setembro 30, 2012

79. Músicas e guerra (2)

E voltamos com a Rádio "Músicas de Guerra". Hoje, duas canções russas.

A primeira é o clássico soviético da Segunda Guerra (ou Grande Guerra Patriótica, como chamam por lá), Katyusha. A melodia foi utilizada logo depois em outros países, como pelos resistentes italianos em seu Fischia il vento, que vimos anteriormente. Já a letra é quase um Erika ao contrário: a jovem Katyusha, diminutivo de Ekaterina, espera seu amado que cumpre o dever na guerra.

Existem inúmeras versões na internet, mas aqui vai uma que ao menos tem a tradução para o espanhol:





Em seguida, uma anterior, da época da Guerra Russo-Japonesa.
O que foi a Guerra Russo-Japonesa? Nada menos que um dos conflitos mais importantes do século e do qual quase nada se sabe por aqui. Em 1904 e 1905, a Rússia czarista e o império japonês lutaram para decidir qual seria a potência dominante na Manchúria (região nordeste da China) e Coreia. Os japoneses venceram, com consequências importantes:
a) mostrou a todo o mundo que um país asiático poderia derrotar um europeu;
b) firmou o expansionismo japonês na Ásia continental, o que mais tarde causaria sua tentativa de conquistar a China e seu envolvimento na Segunda Guerra;
c) os gastos na guerra e a derrota solaparam o prestígio do czar e precipitaram a Revolução de 1905, um prólogo moderado do que seria 1917.

Voltando à música, chama-se Nos morros da Manchúria, composta por Ilya Shatrov após a derrota russa. É um lamento aos soldados russos mortos na Manchúria e a promessa de que serão lembrados e vingados:




setembro 27, 2012

78. O alcance limitado da Comissão da Verdade

Um texto do historiador Carlos Fico que dá o que pensar. Por que a população brasileira em geral não está dando a mínima para as investigações da Comissão da Verdade? A resposta que ele oferece faz sentido: porque existe uma ênfase grande na repressão aos militantes de esquerda e membros da luta armada, que (isso ele não diz com todas as letras, mas se subentende) tinham uma posição minoritária e não compartilhada por muitos. A solução para isso: mudar o foco para as arbitrariedades e desmandos cometidos em um nível mais cotidiano, coisas como o artista que era censurado sem saber o motivo ou o político que era investigado por vingança de um rival, entre outros exemplos que Fico dá.

Ou, colocando de outra forma: é preciso resgatar as pessoas comuns que viveram no período e não necessariamente se identificavam quer com os militares quer com a guerrilha.

A opinião dele vai ser levada em conta? Dificilmente. Mas o que ele sugere é exatamente o tipo de investigação que mostraria que não eram apenas os guerrilheiros que sofreram, que poderia destruir o velho mito dos saudosistas do governo militar: "quem não criava problemas não tinha o que temer".

 ------------------------------------------------------------------------------------------

 

Verdade para todos


Carlos Fico

Por que os trabalhos da Comissão da Verdade mobilizam apenas a militância dos direitos humanos?

Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos visitou a Argentina, em 1979, ainda durante a ditadura, formaram-se filas de pessoas que traziam suas denúncias. Depois do término do regime militar, a entrega e publicação do relatório final da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas alcançou grande repercussão.

A Comissão da Verdade da África do Sul transmitiu suas audiências pela TV e pelo rádio.

A comissão brasileira está há seis meses trabalhando, desde março deste ano. Somente neste mês de setembro decidiu que vai mesmo enfatizar a ditadura militar (e não todo o período 1946/1988, como estabelece a lei que a criou) e que apenas investigará os "agentes públicos" e não os adversários do regime, resposta à polêmica sobre investigar apenas um ou os dois "lados".

Nos eventos públicos que promove, a frequência é quase sempre a mesma, reunindo vítimas e parentes de vítimas da repressão durante o regime militar, militantes que lutam pela defesa dos direitos humanos, segmentos organizados da sociedade (movimento estudantil, alguns sindicatos), pesquisadores e quase só. As questões que a Comissão da Verdade tem levantado aparentemente não interessam à maioria da sociedade.

Isso não mudará se alguma providência não for tomada. Em agosto passado, atendendo a convite, falei à comissão sobre as razões do golpe de 1964. No final da minha exposição, pedi licença para considerar outras questões. Afirmei que seria importante incluir as "pessoas comuns" no rol das vítimas.

De fato, muitas pessoas que não participaram da luta armada, ou sequer faziam oposição ostensiva à ditadura militar, foram vítimas do regime. Mas quase não se fala delas. Um professor universitário, por exemplo, pode ter sido cogitado para um cargo de chefia qualquer em sua universidade, mas não foi promovido porque a espionagem da época impediu. Casos assemelhados podem ter acontecido nas empresas estatais e autarquias. Essas pessoas podem nem ao menos saber o que lhes aconteceu.

Políticos inexpressivos de pequenas cidades podem ter sido injustamente investigados pela Comissão Geral de Investigações (um tribunal de exceção que julgava sumariamente supostos corruptos) apenas porque um adversário local, por vingança pessoal, enviou uma carta acusando-o.

Cineastas, dramaturgos, atores, escritores e músicos foram censurados. Não necessariamente porque produziam obras de arte críticas, de protesto, mas, por exemplo, porque o censor da época identificou algo de "imoral" em seus trabalhos.

A abordagem desses e de outros casos assemelhados pela Comissão da Verdade talvez conferisse outra dimensão aos seus trabalhos, chamando a atenção da sociedade para o fato de que a ditadura militar brasileira foi muito violenta - mesmo que no Brasil não tenha havido tantos mortos quanto no caso da Argentina. Nesses exemplos não houve tortura ou assassinato, mas eles também são expressão de um tipo de violência, decorrente da capacidade do regime brasileiro de invadir o cotidiano das pessoas e - segundo seus critérios obscuros - fazer o que quisesse.

Essas histórias estão guardadas nos documentos recentemente liberados pelo Arquivo Nacional. Seria preciso pesquisá-los.

setembro 24, 2012

77. Músicas e guerra

O objetivo de hoje é mostrar que o YouTube é um acervo audiovisual gigantesco e que, se bem peneirado, pode mostrar muitas coisas interessantes além das últimas músicas de sucesso. O tema da vez, escolhido sem nenhum motivo em particular, é "músicas relacionadas a guerras" - em princípio, qualquer relação conta: músicas militares, anti-guerra, que se tornaram populares em época de guerra, etc. Vou precisar de vários posts, pois a seleção de hoje mal começa a dar conta das possibilidades. Para começar, algumas da Segunda Guerra Mundial:


A primeira se chama Le chant des partisans (A canção dos resistentes), uma das principais músicas da Resistência francesa contra a ocupação nazista:


Seguem a letra e tradução, vindas desse site:


Ami, entends-tu
Le vol noir des corbeaux
Sur nos plaines?
Ami, entends-tu
Les cris sourds du pays
Qu'on enchaîne?
Ohé! partisans,
Ouvriers et paysans,
C'est l'alarme!
Ce soir l'ennemi
Connaîtra le prix du sang
Et des larmes!

Amigo, ouves
o voo negro dos corvos
nas nossas planícies?
Amigo, ouves
os gritos surdos do país
que acorrentam?
Oh resistente,
Operários e Camponeses,
É o alarme!
Esta noite o inimigo
Conhecerá o preço do sangue
e das lágrimas!

Montez de la mine,
Descendez des collines,
Camarades!
Sortez de la paille
Les fusils, la mitraille,
Les grenades...
Ohé! les tueurs,
A la balle et au couteau,
Tuez vite!
Ohé! saboteur,
Attention à ton fardeau:
Dynamite!

Subam das minas
Desçam das colinas
Camaradas!
Tirem dos fardos de palha
As espingardas, as munições,
as granadas
Matadores,
com balas e com facas,
matai depressa!
Sabotador!
Cuidado com o teu fardo
Dinamite!

C'est nous qui brisons
Les barreaux des prisons
Pour nos frères,
La haine à nos trousses
Et la faim qui nous pousse,
La misère...
Il y a des pays
Ou les gens au creux de lits
Font des rêves;
Ici, nous, vois-tu,
Nous on marche et nous on tue,
Nous on crève.

Somos nós que quebramos
as barras das prisões
para os nossos irmãos,
o ódio que nos persegue
a fome que nos empurra
A miséria ...
Há países onde na cama
as pessoas sonham;
Aqui, nós, vê-la tu,
Nós marchamos e matamos
nós morremos.

Ici chacun sait
Ce qu'il veut, ce qui'il fait
Quand il passe...
Ami, si tu tombes
Un ami sort de l'ombre
A ta place.
Demain du sang noir
Séchera au grand soleil
Sur les routes.
Sifflez, compagnons,
Dans la nuit la Liberté
Nous écoute...

Aqui cada um sabe
o que quer, o que faz
quando passa ...
Amigo se tu caíres
Outro amigo sai da sombra
No teu lugar.
Amanhã o sangue negro
secará ao sol
nas estradas
assobiai, companheiros,
Na noite a liberdade,
ouve-nos ...


A segunda música é Fischia il vento (Sopra o vento), da resistência italiana. Mais enérgica, com a melodia da canção russa Katyusha, e muito mais comunista que sua contraparte francesa:



Letra e tradução, do letras.com.br:

Fischia il vento ed infuria la bufera
Sopra o vento e enfurece-se a tempestade
scarpe rotte e pur bisogna andar
sapatos velhos e ainda necessitamos andar
a conquistare la rossa primavera
a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

...a conquistare la rossa primavera
...a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

Ogni contrada è patria del ribelle
Cada vizinhança é pátria do rebelde
ogni donna a lui dona un sospir
cada mulher doa a ele un suspiro
nella notte lo guidano le stelle
na noite guiam as estrelas
forte il cuor e il braccio nel colpir
forte o coração e o braço para golpear

...nella notte lo guidano le stelle
...na noite guiam as estrelas
forte il cuor e il braccio nel colpir
forte o coração e o braço para golpear

E se ci coglie la crudele morte
E se si colhe a cruel morte
dura vendetta fara dal partigian
dura vingança fará do partisan
ormai sicura è già la dura sorte
no entanto já é certo o duro destino
del fascista vile traditor
do fascista vil traidor

...ormai sicura è già la dura sorte
...no entanto já é certo o duro destino
del fascista vile traditor
do fascista vil traidor

Cessa il vento, calma è la bufera
Calma o vento, calma é a tempestade
torna a casa il fiero partigian
torna a casa o altivo partisan
sventolando la rossa sua bandiera
abanando a vermelha, sua bandeira
vittoriosi, e alfin liberi siam!
vitoriosos, e enfim somos livres!

...sventolando la rossa sua bandiera
...abanando a vermelha, sua bandeira
vittoriosi, e alfin liberi siam!
vitoriosos, e enfim somos livres!
Fischia il vento ed infuria la bufera
Sopra o vento e enfurece-se a tempestade
scarpe rotte e pur bisogna andar
sapatos velhos e ainda necessitamos andar
a conquistare la rossa primavera
a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

...a conquistare la rossa primavera
...a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro 
Em terceiro, uma do lado alemão - Erika:
Não encontrei uma tradução da letra em português, mas é bastante inocente: um soldado vê uma flor de urze (em alemão, Erika) no campo e se lembra de sua noiva que tem o mesmo nome. Infelizmente essa canção tão bonita foi emporcalhada por associação com os nazistas - era a música de marcha da Waffen-SS...

setembro 03, 2012

76. E eis a dissertação

É com alegria que revelo ao mundo o resultado de dois anos de trabalho. Certamente não está perfeita - nada nunca chega a esse ponto - mas acho honestamente que ficou bastante satisfatória. Quem tiver curiosidade sobre um dos capítulos menos conhecidos da história legal e cultural brasileira pode encontrar o texto completo aqui.

75. Momento Patrimônio

Foi recentemente lançado, e disponibilizado online, um livro da UPF sobre patrimônio histórico, educação patrimonial e assuntos afins. O livro está relacionado a uma série de programas de TV sobre o mesmo tema, e todos podem ser conferidos no seguinte link: http://historiaupf.blogspot.com.br/2012/09/coletanea-momento-patrimonio-disponivel.html

julho 12, 2012

74. Caos no Mali

Se os transtornos que abalam o Mali nos últimos tempos estivessem ocorrendo em outra região do mundo que não a África, certamente nossa mídia estaria prestando atenção constante. Mas como os malineses são africanos, ganham apenas algumas notícias esporádicas.



O Mali, ex-colônia francesa com território duas vezes maior que o da ex-metrópole, tinha até recentemente um regime democrático bem estabelecido, apesar de ser um país pobre. Por "recentemente", entenda-se março, quando um golpe militar derrubou o presidente Amadou Touré. Para os militares, Touré não estava lidando de forma competente com o separatismo na região norte do país.



A imagem de satélite acima mostra a divisão geográfica do Mali: o sul mais fértil, por onde passa o rio Níger e onde se encontra a maior parte da população, e o norte desértico, parte do Saara. No norte predominam os tuaregues, etnia cuja atividade principal é o pastoreio, e que não estão restritos ao Mali, vivendo em zonas também desérticas dos países vizinhos.
Os tuaregues estão reivindicando há tempos seu próprio país, já tendo se revoltado nas décadas de 60 e 90. O que tornou sua atividade recente mais intensa? A queda do governante da Líbia, Muamar Kadafi. Com a morte de Kadafi em outubro de 2011, muitos tuaregues que formavam parte de seu exército voltaram para o Mali com armamentos pesados.



Até aqui, temos: guerra civil na Líbia > morte de Kadafi > tuaregues que serviam no exército líbio regressam ao Mali > aumento do separatismo entre os tuaregues do norte do Mali > militares depõem o presidente por não conseguir lidar com a crise.
Ironicamente, a ação dos militares serviu para precipitar a situação que queriam evitar. Enquanto militares e civis disputavam o poder na capital Bamako, os rebeldes ao norte tomaram diversas cidades. O principal grupo separatista, o MNLA (Movimento Nacional pela Libertação do Azawad), declarou independência em 6 de abril. Até o momento, o Azawad (como os tuaregues chamam sua região e o novo país) não foi reconhecido por nenhum país.

Isso poderia parecer meramente um reajuste das fronteiras africanas, tão frágeis por serem completamente arbitrárias. Como se sabe, os países do continente são quase todos derivados das colônias europeias estabelecidas no final do século 19, sem nenhuma consideração pela realidade geográfica, étnica ou política local, e isso contribuiu para tornar esses países altamente instáveis. Mas há outro elemento no caldeirão de caos malinês: o Islã militante.

O MNLA, formado por muçulmanos com tendências seculares, era o principal grupo separatista, mas não o único. O segundo grupo em importância é o Ansar Dine, muçulmanos radicais que pretendiam formar um Estado islâmico no Azawad e, diz-se, vinculados à Al-Qaida. O MNLA e o Ansar Dine aliaram-se por algum tempo, mas agora estão se enfrentando, e os radicais levam vantagem. Em particular, tomaram a cidade histórica de Timbuctu, que o MNLA pretendia tornar a capital do novo país.

Timbuctu, fundada no século 12, foi por muito tempo um centro comercial por onde passavam as caravanas trans-saarianas e um centro intelectual de difusão do Islã pela África ocidental. Um dos monumentos a seus dias de glória é a mesquisa de Djinguereber, construída no século 14, que além de servir como templo abrigava um importante madraçal (simplificando um pouco, uma faculdade/escola religiosa islâmica).


Os membros do Ansar Dine querem agora conformar Timbuctu aos seus próprios padrões de como deveria ser o Islã, mesmo que isso signifique arruinar monumentos. Nos últimos dias, entraram em Djinguereber e destruíram várias tumbas de santos sufistas enterrados ali.

O leitor talvez pergunte: eles não são muçulmanos? Por que estão destruindo monumentos muçulmanos? E o que são santos sufistas?
A resposta às duas primeiras perguntas é bem simples: o Islã é um pouco parecido com o cristianismo na sua capacidade de gerar divisões que fazem pouco sentido para quem está de fora, mas são importantíssimas para os membros de grupos rivais. O Ansar Dine, ao que parece, segue a vertente salafista, defensora do retorno às origens islâmicas e que poderíamos chamar de puritanos ou fundamentalistas. Portanto, do seu ponto de vista, eles não estão destruindo monumentos: estão purificando um santuário.
Já o sufismo é a corrente mística do Islã, tomando a palavra "místico" em seu sentido original: a busca por contato direto e pessoal com a divindade. Apesar de serem considerados pouco ortodoxos por boa parte dos demais muçulmanos, eles se mantêm até hoje. E, ao longo do tempo, alguns dos principais líderes sufistas se tornaram quase objetos de culto, com peregrinações anuais a seus túmulos, aproximando-se um pouco dos santos católicos. A reverência aos "santos" e as peregrinações são, desnecessário dizer, exatamente o que o Ansar Dine espera parar com suas depredações.

Em suma, eis a situação atual do Mali, dividido entre um governo fraco ao sul, dois grupos separatistas ao norte, um conflito com potencial para se alastrar pelos países vizinhos com minorias tuaregues, e, além de tudo, tentativas de destruir o passado e a religiosidade popular de seus habitantes. Pelo jeito, o século 21 ainda não vai ser o século da África.