julho 16, 2013

87. O mundo de 2100 não será um paraíso...

As projeções da ONU para a população mundial em 2100 são preocupantes. São projeções, não previsões garantidas, e possuem margens de erro, podem ser maiores ou menores, mas são o melhor que temos por enquanto.

População mundial em 2100: quase 11 bilhões, comparados com os 7 de hoje.

2010 - 6 916 183 000
2050 - 9 500 145 000
2100 - 10 853 849 000

Onde vão morar esses novos seres humanos? A grande maioria, 3 dos 4 bilhões extras, na África sub-saariana, não por coincidência a região mais pobre e problemática do planeta.

2010 - 831 464 000
2050 - 2 074 446 000
2100 - 3 815 646 000

Caso extremo - a Nigéria, que no final do século será um dos países mais populosos do mundo, com umas seis vezes mais habitantes que hoje:

2010 - 159 708 000
2050 - 440 355 000
2100 - 913 834 000

O Brasil, por outro lado, vai atingir um máximo por volta de 2050 e terminará o século com quase a mesma população de hoje:

2010 - 195 210 000
2050 - 231 120 000
2100 - 194 533 000

Simplificando: tudo indica que os jovens brasileiros vão precisar sustentar um número cada vez maior de idosos, como é a tendência em boa parte do mundo (o declínio da população se deverá à redução da natalidade, não a qualquer baixa na expectativa de vida). Ou isso, ou uma revisão drástica do sistema previdenciário. Os nigerianos, por sua vez, enfrentarão o problema infinitamente pior de dividir os recursos escassos de um país pobre entre uma população em crescimento rápido. A menos que a Nigéria tenha um desenvolvimento em estilo chinês.

Boa sorte aos que estão por nascer. Eles vão precisar.

julho 14, 2013

86. Japão e Ocidente na Era Meiji

Aos interessados nas relações entre o Japão e os países ocidentais após a "abertura" de 1854, segue o link para meu novo artigo sobre o assunto. Mais especificamente, procurei descobrir o que o "japonês comum" pensava dos ocidentais na época. Falta muito a se fazer nesse tema, mas é um começo!

http://veredasdahistoria.kea.kinghost.net/edicao6/VARIADOS_01.pdf

85. Voltando à Terra plana

Um leitor comentou um dos primeiros textos que coloquei aqui, sobre o mito da Terra plana:

Sei que você está passando adiante o que ouviu falar ou o que escreveram. O problema é que muitas vezes acabamos passando adiante inverdades. Você já leu o livro “A History of the Life and Voyage of Christopher Columbus” do autor Washington Irving que o tal J. B. Russel (Inventing the Flat Earth) se baseou para criar o mito da terra plana? Não vou entrar em detalhes, mas no livro do Irving, embora muito fantasioso, o encontro de Cristóvão Colombo no Conselho de Salamanca, não tem qualquer referência sobre ser a terra plana. Existem discussões sobre ideias defendidas por Santo Agostinho e outros (patrísticos), como os tais antípodas, afirmando que a terra seria completamente coberta por água, salvo o hemisfério norte, ideia compactuada por Sacrobosco, em seu livro "A Esfera" que ainda era consultado na época do Colombo. Outra questão era sobre a zona tórrida, e etc. Parece que o inventor do mito da terra plana não foi o Washington Irving, mas o tal J. B. Russel. E somente para tentar justificar o injustificável. Realmente o cristianismo, para aqueles que conheciam a Bíblia em hebraico, acreditavam que a terra era plana, pois assim está escrito, mas graças ao trabalho inteligente dos comentadores católicos, absorvendo os ensinamentos dos gregos, a terra deixou de ser plana para ser esférica (não confundir esférico com circular).

Agradeço a dedicação necessária para fazer esse comentário, mas na verdade Washington Irving é, sim, um dos responsáveis pelo mito da Terra plana.
Para quem não entendeu nada, Washington Irving, escritor oitocentista hoje lembrado por ser o autor da história do Cavaleiro Sem Cabeça, escreveu uma "biografia" fantasiosa de Colombo em que ele defende a esfericidade da Terra diante dos intelectuais espanhóis convictos de que ela é plana. Assim, Irving colaborou para que hoje se costume pensar que os medievais não sabiam o formato da Terra.

Eis a passagem relevante. A history of the life and voyages of Christopher Columbus, volume 1, livro 2, capítulo 4, página 124:

"To his simplest proposition, the spherical form of the earth, were opposed figurative texts of scripture. They observed, that in the Psalms, the heavens are said to be extended like a hide; that is, according to commentators, the curtain, or covering of a tent, which, among the ancient pastoral nations, was formed of the hides of animals; and that St. Paul, in his epistle to the Hebrews, compares the heavens to a tabernacle, or tent, extended over the earth, which they thence inferred must be flat."

Em uma tradução livre e rápida:

"Diante de sua proposição mais simples, a forma esférica da Terra, se opuseram textos escriturais figurativos. Observaram que, nos Salmos, é dito que o céu se extende como um couro, ou seja, segundo os comentadores, a cobertura de uma tenda, que entre as antigas nações pastoris era formada de couro de animais. E S. Paulo, em sua epístola aos hebreus, compara o céu a um tabernáculo, ou tenda, estendida sobre a Terra, do que inferiram que ela deve ser plana."

84. Voltando ao conservadorismo brasileiro

Em resposta a um comentário anterior, alguns acréscimos, desta vez meus, sobre o conservadorismo brasileiro. Meio dispersos e apressados, mas acredito que não totalmente errados.

Resumindo em uma palavra, o pensamento político hegemônico no Brasil não é de esquerda ou direita: é coletivista. Isso fica mais compreensível se separamos a ideologia em aspectos sociais e econômicos para fins de análise.

Sociedade: liberdade individual (esquerda) x preservação dos valores coletivos (direita)
Economia: igualdade/redistribuição (esquerda) x liberdade/livre mercado (direita)
(Tudo isso é discutível, por não existirem definições universalmente aceitas de esquerda e direita, mas por enquanto serve.)

Nos dois aspectos, o brasileiro tende ao coletivismo. Socialmente, prefere a moralidade coletiva à liberdade de cada um viver como quiser, e assim é que questões como o casamento gay, o aborto ou a descriminalização das drogas geram tanta polêmica. Economicamente, prefere a igualdade, o que se dá pela valorização da "pobreza honesta" em detrimento do empreendedorismo, e pelo emprego da máquina estatal para redistribuir renda.
Essas tendências gerais - naturalmente muitas pessoas não se encaixam nesse molde - se refletem na política. Os partidos fortes são, como seus eleitores, socialmente à direita. O espaço de discordância se dá na esfera econômica, onde existe um espectro que vai da centro-esquerda (o PT, distributivista mas sem contestar o sistema) à centro-direita (o PSDB, mais pró-capital, mas na prática não menos estatista que o PT). Partidos menores, ou correntes dentro dos principais, se aproximam mais dos extremos, mas sua influência efetiva é muito limitada.

Uma consequência: como só há dissenso forte na economia, "esquerda" e "direita" viraram sinônimos da posição que se tem nesse campo. Não existe um partido ou uma facção política relevante que seja socialmente de esquerda, em favor dos direitos civis, então esse aspecto fica fora da equação. Ser de esquerda, em termos cotidianos, é valorizar a igualdade econômica, e de direita, a liberdade econômica. E sim, nesse aspecto específico o Brasil tende à esquerda.

Se supormos que a expressão de opiniões divergentes na política é positiva, ao permitir maior confronto de ideias, chegamos ao primeiro problema: nos aspectos sociais, não existe esquerda por aqui. Existem pessoas à esquerda, mas não um grupo organizado, e não um ponto de vista aceito como legítimo. Quantos políticos conseguiriam se eleger, digamos, prometendo liberar o aborto e o uso de drogas? Ou abolir o ensino religioso nas escolas públicas? Pouquíssimos, provavelmente, o que talvez explique porque pouquíssimos chegam a tentar. O discurso político hegemônico é pró- "bons costumes", "valores cristãos", "família tradicional". As pessoas não votam em quem promete deixar cada um cuidar da sua vida.

Segundo problema: nos aspectos políticos, não existe direita - ou, novamente, pelo menos ela não é aceita como legítima. Partidos como o DEM e o PSDB possuem membros liberais e um discurso por vezes mais liberalizante, mas sua prática não é assim tão diferente da média. O governo FHC, por exemplo: foi mais liberal em alguns poucos aspectos, principalmente a privatização de algumas estatais. Mas o aparato estatal propriamente dito, esse não diminuiu. FHC, como seus sucessores, aumentou os quadros do funcionalismo público, a quantidade de ministérios, a carga tributária, o assistencialismo (as bolsas do Lula foram uma sistematização e expansão de precedentes abertos pelo governo anterior a ele)... existe um abismo considerável entre um FHC e uma Margaret Thatcher.
E, apesar do discurso de esquerda ser mais comumente visto como legítimo que o de direita, tampouco temos uma esquerda convicta e influente. As correntes políticas que se dizem de esquerda são ou 1) politicamente marginalizadas, ou 2) de centro-esquerda moderada, ou 3) oportunistas e assistencialistas.

83. Dificuldades do "orientalismo" brasileiro


Às vezes dou de cara com um texto que, mais do que simplesmente gostar, queria eu próprio ter escrito, por articular muito bem coisas que estava pensando vagamente. Aqui segue uma delas, um post do André Bueno, autor do Projeto Orientalismo - em poucas palavras, uma análise da nossa ignorância sistemática acerca das civilizações asiáticas.



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O problema de se escrever sobre o ‘Oriente’ no Brasil


Já se passou mais de uma década desde que inaugurei o Projeto Orientalismo em 2000. Nesse tempo, para além de divulgar a história antiga de China e de Índia, tentei prestar atenção nas possíveis mudanças de percepção, acerca da Ásia, que ocorreriam tanto no meio acadêmico quanto junto ao público leigo. É possível atestar algum aumento no interesse sobre as civilizações asiáticas; mas quase sempre, ele é contemporâneo e superficial. Alguns poucos especialistas estão se aventurando no mundo das culturas tradicionais ‘orientais’– e temo profundamente se nosso mundo universitário será consciente e responsável o bastante para aproveitar a experiência que eles estão adquirindo.

Entendo que esse breve comentário inicial sirva para contextualizar as experiências que tenho testemunhando ao tentar publicar, em português, artigos e ensaios sobre civilizações asiáticas. Passado mais de dez anos, continua sendo difícil, no Brasil, estudar e publicar –academicamente - sobre China ou Índia. Não abordo a vertente esotérica, sempre presente e prolixa, mas que não depende de um embasamento significativo. Me refiro a dificuldade, ainda reincidente, de abordar os pontos de vista ‘asiáticos’ ou ‘orientais’ nos meios de publicação ‘científicos’. Uso ‘asiáticos’ e ‘orientais’ entre aspas porque essas são redundâncias naturais, provenientes de uma cultura preconceituosa, com o qual estamos acostumados a lidar e desconstruir. O que pouco se explica, contudo, é a recusa dos meios ‘científicos’ em aceitar artigos sobre esses temas – o que reproduz, de certa forma, uma atitude de puro desconhecimento, rejeição e ignorância sobre os campos da história ‘não-ocidental’ (como se tal conceito fosse também possível e viável). Nesse texto, pois, quero analisar alguns aspectos dessas experiências com as quais um estudante sério de história ou filosofia terá que lidar. No atual contexto, claro, ensaios como esse funcionam quase como uma mensagem numa garrafa. Ainda assim, porém, impõem-se como necessário esclarecer algumas questões pertinentes ao estudo dessas civilizações – sem o que, nossa formação como especialistas em Ciências Humanas deixará de fora, praticamente, dois terços do mundo.

O desinteresse
Qual a razão da academia não se interessar, no geral, pelo estudo das culturas asiáticas? Há uma recusa, quase sistemática, em admitir ensaios e artigos sobre temas ligados a Ásia. Tais publicações só ocorrem, comumente, no meio jornalístico – sempre atual, e atento com as mudanças que estão ocorrendo no mundo. No entanto, desconhece-se o cerne dessas culturas milenares e tradicionais. Na verdade, ignora-se. Quando algo de China, Índia ou Japão é apresentado, limita-se a uma apresentação de elementos filtrados e superficiais – festas tradicionais, culinária, folguedos de artes marciais. O hiato permanece. Da Ásia econômica para a Ásia do Kung fu Panda, um extremo não explica o funcionamento do outro. Isso se deve, de fato, a nossa formação cultural, que herdou o Orientalismo do século 19 e ainda não o abandonou. Como bem explicou Edward Said – numa tese ainda não superada – o ‘Oriente’ foi construído pela Europa como uma entidade cultural amorfa, indistinta, carregada de preconceitos e impossibilidades. Veja-se: o próprio termo ‘Oriente’ designa qualquer coisa situada geograficamente de Israel até o Japão. Um olhar rápido mostra as profundas diferenças nesse amplo conjunto de civilizações. Mesmo assim, é comum ouvirmos perguntas do tipo: ‘o que o pensamento oriental diz sobre isso?’ E que respostas queremos ouvir?

A praga do Orientalismo de duzentos anos atrás permanece forte em nossa mentalidade. Ele é necessário para ‘salvaguardar’ nossa cultura. Precisamos acreditar que estudar o outro é desimportante, porque isso reforça quem somos nós. Isso nos coloca no topo de uma hierarquia imaginária de culturas. Quanto mais o outro é ‘inferior’, isso nos concede importância. Achamos incompreensível o modo de vida e a abnegação dos ‘asiáticos’. Não temos a mínima idéia do que seja uma cultura milenar, e nos jactamos de ter um modo de vida ‘ideal’. Qualquer coisa – no caso do Brasil – seria melhor do que estar na ‘Ásia’ ou na ‘África’. Bom mesmo só os Estados Unidos ou a Europa. Tão bom, que alguns brasileiros vão, inclusive, estudar história do Brasil na Europa. Obviamente, não me cabe julgar aqueles que vão realmente adquirir instrumental teórico ou documental lá fora – isso é necessário. Mas torna-se incompreensível, a meu ver, que alguém entenda como ‘estranho’ ir até a China ou Índia para fazer o mesmo. Esse é o ponto central da questão. A orientação acadêmica reforça a continuidade de um preconceito que se estrutura no currículo: não há ‘Ásia’ ou ‘Oriente’ na maior parte das universidades brasileiras. As abordagens ainda são limitadíssimas, e desestimuladas a continuar. Como isso é possível, num mundo globalizado em que o impacto asiático pulsa tão fortemente? Essa ausência se reproduz, diretamente, no modo como os estudantes de ‘humanas’ lêem as civilizações asiáticas. Há uma gradação ideológica para sua abordagem: de início, são desnecessárias; depois, passam a ser misteriosas e intrigantes; por fim, o aprofundamento as torna uma excentricidade. No fim, o especialista em ‘oriente’ torna-se tão exótico quanto o exotismo ‘inútil’ ao qual ele se dedicou.  Não raro, pois, estamos absolutamente despreparados para lidar com as novas realidades teóricas, metodológicas e temáticas no campo da história e do pensamento. Resta-nos a perspectiva de trancar-se numa redoma, por meio de projetos obscuros, que visam excluir do estudo acadêmico qualquer coisa que não esteja ligado ‘a nossa história’. E como isso se reproduz em nossos problemas de formação?

A questão conceitual
Assim sendo, uma das dificuldades de publicar qualquer ensaio sobre ‘Ásia’ ou ‘Oriente’ no Brasil começa, justamente, pela total incompreensão do conceitual cultural, histórico e filosófico dessas civilizações. Grande parte dos avaliadores é incapaz de acessar realidades conceituais diferentes de suas próprias. Isso tem sido um recurso eficaz para refutar qualquer tentativa de se aproximar de temas como Índia ou China. Não se trata de uma ignorância ou incapacidade assumida – ‘não posso avaliar tal assunto’ – mas sim, de julgar irrelevante um assunto previamente desconhecido! Ironicamente, porém, o primeiro argumento é comumente utilizado, de modo hipócrita, para justificar o segundo, criando um ciclo vicioso: não há especialistas para avaliar tais textos; e conseqüentemente, sem orientações seguras, eles nunca se formarão.

Essa ‘negação’ conceitual é absurda, ainda, porque toma como inviável analisar um ‘conceitual estranho’ (como o do pensamento chinês, por exemplo), pela sua impossibilidade de compreensão ou prova. No entanto, estudantes ocidentais se debruçam sobre o mundo das idéias platônico, ou sobre o imperativo categórico kantiano, como coisas ‘reais’ e/ou ‘prováveis’? Não seria a compreensão de lógicas alternativas a nossa uma excelente e intrigante via de estudo? No entanto, o especialista em China ou Índia vez por outra é tratado com hostilidade, por conhecer um vocabulário estranho. Essa ‘estranheza’ é a primeira via de negação ao outro.

Problema da ‘adequação’ conceitual
Mesmo assim, os ‘abusados e pretensiosos’ orientalistas apresentam seus artigos para publicação, buscando caminhos numa academia respeitável e exigente. Todavia, a incompreensão do conceitual alheio leva o analista a negar seu desconhecimento, em busca de um atalho que o permita evitar um conflito com o proponente. Ele invoca, então, uma ‘inadequação’ conceitual ou temática. O artigo proposto nunca se integra ao escopo conceitual do periódico. Posso dar um exemplo pessoal: escrevi um artigo sobre a formação da iconografia budista chinesa, analisando – especificamente - uma estátua budista do período Wei (século +5) que guarda aspectos interculturais euro-asiáticos notáveis. Óbvio, esse é o meu entendimento do tema. O artigo circulou problematicamente por alguns periódicos por um problema de ‘inadequação temática’. No periódico de história, o argumento era: ‘o artigo é de arte ou filosofia’. No periódico de arte, ‘era de filosofia ou religião’. No de filosofia, ‘era de religião ou de arte’. No de religião, ‘era de filosofia, arte ou história’. Dito isso, o leitor pode ser levado a acreditar que o artigo era um desastre total. Mas, como ele será finalmente publicado (link em breve), tenho em mente que um conselho científico tanto mais preparado compreendeu a lógica interna do mesmo, e se dispôs a assumir sua publicação – uma atitude ousada no meio acadêmico. Mas qual era a dificuldade em analisá-lo? Qual a brecha apara que ele fosse tão ‘inadequado’? A leitura dos pareceres demonstra o desconhecimento e o preconceito acerca de temas presentes no mesmo: incompreensão do conceitual da arte chinesa (Arte? Filosofia? Religião?), do Budismo (Religião? Filosofia?) e mesmo dos elementos mais básicos da história chinesa. Notável mesmo, porém, é perceber considerações do gênero: ‘é possível pensar numa arte religiosa budista?’ – como se o barroco ou a arte sacra no Ocidente fossem absolutamente desprovidos de valores religiosos! Essa questão nos leva a um terceiro problema: a ‘busca conceitual dirigida’.

Busca conceitual dirigida
Um terceiro impedimento, articulado as considerações anteriores, se trata de direcionar a questão conceitual a um problema de ‘conexão’. Não raro, espera-se que um artigo sobre ‘o pensamento oriental’ ou a ‘história asiática’ verse sobre um tema ou problema calcado na ‘tradição ocidental’. Ou seja; de partida, o texto não se propõe a estudar qualquer uma das tradições asiáticas por si mesmas, mas sim, a partir de uma análise estranha a elas. Um exemplo notável disso: qualquer um que estude o pensamento chinês ficará chocado em saber o quase total desinteresse dos chineses pelo verbo ‘ser’, tão caro a origem da filosofia Greco-romana. Tal busca redundará em fracasso, se o pesquisador partir do pressuposto que o verbo ‘ser’ é fundamental para a construção do raciocínio filosófico. Essa é uma atitude comum entre pareceristas: se não há ‘no outro’ aquilo que buscamos a partir de nós mesmos, o ‘outro’ acidentalmente será desinteressante, imperfeito ou inferior. Essa lógica é evidentemente excludente, e contraria toda uma postura moderna de inclusão e reconhecimento da diferença. Mas, infelizmente, é uma salvaguarda para a submissão do ‘outro’ a um conjunto de interesses bastante específico e limitado de nossa academia.

A tradução forçada
A quarta questão, que permite limitar um pouco mais a já escassa boa vontade em compreender os ‘asiáticos’, se trata da tradução conceitual forçada. Sabemos que os conceitos são, em geral, polissêmicos – ou, podem ser interpretados de modo diferente por teorias divergentes. Qualquer curso acadêmico pressupõe, inclusive, uma discussão de visões teóricas diferentes sobre um mesmo tema (um curso de sociologia semestral pode comportar, por exemplo, a visão de quatro teorias clássicas, tais como Comte, Marx, Weber e Parsons) para ilustrar, justamente, a diversidade de interpretações e sistemas sobre a idéia de ‘sociedade’. E, no entanto, quando nos dirigimos à questão da história e do pensamento asiático, buscamos ingênua e amadoristicamente uma ‘tradução ideal’ de certos conceitos!!! Porque a ausência de consenso entre os ‘asiáticos’ é um problema? Será que buscamos o consenso entre eles porque não o temos? Ou será o consenso uma forma de ‘limitação’ do pensamento do ‘outro’? Novamente, permita-me dar um exemplo: quando tentamos traduzir a palavra Tian, em chinês, de imediato podemos afirmar que ela significa ‘Céu’ (pois, é o que ela representa). Todavia, dependendo do contexto, ela pode significar ‘dia’. Na teoria confucionista, ‘Céu’ é utilizado para designar o conjunto de leis ecológicas (ou ‘Natureza’); na teoria caminhante (daoísta), ‘Céu’ significa a contraparte natural da ‘Terra’ – e para os caminhantes, a ‘Terra’ é o plano em que vivemos, e por isso, talvez mais importante do que o próprio ‘Céu’. Por fim, os budistas usariam o ‘Céu’ como um conceito religioso transcendental (parecido com o ‘Céu’ dos cristãos). Essa polissemia permitiu que ‘Céu’, portanto, fosse usado como termo (ou conceito) em análises científicas, filosóficas, religiosas e cotidianas. No contexto, pois, a palavra adquire uma carga específica. Qualquer bom tradutor sabe disso. Mas no caso específico dos ‘asiáticos’, essa se torna uma eficiente artimanha para justificar a ‘imprecisão’ de suas formas de pensamento – e conseqüentemente, a ‘incompreensão’ que ela gera nos avaliadores. É ‘difícil e trabalhoso’ lidar com tradições incapazes de ‘construir conceitos sólidos’. Esse subterfúgio malicioso é extremamente eficiente, ainda mais em periódicos que não permitem refutações aos pareceristas.

Divulgar ou Publicar?
Por fim, precisamos destacar esse último problema, tão sério ao estudo do ‘Oriente’, que constitui na difusão dos conhecimentos construídos acerca das civilizações asiáticas. Usei duas palavras sinônimas para destacar uma diferença de perspectiva: ‘divulgar’ seria a produção de textos vulgarizadores, de acesso ao público comum, com fim de promover temáticas históricas e culturais alternativas; já ‘publicar’ se remete, aqui, a produção de textos científicos, feitos dentro do ambiente acadêmico, para um público restrito.

Desde já, sou obrigado a questionar se a boa vulgarização do conhecimento – a ‘divulgação’ – pressupõe a ausência de pesquisa. São trabalhos cuja temática é reduzida, o escopo focado, e a linguagem acessível. Eles servem para formar um cabedal de conhecimentos gerais mais amplo, e estando disponíveis, ajudam a construir uma sociedade mais informada, sólida e consciente. No entanto, a ‘divulgação’ é muito mal vista pela academia. Ela é tida como algo ‘menor’, necessariamente ‘inferior’ aos textos ‘publicados’ na academia.

Ora, as ‘publicações’ são outra forma de produção científica, focadas justamente na difusão de um conhecimento técnico e específico, fundamental para o desenvolvimento da academia – mas inútil, se não for vulgarizado ao público comum. Uma analogia simples nos explica isso: de que adianta um medicamento moderno e eficiente se ele não for distribuído? As ciências humanas não seriam assim? Anos de conhecimento são transformados em pílulas, que administradas cotidianamente, ajudam a curar os males – ou, anos de pesquisa são versados em pequenos textos, que aos poucos nos curariam do nosso desconhecimento. Muitas vezes, não compreendemos a lógica subjacente a produção do texto vulgarizado (nossa ‘pílula’), mas ele nos conduz a formação de uma saúde intelectual mais efetiva, tolerante, diversa e abrangente – e que por vezes, pode redundar numa saudável curiosidade.

Todavia, a academia tende a repudiar temáticas alternativas – como o ‘Oriente’ – e menosprezar a própria divulgação dos saberes. Como livrar-se, pois, dessa armadilha logocêntrica?

Conclusão
Voltamos, pois, ao início. A constatação desses problemas, ao longo de mais de uma década, não pode se impor em definitivo como uma barreira a produção do conhecimento. Para todo esse quadro pouco animador, é preciso dizer que alguns poucos veículos tem se aberto a novas temáticas e campos de saber – incluso, aí, o campo das civilizações asiáticas.

Por outro lado, não podemos dispensar os critérios e métodos ‘ocidentais’ – o que seria um erro tão grave quanto aceitar qualquer texto sobre Ásia sem referências. É necessário flexibilizar, fazer dialogar conceitos e idéias – como propôs Raimon Panikkar – de modo a criar uma verdadeira cultura de entendimento. É válido, apenas para citar um exemplo, estudar o Hinduísmo ou o Taoísmo a partir de uma ‘perspectiva religiosa’ desde que se admita, pela investigação de suas lógicas internas, que elas podem ter características e conceitos que escapam aos nossos parâmetros tradicionais de análise.  Esse tipo de desafio é que nos permite, inclusive, estender, reformular e aprimorar nossas ciências humanas. Somente quando nos obrigamos a fazer dialogar nossos saberes, é que evidenciamos suas falhas e incompletudes; e delas, surgem os aperfeiçoamentos que dinamizam a sobrevivência do pensamento.

Os pontos de atrito e conflito são inúmeros, e continuarão a existir enquanto persistir esse arcaico orientalismo ideológico que compartilhamos. Contudo, o mundo atual exige outro nível de integração que não podemos ignorar. O diálogo intercultural é uma das pautas contemporâneas – em nível interno nas sociedades pluriétnicas, e em nível internacional, na busca de uma nova ordem mundial que harmonize a vasta plêiade de culturas. É urgente a necessidade de ler, produzir e divulgar/publicar material qualificado, em nossos meios, sobre tais questões. E dessa urgência, que porventura não permita atalhos, que talvez possamos modificar o difícil quadro dos ‘estudos orientais’ no Brasil.

março 20, 2013

82. Uma análise do conservadorismo brasileiro


O sociólogo Rudá Ricci aproveita a posse do novo papa e faz alguns comentários relevantes sobre a aparente contradição entre o conservadorismo da maioria da população brasileira e sua mania em se autoidentificar como de esquerda. Resumindo: o brasileiro médio, essa abstração tão conveniente, é socialmente conservador, pouco disposto a deixar cada um cuidar de sua própria vida - é por isso, por exemplo, que as recentes expansões dos direitos civis relacionados a uniões homossexuais e aborto vieram do Judiciário, que não é exatamente um antro de democracia - e economicamente orientado pela lógica do "pobre coitadinho" e "rico malvado", não pela do "produzir riqueza para sair da pobreza". A direita brasileira aparece vinculada ao neoliberalismo econômico, não ao conservadorismo social disseminado entre a maior parte dos políticos e da população, e daí sua impopularidade.

Em outras palavras, o tipo de mentalidade com a qual é difícil sair do atraso. Existe saída desse poço?


Fonte: http://rudaricci.blogspot.com.br/2013/03/a-direita-que-o-brasil-nao-tem.html
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A direita que o Brasil não tem

Participei, ontem, do Mundo Político, programa de análise da TV ALMG (da Assembléia Legislativa de MG). Em determinado momento, ponderei que o eleitor brasileiro é majoritariamente conservador, na verdade, ultraconservador, no que fui retrucado pela jornalista Vivian Menezes que ponderou que os partidos não gostam de ser identificados como direita. Gostaria de explorar um pouco esta possível contradição.
De fato, se identificar como direita é impopular. Mas, por qual motivo? Historicamente, a ideologia partidária mais à direita tem um viés ultraliberal do ponto de vista econômico. E é aí que se conflita com o pensamento conservador da maioria dos brasileiros. O ideário popular está mais para o perfil do Papa Francisco: muito conservador do ponto de vista do comportamento, muito severo na conduta administrativa da igreja, mas critica duramente a pobreza, a desigualdade e a ostentação. É a segunda parte deste ideário que pega em nosso país. Arriscaria dizer que é a base da formação católica brasileira. O discurso neopentecostal, que amealha progressivamente corações e mentes pode até mudar esta realidade, mas ela ainda é muito poderosa em nosso país. Parte da enrascada dos tucanos está vinculado a este discurso quase yuppie que o afasta da lógica popular (destaco, para não haver confusão, que não considero o PSDB de direita ou ultraconservador).
O ideário ultraconservador brasileiro é, portanto, tortuoso, marcado pela compaixão e pela ordem e pela negação da ampliação dos direitos civis. Não é marcado pela lógica competitiva do mercado, pela eficiência e sucesso. Embora tenhamos sempre a "festa" em mente (aliás, é muito interessante este traço esquizofrênico na base de nossa cultura no livro Entre a Luxúria e o Pudor, de Paulo Sérgio do Carmo) que faz de nossa referência religiosa um permanente sincretismo.
O ponto fraco da tentativa de representação do conservadorismo popular brasileiro está no ideário econômico nos candidatos à liderança política desta ideologia. Um erro intelectual. Aliás, mais um erro que os intelectuais da direita tupiniquim cometem, justamente porque são pós-modernos em demasia.

outubro 02, 2012

81. Primeiro livro, e um convite aos leitores

Dizem que existem três maneiras de deixar algo para a posteridade - ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Acabo de realizar a terceira, e fica aqui o convite para o lançamento:


outubro 01, 2012

80. Eric Hobsbawm (1917-2012)

Eric Hobsbawm, um dos grandes historiadores de nosso tempo, morreu hoje de pneumonia. O tamanho da perda intelectual que seu falecimento representa é bem conhecido por quem tiver lido um de seus livros sobre numerosos assuntos: marxismo, história do trabalho, história do jazz, o "longo século 19" de 1789-1914, o "curto século 20" de 1914-1991, globalização, invenção de tradições culturais e provavelmente outros assuntos ainda...

Qual livro dele mais me marcou? O primeiro que li, Era dos extremos. Foi uma das obras que me convenceram de que um historiador pode transmitir ideias inteligentes e ao mesmo tempo escrever de forma acessível aos leitores.

O que gostaria que ele tivesse vivido para fazer? Uma revisão de Era das revoluções, Era do capital e Era dos impérios. A "trilogia das eras" abarca todo o século 19 e continua importante ainda hoje, mas foi escrita há bastante tempo (o primeiro foi lançado em 1962) e teria ganho um surto extra de vitalidade com a revisão e atualização de detalhes em que a historiografia avançou desde então.


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Morre aos 95 anos em Londres o historiador Eric Hobsbawm

Intelectual é considerado um dos maiores historiadores do século XX.
Britânico escreveu 'A era dos extremos', 'A era do capital' e outras obras.

Do G1, com agências internacionais
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O historiador britânico Eric Hobsbawm morreu de pneumonia nesta segunda-feira (1º) aos 95 anos no hospital Royal Free de Londres, informou sua família.
O intelectual marxista é considerado um dos maiores historiadores do século XX e escreveu "A era das revoluções", "A era do capital", "A era dos impérios", "Era dos extremos", entre outras obras.
Ele também era um entusiasta e crítico do jazz, escrevendo resenhas para jornais sobre o gênero musical e publicando o livro "História social do jazz".
Sua filha, Julia Hobsbawm, disse: "Ele morreu de pneumonia nas primeiras horas da manhã em Londres. Ele fará falta não apenas para sua esposa há 50 anos, Marlene, e seus três filhos, sete netos e um bisneto, mas também por seus milhares de leitores e estudantes ao redor do mundo".
"Até o fim, ele estava se esforçando ao máximo, ele estava se atualizando, havia uma pilha de jornais em sua cama", completou a filha.
Na manhã desta segunda-feira, Julia escreveu em seu perfil no Twitter que se sentia "comovida" pela "gentileza e pelas condolências de amigos e desconhecidos hoje pelo meu amável e incomparável pai" (leia o tuíte, em inglês).
Trajetória
Eric John Ernest Hobsbawm nasceu de uma família judia em Alexandria, no Egito, em 9 de junho de 1917.
Seu pai era britânico, descendente de artesãos da Polônia e Rússia, e a família de sua mãe era da classe média austríaca.
Hobsbawn cresceu em Viena, capital da Áustria, e em Berlim, capital da Alemanha.
Ele aderiu ao Partido Comunista aos 14 anos, após a morte precoce de seus pais. Na ocasião, ele foi morar com seu tio.
Na escola, ele informou o diretor que ele era comunista e argumentou que o país precisava de uma revolução.
"Ele me fez umas perguntas e disse: 'Você claramente não faz ideia do que está falando. Faça o favor de ir à biblioteca e veja o que consegue descobrir'", disse em uma entrevista à BBC em 2012. "E então eu descobri o Manifesto Comunista [de Karl Marx] e foi isso", relatou, indicando o começo de sua formação marxista.
Em 1933, quando Hitler começava a subir no poder na Alemanha, Hobsbawm foi para Londres, na Inglaterra, onde obteve cidadania britânica.
O historiador se filiou ao Partido Comunista da Inglaterra em 1936 e continuou membro da legenda mesmo após o ataque das forças soviéticas à Hungria em 1956 e as reformas liberais de Praga em 1968, embora tenha criticado os dois eventos. O ex-líder do partido Neil Kinnock chegou a chamar Hobsbawm de "meu marxista predileto".
'Muito comovida pela total gentileza e pelas condolências de amigos e desconhecidos hoje pelo meu amável e incomparável pai', escreveu Julia (Foto: Reprodução)'Muito comovida pela total gentileza e pelas
condolências de amigos e desconhecidos hoje
pelo meu amável e incomparável pai', escreveu
Julia na manhã desta segunda (Foto: Reprodução)
Anos depois, ele disse que "nunca havia tentado diminuir as coisas terríveis que haviam acontecido na Rússia", mas que acreditava que, no início do projeto comunista, um novo mundo estava nascendo.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Hobsbawm foi alocado a uma unidade de engenharia em que foi apresentada a ele, pela primeira vez, a classe proletária.
"Eu não sabia muito sobre a classe proletária britânica, apesar de ser comunista. Mas, vivendo e trabalhando com eles, pensei que eram boas pessoas", disse à BBC em 1995.
O historiador aprovou neles a "solidariedade, e um sentimento muito forte de classe, um sentimento de pertencer junto, de não querer que ninguém os derrubasse".
Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana".
Ele veio ao Brasil em 2003 participar da primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), evento do qual foi estrela.
 Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana" (Foto:  AFP/©Effigie/Leemage) Hobsbawm afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana" (Foto: AFP/©Effigie/Leemage)
Vida acadêmica
Hobsbawm estudou no King's College de Cambridge e começou a dar aula na Universidade de Birkbeck em 1947, mais tarde tornando-se reitor da instituição.
Ele também passou temporadas como professor convidado nos Estados Unidos e lecionou na Universidade de Stanford, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e na Universidade de Cornel.
Em 1998, ele recebeu o título de Companhia de Honra. O prêmio, raramente concedido a historiadores, o colocou ao lado de ilustres como Stephen Hawking, Doris Lessing e Sir Ian McKellan.
Seu colega historiador A.J.P. Taylor, morto em 1990, disse que o trabalho de Hobsbawm se destacava pelas explicações precisas dos acontecimentos pelo interesse em pessoas comuns.
"A maior parte dos historiadores, por uma espécie de mal da profissão, se interessa somente pelas classes mais altas e pressupõe que eles mesmos fariam parte destes privilegiados se tivessem vivido um século ou dois atrás - uma possibilidade muito remota", escreveu Taylor. "A lealdade do Sr. Hobsbawm está firmemente do outro lado das barricadas", disse.
Eric Hobsbawm durante uma feira do livro em Leipzig, em 1999 (Foto: Eckehard Schulz/AP)Eric Hobsbawm durante uma feira do livro em
Leipzig, em 1999 (Foto: Eckehard Schulz/AP)
ObrasO primeiro livro de Hobsbawm, "Rebeldes primitivos", publicado em 1959, é um estudo dos que ele chamava de "agitadores sociais pré-políticos", incluindo ligas de camponeses sicilianos e gangues e bandidos metropolitanos, um exemplo de seu interesse pela história das organizações da classe trabalhadora.
No mesmo ano, ele escreveu uma obra sobre jazz e começou a colaborar como crítico para a revista "New Statesman" usando o pseudônimo Francis Newton, em homenagem ao trompetista comunista que acompanhava a cantora americana de jazz Billie Holiday.
Em 1962, ele publicou "Era da revolução", primeiro de três volumes sobre o que chamou de "o longo século XIX", cobrindo o período entre 1789, ano da Revolução Francesa, e 1914, começo da I Guerra Mundial. Os seguintes foram "Era do capital" (1975) e "Era dos impérios" (1987).
O quarto livro da sequência, "Era dos extremos" (1994), retratou a história até 1991, com o fim da União Soviética. Ele foi traduzido para quase 40 línguas e recebeu muitos prêmios internacionais.
Suas memórias, publicadas quando tinha 85 anos, elencaram os momentos cruciais na história europeia moderna nos quais ele viveu, e também foram um best-seller.
Seu último livro é "Como mudar o mundo", de 2011, e é um compilado de textos escritos, desde a década de 1960, sobre Karl Marx e o marxismo
De acordo com o jornal britânico "The Guardian", ele tem um livro em revisão a ser publicado em 2013.

setembro 30, 2012

79. Músicas e guerra (2)

E voltamos com a Rádio "Músicas de Guerra". Hoje, duas canções russas.

A primeira é o clássico soviético da Segunda Guerra (ou Grande Guerra Patriótica, como chamam por lá), Katyusha. A melodia foi utilizada logo depois em outros países, como pelos resistentes italianos em seu Fischia il vento, que vimos anteriormente. Já a letra é quase um Erika ao contrário: a jovem Katyusha, diminutivo de Ekaterina, espera seu amado que cumpre o dever na guerra.

Existem inúmeras versões na internet, mas aqui vai uma que ao menos tem a tradução para o espanhol:





Em seguida, uma anterior, da época da Guerra Russo-Japonesa.
O que foi a Guerra Russo-Japonesa? Nada menos que um dos conflitos mais importantes do século e do qual quase nada se sabe por aqui. Em 1904 e 1905, a Rússia czarista e o império japonês lutaram para decidir qual seria a potência dominante na Manchúria (região nordeste da China) e Coreia. Os japoneses venceram, com consequências importantes:
a) mostrou a todo o mundo que um país asiático poderia derrotar um europeu;
b) firmou o expansionismo japonês na Ásia continental, o que mais tarde causaria sua tentativa de conquistar a China e seu envolvimento na Segunda Guerra;
c) os gastos na guerra e a derrota solaparam o prestígio do czar e precipitaram a Revolução de 1905, um prólogo moderado do que seria 1917.

Voltando à música, chama-se Nos morros da Manchúria, composta por Ilya Shatrov após a derrota russa. É um lamento aos soldados russos mortos na Manchúria e a promessa de que serão lembrados e vingados:




setembro 27, 2012

78. O alcance limitado da Comissão da Verdade

Um texto do historiador Carlos Fico que dá o que pensar. Por que a população brasileira em geral não está dando a mínima para as investigações da Comissão da Verdade? A resposta que ele oferece faz sentido: porque existe uma ênfase grande na repressão aos militantes de esquerda e membros da luta armada, que (isso ele não diz com todas as letras, mas se subentende) tinham uma posição minoritária e não compartilhada por muitos. A solução para isso: mudar o foco para as arbitrariedades e desmandos cometidos em um nível mais cotidiano, coisas como o artista que era censurado sem saber o motivo ou o político que era investigado por vingança de um rival, entre outros exemplos que Fico dá.

Ou, colocando de outra forma: é preciso resgatar as pessoas comuns que viveram no período e não necessariamente se identificavam quer com os militares quer com a guerrilha.

A opinião dele vai ser levada em conta? Dificilmente. Mas o que ele sugere é exatamente o tipo de investigação que mostraria que não eram apenas os guerrilheiros que sofreram, que poderia destruir o velho mito dos saudosistas do governo militar: "quem não criava problemas não tinha o que temer".

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Verdade para todos


Carlos Fico

Por que os trabalhos da Comissão da Verdade mobilizam apenas a militância dos direitos humanos?

Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos visitou a Argentina, em 1979, ainda durante a ditadura, formaram-se filas de pessoas que traziam suas denúncias. Depois do término do regime militar, a entrega e publicação do relatório final da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas alcançou grande repercussão.

A Comissão da Verdade da África do Sul transmitiu suas audiências pela TV e pelo rádio.

A comissão brasileira está há seis meses trabalhando, desde março deste ano. Somente neste mês de setembro decidiu que vai mesmo enfatizar a ditadura militar (e não todo o período 1946/1988, como estabelece a lei que a criou) e que apenas investigará os "agentes públicos" e não os adversários do regime, resposta à polêmica sobre investigar apenas um ou os dois "lados".

Nos eventos públicos que promove, a frequência é quase sempre a mesma, reunindo vítimas e parentes de vítimas da repressão durante o regime militar, militantes que lutam pela defesa dos direitos humanos, segmentos organizados da sociedade (movimento estudantil, alguns sindicatos), pesquisadores e quase só. As questões que a Comissão da Verdade tem levantado aparentemente não interessam à maioria da sociedade.

Isso não mudará se alguma providência não for tomada. Em agosto passado, atendendo a convite, falei à comissão sobre as razões do golpe de 1964. No final da minha exposição, pedi licença para considerar outras questões. Afirmei que seria importante incluir as "pessoas comuns" no rol das vítimas.

De fato, muitas pessoas que não participaram da luta armada, ou sequer faziam oposição ostensiva à ditadura militar, foram vítimas do regime. Mas quase não se fala delas. Um professor universitário, por exemplo, pode ter sido cogitado para um cargo de chefia qualquer em sua universidade, mas não foi promovido porque a espionagem da época impediu. Casos assemelhados podem ter acontecido nas empresas estatais e autarquias. Essas pessoas podem nem ao menos saber o que lhes aconteceu.

Políticos inexpressivos de pequenas cidades podem ter sido injustamente investigados pela Comissão Geral de Investigações (um tribunal de exceção que julgava sumariamente supostos corruptos) apenas porque um adversário local, por vingança pessoal, enviou uma carta acusando-o.

Cineastas, dramaturgos, atores, escritores e músicos foram censurados. Não necessariamente porque produziam obras de arte críticas, de protesto, mas, por exemplo, porque o censor da época identificou algo de "imoral" em seus trabalhos.

A abordagem desses e de outros casos assemelhados pela Comissão da Verdade talvez conferisse outra dimensão aos seus trabalhos, chamando a atenção da sociedade para o fato de que a ditadura militar brasileira foi muito violenta - mesmo que no Brasil não tenha havido tantos mortos quanto no caso da Argentina. Nesses exemplos não houve tortura ou assassinato, mas eles também são expressão de um tipo de violência, decorrente da capacidade do regime brasileiro de invadir o cotidiano das pessoas e - segundo seus critérios obscuros - fazer o que quisesse.

Essas histórias estão guardadas nos documentos recentemente liberados pelo Arquivo Nacional. Seria preciso pesquisá-los.

setembro 24, 2012

77. Músicas e guerra

O objetivo de hoje é mostrar que o YouTube é um acervo audiovisual gigantesco e que, se bem peneirado, pode mostrar muitas coisas interessantes além das últimas músicas de sucesso. O tema da vez, escolhido sem nenhum motivo em particular, é "músicas relacionadas a guerras" - em princípio, qualquer relação conta: músicas militares, anti-guerra, que se tornaram populares em época de guerra, etc. Vou precisar de vários posts, pois a seleção de hoje mal começa a dar conta das possibilidades. Para começar, algumas da Segunda Guerra Mundial:


A primeira se chama Le chant des partisans (A canção dos resistentes), uma das principais músicas da Resistência francesa contra a ocupação nazista:


Seguem a letra e tradução, vindas desse site:


Ami, entends-tu
Le vol noir des corbeaux
Sur nos plaines?
Ami, entends-tu
Les cris sourds du pays
Qu'on enchaîne?
Ohé! partisans,
Ouvriers et paysans,
C'est l'alarme!
Ce soir l'ennemi
Connaîtra le prix du sang
Et des larmes!

Amigo, ouves
o voo negro dos corvos
nas nossas planícies?
Amigo, ouves
os gritos surdos do país
que acorrentam?
Oh resistente,
Operários e Camponeses,
É o alarme!
Esta noite o inimigo
Conhecerá o preço do sangue
e das lágrimas!

Montez de la mine,
Descendez des collines,
Camarades!
Sortez de la paille
Les fusils, la mitraille,
Les grenades...
Ohé! les tueurs,
A la balle et au couteau,
Tuez vite!
Ohé! saboteur,
Attention à ton fardeau:
Dynamite!

Subam das minas
Desçam das colinas
Camaradas!
Tirem dos fardos de palha
As espingardas, as munições,
as granadas
Matadores,
com balas e com facas,
matai depressa!
Sabotador!
Cuidado com o teu fardo
Dinamite!

C'est nous qui brisons
Les barreaux des prisons
Pour nos frères,
La haine à nos trousses
Et la faim qui nous pousse,
La misère...
Il y a des pays
Ou les gens au creux de lits
Font des rêves;
Ici, nous, vois-tu,
Nous on marche et nous on tue,
Nous on crève.

Somos nós que quebramos
as barras das prisões
para os nossos irmãos,
o ódio que nos persegue
a fome que nos empurra
A miséria ...
Há países onde na cama
as pessoas sonham;
Aqui, nós, vê-la tu,
Nós marchamos e matamos
nós morremos.

Ici chacun sait
Ce qu'il veut, ce qui'il fait
Quand il passe...
Ami, si tu tombes
Un ami sort de l'ombre
A ta place.
Demain du sang noir
Séchera au grand soleil
Sur les routes.
Sifflez, compagnons,
Dans la nuit la Liberté
Nous écoute...

Aqui cada um sabe
o que quer, o que faz
quando passa ...
Amigo se tu caíres
Outro amigo sai da sombra
No teu lugar.
Amanhã o sangue negro
secará ao sol
nas estradas
assobiai, companheiros,
Na noite a liberdade,
ouve-nos ...


A segunda música é Fischia il vento (Sopra o vento), da resistência italiana. Mais enérgica, com a melodia da canção russa Katyusha, e muito mais comunista que sua contraparte francesa:



Letra e tradução, do letras.com.br:

Fischia il vento ed infuria la bufera
Sopra o vento e enfurece-se a tempestade
scarpe rotte e pur bisogna andar
sapatos velhos e ainda necessitamos andar
a conquistare la rossa primavera
a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

...a conquistare la rossa primavera
...a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

Ogni contrada è patria del ribelle
Cada vizinhança é pátria do rebelde
ogni donna a lui dona un sospir
cada mulher doa a ele un suspiro
nella notte lo guidano le stelle
na noite guiam as estrelas
forte il cuor e il braccio nel colpir
forte o coração e o braço para golpear

...nella notte lo guidano le stelle
...na noite guiam as estrelas
forte il cuor e il braccio nel colpir
forte o coração e o braço para golpear

E se ci coglie la crudele morte
E se si colhe a cruel morte
dura vendetta fara dal partigian
dura vingança fará do partisan
ormai sicura è già la dura sorte
no entanto já é certo o duro destino
del fascista vile traditor
do fascista vil traidor

...ormai sicura è già la dura sorte
...no entanto já é certo o duro destino
del fascista vile traditor
do fascista vil traidor

Cessa il vento, calma è la bufera
Calma o vento, calma é a tempestade
torna a casa il fiero partigian
torna a casa o altivo partisan
sventolando la rossa sua bandiera
abanando a vermelha, sua bandeira
vittoriosi, e alfin liberi siam!
vitoriosos, e enfim somos livres!

...sventolando la rossa sua bandiera
...abanando a vermelha, sua bandeira
vittoriosi, e alfin liberi siam!
vitoriosos, e enfim somos livres!
Fischia il vento ed infuria la bufera
Sopra o vento e enfurece-se a tempestade
scarpe rotte e pur bisogna andar
sapatos velhos e ainda necessitamos andar
a conquistare la rossa primavera
a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro

...a conquistare la rossa primavera
...a conquistar a primavera vermelha
dove sorge il sol dell'avvenir
onde surge o sol do futuro 
Em terceiro, uma do lado alemão - Erika:
Não encontrei uma tradução da letra em português, mas é bastante inocente: um soldado vê uma flor de urze (em alemão, Erika) no campo e se lembra de sua noiva que tem o mesmo nome. Infelizmente essa canção tão bonita foi emporcalhada por associação com os nazistas - era a música de marcha da Waffen-SS...

setembro 03, 2012

76. E eis a dissertação

É com alegria que revelo ao mundo o resultado de dois anos de trabalho. Certamente não está perfeita - nada nunca chega a esse ponto - mas acho honestamente que ficou bastante satisfatória. Quem tiver curiosidade sobre um dos capítulos menos conhecidos da história legal e cultural brasileira pode encontrar o texto completo aqui.

75. Momento Patrimônio

Foi recentemente lançado, e disponibilizado online, um livro da UPF sobre patrimônio histórico, educação patrimonial e assuntos afins. O livro está relacionado a uma série de programas de TV sobre o mesmo tema, e todos podem ser conferidos no seguinte link: http://historiaupf.blogspot.com.br/2012/09/coletanea-momento-patrimonio-disponivel.html

julho 12, 2012

74. Caos no Mali

Se os transtornos que abalam o Mali nos últimos tempos estivessem ocorrendo em outra região do mundo que não a África, certamente nossa mídia estaria prestando atenção constante. Mas como os malineses são africanos, ganham apenas algumas notícias esporádicas.



O Mali, ex-colônia francesa com território duas vezes maior que o da ex-metrópole, tinha até recentemente um regime democrático bem estabelecido, apesar de ser um país pobre. Por "recentemente", entenda-se março, quando um golpe militar derrubou o presidente Amadou Touré. Para os militares, Touré não estava lidando de forma competente com o separatismo na região norte do país.



A imagem de satélite acima mostra a divisão geográfica do Mali: o sul mais fértil, por onde passa o rio Níger e onde se encontra a maior parte da população, e o norte desértico, parte do Saara. No norte predominam os tuaregues, etnia cuja atividade principal é o pastoreio, e que não estão restritos ao Mali, vivendo em zonas também desérticas dos países vizinhos.
Os tuaregues estão reivindicando há tempos seu próprio país, já tendo se revoltado nas décadas de 60 e 90. O que tornou sua atividade recente mais intensa? A queda do governante da Líbia, Muamar Kadafi. Com a morte de Kadafi em outubro de 2011, muitos tuaregues que formavam parte de seu exército voltaram para o Mali com armamentos pesados.



Até aqui, temos: guerra civil na Líbia > morte de Kadafi > tuaregues que serviam no exército líbio regressam ao Mali > aumento do separatismo entre os tuaregues do norte do Mali > militares depõem o presidente por não conseguir lidar com a crise.
Ironicamente, a ação dos militares serviu para precipitar a situação que queriam evitar. Enquanto militares e civis disputavam o poder na capital Bamako, os rebeldes ao norte tomaram diversas cidades. O principal grupo separatista, o MNLA (Movimento Nacional pela Libertação do Azawad), declarou independência em 6 de abril. Até o momento, o Azawad (como os tuaregues chamam sua região e o novo país) não foi reconhecido por nenhum país.

Isso poderia parecer meramente um reajuste das fronteiras africanas, tão frágeis por serem completamente arbitrárias. Como se sabe, os países do continente são quase todos derivados das colônias europeias estabelecidas no final do século 19, sem nenhuma consideração pela realidade geográfica, étnica ou política local, e isso contribuiu para tornar esses países altamente instáveis. Mas há outro elemento no caldeirão de caos malinês: o Islã militante.

O MNLA, formado por muçulmanos com tendências seculares, era o principal grupo separatista, mas não o único. O segundo grupo em importância é o Ansar Dine, muçulmanos radicais que pretendiam formar um Estado islâmico no Azawad e, diz-se, vinculados à Al-Qaida. O MNLA e o Ansar Dine aliaram-se por algum tempo, mas agora estão se enfrentando, e os radicais levam vantagem. Em particular, tomaram a cidade histórica de Timbuctu, que o MNLA pretendia tornar a capital do novo país.

Timbuctu, fundada no século 12, foi por muito tempo um centro comercial por onde passavam as caravanas trans-saarianas e um centro intelectual de difusão do Islã pela África ocidental. Um dos monumentos a seus dias de glória é a mesquisa de Djinguereber, construída no século 14, que além de servir como templo abrigava um importante madraçal (simplificando um pouco, uma faculdade/escola religiosa islâmica).


Os membros do Ansar Dine querem agora conformar Timbuctu aos seus próprios padrões de como deveria ser o Islã, mesmo que isso signifique arruinar monumentos. Nos últimos dias, entraram em Djinguereber e destruíram várias tumbas de santos sufistas enterrados ali.

O leitor talvez pergunte: eles não são muçulmanos? Por que estão destruindo monumentos muçulmanos? E o que são santos sufistas?
A resposta às duas primeiras perguntas é bem simples: o Islã é um pouco parecido com o cristianismo na sua capacidade de gerar divisões que fazem pouco sentido para quem está de fora, mas são importantíssimas para os membros de grupos rivais. O Ansar Dine, ao que parece, segue a vertente salafista, defensora do retorno às origens islâmicas e que poderíamos chamar de puritanos ou fundamentalistas. Portanto, do seu ponto de vista, eles não estão destruindo monumentos: estão purificando um santuário.
Já o sufismo é a corrente mística do Islã, tomando a palavra "místico" em seu sentido original: a busca por contato direto e pessoal com a divindade. Apesar de serem considerados pouco ortodoxos por boa parte dos demais muçulmanos, eles se mantêm até hoje. E, ao longo do tempo, alguns dos principais líderes sufistas se tornaram quase objetos de culto, com peregrinações anuais a seus túmulos, aproximando-se um pouco dos santos católicos. A reverência aos "santos" e as peregrinações são, desnecessário dizer, exatamente o que o Ansar Dine espera parar com suas depredações.

Em suma, eis a situação atual do Mali, dividido entre um governo fraco ao sul, dois grupos separatistas ao norte, um conflito com potencial para se alastrar pelos países vizinhos com minorias tuaregues, e, além de tudo, tentativas de destruir o passado e a religiosidade popular de seus habitantes. Pelo jeito, o século 21 ainda não vai ser o século da África.

julho 10, 2012

73. Mestrado, 99% concluído

Sobrevivi ao momento mais difícil do mestrado - a banca de defesa. Em poucas palavras, é o momento de o mestrando apresentar publicamente sua pesquisa e, logo em seguida, usar todo o kung fu acadêmico de que dispõe para sobreviver às rajadas de críticas de uma banca de três doutores.
Não foi exatamente agradável, mas dificilmente os ritos de passagem o são!

O 1% restante? Preciso fazer modificações sugeridas pelos membros da banca ao texto da dissertação e entregar a versão final. Comparado ao que veio até agora, realmente não passa de um por cento do trabalho total.

Um grande obrigado para todos os que apareceram e ficaram na torcida - espero ter correspondido às suas expectativas!




julho 01, 2012

72. Coliseu de Lego

Uma iniciativa original: para ajudar a atrair público para o museu da Universidade de Sydney, foi construído um Coliseu de Lego com mais de 200 mil peças e um metro de altura. Nossos museus, com acervos muitas vezes interessantes mas sofrendo de pouca divulgação, poderiam se inspirar...

Aqui, o link para a história original: http://www.smh.com.au/entertainment/art-and-design/i-came-i-saw-i-constructed-20120628-213dy.html. Mesmo para quem não lê inglês, as fotos merecem ser vistas.



junho 28, 2012

71. Novos artigos

Dois artigos meus foram publicados recentemente e seus links ainda não haviam sido colocados aqui, então aqui estão:

Colocando os Direitos Sociais em Prática: O Tratamento dado às Reclamatórias Individuais de Trabalhadores Grevistas do Frigorífico Z. D. Costi (Passo Fundo/RS, 1988) - texto feito juntamente com o colega Felipe Abal e publicado na revista Passagens da UFF. Resumindo, é uma demonstração da teoria de E. P. Thompson acerca do direito: este não pode ser um simples instrumento de controle dos dominados pela classe dominante (como dizia a interpretação marxista tradicional), porque uma legislação escancaradamente opressora não vai cumprir seu papel de enganar e facilitar a dominação de ninguém. Ao invés disso, o mundo jurídico possui uma certa autonomia e nele podemos ver conflitos sociais, que ali seguem as regras propriamente jurídicas.
O que faz bastante sentido, mesmo para quem, como eu, está longe de aderir a todas as ideias do marxismo.


COMEÇANDO A HISTÓRIA PELO INÍCIO – POSSIBILIDADES E DESAFIOS DA GRANDE HISTÓRIA - publicado na Semina da UPF. Trata de uma corrente de historiadores dos países de língua inglesa, chamada Big History ou Grande História. Seu diferencial é propor o estudo de escalas de tempo muito mais amplas do que as que os historiadores costumam empregar, para inserir a história humana no mundo ao seu redor. É cedo para dizer se a moda pode pegar por aqui, mas pode ser uma possibilidade de ensino bastante interessante, um meio de utilizar a interdisciplinaridade para superar a fragmentação decorrente de pesquisas cada vez mais especializadas.

junho 17, 2012

70. Patrimônio italiano ameaçado


Uma consequência da crise econômica italiana: o patrimônio artístico e histórico do país, que já não era preservado como deveria, está mais abandonado que de costume. Além dos problemas de Pompeia e do Coliseu, agora é a vez da Fontana di Trevi, uma das principais atrações de Roma, começar a deteriorar - pedaços da decoração já estão caindo por falta de manutenção.

Talvez seja hora de o governo italiano lembrar que a preservação de monumentos é, no mínimo dos mínimos, um investimento para atrair turistas, e que em 2011 a Itália, como quinto país mais procurado, ganhou 30.9 bilhões de euros com turismo (atrás apenas de Estados Unidos, Espanha, França e China). Isso para não falar em seu valor cultural ou como elemento de uma identidade nacional, que na Itália ainda está em construção - um país em crise pode cometer o erro de colocar a cultura em segundo plano, mas não o de esquecer suas fontes de receita.







Abaixo, a notícia do The Guardian:

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Rome's Trevi fountain crumbling 'for lack of maintenance'

City officials blame freak snowfall for damage, but critics decry 'dangerous' cuts to funding to protect Italian heritage


Ornate stucco reliefs have crumbled from the Trevi fountain, Rome's baroque masterpiece, making it the latest in a series of Italian monuments to suffer damage and reigniting a row over Italy's commitment to protect its heritage.
As hundreds of tourists lobbed pennies into the fountain's pool on Monday, workmen were erecting scaffolding around a section of the facade where fragments of a gargoyle's head and foliage crashed to the ground on Saturday night.
City officials played down the damage, blaming it on Rome's freak snowfall this winter, which caused water infiltration. But as the rest of the fountain was checked for crumbling stucco, Italy's Green party launched a campaign against what it described as dangerous cuts to the funding to maintain Rome's monuments.
"We are asking Romans to tip us off to sites which are not being taken care of," said the Green party president, Angelo Bonelli.
Bonelli cited the Colosseum, where stone fragments fell from a wall last year, and Nero's palace, the Domus Aurea, which has been closed to visitors since a roof collapsed. Archaeologists have also blamed the collapse of a number of walls at Italy's best known dig, Pompeii, on a lack of day-to-day maintenance.
The Trevi fountain, which centres on a statue of Neptune on a chariot and features a cascade of rocky waterfalls, last underwent major works in 1990.
Commissioned in 1732, it attained iconic status when Anita Ekberg waded into its 20-metre-wide pool in the 1960 film La Dolce Vita. In 2007, it ran out of water when the underground Roman aqueduct that still supplies it was blocked by workmen digging a garage.This year, masonry crumbled from the arches holding up two other, disused, Roman aqueducts in the Italian capital, the Acqua Claudia and the Acqua Felix.
"That damage, just like the damage at the Trevi, was due to the heavy snow and rain this winter," said Umberto Broccoli, Rome's cultural heritage superintendent. "Rome is not Glasgow, and buildings were built accordingly," he added.
Broccoli said that previous restoration efforts were also to blame for this weekend's damage at the Trevi fountain. "I climbed up yesterday and saw that lead struts inserted to protect the facade had split."
But he agreed that regular maintenance was key to keeping monuments from falling over. "You need more teams of masons patrolling sites," he said. "The problem is we have so many monuments. The UK has Hadrian's wall, while we have walls around every town to protect."
Sections of the Aurelian walls surrounding the city of Rome, which were built in the third century, have collapsed in recent years, but Broccoli said the walls' builders were partly to blame. "They built in a hurry, right across amphitheatres, tombs and aqueducts, and it already needed restoration by the 4th century," he said.
Obtaining the €75m (£60m) needed to restore the walls would be impossible, he added, unless Rome was allowed to cover the scaffolding with adverts, a solution that provoked fierce controversy in Venice when a huge Coca-Cola billboard blocked views of the Bridge of Sighs.

69. Convite - defesa de banca

Estão todos convidados para um pouco de circo acadêmico, com este blogueiro sendo a atração principal:


Aqui vai o resumo, a fim de dar uma ideia geral da dissertação:

Esta dissertação busca analisar, contextualizar e compreender os crimes de sedução, outrora
entre os mais frequentemente julgados pelo Judiciário brasileiro. A sedução ocorria, segundo a lei,
quando um homem seduzia uma moça menor de idade, inexperiente, e com ela mantinha relações
sexuais. Em geral, os “sedutores” eram namorados que se negavam a casar com as meninas,
levando os parentes desta a recorrer às autoridades em busca de providências. Apesar de haver uma
pena de prisão prevista para os sedutores, era raro um deles passar muito tempo no cárcere, pois a
lei também previa que o casamento entre as partes extinguia a pena, mesmo que ocorresse após a
condenação. Graças a essa medida, os processos quase não terminavam em absolvição ou
condenação, mas em absolvição ou casamento, indicando que o propósito por trás da criminalização
da sedução não era punir os réus, mas estimulá-los a aceitarem o matrimônio. Ao perseguir suas
metas casamenteiras, contudo, o Judiciário esbarrava-se com um obstáculo grave. O modelo de
união que ele buscava promover, e o único legalmente aceito, era o casamento civil, indissolúvel,
chefiado pelo homem provedor, enquanto a mulher se restringia ao espaço doméstico. Esse modelo
era comum entre as classes média e alta, mas em meio à população pobre, mais comumente
envolvida nos casos de sedução, as uniões eram diferentes, com maior número de mulheres
trabalhando e chefiando famílias, o casamento civil sendo uma opção entre outras, e os cônjuges
tendo a possibilidade de romper relacionamentos insatisfatórios, mesmo que a lei dissesse o
contrário. Diante desses contrastes, os esforços para disseminar entre os pobres um modelo pouco
apropriado à sua realidade não podiam ter mais do que um sucesso limitado. A pesquisa baseou-se
na análise de quarenta processos ocorridos na comarca rio-grandense de Soledade, uma região
predominantemente mineradora e agropecuária, entre 1942, ano em que entrou em vigor o atual
Código Penal, e 1969, ano imediatamente anterior à década de 70, em que se intensificaram
transformações culturais, legais e sociais, como a legalização do divórcio e o avanço do trabalho
feminino, que levaram a um declínio da importância do crime de sedução, até sua revogação em
2005, quando já era uma relíquia do passado.

junho 06, 2012

68. [Alunos - IEH] Aulas de 05.06 e 12.06

Pessoal,

Aqui está a apresentação dada na aula desta semana, como alguns pediram:

https://docs.google.com/open?id=0B3ykTYy6U9PFaFQ3d0dIT0N4UDg

Na próxima aula, teremos um filme sobre a maior dificuldade prática na pesquisa em história: os pontos de vista divergentes, e muitas vezes impossíveis de conciliar, que as fontes apresentam. Depois do filme, vamos fazer uma discussão, que vai ser bem mais proveitosa se lerem antes o texto do Ginzburg sobre o paradigma indiciário (está no xerox). Qual a relação? O Ginzburg mostra como o problema pode ser superado: através da investigação cuidadosa dos pequenos detalhes (os tais indícios, pistas; a propósito, paradigma significa modelo, então paradigma indiciário é só outro jeito de dizer modelo investigativo), como um detetive ou um clínico fariam.

Foi mencionado, durante a aula, o problema de conhecer mais idiomas. É um assunto importante, e quero apresentar alguns argumentos práticos para que aqueles que só leem português se interessem em resolver isso:

- acesso a material: o Brasil, vamos reconhecer, está na periferia da produção de conhecimento. Não está tão mal quanto já esteve, mas temos relativamente poucos (às vezes nenhum) pesquisadores trabalhando com muitos assuntos, períodos e regiões do mundo. Ou seja, a menos que alguma editora tenha lançado uma tradução de livros estrangeiros, o que também não é nada garantido, saber só português é se condenar a não ter acesso a muito da produção histórica;

- finanças: mesmo quando existem livros traduzidos sobre um tema, surge outro problema, o financeiro. O livro no Brasil é tão caro que quase sempre fica mais barato comprar a edição original, importada, que a brasileira. Só para dar um exemplo, vejam o Era dos Extremos, um livro importante do Eric Hobsbawm sobre o século 20. Pela Cultura, a edição brasileira custa 67 reais, e a inglesa 53,40. Importando pela Amazon, a diferença fica ainda maior - por uns 20 dólares é possível comprar o livro e pagar o frete;

- exigência profissional: nem todos vocês pretendem passar a vida dando aula no ensino fundamental e médio, e uma das alternativas é buscar a pós-graduação. Bem, o mestrado exige proficiência de leitura em uma língua estrangeira e o doutorado em duas. A UPF aceita espanhol, mas é uma exceção. E normalmente, ao entrar no mestrado, a tendência é não sobrar tempo e capacidade mental suficientes para aprender uma língua do zero;

- diferencial: saber os idiomas mais comuns (espanhol, inglês, francês) é extremamente útil, mas os mais "exóticos" têm as suas vantagens. A brincadeira sobre aprender russo para estudar o Holodomor tinha um lado sério: quantos historiadores brasileiros vocês acham que sabem russo? Muito poucos. Se souberem russo, ou outra língua incomum por aqui, vocês podem facilmente se tornar os líderes nacionais na pesquisa sobre os países que falem esses idiomas.

Considerem esses argumentos bem egoístas e pragmáticos, e nos vemos na próxima semana.