica.
O historiador se filiou ao Partido Comunista da Inglaterra em 1936 e continuou membro da legenda mesmo após o ataque das forças soviéticas à Hungria em 1956 e as reformas liberais de Praga em 1968, embora tenha criticado os dois eventos. O ex-líder do partido Neil Kinnock chegou a chamar Hobsbawm de "meu marxista predileto".
'Muito comovida pela total gentileza e pelas condolências de amigos e desconhecidos hoje pelo meu amável e incomparável pai', escreveu Julia (Foto: Reprodução)'Muito comovida pela total gentileza e pelas
condolências de amigos e desconhecidos hoje
pelo meu amável e incomparável pai', escreveu
Julia na manhã desta segunda (Foto: Reprodução)
Anos depois, ele disse que "nunca havia tentado diminuir as coisas terríveis que haviam acontecido na Rússia", mas que acreditava que, no início do projeto comunista, um novo mundo estava nascendo.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Hobsbawm foi alocado a uma unidade de engenharia em que foi apresentada a ele, pela primeira vez, a classe proletária.
"Eu não sabia muito sobre a classe proletária britânica, apesar de ser comunista. Mas, vivendo e trabalhando com eles, pensei que eram boas pessoas", disse à BBC em 1995.
O historiador aprovou neles a "solidariedade, e um sentimento muito forte de classe, um sentimento de pertencer junto, de não querer que ninguém os derrubasse".
Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana".
Ele veio ao Brasil em 2003 participar da primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), evento do qual foi estrela.
 Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana" (Foto:  AFP/©Effigie/Leemage) Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana" (Foto: AFP/©Effigie/Leemage)
Vida acadêmica
Hobsbawm estudou no King's College de Cambridge e começou a dar aula na Universidade de Birkbeck em 1947, mais tarde tornando-se reitor da instituição.
Ele também passou temporadas como professor convidado nos Estados Unidos e lecionou na Universidade de Stanford, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e na Universidade de Cornel.
Em 1998, ele recebeu o título de Companhia de Honra. O prêmio, raramente concedido a historiadores, o colocou ao lado de ilustres como Stephen Hawking, Doris Lessing e Sir Ian McKellan.
Seu colega historiador A.J.P. Taylor, morto em 1990, disse que o trabalho de Hobsbawm se destacava pelas explicações precisas dos acontecimentos pelo interesse em pessoas comuns.
"A maior parte dos historiadores, por uma espécie de mal da profissão, se interessa somente pelas classes mais altas e pressupõe que eles mesmos fariam parte destes privilegiados se tivessem vivido um século ou dois atrás - uma possibilidade muito remota", escreveu Taylor. "A lealdade do Sr. Hobsbawm está firmemente do outro lado das barricadas", disse.
Eric Hobsbawm durante uma feira do livro em Leipzig, em 1999 (Foto: Eckehard Schulz/AP)Eric Hobsbawm durante uma feira do livro em
Leipzig, em 1999 (Foto: Eckehard Schulz/AP)
ObrasO primeiro livro de Hobsbawm, "Rebeldes primitivos", publicado em 1959, é um estudo dos que ele chamava de "agitadores sociais pré-políticos", incluindo ligas de camponeses sicilianos e gangues e bandidos metropolitanos, um exemplo de seu interesse pela história das organizações da classe trabalhadora.
No mesmo ano, ele escreveu uma obra sobre jazz e começou a colaborar como crítico para a revista "New Statesman" usando o pseudônimo Francis Newton, em homenagem ao trompetista comunista que acompanhava a cantora americana de jazz Billie Holiday.
Em 1962, ele publicou "Era da revolução", primeiro de três volumes sobre o que chamou de "o longo século XIX", cobrindo o período entre 1789, ano da Revolução Francesa, e 1914, começo da I Guerra Mundial. Os seguintes foram "Era do capital" (1975) e "Era dos impérios" (1987).
O quarto livro da sequência, "Era dos extremos" (1994), retratou a história até 1991, com o fim da União Soviética. Ele foi traduzido para quase 40 línguas e recebeu muitos prêmios internacionais.
Suas memórias, publicadas quando tinha 85 anos, elencaram os momentos cruciais na história europeia moderna nos quais ele viveu, e também foram um best-seller.
Seu último livro é "Como mudar o mundo", de 2011, e é um compilado de textos escritos, desde a década de 1960, sobre Karl Marx e o marxismo
De acordo com o jornal britânico "The Guardian", ele tem um livro em revisão a ser publicado em 2013.

setembro 30, 2012

79. Músicas e guerra (2)

E voltamos com a Rádio "Músicas de Guerra". Hoje, duas canções russas.

A primeira é o clássico soviético da Segunda Guerra (ou Grande Guerra Patriótica, como chamam por lá), Katyusha. A melodia foi utilizada logo depois em outros países, como pelos resistentes italianos em seu Fischia il vento, que vimos anteriormente. Já a letra é quase um Erika ao contrário: a jovem Katyusha, diminutivo de Ekaterina, espera seu amado que cumpre o dever na guerra.

Existem inúmeras versões na internet, mas aqui vai uma que ao menos tem a tradução para o espanhol:





Em seguida, uma anterior, da época da Guerra Russo-Japonesa.
O que foi a Guerra Russo-Japonesa? Nada menos que um dos conflitos mais importantes do século e do qual quase nada se sabe por aqui. Em 1904 e 1905, a Rússia czarista e o império japonês lutaram para decidir qual seria a potência dominante na Manchúria (região nordeste da China) e Coreia. Os japoneses venceram, com consequências importantes:
a) mostrou a todo o mundo que um país asiático poderia derrotar um europeu;
b) firmou o expansionismo japonês na Ásia continental, o que mais tarde causaria sua tentativa de conquistar a China e seu envolvimento na Segunda Guerra;
c) os gastos na guerra e a derrota solaparam o prestígio do czar e precipitaram a Revolução de 1905, um prólogo moderado do que seria 1917.

Voltando à música, chama-se Nos morros da Manchúria, composta por Ilya Shatrov após a derrota russa. É um lamento aos soldados russos mortos na Manchúria e a promessa de que serão lembrados e vingados:




setembro 27, 2012

78. O alcance limitado da Comissão da Verdade

Um texto do historiador Carlos Fico que dá o que pensar. Por que a população brasileira em geral não está dando a mínima para as investigações da Comissão da Verdade? A resposta que ele oferece faz sentido: porque existe uma ênfase grande na repressão aos militantes de esquerda e membros da luta armada, que (isso ele não diz com todas as letras, mas se subentende) tinham uma posição minoritária e não compartilhada por muitos. A solução para isso: mudar o foco para as arbitrariedades e desmandos cometidos em um nível mais cotidiano, coisas como o artista que era censurado sem saber o motivo ou o político que era investigado por vingança de um rival, entre outros exemplos que Fico dá.

Ou, colocando de outra forma: é preciso resgatar as pessoas comuns que viveram no período e não necessariamente se identificavam quer com os militares quer com a guerrilha.

A opinião dele vai ser levada em conta? Dificilmente. Mas o que ele sugere é exatamente o tipo de investigação que mostraria que não eram apenas os guerrilheiros que sofreram, que poderia destruir o velho mito dos saudosistas do governo militar: "quem não criava problemas não tinha o que temer".

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Verdade para todos


Carlos Fico

Por que os trabalhos da Comissão da Verdade mobilizam apenas a militância dos direitos humanos?

Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos visitou a Argentina, em 1979, ainda durante a ditadura, formaram-se filas de pessoas que traziam suas denúncias. Depois do término do regime militar, a entrega e publicação do relatório final da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas alcançou grande repercussão.

A Comissão da Verdade da África do Sul transmitiu suas audiências pela TV e pelo rádio.

A comissão brasileira está há seis meses trabalhando, desde março deste ano. Somente neste mês de setembro decidiu que vai mesmo enfatizar a ditadura militar (e não todo o período 1946/1988, como estabelece a lei que a criou) e que apenas investigará os "agentes públicos" e não os adversários do regime, resposta à polêmica sobre investigar apenas um ou os dois "lados".

Nos eventos públicos que promove, a frequência é quase sempre a mesma, reunindo vítimas e parentes de vítimas da repressão durante o regime militar, militantes que lutam pela defesa dos direitos humanos, segmentos organizados da sociedade (movimento estudantil, alguns sindicatos), pesquisadores e quase só. As questões que a Comissão da Verdade tem levantado aparentemente não interessam à maioria da sociedade.

Isso não mudará se alguma providência não for tomada. Em agosto passado, atendendo a convite, falei à comissão sobre as razões do golpe de 1964. No final da minha exposição, pedi licença para considerar outras questões. Afirmei que seria importante incluir as "pessoas comuns" no rol das vítimas.

De fato, muitas pessoas que não participaram da luta armada, ou sequer faziam oposição ostensiva à ditadura militar, foram vítimas do regime. Mas quase não se fala delas. Um professor universitário, por exemplo, pode ter sido cogitado para um cargo de chefia qualquer em sua universidade, mas não foi promovido porque a espionagem da época impediu. Casos assemelhados podem ter acontecido nas empresas estatais e autarquias. Essas pessoas podem nem ao menos saber o que lhes aconteceu.

Políticos inexpressivos de pequenas cidades podem ter sido injustamente investigados pela Comissão Geral de Investigações (um tribunal de exceção que julgava sumariamente supostos corruptos) apenas porque um adversário local, por vingança pessoal, enviou uma carta acusando-o.

Cineastas, dramaturgos, atores, escritores e músicos foram censurados. Não necessariamente porque produziam obras de arte críticas, de protesto, mas, por exemplo, porque o censor da época identificou algo de "imoral" em seus trabalhos.

A abordagem desses e de outros casos assemelhados pela Comissão da Verdade talvez conferisse outra dimensão aos seus trabalhos, chamando a atenção da sociedade para o fato de que a ditadura militar brasileira foi muito violenta - mesmo que no Brasil não tenha havido tantos mortos quanto no caso da Argentina. Nesses exemplos não houve tortura ou assassinato, mas eles também são expressão de um tipo de violência, decorrente da capacidade do regime brasileiro de invadir o cotidiano das pessoas e - segundo seus critérios obscuros - fazer o que quisesse.

Essas histórias estão guardadas nos documentos recentemente liberados pelo Arquivo Nacional. Seria preciso pesquisá-los.

setembro 24, 2012

77. Músicas e guerra

O objetivo de hoje é mostrar que o YouTube é um acervo audiovisual gigantesco e que, se bem peneirado, pode mostrar muitas coisas interessantes além das últimas músicas de sucesso. O tema da vez, escolhido sem nenhum motivo em particular, é "músicas relacionadas a guerras" - em princípio, qualquer relação conta: músicas militares, anti-guerra, que se tornaram populares em época de guerra, etc. Vou precisar de vários posts, pois a seleção de hoje mal começa a dar conta das possibilidades. Para começar, algumas da Segunda Guerra Mundial:


A primeira se chama Le chant des partisans (A canção dos resistentes), uma das principais músicas da Resistência francesa contra a ocupação nazista:


Seguem a letra e tradução, vindas desse site:


Ami, entends-tu
Le vol noir des corbeaux
Sur nos plaines?
Ami, entends-tu
Les cris sourds du pays
Qu'on enchaîne?
Ohé! partisans,
Ouvriers et paysans,
C'est l'alarme!
Ce soir l'ennemi
Connaîtra le prix du sang
Et des larmes!

Amigo, ouves
o voo negro dos corvos
nas nossas planícies?
Amigo, ouves
os gritos surdos do país
que acorrentam?
Oh resistente,
Operários e Camponeses,
É o alarme!
Esta noite o inimigo
Conhecerá o preço do sangue
e das lágrimas!

Montez de la mine,
Descendez des collines,
Camarades!
Sortez de la paille
Les fusils, la mitraille,
Les grenades...
Ohé! les tueurs,
A la balle et au couteau,
Tuez vite!
Ohé! saboteur,
Attention à ton fardeau:
Dynamite!

Subam das minas
Desçam das colinas
Camaradas!
Tirem dos fardos de palha
As espingardas, as munições,
as granadas
Matadores,
com balas e com facas,
matai depressa!
Sabotador!
Cuidado com o teu fardo
Dinamite!

C'est nous qui brisons
Les barreaux des prisons
Pour nos frères,
La haine à nos trousses
Et la faim qui nous pousse,
La misère...
Il y a des pays
Ou les gens au creux de lits
Font des rêves;
Ici, nous, vois-tu,
Nous on marche et nous on tue,
Nous on crève.

Somos nós que quebramos
as barras das prisões
para os nossos irmãos,
o ódio que nos persegue
a fome que nos empurra
A miséria ...
Há países onde na cama
as pessoas sonham;
Aqui, nós, vê-la tu,
Nós marchamos e matamos
nós morremos.

Ici chacun sait
Ce qu'il veut, ce qui'il fait
Quand il passe...
Ami, si tu tombes
Un ami sort de l'ombre
A ta place.
Demain du sang noir
Séchera au grand soleil
Sur les routes.
Sifflez, compagnons,
Dans la nuit la Liberté
Nous écoute...

Aqui cada um sabe
o que quer, o que faz
quando passa ...
Amigo se tu caíres
Outro amigo sai da sombra
No teu lugar.
Amanhã o sangue negro
secará ao sol
nas estradas
assobiai, companheiros,
Na noite a liberdade,
ouve-nos ...


A segunda música é Fischia il vento (Sopra o vento), da resistência italiana. Mais enérgica, com a melodia da canção russa Katyusha, e muito mais comunista que sua contraparte francesa:



Letra e tradução, do letras.com.br:

Fischia il vento ed infuria la bufera
Sopra o vento e enfurece-se a tempestade
scarpe rotte e pur bisogna andar
sapatos velhos e ainda necessitamos andar
a conquistare la rossa primavera
a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

...a conquistare la rossa primavera
...a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

Ogni contrada è patria del ribelle
Cada vizinhança é pátria do rebelde
ogni donna a lui dona un sospir
cada mulher doa a ele un suspiro
nella notte lo guidano le stelle
na noite guiam as estrelas
forte il cuor e il braccio nel colpir
forte o coração e o braço para golpear

...nella notte lo guidano le stelle
...na noite guiam as estrelas
forte il cuor e il braccio nel colpir
forte o coração e o braço para golpear

E se ci coglie la crudele morte
E se si colhe a cruel morte
dura vendetta fara dal partigian
dura vingança fará do partisan
ormai sicura è già la dura sorte
no entanto já é certo o duro destino
del fascista vile traditor
do fascista vil traidor

...ormai sicura è già la dura sorte
...no entanto já é certo o duro destino
del fascista vile traditor
do fascista vil traidor

Cessa il vento, calma è la bufera
Calma o vento, calma é a tempestade
torna a casa il fiero partigian
torna a casa o altivo partisan
sventolando la rossa sua bandiera
abanando a vermelha, sua bandeira
vittoriosi, e alfin liberi siam!
vitoriosos, e enfim somos livres!

...sventolando la rossa sua bandiera
...abanando a vermelha, sua bandeira
vittoriosi, e alfin liberi siam!
vitoriosos, e enfim somos livres!
Fischia il vento ed infuria la bufera
Sopra o vento e enfurece-se a tempestade
scarpe rotte e pur bisogna andar
sapatos velhos e ainda necessitamos andar
a conquistare la rossa primavera
a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

...a conquistare la rossa primavera
...a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro 
Em terceiro, uma do lado alemão - Erika:
Não encontrei uma tradução da letra em português, mas é bastante inocente: um soldado vê uma flor de urze (em alemão, Erika) no campo e se lembra de sua noiva que tem o mesmo nome. Infelizmente essa canção tão bonita foi emporcalhada por associação com os nazistas - era a música de marcha da Waffen-SS...

setembro 03, 2012

76. E eis a dissertação

É com alegria que revelo ao mundo o resultado de dois anos de trabalho. Certamente não está perfeita - nada nunca chega a esse ponto - mas acho honestamente que ficou bastante satisfatória. Quem tiver curiosidade sobre um dos capítulos menos conhecidos da história legal e cultural brasileira pode encontrar o texto completo aqui.

75. Momento Patrimônio

Foi recentemente lançado, e disponibilizado online, um livro da UPF sobre patrimônio histórico, educação patrimonial e assuntos afins. O livro está relacionado a uma série de programas de TV sobre o mesmo tema, e todos podem ser conferidos no seguinte link: http://historiaupf.blogspot.com.br/2012/09/coletanea-momento-patrimonio-disponivel.html

julho 12, 2012

74. Caos no Mali

Se os transtornos que abalam o Mali nos últimos tempos estivessem ocorrendo em outra região do mundo que não a África, certamente nossa mídia estaria prestando atenção constante. Mas como os malineses são africanos, ganham apenas algumas notícias esporádicas.



O Mali, ex-colônia francesa com território duas vezes maior que o da ex-metrópole, tinha até recentemente um regime democrático bem estabelecido, apesar de ser um país pobre. Por "recentemente", entenda-se março, quando um golpe militar derrubou o presidente Amadou Touré. Para os militares, Touré não estava lidando de forma competente com o separatismo na região norte do país.



A imagem de satélite acima mostra a divisão geográfica do Mali: o sul mais fértil, por onde passa o rio Níger e onde se encontra a maior parte da população, e o norte desértico, parte do Saara. No norte predominam os tuaregues, etnia cuja atividade principal é o pastoreio, e que não estão restritos ao Mali, vivendo em zonas também desérticas dos países vizinhos.
Os tuaregues estão reivindicando há tempos seu próprio país, já tendo se revoltado nas décadas de 60 e 90. O que tornou sua atividade recente mais intensa? A queda do governante da Líbia, Muamar Kadafi. Com a morte de Kadafi em outubro de 2011, muitos tuaregues que formavam parte de seu exército voltaram para o Mali com armamentos pesados.



Até aqui, temos: guerra civil na Líbia > morte de Kadafi > tuaregues que serviam no exército líbio regressam ao Mali > aumento do separatismo entre os tuaregues do norte do Mali > militares depõem o presidente por não conseguir lidar com a crise.
Ironicamente, a ação dos militares serviu para precipitar a situação que queriam evitar. Enquanto militares e civis disputavam o poder na capital Bamako, os rebeldes ao norte tomaram diversas cidades. O principal grupo separatista, o MNLA (Movimento Nacional pela Libertação do Azawad), declarou independência em 6 de abril. Até o momento, o Azawad (como os tuaregues chamam sua região e o novo país) não foi reconhecido por nenhum país.

Isso poderia parecer meramente um reajuste das fronteiras africanas, tão frágeis por serem completamente arbitrárias. Como se sabe, os países do continente são quase todos derivados das colônias europeias estabelecidas no final do século 19, sem nenhuma consideração pela realidade geográfica, étnica ou política local, e isso contribuiu para tornar esses países altamente instáveis. Mas há outro elemento no caldeirão de caos malinês: o Islã militante.

O MNLA, formado por muçulmanos com tendências seculares, era o principal grupo separatista, mas não o único. O segundo grupo em importância é o Ansar Dine, muçulmanos radicais que pretendiam formar um Estado islâmico no Azawad e, diz-se, vinculados à Al-Qaida. O MNLA e o Ansar Dine aliaram-se por algum tempo, mas agora estão se enfrentando, e os radicais levam vantagem. Em particular, tomaram a cidade histórica de Timbuctu, que o MNLA pretendia tornar a capital do novo país.

Timbuctu, fundada no século 12, foi por muito tempo um centro comercial por onde passavam as caravanas trans-saarianas e um centro intelectual de difusão do Islã pela África ocidental. Um dos monumentos a seus dias de glória é a mesquisa de Djinguereber, construída no século 14, que além de servir como templo abrigava um importante madraçal (simplificando um pouco, uma faculdade/escola religiosa islâmica).


Os membros do Ansar Dine querem agora conformar Timbuctu aos seus próprios padrões de como deveria ser o Islã, mesmo que isso signifique arruinar monumentos. Nos últimos dias, entraram em Djinguereber e destruíram várias tumbas de santos sufistas enterrados ali.

O leitor talvez pergunte: eles não são muçulmanos? Por que estão destruindo monumentos muçulmanos? E o que são santos sufistas?
A resposta às duas primeiras perguntas é bem simples: o Islã é um pouco parecido com o cristianismo na sua capacidade de gerar divisões que fazem pouco sentido para quem está de fora, mas são importantíssimas para os membros de grupos rivais. O Ansar Dine, ao que parece, segue a vertente salafista, defensora do retorno às origens islâmicas e que poderíamos chamar de puritanos ou fundamentalistas. Portanto, do seu ponto de vista, eles não estão destruindo monumentos: estão purificando um santuário.
Já o sufismo é a corrente mística do Islã, tomando a palavra "místico" em seu sentido original: a busca por contato direto e pessoal com a divindade. Apesar de serem considerados pouco ortodoxos por boa parte dos demais muçulmanos, eles se mantêm até hoje. E, ao longo do tempo, alguns dos principais líderes sufistas se tornaram quase objetos de culto, com peregrinações anuais a seus túmulos, aproximando-se um pouco dos santos católicos. A reverência aos "santos" e as peregrinações são, desnecessário dizer, exatamente o que o Ansar Dine espera parar com suas depredações.

Em suma, eis a situação atual do Mali, dividido entre um governo fraco ao sul, dois grupos separatistas ao norte, um conflito com potencial para se alastrar pelos países vizinhos com minorias tuaregues, e, além de tudo, tentativas de destruir o passado e a religiosidade popular de seus habitantes. Pelo jeito, o século 21 ainda não vai ser o século da África.

julho 10, 2012

73. Mestrado, 99% concluído

Sobrevivi ao momento mais difícil do mestrado - a banca de defesa. Em poucas palavras, é o momento de o mestrando apresentar publicamente sua pesquisa e, logo em seguida, usar todo o kung fu acadêmico de que dispõe para sobreviver às rajadas de críticas de uma banca de três doutores.
Não foi exatamente agradável, mas dificilmente os ritos de passagem o são!

O 1% restante? Preciso fazer modificações sugeridas pelos membros da banca ao texto da dissertação e entregar a versão final. Comparado ao que veio até agora, realmente não passa de um por cento do trabalho total.

Um grande obrigado para todos os que apareceram e ficaram na torcida - espero ter correspondido às suas expectativas!




julho 01, 2012

72. Coliseu de Lego

Uma iniciativa original: para ajudar a atrair público para o museu da Universidade de Sydney, foi construído um Coliseu de Lego com mais de 200 mil peças e um metro de altura. Nossos museus, com acervos muitas vezes interessantes mas sofrendo de pouca divulgação, poderiam se inspirar...

Aqui, o link para a história original: http://www.smh.com.au/entertainment/art-and-design/i-came-i-saw-i-constructed-20120628-213dy.html. Mesmo para quem não lê inglês, as fotos merecem ser vistas.



junho 28, 2012

71. Novos artigos

Dois artigos meus foram publicados recentemente e seus links ainda não haviam sido colocados aqui, então aqui estão:

Colocando os Direitos Sociais em Prática: O Tratamento dado às Reclamatórias Individuais de Trabalhadores Grevistas do Frigorífico Z. D. Costi (Passo Fundo/RS, 1988) - texto feito juntamente com o colega Felipe Abal e publicado na revista Passagens da UFF. Resumindo, é uma demonstração da teoria de E. P. Thompson acerca do direito: este não pode ser um simples instrumento de controle dos dominados pela classe dominante (como dizia a interpretação marxista tradicional), porque uma legislação escancaradamente opressora não vai cumprir seu papel de enganar e facilitar a dominação de ninguém. Ao invés disso, o mundo jurídico possui uma certa autonomia e nele podemos ver conflitos sociais, que ali seguem as regras propriamente jurídicas.
O que faz bastante sentido, mesmo para quem, como eu, está longe de aderir a todas as ideias do marxismo.


COMEÇANDO A HISTÓRIA PELO INÍCIO – POSSIBILIDADES E DESAFIOS DA GRANDE HISTÓRIA - publicado na Semina da UPF. Trata de uma corrente de historiadores dos países de língua inglesa, chamada Big History ou Grande História. Seu diferencial é propor o estudo de escalas de tempo muito mais amplas do que as que os historiadores costumam empregar, para inserir a história humana no mundo ao seu redor. É cedo para dizer se a moda pode pegar por aqui, mas pode ser uma possibilidade de ensino bastante interessante, um meio de utilizar a interdisciplinaridade para superar a fragmentação decorrente de pesquisas cada vez mais especializadas.

junho 17, 2012

70. Patrimônio italiano ameaçado


Uma consequência da crise econômica italiana: o patrimônio artístico e histórico do país, que já não era preservado como deveria, está mais abandonado que de costume. Além dos problemas de Pompeia e do Coliseu, agora é a vez da Fontana di Trevi, uma das principais atrações de Roma, começar a deteriorar - pedaços da decoração já estão caindo por falta de manutenção.

Talvez seja hora de o governo italiano lembrar que a preservação de monumentos é, no mínimo dos mínimos, um investimento para atrair turistas, e que em 2011 a Itália, como quinto país mais procurado, ganhou 30.9 bilhões de euros com turismo (atrás apenas de Estados Unidos, Espanha, França e China). Isso para não falar em seu valor cultural ou como elemento de uma identidade nacional, que na Itália ainda está em construção - um país em crise pode cometer o erro de colocar a cultura em segundo plano, mas não o de esquecer suas fontes de receita.







Abaixo, a notícia do The Guardian:

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Rome's Trevi fountain crumbling 'for lack of maintenance'

City officials blame freak snowfall for damage, but critics decry 'dangerous' cuts to funding to protect Italian heritage


Ornate stucco reliefs have crumbled from the Trevi fountain, Rome's baroque masterpiece, making it the latest in a series of Italian monuments to suffer damage and reigniting a row over Italy's commitment to protect its heritage.
As hundreds of tourists lobbed pennies into the fountain's pool on Monday, workmen were erecting scaffolding around a section of the facade where fragments of a gargoyle's head and foliage crashed to the ground on Saturday night.
City officials played down the damage, blaming it on Rome's freak snowfall this winter, which caused water infiltration. But as the rest of the fountain was checked for crumbling stucco, Italy's Green party launched a campaign against what it described as dangerous cuts to the funding to maintain Rome's monuments.
"We are asking Romans to tip us off to sites which are not being taken care of," said the Green party president, Angelo Bonelli.
Bonelli cited the Colosseum, where stone fragments fell from a wall last year, and Nero's palace, the Domus Aurea, which has been closed to visitors since a roof collapsed. Archaeologists have also blamed the collapse of a number of walls at Italy's best known dig, Pompeii, on a lack of day-to-day maintenance.
The Trevi fountain, which centres on a statue of Neptune on a chariot and features a cascade of rocky waterfalls, last underwent major works in 1990.
Commissioned in 1732, it attained iconic status when Anita Ekberg waded into its 20-metre-wide pool in the 1960 film La Dolce Vita. In 2007, it ran out of water when the underground Roman aqueduct that still supplies it was blocked by workmen digging a garage.This year, masonry crumbled from the arches holding up two other, disused, Roman aqueducts in the Italian capital, the Acqua Claudia and the Acqua Felix.
"That damage, just like the damage at the Trevi, was due to the heavy snow and rain this winter," said Umberto Broccoli, Rome's cultural heritage superintendent. "Rome is not Glasgow, and buildings were built accordingly," he added.
Broccoli said that previous restoration efforts were also to blame for this weekend's damage at the Trevi fountain. "I climbed up yesterday and saw that lead struts inserted to protect the facade had split."
But he agreed that regular maintenance was key to keeping monuments from falling over. "You need more teams of masons patrolling sites," he said. "The problem is we have so many monuments. The UK has Hadrian's wall, while we have walls around every town to protect."
Sections of the Aurelian walls surrounding the city of Rome, which were built in the third century, have collapsed in recent years, but Broccoli said the walls' builders were partly to blame. "They built in a hurry, right across amphitheatres, tombs and aqueducts, and it already needed restoration by the 4th century," he said.
Obtaining the €75m (£60m) needed to restore the walls would be impossible, he added, unless Rome was allowed to cover the scaffolding with adverts, a solution that provoked fierce controversy in Venice when a huge Coca-Cola billboard blocked views of the Bridge of Sighs.

69. Convite - defesa de banca

Estão todos convidados para um pouco de circo acadêmico, com este blogueiro sendo a atração principal:


Aqui vai o resumo, a fim de dar uma ideia geral da dissertação:

Esta dissertação busca analisar, contextualizar e compreender os crimes de sedução, outrora
entre os mais frequentemente julgados pelo Judiciário brasileiro. A sedução ocorria, segundo a lei,
quando um homem seduzia uma moça menor de idade, inexperiente, e com ela mantinha relações
sexuais. Em geral, os “sedutores” eram namorados que se negavam a casar com as meninas,
levando os parentes desta a recorrer às autoridades em busca de providências. Apesar de haver uma
pena de prisão prevista para os sedutores, era raro um deles passar muito tempo no cárcere, pois a
lei também previa que o casamento entre as partes extinguia a pena, mesmo que ocorresse após a
condenação. Graças a essa medida, os processos quase não terminavam em absolvição ou
condenação, mas em absolvição ou casamento, indicando que o propósito por trás da criminalização
da sedução não era punir os réus, mas estimulá-los a aceitarem o matrimônio. Ao perseguir suas
metas casamenteiras, contudo, o Judiciário esbarrava-se com um obstáculo grave. O modelo de
união que ele buscava promover, e o único legalmente aceito, era o casamento civil, indissolúvel,
chefiado pelo homem provedor, enquanto a mulher se restringia ao espaço doméstico. Esse modelo
era comum entre as classes média e alta, mas em meio à população pobre, mais comumente
envolvida nos casos de sedução, as uniões eram diferentes, com maior número de mulheres
trabalhando e chefiando famílias, o casamento civil sendo uma opção entre outras, e os cônjuges
tendo a possibilidade de romper relacionamentos insatisfatórios, mesmo que a lei dissesse o
contrário. Diante desses contrastes, os esforços para disseminar entre os pobres um modelo pouco
apropriado à sua realidade não podiam ter mais do que um sucesso limitado. A pesquisa baseou-se
na análise de quarenta processos ocorridos na comarca rio-grandense de Soledade, uma região
predominantemente mineradora e agropecuária, entre 1942, ano em que entrou em vigor o atual
Código Penal, e 1969, ano imediatamente anterior à década de 70, em que se intensificaram
transformações culturais, legais e sociais, como a legalização do divórcio e o avanço do trabalho
feminino, que levaram a um declínio da importância do crime de sedução, até sua revogação em
2005, quando já era uma relíquia do passado.

junho 06, 2012

68. [Alunos - IEH] Aulas de 05.06 e 12.06

Pessoal,

Aqui está a apresentação dada na aula desta semana, como alguns pediram:

https://docs.google.com/open?id=0B3ykTYy6U9PFaFQ3d0dIT0N4UDg

Na próxima aula, teremos um filme sobre a maior dificuldade prática na pesquisa em história: os pontos de vista divergentes, e muitas vezes impossíveis de conciliar, que as fontes apresentam. Depois do filme, vamos fazer uma discussão, que vai ser bem mais proveitosa se lerem antes o texto do Ginzburg sobre o paradigma indiciário (está no xerox). Qual a relação? O Ginzburg mostra como o problema pode ser superado: através da investigação cuidadosa dos pequenos detalhes (os tais indícios, pistas; a propósito, paradigma significa modelo, então paradigma indiciário é só outro jeito de dizer modelo investigativo), como um detetive ou um clínico fariam.

Foi mencionado, durante a aula, o problema de conhecer mais idiomas. É um assunto importante, e quero apresentar alguns argumentos práticos para que aqueles que só leem português se interessem em resolver isso:

- acesso a material: o Brasil, vamos reconhecer, está na periferia da produção de conhecimento. Não está tão mal quanto já esteve, mas temos relativamente poucos (às vezes nenhum) pesquisadores trabalhando com muitos assuntos, períodos e regiões do mundo. Ou seja, a menos que alguma editora tenha lançado uma tradução de livros estrangeiros, o que também não é nada garantido, saber só português é se condenar a não ter acesso a muito da produção histórica;

- finanças: mesmo quando existem livros traduzidos sobre um tema, surge outro problema, o financeiro. O livro no Brasil é tão caro que quase sempre fica mais barato comprar a edição original, importada, que a brasileira. Só para dar um exemplo, vejam o Era dos Extremos, um livro importante do Eric Hobsbawm sobre o século 20. Pela Cultura, a edição brasileira custa 67 reais, e a inglesa 53,40. Importando pela Amazon, a diferença fica ainda maior - por uns 20 dólares é possível comprar o livro e pagar o frete;

- exigência profissional: nem todos vocês pretendem passar a vida dando aula no ensino fundamental e médio, e uma das alternativas é buscar a pós-graduação. Bem, o mestrado exige proficiência de leitura em uma língua estrangeira e o doutorado em duas. A UPF aceita espanhol, mas é uma exceção. E normalmente, ao entrar no mestrado, a tendência é não sobrar tempo e capacidade mental suficientes para aprender uma língua do zero;

- diferencial: saber os idiomas mais comuns (espanhol, inglês, francês) é extremamente útil, mas os mais "exóticos" têm as suas vantagens. A brincadeira sobre aprender russo para estudar o Holodomor tinha um lado sério: quantos historiadores brasileiros vocês acham que sabem russo? Muito poucos. Se souberem russo, ou outra língua incomum por aqui, vocês podem facilmente se tornar os líderes nacionais na pesquisa sobre os países que falem esses idiomas.

Considerem esses argumentos bem egoístas e pragmáticos, e nos vemos na próxima semana.

maio 30, 2012

67. [Alunos - IEH] Aulas de 29.05 e 05.06

Caros alunos,

Na próxima aula, 05/06, vamos trabalhar com tradições historiográficas não-ocidentais: como outros povos concebiam a história? Obviamente, uma aula não é suficiente para esgotar o assunto, então vamos fazer uma introdução a duas das principais tradições, a islâmica e a chinesa.
Duas tradições, dois textos para ler. Para a historiografia islâmica, leiam este texto sobre Ibn Khaldun, importante historiador do século 14, que mostra como os muçulmanos faziam história em seu momento de maior esplendor intelectual. E para a chinesa, este artigo traz um panorama geral de seu desenvolvimento e traços característicos. Em aula vamos discutir melhor a relação entre a produção histórica de muçulmanos e chineses e suas trajetórias históricas próprias, mas os textos indicados oferecem contextualização suficiente para esclarecer ao menos alguns dos pontos principais.

Para quem não sabe, temos uma avaliação a ser entregue no dia 19/06 - uma resenha do livro Apologia à história, de Marc Bloch (está no xerox). Será equivalente à segunda prova - as duas anteriores, avaliadas pelo prof. Eduardo, equivaleram à primeira prova.
Normas: fonte Times New Roman 12, espaçamento 1,5, margens de 2 cm, de 5 a 10 páginas. Deve ser entregue uma cópia impressa.
O que é uma resenha exatamente? Vocês podem encontrar mil e um guias de como fazer uma na internet (por exemplo, aqui e aqui), mas para os nossos propósitos, existem dois elementos centrais: resumo e posicionamento crítico. Podem ser duas partes separadas do texto, ou podem se misturar.
O resumo é uma síntese da totalidade do livro, do que mais importa nele: por que ele foi escrito? Quais as ideias do autor? Que argumentos ele utiliza? Podem resumir cada capítulo, ou as ideias principais do conjunto da obra - o importante é não se perder nos detalhes e questões secundárias. Na hora de formular o resumo, é bom ainda lembrar o contexto em que o livro foi produzido, que consta no prefácio.
O posicionamento é, como o nome já diz, uma tomada de posição pessoal em relação ao livro. Lembrem que é o trabalho final da cadeira de Introdução e façam ligações com outros temas e textos já vistos. Concordam com uma parte? Discordam de outra? Que ideias do livro poderiam ser mais aprofundadas? Quais serão mais úteis para vocês? E deve ser crítico, baseado em argumentos - justifiquem, expliquem o que disserem. É sempre bom puxar ideias de outros textos para argumentar, com a única condição de fazer a devida citação.

Finalmente, duas coisas relacionadas à aula de hoje. Primeira, os sites institucionais que foram mencionados, para darem uma olhada e se familiarizarem - isso também faz parte da educação acadêmica, aprender os eixos norteadores do sistema em que operamos:
http://www.anpuh.org/ - o site da ANPUH, nossa principal associação de historiadores. Cheio de notícias da área.
http://portal.mec.gov.br/index.php - site do Ministério da Educação. Avalia os cursos de graduação e formula currículos para ensino fundamental e médio.
http://www.capes.gov.br/ - CAPES, que avalia cursos de pós-graduação, periódicos acadêmicos e científicos e distribui bolsas de pesquisa. O Qualis, avaliação de periódicos, está aqui (http://www.capes.gov.br/avaliacao/qualis). O Qualis busca indicar a qualidade das publicações em cada área, sendo muito questionável em que medida isso é realmente feito, mas é bom saber que ele existe e como funciona.
http://www.cnpq.br/ - CNPq, que distribui bolsas de pesquisa e mantém a plataforma Lattes, uma espécie de Facebook acadêmico (http://lattes.cnpq.br/) - é útil para saber a produção de um pesquisador (por exemplo, o autor de um livro que queremos ler...) e pode ser pesquisado por palavras chave, permitindo ter uma noção de quem faz pesquisas em determinado campo.

Segunda, a bibliografia complementar sobre campos históricos, agora com alguns acréscimos. À medida que se interessarem por uma ou outra linha de pesquisa, os textos ajudam a se situar e saber em que estado está um campo, quais os conceitos mais comuns, as obras de referência principais:

Gerais:

Ciro Cardoso e Ronaldo Vainfas - Domínios da história
José D'Assunção Barros - Campos da história
José D'Assunção Barros - Teoria da história, volume 1
Verena Alberti e outros - Fontes históricas
Carla Pinsky e outros - O historiador e suas fontes

Específicos a um campo:

Verena Alberti - Manual de história oral
Peter Burke - O que é história cultural?
Ronaldo Vainfas - Os protagonistas anônimos da história  [sobre micro-história]
José Pádua - As bases teóricas da história ambiental
Joan Scott - Gênero, uma categoria útil de análise histórica
Cláudia Viscardi - História, região e poder  [sobre história regional]


Quaisquer dúvidas, podem enviar um e-mail para ehr.historia@yahoo.com.br, e nos vemos na próxima semana.

maio 29, 2012

66. Aviso aos leitores habituais

Pelas próximas semanas, este blog vai ganhar uma segunda função, servindo também para comunicação com os alunos.
Que alunos? Por problemas de saúde do professor Astor, titular da disciplina de Introdução aos Estudos Históricos na UPF, fiquei encarregado de segurar o front e cuidar das vítimas indefesas dos alunos pelo resto do semestre. Vou colocar aqui indicações de leitura, instruções para trabalhos, entre outras coisas técnicas que não interessam muito quando fora de contexto.
Para evitar dúvidas, esses posts vão conter uma indicação no título: [Alunos - IEH].

De resto, a função original do blog, de instrumento de divulgação histórica, se mantém. A fase final da dissertação anda roubando o tempo que seria usado para elaborar mais textos, então peço compreensão quanto à manutenção um tanto quanto irregular.

maio 14, 2012

65. Quando Roberto Carlos bancou o censor

O cantor Roberto Carlos é conhecido por todo o Brasil. O censor Roberto Carlos já foi esquecido por muitos, embora os dois sejam a mesma pessoa. Há alguns anos, RC foi à justiça para proibir a publicação de uma biografia sua feita pelo historiador Paulo César de Araújo. A justificativa? Não que a biografia tivesse erros graves ou qualquer desrespeito ao biografado. O problema era mais simples: RC alegava que o seu passado, sua história de vida, fazia parte do seu patrimônio. Nosso Judiciário concordou com essa tese absurda que estende a propriedade privada ao passado, e sabe-se lá como vai ficar a vida dos historiadores se outras pessoas importantes resolverem seguir o precedente.
O site Café História está com uma entrevista a Paulo César de Araújo, incluindo sua opinião sobre esse acontecimento lamentável e outros episódios de sua vida de pesquisador.


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Um Biógrafo em Detalhes
Em entrevista ao Café História, o historiador e jornalista Paulo César de Araújo fala de sua obra proibida sobre Roberto Carlos e também de suas pesquisas no campo da Música Popular Brasileira. Tudo, em detalhes
Baiano de Vitória da Conquista, mas erradicado há vários anos em Niterói, Paulo César de Araújo vem se consolidando como um dos principais pesquisadores brasileiros da chamada Música Popular Brasileira. Em 2002, lançou o excelente “Eu não sou Cachorro, Não: música popular cafona e ditadura militar”, livro com o qual quebrou tabus ao discutir como os cantores considerados “cafonas” também foram alvos da ditadura militar no Brasil, além de ressaltar a importância deste gênero musical na história da MPB. No final de 2006, Paulo César deu sequencia ao seu trabalho no campo da música lançando a biografia de Roberto Carlos, intitulada “Roberto Carlos em Detalhes”, pela Editora Planeta. Em poucos meses, o livro tornou-se um best-seller, vendendo mais de vinte mil cópias.

O sucesso, porém, foi interrompido por um processo movido pelo próprio Roberto Carlos na 20a Vara Criminal da Barra Funda, na cidade de São Paulo. O cantor, que considera-se o único detentor dos direitos de sua história, chegou a pedir no processo a prisão de Paulo César. Interessou-se por essas histórias? Então, não perca a nova entrevista do Café História, que está imperdível!
Paulo César de Araújo: Jornalista formado pela PUC-RJ e Historiador pela UFF, além de mestre em Memória Social pela UNIRIO e professor de história em escolas públicas da capital fluminense.
CAFÉ HISTÓRIA: Paulo César, seja muito bem-vindo e muito obrigado pela entrevista. É um prazer recebe-lo aqui no Café História. Vamos começar nossa conversa falando sobre o principal debate público envolvendo o seu nome nos últimos anos: a proibição de seu ensaio biográfico “Roberto Carlos em Detalhes”, em 2007. Na época, você chegou a correr risco de ter que pagar uma multa milionária e até mesmo de ser preso. Como esse episódio impactou em sua vida pessoal e profissional e em que pé esse imbróglio está hoje?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Corri risco não apenas de pagar multa milionária, mas também de ser preso, pois RC pediu minha condenação e prisão no processo criminal. Mas apesar dessas ameaças e da proibição do livro, não me sinto derrotado. A biografia foi escrita, publicada, reconhecida pela crítica e pelo público, se tornou um best-seller. Claro que lamento o que aconteceu. Lamento por mim e pelo próprio Roberto Carlos. A esta altura da carreira ele não precisava ter este triste capítulo na sua história. Mas minha advogada continua brigando na Justiça para trazer meu livro de volta. E isto ficará mais fácil quando for aprovada a Lei das Biografias (Projeto de Lei 3378/08), que está sendo discutida no congresso. De autoria do deputado federal Newton Lima, o projeto altera o artigo 20 do Código Civil, tornando livre informações biográficas de pessoas famosas ou de notoriedade pública. Nesse sentido, estou em duas frentes: na Justiça e torcendo para o Congresso aprovar logo a Lei das Biografias.
CAFÉ HISTÓRIA: Paulo, a Editora Planeta, que publicou o livro, acatou facilmente a decisão da justiça e lhe deixou desamparado. Como foi a sua relação com a editora? Hoje, você está totalmente sozinho na luta pela publicação do livro?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Minha relação com a Editora Planeta foi boa durante todo o processo de produção do livro. A postura da editora também foi positiva no primeiro momento da briga judicial, quando prometeu que seus advogados iriam defender o autor e o livro. Porém, isto não ocorreu. Ela capitulou na audiência de conciliação. É unânime que a Editora Planeta falhou ao não levar esta briga adiante. Isto teria sido bom para a imagem da própria editora, que honraria seu nome. Mas, infelizmente, ela optou por uma solução imediatista, mais cômoda e barata. Hoje não tenho mais nada com esta editora, pois o contrato para edição do meu livro já venceu e não foi renovado. Sigo agora minha luta sozinho, e quando “Roberto Carlos em detalhes” for reeditado, será por outra editora.
CAFÉ HISTÓRIA: Nos últimos anos, você deu diversas entrevistas sobre o tema. No entanto, boa parte da imprensa tratou a questão como uma disputa sua com o Roberto Carlos. Mas o foco principal deste debate não deveria estar na legislação brasileira? Qual a sua opinião sobre a nossa legislação?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: A rigor, se as leis fossem devidamente interpretadas pelos magistrados, ou seja, com ponderação, bom senso, nem precisaria mudar a legislação. Mas, infelizmente, nem sempre isto ocorre. Na nossa Constituição o direito à liberdade de informação e o de privacidade se equivalem em termos de peso, um não prevalece sobre o outro. Eles são tratados como direitos iguais. Ocorre que houve um retrocesso com o novo Código Civil de 2002, que deu um peso maior à proteção da imagem e da privacidade em detrimento do direito de informação. Porém, Código Civil é lei ordinária e não poderia prevalecer sobre uma lei maior, a Carta Magna. Mas na prática os juízes têm evocado este artigo 20 para justificar seus atos censórios. Os advogados de Roberto Carlos, por exemplo, se agarraram a este mesmo artigo para obter a proibição do livro. Por isso, é mais do que necessário o projeto que tramita no Congresso visando mudar o artigo 20 do Código Civil.
CAFÉ HISTÓRIA: Paulo, no I Festival de História, realizado na cidade de Diamantina, em outubro de 2011, você disse que o livro circula na internet sem qualquer tipo de controle. E que ele tem sofrido até mesmo edições e acréscimos dos leitores. Isso é bastante inusitado, não? Que tipo de alteração você já viu? Na sua opinião, o livro ainda circular nesse meio lhe prejudica ainda mais ou pode ser positivo?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: O livro apareceu na internet logo após a sua proibição, em 2007, e entendi isto como um ato de desobediência civil. Mas nas primeiras versões a biografia aparecia com modificações, as pessoas incluíam textos de outros livros e até piadinhas com Roberto, Erasmo e Wanderléa. Registre-se, entretanto, que vários outros livros (e também músicas) correm livres na internet. Isto é um dado da realidade atual. O que lamento é que meu livro não possa continuar também livremente nas livrarias, na forma como foi originalmente publicado. Seja como for, o importante é que “Roberto Carlos em detalhes” continua acessível ao público. Eu escrevi para ser lido. E atualmente recebo mensagens de uma nova leva de leitores que afirmam estar lendo o livro na internet.
CAFÉ HISTÓRIA: “Roberto Carlos em Detalhes” é fruto de 15 anos de pesquisa. E não é exatamente uma biografia, como você mesmo disse em outras ocasiões. Trata-se de uma pesquisa que tenta responder o que é o fenômeno Roberto Carlos. Como você respondeu essa pergunta em seu livro? Que chaves de entendimentos foram utilizadas?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Eu uso o Roberto como fio condutor para contar a história da moderna música brasileira, surgida a partir dos anos 50. Seguindo os passos de Roberto Carlos analiso a jovem guarda, a bossa nova, o tropicalismo, os festivais da canção, a ditadura militar e outros momentos e movimentos ocorridos ao longo deste período. Trato Roberto como personagem da história do Brasil, não apenas como cantor. Escrevi sobre ele como poderia escrever sobre Lula, Pelé, Luiz Carlos Prestes, personagens marcantes da nossa história. O resgate de trajetórias individuais é útil para iluminar questões ou contextos mais amplos. Como ensina Eric Hobsbawm, o acontecimento, o indivíduo, não são fins em si mesmos, mas constituem o meio de esclarecer questões mais abrangentes, que vão além da história particular e seus personagens. Foi o que me propus ao escrever sobre a trajetória de Roberto Carlos na história brasileira.
CAFÉ HISTÓRIA: A proibição do livro abre um precedente perigoso: pessoas públicas são as únicas detentoras, intérpretes e senhoras de suas própria história. Na sua opinião, qual as implicações deste tipo de premissa para o trabalho do historiador?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Roberto Carlos resumiu este pensamento ao justificar porque entrou na Justiça contra mim. “A minha história é um patrimônio meu, quem escreveu este livro se apropriou deste meu patrimônio e o usou em seu próprio beneficio". Esta talvez seja a forma mais radical que se conhece de propriedade privada; não apenas aquela sobre os meios de produção, um imóvel ou um automóvel, mas a propriedade privada de sua história. Se isto prevalecer, ninguém poderá mais contar a história do Brasil. Imagine se o presidente Lula ou os herdeiros de Getúlio Vargas também reivindicassem que a história deles é patrimônio exclusivo e que ninguém poderia escrever sobre o tema sem autorização? Nesse sentido, o caso é realmente grave e necessita da reação da sociedade.
CAFÉ HISTÓRIA: Deixemos Roberto Carlos de lado, agora. Seus trabalhos vão bem mais além deste episódio. Você escreveu um livro importantíssimo sobre a música popular brasileira, “Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e a ditadura militar”, que rompe com um silêncio: músicos considerados “cafonas” durante a ditadura militar também sofreram com o autoritarismo vigente no país. Como surgiu a ideia desse livro e que fontes você utilizou em sua pesquisa?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: A ideia deste livro surgiu a partir de uma constatação: a música brega estava excluída dos livros de história da nossa música popular. Quando ingressei na faculdade percebi que as pessoas falavam bastante de rock, bossa nova, tropicalismo, samba de raiz, mas não tinham maiores referências sobre a história da música brega. É como se ela não existisse, fosse invisível. A partir desta constatação resolvi investigar o repertório e o porquê da exclusão. Mas eu não queria ficar restrito à produção musical, avancei também pela história social, relacionando as canções ao tempo histórico em que foram produzidas. E na pesquisa constatei que os cantores bregas também foram censurados pela ditadura militar. Pesquisei diversas fontes: arquivos da censura, discos, jornais, revistas, além de entrevistas que realizei com os cantores bregas. A discografia foi garimpada em sebos, pois estava quase tudo fora de catálogo. Fui ao Arquivo Nacional do Rio e em Brasília atrás de documentos da Censura, que hoje já podem ser facilmente acessadas, mas na época requeria um trabalho de detetive.
CAFÉ HISTÓRIA: Quais foram os artistas do chamado “brega” ou “cafona” que mais sofreram nas mãos do regime militar? E o que no trabalho desses artistas incomodava aos militares e a direita?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Eles incomodaram porque na época não havia apenas repressão política; havia também repressão moral. A referência explícita à sexualidade era identificada como um ato de subversão. O cantor podia dizer “eu te amo, eu te adoro”. Isto não era problema. Mas Odair José cantava: “Eu te amo debaixo do chuveiro”. Aí era proibido. As composições bregas focalizavam temas como prostituição, homossexualismo, adultério, divórcio, racismo, alienação, consumo de drogas, exclusão social. Temas tabus e de impressionante modernidade. Não por acaso Odair José foi um dos mais censurados artistas no período da ditadura. Ele ousava, desafiava a repressão. Por exemplo: 25 anos antes de Marcelo D2, Odair gravou a balada apologética “Viagem”, que convida: “Venha comigo na minha viagem / não se preocupe eu tenho as passagens...”. Outro tema como, por exemplo, o divórcio, que não aparecia no repertório da MPB dos anos 70, foi bastante comentado pelo repertório brega. Ou até mais do que isto. Em 1977, quando muito se falava dos treze anos da chamada “revolução de 64”, Luiz Ayrão fez uma música chamada “Treze Anos”, que diz: “Treze anos eu te aturo e não aguento mais / Treze anos me seguro e agora não dá mais / Se treze é minha sorte, vai, me deixa em paz..”. O título e a mensagem eram óbvios demais e a música foi proibida. Mas, aí, malandramente, ao melhor estilo de um Julinho da Adelaide, Ayrão mudou o título para “O divórcio” e enviou a música para um outro órgão da censura. Os censores de plantão imaginaram tratar-se de mais uma canção de amor e liberaram a gravação.
CAFÉ HISTÓRIA: Em “Eu não sou cachorro, não”, são reveladores os depoimentos de Waldik Soriano sobre a tortura, além de outros igualmente reveladores, como Agnaldo Timóteo e Odair José. Porque esse capítulo da história ficou tanto tempo silenciado? E o que os artistas deste gênero acharam do livro? Pelo visto, foram mais elegantes que Roberto Carlos, não?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Este capítulo estava fora da história porque no campo da nossa música popular se produziu uma memória histórica autoritária e excludentes. Isto tem a ver com o que o sociólogo Michel Pollak chama de processo de enquadramento da memória. Há um fosso que separa a memória de grupos sociais marginalizados da memória nacional dominante. Os cantores bregas fazem parte da memória afetiva da maioria da população brasileira. Porém, a história tem sido contada por uma elite intelectual que despreza este repertório popular. O resultado foi um amplo descaso com a trajetória de artistas de grande importância para a vida de milhões brasileiros. Além de excluídos dos benefícios do sistema econômico, para grande parte da nossa população não lhes restava nem o registro da sua história, dos seus ídolos e intérpretes. Meu livro foi bem recebido por todos os artistas bregas. Recentemente, na revista Piauí, Odair José até fez um comentário interessante ao dizer que depois de ler “Eu não sou cachorro, não” passou a ter mais afeto e respeito por sua própria obra. Ou seja, Odair havia introjetado o discurso dominante.
CAFÉ HISTÓRIA: O cantor Lobão vem nos últimos anos se notabilizando por seus comentários críticos sobre a música popular brasileira. Comentários insistentes e em muitos pontos até mesmo superficiais. Existe hoje uma incompreensão da música popular brasileira? Na sua opinião, como devemos problematizar a música produzida ontem e hoje no país?
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: Costuma-se dizer que todos brasileiro é técnico de futebol, porque todos nós entendemos deste esporte. No campo da música popular acorre algo parecido. Todos são especialistas em MPB, todos debatem, discutem, opinam, escrevem, mas geralmente de maneira superficial. Um dos grandes problemas é que os pesquisadores não separam seu gosto pessoal da análise. E então acontece algo do tipo: “eu gosto de Chico Buarque, logo Chico é o maior nome da história da MPB”. Ou, “eu gosto mais de Noel Rosa, logo é Noel o maior de todos os tempos”. Geralmente os pesquisadores colocam o seu gosto pessoal ou o da sua classe como parâmetro para definir o passado musical da sociedade. E aí pode ocorrer de alguém se propor a contar a história da música popular brasileira do fim do século 20 e não destacar o funk carioca, o sertanejo ou pagode por considerá-los ruins ou de mau gosto. Mas, afinal, quais os critérios de julgamento na definição da “boa” música popular? Por que Nelson Sargento é considerado bom e Waldick Soriano ruim? Quem determina estes critérios como universalmente válidos? Estas questões precisam ser problematizadas nas análises de nossa música popular.
CAFÉ HISTÓRIA: Para encerrar nosso ótimo papo, Paulo, duas rápidas perguntas curiosas. 1) Você está preparando algum novo livro sobre música? 2) Você é um grande flamenguista. Já pensou em biografar algum jogador do Flamengo ou de outro clube do futebol brasileiro? Afinal não existe maior dobradinha no Brasil do que música e futebol...
PAULO CÉSAR DE ARAÚJO: No próximo trabalho vou narrar os bastidores da pesquisa que resultou nos meus dois livros, “Eu não sou cachorro, não” e “Roberto Carlos em detalhes”. Ao longo de quinze anos de pesquisa entrevistei cerca de 200 personagens da música brasileira. Vou falar de meus encontros com Tom Jobim, Waldick Soriano, João Gilberto, Tim Maia, e dos desencontros com Roberto Carlos. Enfim, vou contar a minha história, os caminhos de um biógrafo. Depois pretendo sim fazer um trabalho sobre futebol. Tenho, inclusive, uma pesquisa iniciada no tempo da faculdade. Só não defini ainda se será a biografia de algum craque ou uma análise mais geral. Seja com for, o Flamengo será destaque, pois é um dos construtores da grandeza do nosso futebol.

maio 12, 2012

64. 2012, o ano em que o mundo não terminou

Novas descobertas arqueológicas contribuíram para tornar ainda mais inverossímil a ideia de que os maias esperavam que o mundo terminasse em 2012. Este ano marca apenas o fim de um ciclo do calendário maia, um ciclo entre outros após o que a vida continuaria normalmente, da mesma maneira como ninguém espera que o mundo termine em 31 de dezembro de 9999 - o fato de quase sempre representarmos os anos com quatro dígitos é simplesmente para nossa conveniência.

Ou, colocando o assunto de outra forma: somos nós que estamos com uma mentalidade apocalíptica de que tudo pode acabar a qualquer momento, e nos apegamos a uma possibilidade muito pequena de que os maias também pensassem assim e ainda de quebra soubessem de algo que nós ignoramos a respeito. Lamento dizer aos desastrólogos de plantão que não é bem assim, e recomendo que adiem um pouco a data do apocalipse...

Uma versão meio difícil de compreender da notícia em português no Estadão, e abaixo segue o artigo do El País, muito melhor explicado:


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Descubierto el calendario maya más antiguo en unas ruinas de Guatemala

Las inscripciones estaba soterradas desde hace siglos en un habitáculo a un metro de la superficie

Sus códigos refutan el supuesto de que el mundo se acabará en 2012, según los descubridores

En el año en que la antigua civilización maya se ha puesto de moda por su supuesta previsión de un cataclismo para el 21 de diciembre de 2012, un nuevo hallazgo de restos de esta cultura ha impactado al mundo de la arqueología. En la ciudad-ruina de Xultún, en Guatemala, se ha descubierto una pequeña habitación soterrada que alberga el calendario astronómico maya más antiguo que se haya conocido.
Y, cómo no, los científicos que lo han encontrado han tenido que responder a la pregunta maya más de actualidad. ¿Hay alguna pista nueva sobre el fin de los días en la próxima Navidad? De acuerdo con las explicaciones de uno de los científicos que forman parte del hallazgo, el arqueólogo William Saturno, de la Universidad de Boston, en este calendario no hay rastro del apocalipsis; es más, afirma que han detectado una novedad que contradice la posibilidad de que los mayas previesen esta fecha -o cualquier otra- como el punto final del mundo. En los restos del calendario han identificado 17 ciclos astronómicos, en vez de los 13 acostumbrados, y ello desmontaría la teoría de que las viejas averiguaciones mayas hayan previsto el caos definitivo para 2012.
En realidad, lo notable del descubrimiento no tiene tanto que ver con el apocalipsis como con otros factores menos cinematográficos pero que probablemente interesen más a los entendidos. Los expertos involucrados en el hallazgo, Saturno y David Stuart, de la Universidad de Austin, resaltan que lo más asombroso es cómo se han podido conservar estas pinturas primitivas -en las que está plasmado el calendario- en un habitáculo que ha pasado siglos enterrado a un metro de la superficie.
La estructura fue descubierta en 2010 por Max Chamberlain, un estudiante del equipo de Saturno, que estaba siguiendo las trincheras abiertas por saqueadores a través de la ciudad de Xultún, escondida en la selva de la zona de Petén, un territorio de ruinas de 16 kilómetros cuadrados de extensión descubierto en 1915 por el el arqueólogo estadounidense Sylvanus Morley (1883-1948).
Además de lo extraordinario de que los restos se encontrasen en buen estado, los investigadores inciden en la importancia de la antigüedad del calendario, fechado en el siglo 9 d.C., según informa la revista Science, y también anotan lo novedoso del soporte. "Lo más interesante es que ahora vemos que los mayas estaban haciendo estos cálculos cientos de años antes de que se registraran en los códices, en lugares que no eran libros", ha valorado el arqueólogo Saturno en sus apreciaciones académicas sobre el descubrimiento, alejadas ya del debate sui generis del fin del mundo, que, en sus palabras, es una polémica "manipulada", dado que, de acuerdo con su tesis, el calendario maya no tiene término, es un ciclo que donde acaba vuelve a empezar y se perpetúa millones de años.
Lo interesante del hallázgo es que los mayas hacían cálculos ya antes de los códices
Dicha hipótesis, que corta las ilusiones o los temores de los aficionados a las teorías más fatalistas, coincide con la expresada en 2011 en un foro de expertos mayistas organizado el pasado otoño en Chiapas por el mexicano Instituto Nacional de Antropología e Historia. La conclusión común de los conocedores de la ciencia maya -astrofísicos, historiadores, epigrafistas [es decir, intérpretes de inscripciones], arqueólogos- fue que las leyendas del fin del mundo en 2012 son "descontextualizaciones" de elementos de una cultura antigua que, básicamente, tienen que ver con el "desasosiego" de la sociedad contemporánea, avivado por problemas como "la inestabilidad político-económica o el cambio climático".
En aquellas conferencias se ofrecieron distintos detalles sobre la cuestión del cataclismo maya. Erik Velásquez, del Instituto de Investigaciones Antropológicas de la UNAM, la mayor universidad mexicana, comentó que las profecías apocalípticas empezaron en los años 70 al hilo de un libro escrito por un escritor llamado Frank Waters que, según Velásquez, hizo una mezcolanza de creencias con mucho tirón. "Así se inició toda una secuencia de literatura de la Nueva Era, o New Age, que ha crecido con el paso de los años generando grandes dividendos y satisfaciendo la necesidad de mucha gente de creer, pero sin ningún sustento académico", expuso el científico.
Los expertos creen que las ideas sobre un cataclismo en 2012 son propias del "desasosiego" de la sociedad actual 
Velásquez y otro académico, Sven Gronemeyer, hicieron hincapié en que la civilización maya tenía una concepción cíclica del tiempo. "De ninguna manera pensaron que el mundo se acabaría en 2012", sentenció Velásquez. Otro colega científico que estuvo en el foro, el astrofísico, Jesús Galindo, también de la UNAM, le quito peso al rumor ancestral de que nos quedan solo unos pocos meses sobre la faz de la tierra. Afirmó que es vano fabular con que un cometa nos "extermine", porque estos fenómenos no se pueden predecir con ninguna exactitud, y tampoco compartió la opción de que una serie de erupciones solares achicharren nuestro planeta: "eso sucede cada 11 años, pero por suerte tenemos un escudo magnético que evita que nos afecte", argumentó. El doctor Galindo, al igual que sus compañeros y que los responsables del nuevo hallazgo en Guatemala, no cree que los mayas pudiesen prever una hecatombe natural que nos borrase de golpe y plumazo de la existencia el próximo 21 de diciembre, tres días antes de la cena de Nochebuena: "No hay posibilidad de que nadie plantee un fin del mundo", aseveró en el foro el científico mexicano; "ni los mayas ni la ciencia actual".

abril 14, 2012

63. As aventuras do "servo de Deus"

Saiu recentemente um texto meu no jornal O Nacional, minha contribuição para a coluna do Arquivo Histórico Regional. Os leitores mais assíduos vão reconhecer o tema, um caso de curandeirismo no interior gaúcho ocorrido nos anos 60. Transformar o texto acadêmico anteriormente produzido em outro para um público mais geral foi uma experiência positiva, mas difícil - em um espaço limitado, precisei contar um causo pitoresco, mostrar a importância do Arquivo e transmitir um pouco da ideia de que "o passado é um outro país". Deixo a outros decidirem o quanto fui bem-sucedido:

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AS AVENTURAS DO “SERVO DE DEUS”
Sexta-Feira, 13/04/2012 por Arquivo Histórico Reginal

    Dos muitos pequenos tesouros guardados no Arquivo Histórico Regional, os milhares de processos criminais estão entre os mais importantes. Não que os casos tenham envolvido pessoas famosas ou gerado repercussão nacional (talvez alguns tenham – muito do material ainda está por ser estudado). Na verdade, a sua importância histórica se dá exatamente pelo motivo oposto: envolver gente comum. Lendo seus depoimentos e histórias de vida e prestando atenção aos detalhes, é possível descobrir informações valiosas sobre a vida cotidiana, a mentalidade, as relações sociais e muitas outras coisas que dificilmente se encontram em outros documentos do passado. Para alegria dos pesquisadores, alguns dos casos, além de ricos em informações, também fornecem boas histórias. Eis uma delas, derivada de um processo criminal.
    O ano era 1966. O lugar, o interior da pequena e recém-emancipada Fontoura Xavier. Um agricultor, ao passar na casa de um amigo, encontrou ali outro visitante, que logo descobriu ser um “curandeiro”, conhecido por seus remédios de chás e ervas. Isso veio a calhar para o agricultor, pois sua mulher sofria de uma doença de pele. Ele pediu para que o homem ajudasse sua esposa. O convite foi aceito e o curandeiro empregou seus remédios habituais, que surtiram algum efeito, terapêutico ou psicológico: enquanto ele esteve ali, ela não sentiu sintomas de sua doença. O casal, agradecido, hospedou em sua casa e pagou suas despesas para que ele morasse ali, continuando o tratamento. Ele havia adquirido seus dois primeiros seguidores.
    Nos meses seguintes, o curandeiro, um homem de meia idade e analfabeto, expandiu suas ambições. Praticamente mandava na casa, criando desavenças entre o casal e jogando um contra o outro. Começou a dizer que era um servo de Deus, que “havia sido enviado para apartar o bem do mal”. Com uma roupa que misturava trajes de médico e padre, começou a realizar consultas para os moradores da região, fazendo um sucesso considerável: de acordo com um depoimento, ele chegava a realizar até quarenta consultas por dia. Algumas vezes cobrando a consulta, outras vezes apenas os remédios, estava ganhando bem com suas curas. A vida estava agradável para o curandeiro, e poderia ter continuado assim se um outro lado de suas atividades não tivesse sido descoberto.
    O casal que o hospedava tinha uma filha adolescente, com o casamento já marcado para o início do ano seguinte. O “servo de Deus” havia sido convidado como padrinho, mas recusou, dizendo que ele mesmo tinha capacidade para realizar o casamento e até mesmo batizados. A confiança de todos da casa no suposto homem de Deus era tamanha que ninguém viu problema em deixar a adolescente a seu serviço todos os dias para ajudar na preparação dos remédios. Isso é, ninguém viu problema até o dia em que seus pais descobriram que ela estava grávida de três meses. Havia sido seduzida pelo curandeiro, que dizia precisar de uma “profetisa”. Ela queria ter contado antes o que acontecera, mas ele ameaçou matar toda a família, dizendo ter poderes sobrenaturais e ser capaz de eliminar uma pessoa sem encostar nela.
    Foi o fim das curas do “servo de Deus”. O agricultor explicou a situação à polícia, que prendeu o curandeiro ao tentar fugir para Barros Cassal, onde morava com sua família: era casado e pai de oito filhos. Ele tentou se defender de todas as formas possíveis, claro: disse que nada tinha acontecido entre ele e a jovem; que não cobrava por seus remédios e apenas estava realizando seu dever de caridade como espírita. Foi em vão, pois o curandeirismo era crime, como continua sendo até hoje, se aproveitar de uma menor era ainda mais grave e as provas contra ele eram convincentes. Recebeu pena de quase cinco anos de prisão, sendo chamado pelo juiz de “pretenso místico explorador da boa fé e crendice exagerada” da população rural, que vivia em estado de abandono social. Como o juiz poderia saber que, quase cinquenta anos depois, o curandeirismo estaria ainda vicejando no campo e nas cidades?

Emannuel Reichert
Mestrando em História/UPF
Fonte: Acervo do AHR
* Os artigos expressam a opinião de seus autores.

abril 04, 2012

62. Introdução a Confúcio

O blog Orientalismo, de André Bueno, está com uma ótima novidade: uma tradução em andamento das obras de Confúcio. A primeira parte está disponível neste link. A iniciativa é mais importante do que parece porque, mesmo Confúcio sendo um pilar da filosofia chinesa, as traduções são raras e normalmente de segunda mão - meu exemplar dos Analectos, da L&PM, foi retraduzido do francês.

Para que os interessados possam tirar melhor proveito do texto, pensei que valeria a pena contextualizar Confúcio, que quase todo mundo só conhece de nome. Não sou sinólogo, então vou ficar no básico, mas isso já pode ser um avanço em comparação com o silêncio que reina aqui em torno do pensamento chinês.

Melhor dizendo, Confúcio não é conhecido aqui nem de nome. Confúcio não se chamava assim. Esse nome é um aportuguesamento do latim Confucius, que foi como os jesuítas - primeiros ocidentais a manterem um contato regular e intenso com a China e a se interessarem por suas tradições cuturais - adaptaram a forma como o pensador é conhecido entre os chineses: Kongzi, ou, literalmente, Mestre Kong. Sim, ele se chamava Kong. Mas como algumas tradições são difíceis de mudar, vou continuar a chamá-lo de Confúcio aqui, e todos vão saber na hora de quem estou falando.

Confúcio viveu de -551 a -479, o chamado Período da Primavera e Outono, em que a China, até então governada pela dinastia Zhou (-1046 - -256), fragmentou-se em vários pequenos reinos, com os Zhou tendo poder apenas nominal sobre seus "vassalos". Aos que pensam que a China é milenar e imutável, é bom ver o que exatamente era a China de então:


No mapa maior, os principais reinos da época de Confúcio, com destaque para o reino ocidental de Qin, que mais tarde unificou toda a região. No mapa menor acima à esquerda, a comparação entre a área ocupada por esses reinos e a China atual, imensamente maior, fruto de muitas migrações e conquistas ao longo dos séculos. Mas essas são outras histórias.

Confúcio nasceu no reino de Lu em uma família empobrecida, subindo na vida até se tornar ministro da Justiça de Lu. Infelizmente para ele, o duque de Lu estava preocupado apenas com os próprios prazeres, e os projetos confucianos de reformar o governo fracassaram por falta de apoio. Decepcionado, ele abandonou o cargo e, depois de outras derrotas na vida pública tentando expor suas ideias em outros reinos, passou os últimos anos de vida como professor - pense não em um professor moderno em sua sala de aula, mas em alguém como Sócrates, com um grupo de discípulos interessados no pensamento do mestre.

Embora se atribuam vários clássicos chineses a Confúcio, muito possivelmente ele não escreveu nenhum deles. Mesmo a sua obra principal, os Analectos (=aforismos, fragmentos literários), não foi escrita por ele, mas compilada postumamente por seus discípulos, que reuniram o que lembravam dos ditos e feitos do mestre.

O pensamento confuciano, negligenciado durante a vida de seu autor, acabou triunfando mais tarde, e ele se tornou o equivalente chinês do que Platão ou Aristóteles foram no Ocidente: pontos de referência inevitáveis para qualquer um que se pretendesse culto, mesmo que não concordasse com seu pensamento. Países próximos à China, como a Coreia e o Japão, importaram o confucionismo, e as ideias de Confúcio foram interpretadas, reinterpretadas e transformadas por séculos a fio.

Confúcio nunca expôs um sistema filosófico rígido, mas o seu pensamento tinha alguns pontos centrais. Para começar, ele não se considerava um inovador, e sim um divulgador das boas ideias antigas.

O Mestre disse: eu repasso, não invento. Confio no passado, e o amo.

Sem ser exatamente um ateu, seria possível dizer que Confúcio era arreligioso, que os assuntos religiosos não o interessavam. O que ele jamais negou foi o conceito chinês de Céu, que não seria uma entidade, mas algo como "a ordem natural do mundo", "a natureza das coisas".

Fanchi perguntou o que é sabedoria. O Mestre disse: cuide do povo, respeite os deuses e espíritos - mas sem se envolver com eles. Isso é sabedoria. Fanchi perguntou o que era bondade. O Mestre disse: tente ser bom, isso é bondade. 

Wangsunjia perguntou: ‘homenageie o deus da cozinha mais do que o deus da casa’, o que significa? O Mestre disse: bobagem! Se você ofender o Céu, qualquer prece é inútil. 

Zilu perguntou: como se serve os espíritos e os deuses? O Mestre disse: aprenda a servir às pessoas, depois pense em servir aos deuses. Zilu perguntou sobre a morte. O Mestre disse: aprenda antes a viver, depois aprenda sobre a morte. [ou: aprenda sobre a vida, você conhecerá a morte]

Na visão confucionista, no centro estava o homem. Seu ideal humano era o junzi, cavalheiro ou, como André Bueno preferiu traduzir, educado: amigo do conhecimento e sempre disposto a aprender mais e, ao mesmo tempo, plenamente inserido em sua sociedade, consciente de seus deveres. interagindo com as pessoas de forma bondosa e contribuindo para a melhoria social através do emprego de seu saber e virtudes. O cultivo de si mesmo era a sua grande preocupação, não a acumulação de bens materiais.

Perguntaram pra Confúcio; por que você não está no governo? O Mestre disse: no Tratado dos Livros está escrito; ‘pratique a piedade filial com a família e o altruísmo com as pessoas e você está contribuindo para o governo’. Isso também é contribuir com a sociedade, não é preciso estar no governo.

O Mestre disse: riqueza e posição todo mundo quer, mas se o caminho for errado, desista. Pobreza e esquecimento todo mundo detesta, mas se o caminho for correto, continue. O Educado nunca abandona o humanismo, mesmo que o desprezem. Mesmo nas provações a problemas, ele continua com o humanismo. 

O Mestre disse: o educado busca virtude, o ignorante busca terra. O educado quer busca justiça, o ignorante busca vantagem.

O Mestre disse: um Educado procura o caminho, não um meio de sobrevivência. Plante pra comer, e mesmo assim você terá fome. Aprenda, e com certeza você terá um emprego. Mas o Educado se preocupa em encontrar o caminho, e não se vai continuar pobre.

Ranyong perguntou sobre o Humanismo. O Mestre disse: fora de casa, aja como se todos fossem convidados importantes. Cuide do povo como se fosse um evento importante. Não imponha a ninguém o que não gosta pra si mesmo. Não deixe o ressentimento pessoal se intrometer nas coisas públicas ou nos assuntos particulares. Ranyong disse: não sou muito inteligente, mas tentarei fazer o que o mestre recomendou.

O Mestre disse: o educado come sem exagero, mora em lugar simples, se dedica no trabalho, fala com cuidado e busca boas companhias. Uma pessoa assim gosta mesmo de aprender.

O bom governante, para Confúcio, governava através do exemplo e dependia, antes de tudo, da confiança do povo:

Zigong perguntou sobre o governo. O Mestre disse: fartura, segurança e confiança do povo. Zigong perguntou: e se tirarmos uma? O Mestre disse: tire a segurança. Zigong perguntou: e se tirarmos duas? O Mestre disse: fartura. Todos morrem um dia. Se um governo tem a confiança do povo, ele pode tudo. Mas sem essa confiança, ele não se mantém mesmo com segurança ou fartura.

O Mestre disse: quem governa pela virtude é como a ursa polar; mesmo parada, as outras estrelas giram ao seu redor.

O Mestre disse: o povo fica desonesto e manhoso se é governado por artimanhas e castigos. O povo fica envergonhado e dedicado quando é governado pela virtude e pelos costumes.

Não parecem ideias sábias, que merecem a nossa consideração?
Sugiro a todos que continuem as leituras confucianas no link inicial, e termino com um dos grandes ditos de Confúcio, que lembra um certo pensador que viveu alguns séculos mais tarde:

Zigong perguntou: existe uma única palavra que possa guiar nossa vida? O Mestre disse: reciprocidade. O que não deseja pra si, não faça aos outros.