agosto 06, 2011

35. Forastieri e quadrinhos

André Forastieri é um desses sujeitos que tem ideias interessantes e nenhum medo de espalhá-las em seu blog - em seu último post, ele sugeriu nada menos que a abolição das Forças Armadas brasileiras, seguindo o exemplo da Costa Rica. Inviável? Talvez. Um bom experimento mental, ainda mais quando ele nos lembra que deu certo na Costa Rica, que fica em uma das regiões mais bagunçadas do planeta? Sem dúvida. E as pessoas que mais merecem ser ouvidas não são aquelas com quem concordamos, mas aquelas que nos deixam com uma pulga atrás da orelha e nos fazem pensar um pouco.

Além de um blogueiro curioso, ele é um entendido em quadrinhos. Como sou leitor de quadrinhos desde que me conheço por gente e recentemente comecei a me interessar academicamente pelo assunto, tive a ideia de fazer um post para combater um pouco do preconceito que existe a respeito. Dizer que quadrinhos são um meio de expressão artística como qualquer outro, não são necessariamente para crianças e que, se a maior parte é dolorosamente ruim - como qualquer forma de arte - alguns são de grande qualidade literária.

Ia fazer isso, mas não fiz, porque Forastieri fez a mesma coisa antes: aqui, um texto que diz tudo isso e mais um pouco; aqui, comentários sobre uma dessas obras que merecem ser lidas: V de Vingança. Se você ainda não conhece, ou se só viu o filme, faça um favor a si mesmo e pare de se privar de coisas boas...

julho 29, 2011

34. Indianos e brasileiros - uma pequena nota

Via de regra, o que mais me interessa no estudo do passado são as pequenas diferenças. Piadas que hoje parecem estranhas, gestos difíceis de compreender, coisas hoje impensáveis sendo ditas com a maior naturalidade - por exemplo, não faz tanto tempo assim que todo o mundo tinha ministérios da Guerra, não da Defesa. Talvez um eufemismo, talvez um legado da destruição das duas guerras mundiais - em todo caso, uma pequena mudança que revela alguma coisa. Enfim, pequenas chaves para tentar entender o que é experimentar a vida e compreender o mundo de maneiras diferentes da nossa.

(O que não é nenhuma inovação - esse princípio de pesquisa foi expresso já faz algum tempo por Robert Darnton, em um livro fascinante chamado O grande massacre de gatos. Algumas pessoas, discípulos de Fernand Braudel, poderiam dizer que o que realmente importa são as continuidades, aquilo que permanece constante ao longo de muito tempo como o leito do mar, e não os acontecimentos, que não seriam mais que a espuma das ondas. Mas escolhi meu caminho, sem ter pretensões de conhecer o caminho.)

Mas, às vezes, as semelhanças podem ser igualmente surpreendentes. Uma delas ocorre entre o Brasil dos últimos anos décadas séculos e uma passagem curiosa do Arthashastra (aproximadamente, Tratado de política), uma obra indiana do final do século -4, atribuída a Kautilya, conselheiro de Chandragupta Maurya, conquistador do norte da Índia. Em geral, pensamos na Índia como uma terra de espiritualidade exótica, mas o Arthashastra mostra um realismo prático muito mais maquiavélico que Maquiavel. Nesta passagem, Kautilya avisa o governante sobre não confiar em seus funcionários:

Todos os empreendimentos dependem das finanças. Daí que toda a atenção deve ser dispensada ao tesouro... Há cerca de quarenta maneiras de desfalque [segue-se uma descrição detalhada destas]. Assim como é impossível não sentir o gosto do mel ou do veneno quando estão na ponta da língua, assim também é impossível que um empregado do governo não usufrua um pouco dos rendimentos reais. Assim como não é possível saber se um peixe que se move na água está dela bebendo ou não, assim também não é possível descobrir se os empregados que trabalham no governo furtam o dinheiro.
É possível observar os movimentos dos pássaros que voam no céu, mas não é possível apurar os movimentos dos empregados do governo com intenções ocultas.
(extraído de Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia, p. 100)

Se Kautilya visse o Brasil de hoje, suspeito que só faria uma alteração no texto: aumentar as maneiras de desfalque...

junho 13, 2011

33. Até da Guerra do Paraguai?

Minha definição preferida de censor: alguém que acha que sabe mais do que você deveria.

E quando nossos ex-presidentes se unem a favor do sigilo eterno de documentos públicos, alguém acredita que eles estão bem intencionados? Alguém acha boa ideia o governo poder esconder seus atos para sempre, especialmente um governo que cede a pressões tão descaradamente interesseiras?


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 Sarney defende sigilo eterno de documentos para não ‘abrir feridas’

 Eduardo Bresciani, do estadão.com.br
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), defendeu nesta segunda-feira a manutenção do sigilo eterno sobre documentos considerados ultrassecretos. Em entrevista ao Estado, a nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, afirmou que o governo vai defender o sigilo eterno para atender ao desejo de ex-presidentes, como Sarney e Fernando Collor (PTB-AL), hoje senadores e integrantes da base aliada.
Na visão de Sarney, a abertura de documentos históricos pode “abrir feridas” do passado. “Os documentos históricos que fazem parte da nossa história diplomática, do Brasil, e que tenham articulações, como o Rio Branco teve que fazer muitas vezes, não podemos revelar esses documentos, senão vamos abrir feridas”.
Ele afirmou que é preciso manter o segredo para “preservar” o Brasil.
“Eu tenho muita preocupação que hoje nós tenhamos a oportunidade de abrir questões históricas que devem ser encerradas para frente no interesse nacional. Nós devemos olhar o Brasil. Ultimamente, todos nós nos acostumamos a bater um pouco no nosso país. Vamos amar o nosso país e preservar o que ele tem”.
Sarney nega, porém, que sua defesa do sigilo eterno tenha como objetivo ocultar ações suas quando presidiu o país. Ele afirmou que é preciso divulgar tudo que for relativo ao “passado recente”. “Sou um homem que nada tenho a esconder”.
Segundo a ministra de Relações Institucionais, o governo vai apoiar alterações no texto que tramita no Senado sobre a lei de acesso a informações. A proposta aprovada na Câmara prevê um limite de 50 anos para a manutenção do sigilo de documentos ultrassecretos. Ideli afirma que a intenção do governo é retornar ao projeto original enviado ainda pelo presidente Lula, no qual não havia limite para a renovação do prazo de sigilo dos documentos.


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Dilma cede a pressões e agora quer manter sigilo eterno de documentos

Ideli Salvatti disse ao ‘Estado’ que governo vai atender a reivindicações dos senadores e ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor para facilitar tramitação do projeto no Senado

A presidente Dilma Rousseff vai patrocinar no Senado uma mudança no projeto que trata do acesso a informações públicas para manter a possibilidade de sigilo eterno para documentos oficiais. Segundo a nova ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, o governo vai se posicionar assim para atender a uma reivindicação dos ex-presidentes Fernando Collor (PTB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), integrantes da base governista.
A discussão sobre documentos sigilosos tem como base um projeto enviado ao Congresso pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2009. No ano passado, a Câmara aprovou o texto com uma mudança substancial: limitava a uma única vez a possibilidade de renovação do prazo de sigilo. Com isso, documentos classificados como ultrassecretos seriam divulgados em no máximo 50 anos. É essa limitação que se pretende derrubar agora.
"O que gera reações é uma emenda que foi incluída pela Câmara. Vamos recompor o projeto original porque nele não há nenhum ruído, nenhuma reação negativa", disse Ideli ao Estado.
Acatar a mudança defendida pelos ex-presidentes é a forma encontrada para resolver o tema, debatido com frequência no Senado desde o início do ano. O governo cogitou fazer um evento para marcar o fim do sigilo eterno - Dilma sancionaria a lei em 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

Temerário

O desfecho não foi assim por resistência de Collor. Presidente da Comissão de Relações Exteriores, ele decidiu relatar a proposta e não deu encaminhamento ao tema. No dia 3 de maio, o ex-presidente foi ao plenário e mandou seu recado ao Planalto ao classificar de "temerário" aprovar o texto como estava. "Seria a inversão do processo de construção democrática."
Desde então, a votação vem sendo adiada repetidas vezes. Na semana passada, Dilma almoçou com a bancada do PTB no Senado. Na ocasião, Collor teria manifestado sua preocupação sobre o tema e exposto argumentos contrários ao fim do sigilo.
O senador Walter Pinheiro (PT-BA), que relatou o projeto na Comissão de Ciência, Tecnologia e Comunicação e é contra o sigilo eterno, vai procurar Ideli nesta semana para tratar do tema. "Estamos propondo acesso a informação de fatos históricos. Você vai abrir comissão da verdade para discutir o período da ditadura e não pode ter acesso às verdades históricas no Brasil?"
Atualmente, documentos classificados como ultrassecretos têm sigilo de 30 anos, mas esse prazo pode ser renovado por tempo indeterminado, o que ocorreu nos governos Lula e Fernando Henrique Cardoso.
Documentos da Guerra do Paraguai, terminada há 141 anos, continuam secretos até hoje. Se a nova lei for aprovada da forma como deseja agora Dilma, a única diferença é que a renovação do sigilo se daria a cada 25 anos.

junho 12, 2011

32. Links novos

Na coluna da esquerda, links para dois blogs interessantes. O diferencial em relação aos anteriores é que estes não estão em português - para sair do atraso cultural, é mais prático ver o que está acontecendo em regiões mais desenvolvidas e tomar o avanço deles como base para o nosso próprio do que partir do zero e tentar reinventar a roda. Se bem que nem tentamos reinventar a roda nem vemos como ela poderia ser proveitosa, atrasados que estamos!

Primeiro, o http://www.languagehat.com/, em inglês, trata de um assunto que volta e meia é mencionado aqui: a questão dos idiomas. O autor tem uma paixão pelo russo e literatura russa, mas o blog não se restringe a isso. Transformações linguísticas, política e idiomas, migrações, contatos culturais, de tudo um pouco.

Segundo, o http://blogs.histoireglobale.com/, que descobri recentemente (a blogosfera francófona não é um ambiente que frequento muito), mas traz textos bons sobre história global - não simplesmente trazendo a história de regiões diversas, mas mostrando as conexões entre elas.

Bom proveito!

junho 11, 2011

31. Kung Fu Shaolin - Tudo que você sempre quis saber a respeito e tinha medo de perguntar

Não é curioso que um blog chamado Gabinete de leitura tenha poucas sugestões de leitura? Hora de corrigir isso!
A dica de hoje é um artigo chamado Budismo, marcialidade e legitimação da violência: O Kung Fu e as disputas historiográficas sobre o mosteiro de Shaolin. Para quem está na dúvida (o texto tem 18 páginas), aqui vai o resumo:

O ensaio reúne as contribuições da historiografia recente para a compreensão das
relações entre Budismo, marcialidade e ascese na tradição marcial do Mosteiro
de Shaolin, tradicional centro de cultivo de artes marciais e um dos berços
da espiritualidade Chan, localizado no Norte da China. Para responder às interrogações
centrais sobre a relação entre a marcialidade, a violência e a cultura
chinesa, recorreu-se à literatura de época, à filmografia que abordou o tema e a
entrevistas com mestres e praticantes de kung fu.


O artigo vale a pena por tratar de alguns temas bastante interessantes: kung fu (um termo genérico ocidental para as artes marciais chinesas), Shaolin (um mosteiro no interior da China cujos monges desenvolveram uma tradição marcial) e como algumas correntes do budismo, uma religião teoricamente pacifista, incorporaram esse elemento de violência. O processo é um pouco parecido com o que aconteceu no cristianismo: racionalizaram a contradição dizendo que para defender a fé a violência era permitida.

Dê uma chance ao texto. André Bueno (o blog dele, Orientalismo, pode ser acessado do link à esquerda) escreveu uma vez que daria para fazer um congresso de sinólogos brasileiros dentro de uma kombi. Acho que ele não estava brincando, e que na kombi ainda caberiam a plateia e o motorista. Para começar a mudar isso, o mínimo que o resto de nós pode fazer é ler o que esse pessoal produz e ver que a China tem uma história que merece mais atenção do que vem recebendo aqui na periferia cultural.

junho 03, 2011

30. Jefferson e o espírito de resistência

Olhando por acaso as cartas de Thomas Jefferson*, encontrei uma passagem que tem um pouco em comum com o post anterior.

Trata-se do trecho de uma carta escrita em fevereiro de 1787 para Abigail Adams (esposa de John Adams, primeiro vice-presidente e segundo presidente dos EUA), em que Jefferson faz um comentário sobre o fim da revolta de Shays, um movimento de pequenos fazendeiros de Massachusetts descontentes com a situação da jovem república pós-independência**:

Espero que eles tenham sido perdoados. O espírito de resistência ao governo é tão valioso em certas ocasiões que espero que seja sempre mantido vivo. Ele será muitas vezes exercido erroneamente, mas é melhor isso do que ele não ser exercido. Gosto de uma pequena revolta de vez em quando. É como uma tempestade na atmosfera.

O texto original pode ser encontrado neste link. Uma tempestade na atmosfera...


* Thomas Jefferson: advogado/dono de terras/político da Virgínia, principal autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos, terceiro presidente americano, de 1800 a 1807.
** Apesar de raramente se ouvir falar dessa revolta por aqui, e de sua pequena escala, ela gerou um clamor em favor de um governo central mais forte que pudesse impedir esse tipo de movimento. A Constituição americana, no mesmo ano, criou justamente um governo central assim. A revolta de Shays não foi a única causa do fortalecimento do governo federal, mas foi uma causa. O nome da revolta vem de seu líder Daniel Shays, veterano da guerra de independência.